quarta-feira, novembro 01, 2006

Amor de encomenda

Ah, meu amor, não me venha com amor pouco.
Não me chegue com sentimento incompleto, faltando pedaço.
Preciso de amor completo, cheio, transbordante até.
Ah, meu amor, não me traga amor pelo meio, dividido.
Não me ofereça só uma parte do seu coração.
Quero amor inteiro, sem cortes, sem ceder nada a ninguém.
Ah, meu amor, não me apareça com amor de segunda mão.
Não me entregue paixão usada, surrada, batida.
Desejo amor novo, reluzente, de primeiro dono.
Ah, meu amor, não me mande amor genérico.
Não me dê o que poderia ser de qualquer uma.
Espero amor exclusivo, personalizado, feito para mim.
Ah, meu amor, não me mostre amor frágil.
Não me apresente encantamento quebradiço, que se parta na primeira queda.
Procuro amor forte, resistente, que suporte choques.
Ah, meu amor, não me oferte amor com validade.
Não me estenda envolvimento perecível, com data para acabar.
Necessito de amor que não se estrague, que dure, que não mofe.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Ele e o Espírito Natalino

Finais de outubro, novembro à beira de. Pra dezembro, um suspiro. E eis que ele já está por aí, para que os olhares mais atentos possam divisá-lo em meio à multidão, e para que os mais críticos e suscetíveis comecem desde já a serem molestados. Não é o espírito natalino o que mais me deixa transtornada, aquele que prevê que todos somos amigos, que as famílias se amam, que temos que doar roupas e brinquedos para aqueles que permanecem invisíveis durante onze meses e meio no ano. É o Papai Noel.

Dizem que eu sou frustrada, que não tive infância. Sim, acho que tive problemas na infância, é certo, mas não creio que tenha sido estes a causa da repulsão que sinto ao ver aquela figura com excesso de adiposidade toda vestida de vermelho. Vou tentar explicar, embora admita que para muitos o sonho, a fantasia, ou mesmo o tal do espírito natalino eu vá perder feio nessa.

Muito bem. Ele é um velhinho que mora no Pólo Norte e recebe cartinhas de todas as crianças do mundo em dezembro, e atende seus pedidos infantis com bolas, bonecas – ou hoje em dia Ipods, MP3 players, parafernálias de toda natureza que incrivelmente eu já não tenho idade para saber o nome. Bem coerente. É claro que o fator imaginação é parte constitutiva de toda criança, mas faça-me o favor. E quando ele não vem? Pegou engarrafamento? As renas (renas!) fizeram greve? O trenó (meu Deus, o que é, para nós, brasileiros, um trenó? Seria um bom meio de transporte alternativo ao consumo excessivo de energia oriunda do petróleo, e, conseqüentemente, uma boa solução para evitar o esgotamento dos recursos naturais do planeta?) quebrou? Ou ele é mesmo um cara mau, parcial, voluntarioso e capitalista, que só dá presentes para alguns, sob critérios que vão mais além daquele das boas notas no boletim?

Tem McDonald’s na Groenlândia? Pelo peso do bom velhinho, ele deve comer lá todos os dias. Não que eu esteja em meu peso ideal, veja bem. Nem que discrimine os mais
‘fofinhos’. Mas peralá. Obesidade mórbida é uma enfermidade grave.

Qual é a média de temperatura no Brasil em dezembro? Não raro chegamos aos quarenta graus aqui no Rio de Janeiro. E ele lá, com aquela roupa sufocante. Não avisaram que aqui não tem neve? Coitadinho.

E a barba branca? O famoso “Ho ho ho”? E o fato de que ele desce pela chaminé das casas (sua casa tem chaminé?)? Deixa pra lá.

Não tem jeito. Em todas as oportunidade que tiver, vou execrar essa criatura abominável importada de uma cultura alienígena que nada tem a ver com a nossa. Me desculpem os mais sensíveis por falar assim, cruamente (mas...): eu odeio o Papai Noel.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Escrevo

Escrevo porque preciso. Desde sempre, desde que me dei conta de que sou gente.
Escrevo porque minhas mãos pedem, meu cérebro manda, meu coração suplica.
Escrevo porque os textos se criam mesmo contra a minha vontade. Em todas e diferentes situações.
Escrevo porque me sufoca a dor, porque me transborda a alegria, porque me inquieta a angústia. Escrevo porque as letras dizem o que não sei falar. Sobre todos os assuntos.
Escrevo porque é profissão, porque me traz o sustento.
Escrevo porque é terapia, porque me organiza a alma.
Escrevo porque é lazer, porque as palavras me divertem.
Escrevo porque é vaidade, porque me vejo aos olhos do mundo. Todo dia ou tudo num só dia. Escrevo porque me revela, porque me mostro nas entrelinhas.
Escrevo porque me esconde, porque me cubro com as figuras de linguagem.
Escrevo por prazer ou por pressão.
Escrevo com felicidade ou com sofrimento.
Escrevo com facilidade ou com trabalho.
Escrevo o que gosto e o que detesto.
Escrevo por tudo que já li e por tudo que ainda vou ler.
Escrevo pelo que já vivi e pelo que ainda vou viver. Ontem, hoje, amanhã.
Escrevo.

terça-feira, outubro 24, 2006

Em apoio a Daniella Cicarelli

Às vezes penso tão diferente do resto do mundo que acho que sou doida. Ou o mundo é que está doido? Não consigo achar divertida essa história da transa da Daniella Cicarelli na praia. E acho que ela deve estar sofrendo à beça, mesmo tendo aparecido na MTV rindo do ocorrido. Você gostaria que o mundo todo te visse transando com o (a) seu (sua) namorado (a)? Olha, deve ter gente que gosta, mas é zero vírgula sei lá por cento. A maioria quer que esses momentos fiquem só entre o casal. Claro!

Agora a garota entra num restaurante e o garçom faz aquela cara: “eu vi, tá?” Vai ao cinema e o bilheteiro grita (com o pensamento, claro): “Eu vi, tá?” A faxineira nova, com aquele sorrisinho subserviente, faz aquele olhar de “eu vi, tá?”

Fico imaginando a Daniella olhando na cara do pai dela e me vejo olhando na cara do meu pai. E minha mãe? Minhas tias lá de Cuiabá, minha avozinha de oitenta e poucos anos? Meu irmão mais novo? O porteiro do meu prédio? Meu chefe? O ascensorista do meu trabalho? Cruuuzes! Ah, gente, tenha dó. Coitada da mulher!

Pra piorar, essa história toda veio acompanhada de muita hipocrisia. Ah, quem nunca fez algo parecido num carro, num elevador...?

O fato de a garota aparecer direto em revistas e casar com um cara famoso não quer dizer que ela tenha que ter a vida privada dela devassada de forma tão desumana por um fotógrafo, o qual utilizou-se de meios os mais pífios possíveis para a filmagem.

Então é isso, gente. A Dani, meu apoio.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Do lado esquerdo do peito

Eu sou adepta das camisetas fofas e engraçadas. Amo, tenho várias. De filmes, com o gato Félix maquiado como o Kiss, com a estampa de saco de padaria ("Feito com Amor"), da Mulher Maravilha, a clássica "como é bom ter amigos"... Todas elas fazem sentido para mim. Elas significam algo, seja porque alguém lembrou de mim e me deu de presente ou porque eu vi e precisei comprar, mesmo elas me custando os olhos da cara. Mas não é desse tipo de camiseta que eu pretendo falar hoje. A pergunta da semana que não quer calar é: por que cargas d´água as pessoas usam camisetas com frases cujo significado não conhecem?

Hoje de manhã, no caminho para o trabalho, uma mulher já beirando os quarenta ostentava no peito a expressão "teen club". Me questiono o motivo de uma jovem senhora com filhos alardear por aí que pertence ao "clube dos adolescentes". Será que é por seus filhos já serem adolescentes e ela pertence a uma confraria de mães de adolescentes? Ou será que ela está tendo uma adolescência tardia e resolveu adorar o RBD e cantar músicas do KLB para se sentir mais moça?

O mesmo se dá para camistas ostando a marca em letras garrafais: uma linda blusa com ótimo caimento e estampa de bom gosto não precisaria dos dois "C" entrelaçados para provar que é de qualidade. Coisa que acho cafonéééérrimo é camiseta Tommy Hilfiger. São todas iguais, com suas listras vermelhas, azul marinho e branca, e com a marca escrita gigantesca no peito e nas costas. Bolsas Louis Vuitton também não me enchem os olhos - as da Victor Hugo, uma imitação Tabajara LV, deveriam ser incineradas em praça pública. Se esses itens citados forem de camelô, pior ainda! O mesmo não vale para o símbolozinho do cavaleiro da Raplh Lauren ou o jacarezinho da Lacoste. São marcas discretas que não pretendem ser esfregadas no nariz de ninguém. Dá para perceber a diferença?

Mas voltando às frases: expressões em inglês são as campeãs. Em lojinhas populares é clássico encontrar alguma roupa legal, mas que carrega uma palavrinha em inglês totalmente fora de contexto que a torna investível (neologismo). Blusinhas com a inscrição "gilrs","yummy", "love", "holiday" e saias com a barra escrita "rock" ou "wild" e coisas do gênero não dá para querer... Camisetas com expressões toscas como "caribbean highway" ou "evolution" também são de querer morrer. A pessoa que usa realmente quer estar numa auto-estrada caribenha? E a menina precisa informar que é uma menina, ou que é saborosa? Garanto que se o dono soubesse o significado do que traz inscrito no peito pensaria duas vezes antes de vestir.

Já ouvi histórias, não sei se verídicas, de pessoas que tatuaram ideogramas japoneses achando que eram palavras como "força", "amor", "saúde" e na verdade não passava de um amontoado de tracinhos. Ou pior, significava algo surreal, como "boi". Será verdade? Bom, se aconteceu com alguém ou não, o que eu sei que presto muita atenção no que digo para o mundo, seja falando, seja carregando no peito ou na pele. "Em boca fechada não entra mosca" é uma boa frase para camiseta. Quem sabe eu não aproveite a idéia, já que é uma de minhas filosofias de botequim preferidas?

quarta-feira, outubro 18, 2006

De fidelidade

Jamais deixe que outra toque sua pele
Enquanto forem minhas mãos que o percorram inteiro
Nunca permita que outra beije seus lábios
Enquanto for minha língua que dance dentro da sua boca
Em tempo algum se entregue para que outra o dispa
Enquanto for para meus olhos que exiba suas formas
De forma alguma alimente desejo por outra
Enquanto for meu corpo que lhe desperte as vontades
Em nenhum momento peça para que outra lhe faça dormir
Enquanto for em meus braços que adormeça
Não divida com outra qualquer segredo
Enquanto forem meus ouvidos que guardarem suas palavras
Por nada abra para outra espaço nos seus planos
Enquanto for comigo que construa seus sonhos
Por nenhum motivo diga a outra frases de amor
Enquanto for para mim que declare "eu te amo"

terça-feira, outubro 17, 2006

"Os olhos de Maysa eram dois oceanos não pacíficos"*

(*frase de Manuel Bandeira)

Ontem eu conversei com um amigo que disse que adorava sambas tristes. Daí eu falei: ó, então você tem que começar a ouvir fossa. É tudo de bom! Maysa, Tito Madi, Nora Ney... E o Lupi, claro, que o gaúcho fez samba-canção mas samba-canção é irmão da fossa, né?

Nessa linha, Maysa é a minha favorita. Adoro a voz grave, o repertório (que tem músicas de fossa, mas também bossa-nova, inclusive compostas por ela), sua história de vida tumultuada... Nós, meninas que amamos a noite, devemos muito a ela, a Aracy de Almeida, Suely Costa... todas pioneiras na arte de sair na noite, beber... Hoje parece tão normal! Mas imagine no final dos anos 50, para uma moça de uma família tradicional, que casou com um milionário de família mais tradicional ainda, encher a cara por aí. Pois é, os porres da paulista eram famosos, e se agravavam pelo temperamento explosivo dela. Também era uma “mulher que amava demais”; vivia intensamente o que sentia.

A cantora tem histórias famosas. Quando começou a se relacionar como Ronaldo Bôscoli, ele ainda namorava Nara Leão – namoro sério, em casa e pra casar. Conta-se que Maysa começou a ter um caso com ele e aí chamou a imprensa para anunciar... que eles dois iriam se casar! E o cara nem sabia de nada! Anos depois, com Ronaldo já casado com a não menos temperamental Elis Regina, as duas quase se atracaram num bar. Felizmente, o compositor conseguiu separá-las - para sorte da baixinha Elis, porque Maysa era muito maior.

Até morrer num acidente de carro na ponte Rio Niterói, com apenas 41 anos, ela se manteve linda, mesmo bem acima do peso, tanto que seus olhos famosos foram homenageados por Manuel Bandeira.

Dezenas de cantores ao redor do mundo gravaram o hino romântico “Ne me quitte pas”. Mas nenhum como ela. De rasgar a alma.