Domingo, Maio 30, 2004

O meu amor, tem um jeito manso que é só seu...


Embora eu não goste de olhos claros, ele tem os olhos verdes mais lindos e expressivos que eu já vi. Também não gosto de reclama�ão, mas ele reclama de um jeito único. Não gosto de bigodes, mas ele tem uns enormes e eu nem me importo. A maneira com que ele se aproxima, as coisas que ele conversa, o jeito que ele tem de mostrar tudo o que quer na hora que quer.
Esse contentamento expl�cito nos gestos. Esse espregui�ar charmoso, que faz com que eu pare qualquer coisa para contemplar.

E a barriga dele? Ai meu Deus! Eu já sou louca por barrigas, de qualquer espécie, e a dele é uma das mais gostosas que eu pude conhecer. Na medida certa. Nem muito, nem pouco. Suficiente. Para acaricia-lo infinito.

O jeito dele se deitar na cama é tão maravilhoso! Sutil e espa�oso. Cheio de do�ura. Ele se aproxima em silêncio, assim como que de surpresa. E me surpreende muitas vezes, me observando enquanto durmo e aos abrir meus olhos, lá está ele. Presente e carinhoso. Sempre.

Tivemos também maus momentos juntos. Foram dois longos meses de hospital, médicos, curativos e remédios. Mas agora estamos bem. Recuperados da dor e do medo da morte. E não prontos pra outra, porque agora ele aprendeu que tem que olhar bem por onde anda. Virou responsável.

Ele me consola como ninguém. Porque ele não faz cara feia, não julga, nem despreza minha mágoa. Ele é um po�o de compreensão e gratitud. Eternas. E sabe me convencer daquilo tudo que ele sabe que não é bom pra ele. Consegue tudo o que quer. Porque o olhar dele me comove, me encanta, me convence.

Ele já é peda�o meu. Da minha vida. Dos meus dias frios na cama, abra�ada com ele e comigo mesma.

Ele me lambe do jeito que eu gosto, me morde do jeito que eu gosto, me acaricia do jeito que eu gosto.

Ele se chama Frederico, mais conhecido como Fred. Atende também por Nestor, Jorginho, Xuxu, Nego, Piolho, Pipico e outros segredos...

Tem um ano e meio e é o gato vira-lata mais lindo que eu já tive.

A você, meu gato-amor, todo meu nobre sentimento!

Sábado, Maio 29, 2004

É tudo novo de novo

Ela sobe apressada e aflita a escada rolante do metrô Cinelândia, sa�da Pedro Lessa. Parece vestir sua melhor roupa e tem o cabelo muit�ssimo bem penteado. A avÓ, passos atrás, pede que espere - inútil pedido aos que têm urgência de vida.
Vencendo o último degrau com um pulo, vira-se e lentamente, seu olhar inaugura num giro de 180 graus, a paisagem que vai da Biblioteca Nacional, Teatro Municipal e chega ? Cinelândia propriamente dita.
Pausada e vigorosamente ela resume numa palavra seu deslumbramento: CA-RA-CAAA!!!!!
Quem tem o privilégio de observar crian�as, sabe que quando não nos ensinam, no m�nimo fazem-nos lembrar que a magia está nos olhos de quem vê.
Sigo sorridente meu caminho agora em estado de ora�ão: - Ó Deus meu, livra-me, todo dia, do olhar acomodado, ajudando-me a manter a chama do estranhamento. Livra-me do temor do inesperado, pelo estéril medo do desconhecido.Que eu possa sempre surpreender-me diante do Óbvio. Livra-me da inseguran�a, disfar�ada de medo, expressa na sensa�ão de ?Sobre isso já sei tudo?. Que eu solte minhas âncoras, atreladas ao cômodo, e cumpra meu destino de barco.... e assim sendo, Deus meu, ao final de minha jornada, que eu possa olhar pra trás e dizer ? vida com toda a gratidão e deslumbramento: CARACA!

Juli Mariano

Sexta-feira, Maio 28, 2004

Tortura Chinesa

(baseado numa historia real)

Era um apartamento pequeno. E nele moravam, alem da Dona, o Gato e o Peixe. Um nao tomava conhecimento da vida do outro: o Gato levava sua vida de gato e o Peixe, sua vida de peixe.

Um dia a Dona teve que viajar. Isso nao acontecia muito: as poucas viagens nunca duravam mais do que um final de semana. Mas a Dona tinha que ficar fora por cinco dias. A Amiga concordou em ir diariamente ao apartamento para dar comida e carinho ao Gato. A Dona a advertiu: nao de comida ao Peixe. Betas comem ate morrer se muita racao for posta. Alem disso, podem viver at� uma semana em um saco plastico sem comida ou ar. E a Amiga esqueceu da existencia do Peixe.

Dois dias se passaram antes da Dona ligar e perguntar pelo Gato. A Amiga dizia que ele era arisco, se escondia no armario assim que ela punha a chave na porta. Mas que estava tudo bem, pois o pratinho estava sempre vazio quando ela voltava no dia seguinte. A Dona nao perguntou pelo Peixe.

Mais tres dias e a Dona voltou para casa. Ao entrar na sala, chamando pelo Gato, deparou-se com ele sentado ao lado do aquario, lambendo a patinha e passando-a no focinho. O aquario? Estava seco: nem agua, nem peixe! Ao inves de xingar o Gato, a Dona pos-se a rir! O que teria acontecido? Depois de pensar um pouco, concluiu que o Peixe passara por maus bocados: a cada dia o Gato bebera um pouquinho da �gua, pacientemente. A Amiga, instruida a nao se preocupar com o Peixe, nao percebeu, mas o nivel da agua foi baixando, baixando... ate o Gato dar seu golpe de misericordia, fisgando o Peixe e engolindo-o de uma vez! Calculou bem, o malandro, a ponto de mostrar-se ainda lambendo os beicos como que em boas-vindas a Dona.

Passada a surpresa, a Dona sentiu-se culpada, tanto pela morte do Peixe quanto pela magoa do Gato. Tratou de arranjar uma Gata para fazer-lhe companhia. E, por via das duvidas, transformou o aquario num arranjo de flores.

Quinta-feira, Maio 27, 2004

Encontros não marcados

'Para mim, nada é intranscendente. Pode ser um fato de infinita, exemplar modéstia. Digamos que a nossa galinha pule a cerca do vizinho. Pode haver uma peripécia de mais delicada humildade? Não. E, todavia, esse incidente, em que pese a sua aparente irrelevância, tem um toque de Gra�a e Mistério.'


Todo dia sou presenteada com um milhão de fotos do mundo.

Passeando pela feira hippie de Ipanema meu olhar, esse menino que nem quando está distraído esquece de querer encontrar, esbarrou num outro olhar que parecia alheio e ao mesmo tempo ansioso de algo que a ninguém era revelável: uma senhora bem velhinha andava acompanhada de outras mulheres e carregava um ursinho de pelúcia consigo, que abraçava cuidadosa e veementemente. A insólita cena que mostrava despudoradamente a lucidez comprometida de quem não podia sequer se defender dos meus olhos me fez entrar em contato com toda a ternura e dor que o mundo pode oferecer em matéria de sensa�ão. Que tipo de sentido para sua vida aquela pessoa perdera ou encontrara na sua singeleza desprotegida de mim e de todos? Saberia ela ser olhada por mim? Quisera compartilhar alguma emo�ão? A quantos ela passara despercebida. Talvez quisesse falar com todos vocês, ou com nenhum de nós. Ainda assim, falara, e intensamente, comigo.

Dei dois passos e vi um bebê num carrinho. E uma cor. E uma vertigem. Um cansaço. Um escuro. Em progressão, assim passo os dias e os anos. Sentindo tudo o que vejo, mais ou menos segundo as possibilidades - a bem da verdade, muitas vezes fecho os olhos e finjo ao peito não sentir, por ser dif�cil, extenuante.

O que eu quero que a vida me dê é poder enxergar mais, cada vez mais. Com a visão da alma. É poder sentir até o cora�ão, desesperado, gritar um grito mudo em forma de palavra escrita. Que meus olhos sejam de ver e esse meu cora�ão de sentir, sentir muito. Para poder escrever, que é 'o antiácido nosso de cada dia. É quando o certo vira espanto e o espanto, por sua vez, é o pasmo'. Escrever então � meu al�vio diário. Meu texto é o que abençoa a minha existência, é meu canal de contato com a vida, é onde o sangue corre e a vida pulsando em mim escorre pelos dedos. De moça.


(As citações são de Nelson Rodrigues)

Quarta-feira, Maio 26, 2004

A gente morre e a gente nasce

Quantas vezes a gente pode morrer? E nascer de novo, pode? Porque morte não é só aquele momento em que o cérebro se apaga, o coração pára. Muitas vezes, o defunto já estava morto anos antes. Morto de cansaço, de desesperança, de desilusão, de desistência. Mortos os seus sonhos, o futuro que ele traçou, até as lembranças estavam debaixo da terra.
A gente pode morrer aos poucos ou de modo fulminante. E pode nem notar que passou, ficar andando por aí como um espírito que não se deu conta de que não faz mais parte deste mundo.
A gente morre quando abre mão do que acredita. Seja por dinheiro, por conveniência, por necessidade. Essa morte costuma ser indolor. É como morrer dormindo, nem se sente. Então os projetos vão ficando para trás, vai-se aos poucos começando a fazer aquilo que se jurava que nunca faria, vai-se moldando, vai-se repetindo que era o melhor a fazer. Morto.
A gente morre também quando pára de querer mais. É morte lenta, os órgãos vão falhando um a um, devagar. Cada vez que se diz 'já fui muito longe', um deles deixa de funcionar. E ficam só os aparelhos sustentando um ser vegetativo, tecnicamente morto.
A gente morre ainda com as pessoas que se vão. É morte das mais dolorosas quando elas partem para sempre. Mas é morte igualmente sofrida quando a gente deixa elas irem, quando pensa que bastava um telefonema, um e-mail, um encontro, um pouco mais de interesse. E geralmente a gente lembra de uma vez só que poderia ter feito tudo isso, cada coisa a seu tempo, e é como um veneno queimando por dentro. Corroído e morto.
E a gente morre quando acaba um amor. Esta morte é sempre violenta, de facada, de doer fundo. Não é tiro de fuzil, que derruba e pronto. É morte consciente, vendo o ferimento. Pode acontecer de ele ser pequeno e sangrar por anos a fio, até não haver mais uma gota de sangue no corpo. Ou pode ser um buraco de peixeira, por onde, de repente, se esvai tudo que se tinha por dentro. E a gente fica tentando estancar a hemorragia com as mãos, inutilmente. Ou pede para morrer de uma vez.
Mas a gente também pode nascer, sim. Inesperadamente, como numa gravidez não planejada, ou depois de muitas tentativas. A gente nasce cada vez que se lança num novo desafio. E cada vez que descobre um jeito de fazer diferente o que se faz todo dia, um prazer no que era rotina. E se nasce de novo quando se reafirma um ideal, e o transforma em oxigênio. E se nasce toda vez que se perdoa, que se pede desculpas. E toda vez que se chama alguém de volta antes que ele vá embora.
O nascimento mais difícil é o que vem com um novo amor. É preciso curar todas as doenças pré-existentes, é imprenscindível não ter medo do parto. E há que se ter sorte de ter essa chance, de o período fértil coincidir, há que se ter coragem para recebê-la. Uma vez nascido, no entanto, talvez não se morra nunca mais.

Terça-feira, Maio 25, 2004

A conta do primeiro encontro

No ano passado, um paquera me telefonou convidando para jantar no Bar do Mineiro, em Santa Teresa. L� fui eu, feliz da vida. O papo rolou deliciosamente: n�s j� nos conhec�amos, ainda que superficialmente, e ele era muito parecido comigo, inclusive no amor pelo samba... Enfim, um carinha totalmente namor�vel! O jantar, regado a Bohemia gelada, foi perfeito...

...at� que chegou a conta. Nao foi salgada; o Mineiro nao � caro. Como mulher-emancipada que sou, eu disse o que digo sempre neste momento: 'vamos dividir?' Nao esperava que ele topasse... mas ele topou! Que droga!

Como ele tinha namorada, preferi nao levar a hist�ria adiante (juro que nao foi pela conta!). Mas achei tao u� essa atitude... Afinal, ele � quem tinha me convidado! E era o primeiro jantar!

Contei a hist�ria para algumas amigas (homens, aprendam: as mulheres contam TUDO as amigas!). Uma delas foi sincera: disse que no primeiro encontro nao abre a carteira MESMO. Mas as outras me apoiaram: como eu, acreditam que pagar a conta tem que ser uma INICIATIVA, nao uma imposi�ao.

Estaria ele duro? Ou seria um pao-duro? Qual das duas classifica�oes � a pior? Ser� que ele achou que como eu tenho um bom emprego eu nao me importaria? Ou a id�ia era nao me deixar mal-acostumada? Bom, sei que ele nao � muito fa de programas pagos, porque s� o vejo nas rodas de samba gratuitas (ai, ele vai ler isso! ahahaha!)

Mas por que fiquei tao chateada na hora? E at� hoje nao esqueci? Por que as mulheres sao un�nimes em considerar o cara que nao paga a conta um maldito pao-duro (ou duro?)

'Culpa da cultura machista da nossa sociedade, em que o homem ainda � visto como provedor', sentenciaria Betty Friedan*. Pode ser... Mas o primeiro encontro � sempre cercado de magia... a gente quer agradar ao m�ximo... n�s, mulheres, corremos na manicure, demoramos horas para escolher a roupa... e no fundo esperamos dos homens que tamb�m queira nos agradar ao m�ximo, escolhendo um lugar legal (como o... fez), paparicando a gente e... pagando a conta, porque nao? Pronto, falei! Eu quero que os homens paguem a conta no primeiro encontro! Serei eu uma Am�lia p�s-moderna???

* Feminista americana

Segunda-feira, Maio 24, 2004

Sobre a primeira vez de uma s�rie de in�meras vezes

...E ela se lembra, de repente, da primeira vez na vida. A primeira vez de todas as coisas! A primeira vez que mascou chiclete. Comeu um pacotinho em dez minutos! A mãe lhe havia dito que chiclete era para mascar um pouquinho e jogar fora. Acontece que ela ainda não sabia quanto era um pouquinho na linha do tempo. Se lembrou da primeira vez que foi a escola. E os olhos encheram d?�gua. Porque foi dif�cil. A separa�ão da mãe sempre fora dif�cil para a menina das primeiras vezes. E o primeiro choro? A primeira respira�ão? O primeiro medo? Esses a menina não lembrou. Costuma-se dizer que o que causa dor, geralmente se esquece. E ela se esqueceu.
Se lembrou do primeiro beijo. Da cara da professora de inglês, quando viu a menina beijando o menino mais bonito da escola. Da bronca e da vergonha. Do medo e da inseguran�a. Lembrou da primeira vez que foi amada. E do primeiro gozo. Que casualmente foi antes dela perder a virgindade. Foi como um raio. Um estremecer. Um amanhecer por dentro pra aquela sensa�ão de recome�o. De vida nova. Porque quando a gente goza, parece que a gente nasce outra vez. Lembrou da primeira despedida. Ou da segunda? Ou da �ltima? Sim, das despedidas ela nunca esqueceu. Nem das pessoas que foram embora. E nem daquelas que ficaram.
Lembrou da primeira declara�ão de amor. E do primeiro fora. E da primeira vez que não correspondeu ao amor de algu�m. A primeira noite na sua casa! Sozinha! E lembrou do medo que sentiu de que houvesse ladrão atr�s da porta. E uma barata na cozinha. E um rato embaixo da cama. Lembrou da primeira vez que tentou ser mãe. E da perda do filho. Do sangramento. Por dentro e por fora. Do bebê no v�deo da ultra-sonografia. Sim, ela lembrou da primeira vez que entendeu a eternidade. E que sentiu solidão.
Lembrou da primeira vez que pisou num palco. Do frio na barriga, do texto na cabe�a, do branco na alma. Do êxtase do p�blico. Lembrou das pirmeiras noites de festa, dos primeiros passos de independência...
Lembrou da primeira vez que ouviu ?Amo você? e chorou. Porque fazia tempo que ningu�m lhe dizia isso. E lembrou sim, da �ltima vez que disse que amava algu�m. Porque isso ela não faz nunca, e quando faz � porque ama de verdade. Lembrou da primeira vez que fez uma pesquisa atrav�s do computador. E do fasc�nio que traz o conhecimento. E do mundo que h� dentro do mundo. E se lembrou tamb�m da primeira vez que percebeu Deus. E do calor da sua presen�a. E da certeza de seu abra�o. E da sensa�ão de unidade!
E assim � que a menina repete e repete a imensidão das primeiras vezes. E preenche os dias com novas estr�ias. Preenche as horas com primeiros minutos. Porque a cada instante h� uma primeira vez. Em gota de sangue h� uma primeira e renovada c�lula. Em cada noite h� a promessa de um sol nascente. E assim ela repete, se repete, repete, repete de novo, primeiras vezes, primeiros dias, primeiros textos, repete, repe...., rep....re.....r............