Quarta-feira, Junho 30, 2004

A tela enorme

Agora somos só nós duas. Eu e a tela. Em branco, ela parece enorme. Poderia me devorar. Preciso de palavras para me defender, para confrontá-la e preenchê-la. Mas onde estão as palavras? Tenho a impressão de que fugiram todas. As idéias estão aqui. Recusam-se, porém, a transformar-se em frases. Como começar? Algumas palavras se apresentam. Não, não são as adequadas. O cursor vai e volta. Backspace, backspace. E tudo de novo. Vamos fazer um início diferente. Ah, o que eu não daria por uma metáfora original?
Bem, lá se foi o primeiro parágrafo. E agora? A tela ainda é muito maior do que eu. Como amarrar o que vem em seguida? Mais palavras. Os dedos de repente digitam desenfreadamente, como se quisessem acompanhar o ritmo dos pensamentos. Tudo indo bem, não fosse um problema: na cabeça, lógica e coerência não são necessárias; num texto, são indispensáveis.
Ok, resolvemos isso no terceiro parágrafo. Retomo o que foi dito no primeiro e tento fazer uma conexão com o que escrevi no segundo. Ai, eu careço de sinônimos. E nem São Aurélio ajuda. Por que uma palavra nunca signifca exatamente o mesmo que outra? Porque, li nem sei mais onde, seria improdutivo a língua ter mais de um vocábulo para expressar significados iguais. E eu com isso? Só me resta engolir a leve alteração de sentido e trocar as repetições por substitutos.
Quarto parágrafo, estamos quase no fim. A tela já não parece tão feroz. Acho até que a domino. Hum, tem clichês neste texto. Eu sabia, estava indo rápido demais. Acorda, criatividade, vamos elaborar uma maneira nova de dizer o que queremos, nada de frases feitas. E vamos aproveitar para cortar metade dos ‘que’ salpicados pelas linhas, para reelaborar estruturas muito parecidas, para catar algum pecado de concordância, para ampliar o vocabulário.
Ufa, acho que acabei. Agora só falta reler. E descobrir um monte de defeitos. Ou resolver mudar tudo. Ainda tenho umas batalhas a travar com a tela antes de parar. Quem escreve só descansa quando publica. Ou nem então.

Terça-feira, Junho 29, 2004

Um dia

Acordou com o despertador, como sempre. Levantou-se, lavou o rosto e começou a se barbear. Sono, muito sono. Fechou os olhos por alguns segundos. Quando abriu, estava de novo deitado, ouvindo o despertador.

Sorriu. Não era a primeira vez que sonhava que acordava, e sabia que isto é comum. Levantou-se, lavou o rosto e começou a se barbear. Tomou um café requentado e, após um banho rápido, dirigiu-se ao trabalho.

A mulher ao lado, no ônibus:

- E aí?

Ficou confuso. Era bom fisionomista.

- Tudo bem - respondeu, titubeante.

- É hoje. Demorou tanto a chegar... - ela deu risadinhas.

Olhou a mulher com atenção. Cabelos pintados de vermelho, uns cinqüenta anos, blusa com um estampado feio. Definitivamente, não se lembrava dela. Teve uma idéia:

- Como vai todo mundo?

Ela o olhou surpresa.

- Ué, Carlos... todo mundo quem? Da nossa sala?

Carlos! O nome lhe causou um choque. Não era o seu! Ou era? Meu Deus, não conseguia lembrar o próprio nome! Não se sentia um Carlos... mas o nome não era de todo desagradável. Agora sabia que trabalhava na sala da mulher. Não era possível. Por via das dúvidas, continuou a conversa, descobrindo que aquele era o dia do pagamento. Saltaram juntos do ônibus. Na empresa, todos o conheciam e o chefe passou-lhe um relatório para que fizesse os custos. Revirou discretamente suas gavetas: além de chamar-se Carlos Gonçalves de Biase e trabalhar num escritório de contabilidade, comprava revistas de palavras-cruzadas. O relatório foi feito sem dificuldades: aparentemente, era mesmo contador.

Almoçou com a cinqüentona. Quando o expediente acabou, voltou para casa sozinho, no mesmo ônibus que tomara. Estranhou o percurso:

- Este não é o 249, que vai para Água Santa?

O trocador deu risada:

- E o ônibus tá onde, gente boa?

As ruas eram totalmente diferentes, mas não quis contrariar o trocador; o dia já estava muito complicado. Saltou e resolveu caminhar ao léu. Quem sabe reconhecia o próprio prédio? Tentou lembrar-se dele: verde, próximo a uma escola pública. Sentiu fome e sentou numa lanchonete. Pediu um sanduíche e veio um salgado. Educadamente, reclamou com a garçonete. "Essa gente cada hora quer uma coisa!" ela resmungou, trazendo então o sanduíche. Não resistiu e perguntou: "Tem certeza que eu pedi um salgado?" "Tenho", ela respondeu, de mau-humor.

Comeu. Sentiu-se culpado pela confusão. Por sorte a carteira de Carlos Gonçalves de Biase tinha algum dinheiro. Pagou e continuou pelas ruas - em algum momento acharia seu prédio.

Duas horas depois, cansado, retornou à lanchonete. Precisava pedir informações. A garçonete o recebeu com um sorriso.

- Tá sumido, hein, Roberto?

Roberto... Ficou mudo.

- Que foi? O gato comeu sua língua? Senta aí.

Não se sentou: levantou-se e saiu correndo pelas ruas. As pessoas o olhavam curiosas. De repente, um calor insuportável no peito, a respiração curta, a vista escura. "Estou tendo um ataque do coração!" gritou por dentro. Levou a mão ao peito e sentou-se no meio-fio. Algumas pessoas se aproximaram. Ouviu confusamente vozes perguntando seu nome, onde morava, se queria que telefonassem para alguém. Não conseguia responder, o ar não vinha. Fechou os olhos: tudo escureceu.

Segunda-feira, Junho 28, 2004

Depoimento

As mãos se gelam completamente. O coração dispara e você jura que está tendo um atraque cardíaco. Quer sair correndo para o hospital mais próximo. Um suor gelado percorre seu corpo e você tem plena certeza de que vai morrer naquele instante. Uma sensação de abandono e de insegurança vem em forma de onda e chegam ligeiro, e não há nada que te convença de que está tudo bem. Logo, uma sensação de desmaio, de que vc vai apagar a qualquer momento.

Pronto! Aí está! Esse é um típico “ataque de pânico”. Acontece com muita gente e em geral dura de 10 a 20 minutos. Tudo volta ao normal e a vida continua. Sem mais sintomas, sem nenhum outro tipo de perturbação, mas lá no fundo, bem no fundo, dentro de você, há uma certeza de que algo não vai bem. De que há coisas que precisam ser resolvidas, questões internas fundamentais para olhar de frente e encarar de uma vez por todas. E assim vai. Até o próximo “ataque”.

Assim foi comigo. Anos de ansiedade, histórico familiar de ansiedade típica, de depressão. E mais que isso uma sensação interna de que: “as coisa não vão bem comigo”.

Sofri de pânico durante muito tempo. E o pior: eu não sabia! Sempre achei que fosse pressão baixa, mal-estar, TPM, essas coisas... Não conseguia perceber que o de fora está intimamente ligado ao que está dentro, com as sensações, as experiências, os traumas, as crises mal administradas. Uma pena!

As crises tiveram seu ápice há mais ou menos dois anos atrás quando começaram a acontecer com mais freqüência até o limite de quatro a cinco por dia. Nesse estágio, eu já não dormia, não comia, não trabalhava, não fazia nada. Olhava para o teto. Um mês assim, até assumir pra mim mesma que a homeopatia, a antroposofia, o reiki, a acupuntura, não davam mais conta do meu turbilhão interno. O bicho estava solto e era preciso doma-lo com cuidado. Uma crise mal curada de novo não!

Comecei o tratamento que prontamente fez efeito e hoje agradeço por ter passado o que eu passei. Parece loucura, mas é verdade. Pra mim o distúrbio do pânico pôs um ponto final em uma porção de mágoas, falhas e culpas. Colocou no seu real lugar minha vida de adulta, de mulher independente, que tem sua casa, carreira e amigos. Foi pra mim uma crise de vida, mais além que o distúrbio do pânico.

Entrei na faculdade, adotei meus gatos todos (sim, eles são CINCO!), cortei o cabelo, dei finalmente atenção a música na minha vida começando a estudar e a me dedicar ao canto, afastei de perto de mim pessoas que não me faziam bem, tive coragem de enfrentar meu espírito e direciona-lo a algo que faça sentido pra mim, redirecionei minha vida profissional e um sem fim de bênçãos vem me acontecendo.

E a cada dia que passa, com o tempo, vejam só, dois anos mais tarde, consegui driblar o preconceito e falar aqui pra vocês pela primeira vez, como um depoimento. Longe de ser uma vitimização. Pelo amor de Deus! Longe disso. Venho sim dizer a vocês que olhem pra dentro, que prestem atenção, que mantenham os olhos abertos, bem abertos! Que um mal-estar pode ser um sinal que o furacão está chegando, que a desconstrução está por vir. Estejam atentos!

No meu caso, uma crise dessas era tudo o que precisava, mas sei que não precisava ter sofrido tanto. Por próprio preconceito, por medo, por inexperiência, por insegurança. Nada disso vale a pena. O que vale a pena e que só agora eu sei, é tomar conta de si mesmo. É ter consciência de que nada nem ninguém é responsável pela nossa felicidade, além de nós mesmos, por mais apaixonados que estejamos, que nada no mundo pode aliviar nossa dor que não seja o nosso próprio acalanto e o mais importante de tudo: Que além de nós, existe um mundo a nossa volta, que agradece muito o nosso bom-humor, a nossa doçura, a nossa paciência, nossa delicadeza, nossa verdade e sinceridade, nossa lealdade, nosso foco, nossa maturidade e nossa real contribuição para que cada dia e cada vez mais seja mais prazeroso viver.

Salve, salve! Boa semana a todos os pacientes leitores!

Aos que estiveram perto de mim e me ajudaram a superar e encontrar a saída, agradeço: meu pai, minha mãe, meu irmão, minha tia e minha prima Carolina, à minha médica Maria Alice, a terapeuta Magda Person, à Jandira, à Márcia, à Eliane, ao Ildo, ao Barone, ao Paulo César Britto e à Vanessa. Vocês me mostraram que a vida, apesar de dificil, vale ouro!

Sábado, Junho 26, 2004

E se viam todos os dias de manhã. Ele indo para a academina. Ela para a faculdade.
Seus olhares se cruzavam, sentiam algo diferente naquele olhar, mas a timidez de ambos os impediam de trocar algo mais que um bom dia.
E viviam suas vidas. E sentiam que lhes faltava algo, alguém que preenchesse aquele vazio, mas continuavam em seus mundos sem se acharem em um só, sem se entregarem a um amor que já era predestinado.Deixavam as turbulências cotidianas tomarem conta de suas vidas, encherem suas mentes de preocupações, mas não deixavam o espaço para serem um do outro.
Um dia eles deixaram de se encontrar naquela rua...
E ele conheceu uma garota na academia. E namoraram. E alguns anos depois se tornaram marido e mulher. Havia respeito. Havia afeto. Mas não havia o amor. Ah não...esse não havia....esse já pertencia a outra pessoa.
Ela, depois que terminou a faculdade, continuou fazendo cursos e se empenhando somente em seu trabalho. Nunca tivera a vontade de ficar com alguma outra pessoa. Lembrava-se todos os dias dos olhares que trocara durante pouco mais de um ano com aquele que, mesmo sem saber o nome, tivera lhe tirado boas noites de sono, tivera lhe trazido inquietação.
Lembrava-se de cada traço daquele rosto suave de garoto, uma mistura estranha de rebeldia e serenidade. Sim, ela, com toda a sensibilidade de mulher, sempre soube, de alguma forma, que pertencia àquele rapaz de cheiro leve e gostoso.
Ele talvez não tivesse tido a mesma sensibilidade, mas sentia em sua vida que podia ter sido mais feliz. Sentia que não estava completo.
Sabia que tivera se perdido em algum momento, mesmo sem saber ao certo qual momento foi esse.
O livre arbítrio. Foi "ele" quem tirou um do caminho do outro. É por ele que às vezes saímos de nosso rumo.
Tudo nos é livre. A história de nossas vidas é escrita por nós mesmos.
Os sinais são dados e, se nos recusamos a segui-lo, acabamos vivendo
uma outra história, uma história que não era para ser a nossa...

Desejo do fundo do meu coração, que você, que agora me lê, tenha sempre o coração aberto. Aberto para perceber os sinais, aqueles que vão lhe mostrar a verdadeira felicidade. Viemos a este mundo para sermos felizes, então, que sejamos!
Não deixemos que o orgulho ou qualquer outro tipo de sentimento nos tire aquilo que é o mais importante na vida de qualquer pessoa : O amor!

Gislaine

Sexta-feira, Junho 25, 2004

50 Atitudes Humanas

A semana foi “tepeêmica” e fértil em textos revoltados. Lendo ontem e escolhendo o eleito de hoje, achei alguns engraçados e outros sombrios demais. Resolvi publicar esta lista, apesar do seguinte conselho: “não, não põe a lista. Vão te achar ‘edmundo’ demais!”. Olha, eu sou “edmundo”, sou chata sim. Mas não o tempo todo. :) Afinal de contas sou uma alemoa virginiana.

Esta lista surgiu logo depois do telefonema de uma cliente nova, italiana, que me liga pelo menos cinco vezes por dia. Cada ligação dura, em média, vinte minutos. Claro que tudo o que ela fala por telefone é devidamente enviado por e-mail... E aí começou tudo! Ia dividí-la em duas, mas como sei que semana que vem não estarei de mau-humor, apenas tirei alguns itens. Pensarei em algo mais light para semana que vem.

1) pessoas que enviam um e-mail (ou fax) e ligam para falar com todos os detalhes o que escreveram.

2) pessoas que te contam uma historia como se fosse delas, mas que na verdade ouviram de você. O mesmo vale para uma opinião, uma frase, etc.

3) pessoas que andam bem devagar, no meio da calçada, e quando você esbarra, se esgueirando entre ela e o muro, te olham com cara feia, por mais que você tenha pedido licença umas vinte vezes. Isso não vale para velhinhas com dificuldade de andar, por exemplo.

4) pessoas que te olham como se você tivesse tentado empurrá-las na frente de um ônibus quando você pede desculpas por um esbarrão.

5) pessoas que falam alto no elevador. Aliás, pessoas que falam alto.

6) pessoas que respiram no seu rosto no elevador. Pior: pessoas que tossem ou enpirram no elevador sem se dar ao trabalho de cobrir a boca com a mão.

7) pessoas que andam de bicicleta lado a lado ou na contramão na ciclovia.

8) pessoas que nao ligam o pisca-pisca (seta) quando vão dobrar a esquina

9) pessoas que ligam o pisca-pisca mas NÃO dobram a esquina.

10) pessoas que pegam comida do seu prato sem pedir. Só é permitido quando há uma graaaaaande intimidade, e mesmo assim não há nada de mal em pedir.

11) pessoas que falam, falam, falam e nao respondem a uma pergunta direta, onde um simples "sim" ou "nao" seria suficiente.

12) pessoas que enchem a boca para criticar algo que nao conhecem.

13) pessoas que bradam aos quatro ventos seu não-preconceito, mas riem e repassam piadas racistas e preconceituosas.

14) pessoas que criticam a falta de educação dos outros, mas comem de boca aberta e fazendo barulho.

15) pessoas que atravessam a rua na frente dos carros e ainda xingam quando quase são atropelados.

16) pessoas que andam de moto e costuram no meio do trânsito.

17) pessoas que puxam tanto o saco do chefe a ponto de se dirigir a ele com voz de débil mental.

18) pessoas que tratam animais como gente (amo os animais, quem me conhece sabe, mas tratá-los como gente é crueldade! Mas isso é assunto para outro dia)

19) pessoas que te obrigam a passar por situações contrangedoras com crianças, do tipo mandar a criança "dar um beijo na tia" e ela comecar a chorar ou sair correndo. O mesmo vale para cachorros. A pessoa te manda passar a mão porque "é mansinho" e ele avança.

20) pessoas que dão sustos.

21) pessoas que passam trote.

22) pessoas que ligam para a sua casa por engano e perguntam de forma grosseira "quem está falando?". Quando você diz educadamente o seu nome (eu nunca respondo com "com quem quer falar?" que, para mim, é pior do que a primeira pergunta) desligam sumariamente na sua cara.

23) pessoas que conversam com outras enquanto estão ao telefone. Vejam bem: eu disse “conversam”. No trabalho eventualmente é necessário falar com várias pessoas ao mesmo tempo.

24) pessoas que atropelam quem está falando. Ao telefone então, pior ainda.

25) pessoas que humilham garçons, flanelinhas, empregadas ou qualquer um que julgue inferior.

26) pessoas que maltratam animais gratuitamente. Aqui se encaixam desde aqueles que compram um filhote porque é bonitinho e depois o abandonam (ou o ignoram) até aqueles colocam veneno para matar o cachorro ou gato do vizinho, passando por aqueles que dão um animal de presente sem perguntar se a pessoa gosta ou pode.

27) pessoas que entopem sua mailbox de e-mails pesadíssimos e que ficam ofendidas quando você pede para parar (e não param!).

28) pessoas que não são íntimas e que sao "sinceras demais", do tipo que fala que você engordou ou que deve cortar o cabelo sem terem sido perguntadas.

29) pessoas que ficam o tempo todo de orelha em pé, tentando ouvir a conversa dos outros. E quando perdem alguma palavra ficam perguntando "o quê? o que aconteceu?"

30) pessoas que falam no cinema ou teatro.

31) pessoas espaçosas.

32) pessoas que cutucam.

33) pessoas que se fazem de conhecedoras de tudo. Fala-se de um lugar "ai, eu adoooooro, vou sempre lá!". Fala-se de um autor "ai, eu adoooooro, já li tudo dele!". Podem testar: é só inventar um nome, um lugar, uma comida que a pessoa vai dizer que adoooooooora também.

34) pessoas que fingem que lêem o jornal (na verdade so conheco uma, que todo dia diz "vocês viram na capa do Globo hoje...?")

35) pessoas que andam na rua com cara de nojo. Fico impressionada com a quantidade de gente que mantém uma expressao de nojo no rosto, como se essa fosse a expressão natural do ser humano.

36) pessoas que riem de você de forma a te deixar constrangido. Aliás, constrangimentos gratuitos em geral.

37) pessoas que falam "a nivel de".

38) pessoas que se nivelam por baixo. Por exemplo: você passa a andar com alguém que fala "pobrema" e quando vê, esta falando "pobrema" também.

39) pessoas que furam fila.

40) pessoas que jogam comida fora. Só vale quando a comida ja estiver estragada e nao possa ser dada a ninguém ou reaproveitada.

41) pessoas que jogam lixo pela janela do carro.

42) pessoas que colam chiclete em bancos de cinema ou ônibus.

43) pessoas que passam na rua e falam bobagens no seu ouvido (válido para mulheres, não sei se homens passam por isso tambem).

44) pessoas que te excluem por você não ter namorado. Acreditem! isso acontece as pencas!!! "ah, não te chamei porque so iam casais", mesmo que o dono da casa ou da festa seja seu melhor amigo!

45) pessoas que te exluem da conversa, falando de um assunto que só elas conhecem.

46) pessoas que não sabem a hora de ir embora ou de ficar com a boca fechada.

47) pessoas que não respeitam privacidade.

48) pessoas que tiram onda por serem amigos/filhos/sobrinhos/cunhados do chefe ou de qualquer pessoa pública ou importante.

49) pessoas que oferecem algo (um chocolate, por exemplo) por educação e fazem cara feia quando você aceita.

50) por fim: pessoas que tentam me animar quando estou de mau-humor me fazendo cócegas.

Quinta-feira, Junho 24, 2004

Mais um dia

Seu computador já pode ser desligado com segurança, vou pegar a toalha branca lá fora e colocar essa pra lavar, ai, não, o chuveiro está no morno, tem que botar no quente, eu tenho mesmo uma mania boa de me jogar na cama depois do banho e controle remoto, fecho os olhos por um segundo que, ...no segundo posterior se abrem e me perguntam: o que você fez dessa vez com o mundo que estava bem aqui? Que tipo de louca é você, o que pretende de mim, afinal? Não chore, a culpa é sua, ou é de quem? Se as imagens da televisão são desconexas como um baile tresloucado de fantasmas, só pode ser que a vida, como eu já te disse, não tem muita razão, não. Ela não espera sua passada seguinte para abrir uma cratera na pista que você corre perseverantemente para alcançar a lucidez. Te fez cair, e agora seu quarto, suas certezas, nada coincide com o real mostrado na tela da sua mente. Desesperador não reconhecer o mundo? Desça daí, rainha destronada, todos riem, debochados, de você. Vou apagar a luz. Talvez assim as coisas possam querer de volta sua organização. Já perceberam como as manicures são insubordinadas? Vocês precisavam ver hoje de manhã a cara da moça quando eu disse “quero colocar café com rebu”. Invariavelmente derrotada, vive tentando me dissuadir da idéia de usar toda vez o mesmo esmalte. Num só golpe, arranco-me os dois olhos. Agora já posso dormir e nunca mais falo de amor.

Quarta-feira, Junho 23, 2004

Hoje eu só quero

Hoje eu só quero elogios. Quero ouvir que emagreci, que meu cabelo está brilhando, que a roupa me caiu bem. Quero que alguém diga que eu estou linda. E também que eu sou inteligente e que eu sou capaz.
Hoje eu só quero notícias boas. Quero que uma amiga me conte que está grávida, que outra telefone eufórica para falar que começou a namorar. Quero saber de um novo emprego. Quero receber notas excelentes.
Hoje eu só quero roupas que me caiam muito bem. E sandálias altas. Também quero bijuterias novas e um esmalte diferente. E quero um corte de cabelo que fique perfeito. E nenhuma espinha no rosto.
Hoje eu só quero besteiras na geladeira. Pão de queijo, sorvete, pavê. E quero pizza no forno. Também quero pão francês com mortadela e coca-cola. E brigadeiro de panela, para comer de colher. E chocolate até enjoar.
Hoje eu só quero cobertor. E pijama com meias. Quero adormecer em frente à televisão. Hoje eu não quero despertador. Só quero levantar quando acabar todo o sono. E depois voltar para a cama para ficar de preguiça.
Hoje eu só quero os meus amigos. Mas só aqueles que são amigos mesmo. Não quero ter que forçar nenhum sorriso nem ter que ser simpática por educação. Hoje eu quero que sumam todos os que eu tolero por obrigação. E também os que eu não tolero de jeito algum.
Hoje eu só quero meus gatos. Quero conversar com eles e ouvi-los me responder aos miados. E os dois enroscados na cama a noite toda. Hoje eu quero o silêncio cúmplice ao lado e mordidinhas de leve para me chamar.
Hoje eu só quero meu namorado. Quero os abraços mais apertados. E quero debater os assuntos mais sem importância. Hoje eu quero falar até cansar. Também quero massagem nas costas e carinho nos cabelos. E quero dormir colado.
Hoje eu só não quero pensar.

Terça-feira, Junho 22, 2004

Uma profissão avassaladora

Tem gente que acha que ser crítico de cinema deve ser bacana. Ser pago para assistir a um monte de filme de graça!!! Mas, sinceramente, não almejaria este emprego. Pra mim é duro saber que o diretor vai ler um texto meu detonando o filme dele. Já pensou se o cara, ainda por cima, for meu amigo?

Pra início de conversa: eu adoro filme brasileiro. Além disso, tenho consciência do quanto fazer um filme no Brasil é difícil. Mas alguém tem que fazer o trabalho sujo, nós sabemos. O 2% da população que lê jornal quer saber o que a crítica acha das estréias, ainda que, destes, só 0,1% use o artigo como guia na hora de escolher o filme.

Não lembro como os críticos reagiram quando da estréia de "Avassaladoras", que aluguei há pouco. Será que foram sinceros e contaram ao público que o filme é muito, muito ruim? Ou optaram por um tom paternalista, elogiando a "produção bem-feita"?

Juro que vi o filme com boa vontade. Além de torcer pelas cores nacionais, não tenho o menooor problema com comédias românticas: adorei "Harry e Sally", "O Casamento do meu Melhor Amigo"... Mas "Avassaladoras" tem um monte de problemas. A começar pelos protagonistas: Giovanna Antonelli e Reynaldo Gianecchini são muito, muito ruins. Já os tinha visto em novelas e até me pareciam razoáveis... só que agora me toco que novela tem um diferencial: as cenas são rápidas; um ator não fica falando durante muuito tempo. Então quando a Jade dizia algo, o Edu respondia rapidamente; quando o Paco começa a pensar algo, corta para a Capitu chorando... Não dá pra você ter muita certeza de quem é bom ou ruim, a não ser em casos clamorosos, tipo cigano Igor ou, em outro extremo, Vera Holtz, que em "Mulheres Apaixonadas" protagonizou um dos monólogos mais emocionantes que já vi (quem pode, pode!). Já Giovanna fala de sua vida sentimental, em diálogos ou em off, com um tom tatibitate inacreditável. Gianecchini é O canastrão: durante a história toda joga uns olhares "fatais" para as mulheres absolutamente constrangedores. Até Caco Ciocler faz um descendentes de árabes como quem faz um idiota.

Além dos desempenhos fracos, "Avassaladoras" é cheinho de clichês no roteiro. As pessoas falam - a sério! - frases inacreditáveis... E as situações nem são tão engraçadas. Tudo isso regado a uma, duas, três, quatro músicas pavorosas do Paulo Ricardo! Parei de contar na quarta. Até o final, que parecia redentor... bom, melhor não dizer.

Bem, fico feliz em saber que a probabilidade de alguém ligado ao filme estar lendo este texto é mínima. Ah, Gianecchini, se você estiver lendo isso: esta não sou eu, eu te adoro, fui seqüestrada e estou sendo obrigada a escrever isto!!!

Segunda-feira, Junho 21, 2004

Desmedo

Já tive medo da vida.
Já tive medo de mim.
Tive medo dos passos incertos.
Tive medo da solidão.
E medo do meu reflexo.
Tive medo dos sonhos. Dos olhos inchados diante da esperança.
Tive medo dos outros. E do escuro. Tive medo dos sons silenciosos da minha alma.
Agora sim. Agora sim, depois do trovão. Depois da dor condensada tranformada em rio. Depois da contração do mundo.
Sim. Depois de tudo, venho te contar que amo a vida. Não vou me arrepender, só vim te convencer que eu vim prá não morrer. De tanto te esperar,eu quero te contar das chuvas que apanhei, das noites que varei no escuro a te buscar. Eu quero te mostrar as marcas que ganhei nas lutas contra o rei, nas discussões com Deus.
As curvas do caminho, vem sendo linhas retas. Certas. Possíveis, embora prováveis.
Carrego a coragem como bandeira.
Carrego a vontade no colo. Abraço-a. Me certifico. E vou adiante. Vejo flores em cada esquina e em cada sonho meu, encontro um jarro de bálsamo.
Porque assim é o caminho. O meu caminho.
E te pergunto: Quer vir andar comigo?

* O trecho em itálico é parte da música "Sem fantasia" de Chico Buarque.

Sexta-feira, Junho 18, 2004

Primeiro Amor

Ela jurou nunca mais acreditar no amor, jurou nunca mais deixar de fazer o que ela queria. Fazer somente o que gostava.
Esquecer de uma vez por todas essa historia de Almas gêmeas. Foram 08 anos e acabou assim, sem mais nem menos.
Pensou melhor e sabia que tinha acabado por muito.
Um dia soube que ia ter uma festa de um boteco que ela passou a freqüentar. Ligou para as amigas, implorou para alguém ir com ela, precisava se divertir, não deixar amolecer para coisas de amor.
Resolveu aproveitar a vida. E aproveitou, mas sempre tinha uma sensação de algo faltando. Não estava infeliz, mas esqueceu o que era felicidade.
Já tinha desistido de ir. Já estava deitada, mas o maldito diabinho (aquele que fica do lado esquerdo do ouvido - ou será o do direito?), resolveu aprontar e, ela mesma sem companhia resolveu ir a festa.
Estava à vontade, cantando e dançando, mas faltava alguma coisa e ela resolveu prestar atenção no quê.
Ele chegou como quem não queria nada, se acomodou e quando ela percebeu já estava cometendo os mesmo erros do passado. Estava de novo falando sobre o amor, sonhando e sentindo uma certa felicidade.
Mas dessa vez era diferente, era pleno, completo. Não havia nada nele que ela desejasse modificar, nem mesmo tinha a preocupação de saber. Ela não pensava se era para sempre e no fundo sabia que não era.
Não queria que ele mudasse, o amava do jeito que ele era. Amava o cheiro de cigarro, seu amor pela boemia, seu jeito de vestir. O amava por inteiro. então ela entendeu o que era o amor.
Pela primeira vez na sua vida, estava sentindo uma calma, uma tranqüilidade. Nunca pensou que fosse assim. Sempre tinha confundido as palpitações exageradas da paixão com o sentimento calmo do amor.
Mas ela sabia que talvez não fosse para sempre, mas não tentou acorrentá-lo.
Não teve medo de aceitar o momento da separação.
Não teve o mesmo sentimento das suas separações anteriores, porque sabia que apesar deles não ficarem juntos, ela o amaria para sempre.
Essa separação não veio carregada de arrependimentos, mas de uma brisa que a deixou feliz.
Ela sabe que ele estará na vida dela para sempre e que ela na vida dele também.
Afinal, ele é seu primeiro amor.

Michelle

das coisas que a gente nao ve

Tinha 6 anos e morava em Copacabana, no mesmo predio desde que nascera. Como a rua era pequena, conhecia todos os vizinhos, porteiros, empregadas e cachorros. Somente um porteiro ainda nao tinha sido por ele conquistado. E ele se intrigava com isso.

O Porteiro trabalhava ha dois predios de distancia, na esquina. Sentado num banquinho, radinho de pilha na orelha, copo de cafe fumegante, era uma figura extremamente fascinante para o Menino. Ja tentara falar com ele, chamar sua atencao, tal qual um macaquinho amestrado, e nada. Ele continuava atento a estatica de seu radinho vermelho, inabalavel.

O Menino ia a escola, ia a praia, ia ao mercado com a mae e - com chuva ou sol, dia ou noite - o Porteiro continuava la, imovel e inacessivel, por tras das grades do predio. Queria, mais do que tudo, saber o motivo pelo qual ele permanecia la, calado e triste. Sonhava com sua voz, criava explicacoes ("e se ele for mudo?" "e se estiver a espera de algo muito importante?" "e se tiver um recado para alguem que nunca chega?" "e se...?" "e se...?"). Se indignava por nao obter um sorriso, um bom dia, uma reacao sequer, daquele que fazia e nao fazia parte de sua vida.

Foi num domingo de manha a caminho da praia com o pai, enquanto empurrava a bicicleta e convencia-o a lhe dar um cachorro, pois seu aniversario estava chegando. Ao dobrar a esquina avistou o Porteiro, que conversava e ria com o gari da rua - esse sim seu amigo! Largou a bicicleta, correu para ele e perguntou, ainda ofegante de euforia:

"Quem foi que te soltou?"

Não esperou resposta! Voltou, juntou a bicicleta caida na calcada e correu para a praia, sem saber direito como lidar com aquele misto de alivio e felicidade, euforia e tranquilidade, por finalmente ver seu amigo, o Porteiro, livre.

Quinta-feira, Junho 17, 2004

Preparação

Lembrança, esperança e peito cheio de ar e de vontade. Uma.
Sorriso no canto dos lábios. Duas.
Banho minucioso de oferenda. Três.
Corpo nu e olhos fechados no colchão, toalha jogada por cima, pernas cruzadas e cabelo encharcado e olhos fechados e olhos fechados... Quatro.
Meticulosidade e alegria de menina cobrindo a pele quente com adornos e tecidos. Cinco.
Angustiantes minutos de avaliação acerca da imagem refletida no espelho. Seis.
Ansiedade no caminho. Mãos frias. Sete.
Excitação ingênua. Oito.
Visão tua. Visão turva. Visão. Nove.
Respiração suspensa. Dez.
Coração em festa. Onze.
Infinita ternura encantada espraiada num olhar indisfarçável. Doze.

E você vai embora deixando numa mesa o buquê das mais lindas flores que selecionei para te ofertar.

Este texto não é inédito, e desculpem. Já o publiquei certa vez no meu outro blog. Mas quis dividir com vocês, pois estou até aprendendo a gostar do que escrevo, dificuldade grande para uma crítica ferrenha que tem como alvo principal a si mesma. Graças ao Dedos das Moças!

Quarta-feira, Junho 16, 2004

Ora�ão diante dos pobres de espírito

Deus, esteja comigo quando eu estiver diante dos pobres de espírito. Permita que eu enxergue toda a miséria escondida atrás de suas atitudes, que eu os veja do tamanho que eles realmente são, que eu não me intimide diante da agressão que dissimula a mesquinharia, nem diante da intriga que disfarça a inveja. Deus, dê-me clareza para perceber o infortúnio desses seres, para notar a angústia que os consome. Conceda-me calma para escutar o que realmente dizem as palavras deles. Amanse os meus instintos mais humanos para que eu possa sentir o tanto de sofrimento contido no desejo de fazer o outro sofrer. Por favor, Deus, faça-me ter humildade para admitir que já quis para mim o mesmo poder de destruição desses pobres. Deus, afaste-me da tentação de pagar com a mesma moeda. Mostre-me o quão maiores, porque verdadeiras, são as minhas conquistas diante das que esses miseráveis ostentam. Mas freie meu impulso de atirar-lhes à vista a minha felicidade. Não deixe, por outro lado, que eu lhes tenha pena, nem para humilhá-los nem para poupá-los. Deus, eu peço a suprema graça da coragem, para receber esses farrapos como pessoas. Livre-me do ímpeto do ódio e da solução fácil do desprezo. Ajude-me a estender-lhes a mão, não com compaixão, mas com o sincero desejo de acompanhá-los pelo trecho de caminho que tenhamos que partilhar. E garanta-me as forças para não cair a cada vez que eles tentarem me derrubar. Deus, deixe que eu veja qualquer quase nada que ainda haja de bom espremido em almas tão diminutas. E que eu possa, de alguma forma, estimulá-las a crescer.

Terça-feira, Junho 15, 2004

Não fale com ela

Não consigo entender. Desde criança a gente aprende que não pode conversar no cinema. Porque as pessoas continuam fazendo isso?

Tem gente que acha que depende do cinema. Francamente, eu vou tanto a cinemas do Centro quanto da Zona Sul, tanto em filmes �comerciais� quanto nos �de arte� e posso garantir não há a menor diferença nesse sentido. A sessão de �Cazuza� que vi no Palácio foi mais educada que a de �Moça com brinco de pérola� no Estação Ipanema.

Não há diferença: os homens falam tanto quanto as mulheres, os velhos matracam tanto quanto os adolescentes. Até os que vão ao cinema sozinhos, que teoricamente seriam inofensivos, às vezes puxam conversa com quem está do lado. Na semana passada vi um excelente documentário sobre Antonio Pólo Galante, o maior dos produtores da Boca do Lixo. Tinha um velho que falou O FILME TODO com um jovem que estava ao seu lado. Não adiantava fazer psiu, nem mandar calar a boca. Pensei em chamar o segurança, mas só Deus sabe quando eu poderia ver o documentário de novo... No final do filme, olhei pra ele, de pé, e dei-lhe aquele esporro! E o velho ainda achava que estava certo! O engraçado era a cara de espanto das pessoas. E ainda tem gente que acha que só o pobre brasileiro é passivo...

Uns pedem informação ao acompanhante durante o filme - �mas aquele não é o filho dela?� -; outros querem exibir conhecimento - �reparou que esse é o ator que fez o garçom naquele outro filme?� e outros, abertamente, comentam o enredo - �ai, como é que ela pôde fazer uma coisa dessas?� Enfim, não vêem, ou não querem ver, que a sala de cinema não é a sala da casa deles. Meu Deus, para quê existe vídeo, DVD???

Isso sem falar nos que deixam o celular ligado durante o filme... Aiai... Na França já existe multa para isso, sabiam? E aí, legisladores, vamos copiar?

Que fazer enquanto não chega lei nenhuma (se é que lei conserta isso)? Bem, primeiro, a gente tem que reclamar com a pessoa. Quanto mais gente reclamar, melhor. Vai, faz um �psiu�, sua boca não vai cair. Se não funcionar, ordene silêncio, olhando bem na cara. Muita gente fica com vergonha ao ver que toda a sala descobriu que era ela quem estava tagarelando.

Se não funcionar... Bom, eu, pessoalmente, acabo deixando pra lá, já que chamar o segurança me fará perder a sessão. Mas se você tiver coragem, faça como um certo amigo meu: olhe bem na cara da pessoa e diga: �você quer tomar um tiro?�

Segunda-feira, Junho 14, 2004

Da miséria nossa de cada dia

Chego correndo, junto com a tempestade. Água e vento pra todo lado. E o limpa pára brisa do carro não funciona. Faz do trânsito uma obra de arte. Apenas uma impressão difusa da realidade perturbadora. E é por isso que até hoje não o fiz arrumar. Insuportável e pueril teimosia essa minha. Des�o do carro e pe�o a informa�ão que preciso. O manobrista a tem na ponta da l�ngua. é logo ali perto. Abro o guarda-chuva, ponho a cabe�a e o resto do corpo pra fora. Segundo prédio, depois da escada, do outro lado da rua. Vou em dire�ão à tarefa burocrática que não mais pode esperar. Primeiros cinco passos. E foi ali nosso encontro. Assim. No meio da chuva. Assim. Em silêncio. Eu ali, driblando as po�as. E ele ali, driblando a vida. O rosto de um pardo pálido. De um desamparo. De um desespero. Encostado num poste. E não por tudo isso deixou de chover. Parece que de propósito, a chuva lhe caia na roupa e lhe gelava a alma desfeita. E eu com minha pressa. Insuportável. Miserável pressa essa minha. A igreja do Lgo. São Francisco, foi o fundo do nosso cenário. Como num espetáculo. Opulente. Onipresente. Como Deus. Como essa terr�vel forma que lhe deram a Deus. Como esse temor rid�culo que nos ensinaram a ter de Deus. E o homem ali. Deixando a vida passar de trás pra frente. Olhando pras formas que a água tem quando cai violenta. E eu? E minha tarefa burocrática? E meus pés molhados? E minha cal�a come�ando a gelar nas canelas? E o tempo? E o carro? E o pára-brisas? E minha casa? E meu corpo? E a tempestade? E a minha pressa? E minha teimosia? Não sei.

Naquele instante, tudo parou.

Tudo parou no dia em que vi um mendigo encostado num poste, sem for�as pra nem sequer erguer os olhos, tomando banho de chuva, em frente a Igreja do Lgo. São Francisco.

E então...Choveu dentro de mim.

Sexta-feira, Junho 11, 2004

Era uma vez...

Era uma vez uma menina que trabalhava em uma operadora de turismo. Um dia duas de suas colegas sairam de ferias e deixaram alguns de seus clientes sob sua costodia. Ela aceitou com gosto, pois tinha certeza de que poderia cuidar deles, alem de seus proprios, sem problema.

Infelizmente nao foi isso que aconteceu: os clientes das colegas sao loucos e querem mandar todo mundo para o Brasil! Os clientes dela acabaram ficando em segundo plano , pois os clientes das colegas nao entendem que ela e uma pessoa so para atender a todos!

Essa historinha toda e para justificar minha falha: a semana passou e eu acabei nao preparando nada para hoje... peco desculpas pois fui a que mais frisou que tinhamos que nos comprometer.

E agora eu preciso voltar ao trabalho.

Quinta-feira, Junho 10, 2004

Se ao menos você quisesse

Já pressinto próxima a invasão que não quer tomar meu território e me tirar a paz. Não pense que vou entregar essa batalha assim, como da última vez. Reajo, obviamente, contra suas investidas distraídas. Ofere�o à luta meu corpo e minha flor destro�ada diante de um exército de gestos banais do cotidiano. Exaurida pelo esfor�o, resisto no forte do céu negro que testemunha piedoso em seu olhar do alto, talvez um quê de compaixão - nem ouse. É o desconhecido, respondo-lhe. E, voltando-me à luta, deparo-me com aquele singular ar de desleixo acolhedor. Não, já combinamos que isso transgride as regras do jogo, nada de envolver o franco companheiro e adversário em artimanhas baratas não-intencionais. Agora que o acordo foi tratado e tudo veio a conhecimento, sinto mais mobilidade para agir. O que adianta pouco, já que, no instante seguinte, simultaneamente ou�o o estampido e sinto a mirada certeira cravar bem no meio do cora�ão, com precisão cirúrgica.
Acabou. Fui vencida. Fecho os olhos, baixando a cabe�a e duas grossas lágrimas que atravessam o caminho que lhes é esperado pela extensão do meu rosto nada mais são do que meu sangue, despudoradamente revelador, jorrando. Tal qual a presa que sucumbe diante de seu algoz antes mesmo de ser atacada, percebo minha impotência diante do sentimento arrebatador. Meu amor, já vou indo, foi tão bom te encontrar, como sempre.

Quarta-feira, Junho 09, 2004

Dias de namorados

Quando você encontrar seu grande amor, vai ser fácil saber. Seu coração vai disparar só de vê-lo, sua boca vai ficar seca, não haverá palavras para expressar tanta emoção. Um beijo vai selar esse encontro mágico. Ele vai telefonar no dia seguinte e vocês terão rapidamente um novo encontro. Depois ele vai se declarar e vocês logo começarão a namorar. Apaixonada, você não vai conseguir pensar em mais nada, vai ter certeza de que só quer ficar ao lado daquela pessoa o resto da sua vida.
Mas, e se o roteiro não for bem assim? E se for muito diferente, aliás? E se você encontrá-lo por acaso, quando não estiver querendo achar ninguém? E se for você quem ligar, não no dia seguinte, mas dias depois? E se a noite não for tão mágica assim? E se você não tiver certeza do que está sentindo?
E se não for paixão, se for algo que nem você sabe o que é, que vem surgindo aos poucos? E se não houver compromisso e mesmo assim vocês nunca deixarem de estar juntos? E se você não amar cegamente, mas for amando à medida que for conhecendo cada pedaço, cada lado, cada papo? E se ele te conquistar pelo diferente, pelo inesperado? E se você não acreditar que vá durar muito, seja lá o que for isso?
E se, quando você se der conta, ele já estiver na sua vida? E se você não souber que nome dar ao que vivem? E se não houver cobranças? E se você não acreditar que pode ser tão bom? E se um dia você perceber que não existe final feliz, porque você não precisa esperar pelo final, porque é feliz todos os dias? E se vocês tiverem que fazer um esforço de memória para lembrar a data exata em que se conheceram? E se nenhum dos dois tiver talento para declarações de amor?
E se vocês de repente notarem que o mundo todo os chama de namorados? E se você resolver comprar um presente de Dia dos Namorados para ele e escrever um cartão dizendo tudo o que nunca conseguiu falar? E se você constatar que o desejo não esfria com o tempo? E se você achar que está melhor a cada dia? E se vier mais um Dia dos Namorados? E se você começar a acreditar naquela história de ser feliz para sempre?

Terça-feira, Junho 08, 2004

A vingança de Claudinho

O Destino disse: 'você vai ser rico, mas durante pouco tempo, pois morrerá num acidente de carro...' Antes que o rapaz pudesse reclamar, ouviu o resto da frase: '...e nunca cantará na JB FM!!!'

Realmente, as vozes de Claudinho e de seu parceiro Buchecha nunca ecoaram na JB FM, nem na MPB FM, nem na Antena 1 FM, emissoras cariocas tidas como 'sofisticadas', dirigidas a um público 'classe A'. Nelas, é possível ouvir grupos considerados breguíssimos no mundo todo, como os Carpenters, mas não a sofisticação do canto de Paulinho da Viola.

Pois agora o rapaz de São Gonçalo deve estar rolando de rir no túmulo. Há dias que todas as rádios do Rio, da classe A à Z, tocam 'Fico Assim sem Você'. Nela, a bela voz de Adriana Calcanhoto, aliada a um arranjo simples e delicado, embalam o sucesso da dupla: 'Avião sem asa/fogueira sem brasa/sou eu, assim sem você...' A letra continua bobinha, mas a música, muito mais agradável de se ouvir. Assim como o sofisticado arranjo de cordas e a voz de Caetano em 'Você não me Ensinou a te Esquecer' transformou por completo o hit de Fernando 'Cadeira de Rodas' Mendes.

Adriana, Caetano, Marisa Monte, Maria Betânia são medalhões da dita MPB. E atuam na importante função de agentes legitimadores. Não gravam por imposição de gravadoras: realmente gostam dessas músicas, sempre gostaram.

Muitos precisam destas regravações para verem alguma beleza na chamada 'música brega'. Pessoalmente, sempre gostei. Por outro lado, nem todo o amor que eu tenho pela Bethânia me fez gostar de 'É o Amor': continuei achando a canção horrorosa, como todas da dupla Zezé di Camargo e Luciano. Mas me lembro de muita gente boa comentando na época: 'nossa, até a Bethânia regravar essa música eu nunca tinha prestado atenção na letra...'

Segunda-feira, Junho 07, 2004

Um choro

Eram dois. Moravam em cidades distantes, mas viviam um dentro do outro.

Ele veio.
Ela o esperou.

Ele teve medo.
Ela o entendeu.

Ele a machucou.
Ela sentiu em silêncio.

Ele foi embora.
Ela tentou esquecer.

Ele se arrependeu, pediu perdão.
Ela pensou. Perdoou. Mesmo sabendo que o perdão não adianta. E que quando a gente fere alguém, a cicatriz demora em sair.

Ele insistiu. Dizia sentir saudades. Do jeito, da conversa, do carinho...
Ela cedeu. Reencontrou dentro dela os cacos e passou dias colando um por um.

Ele ficou feliz. Estaria de volta com a seguran�a do afeto dela.
Ela o acolheu. Também sentira sua falta.

Ele veio manso. De novo. Com seu jeito menino de sempre chegar.
Ela evitou, conversou, ouviu, entendeu, e o desejou mais uma vez.

Mas ele não entendeu nada. Nunca.
Ele nunca soube o quanto ela o amara. Ele nunca entendeu que o amor dela seria talvez uma das melhores coisas que lhe pudera acontecer na vida. Ele não percebeu que ela é especial e que ele se encantou por isso. Pela singularidade dela. E ele não percebeu que ela faz falta. Ele não percebeu que poderia perde-la de vista. E pra sempre.

Como naquela noite. Em que tudo era silêncio dentro dela. E ele veio lento.
Com frio. Sofrendo de solidão e estranheza.
Ela mais uma vez, se disp�s. Foi dura, sincera e suave. Falou o que tinha que ser dito, embora doesse. E assim foi. Doeu nos dois.

Porque ele disse o que ela nunca quisera ouvir. Disse que adorava outra que não ela. Disse que sentia falta não mais do abra�o dela.
E ela não soube nem ao menos chorar dessa vez. Se calou.
Disse mais uma d�zia de frases. As �ltimas, talvez.

Ele, de novo, dormiu sem perceber.

E hoje é assim.

Recém me chega a notícia...

Ele morreu de saudades.
Ela, de desilusão.

Sábado, Junho 05, 2004

Quem vai querer?

Mais uma noite fria nesse outono com cara de inverno. Dez da noite. Passo em frente ao mercado, lembro da minha geladeira, que est� com cara de geleira, de tão vazia, tadinha... Saio carregada de sacolas, rumo a mi casa. Subo o 572, meu radinho canta pra mim: "Tranquila, levo a vida tranquila...". Enquanto tento subir as escadas, uma sacola de tangerinas rebeldes salta da minha mão e se espalha, sem piedade, por todo o coletivo. Sorrio. ?Não tenho medo da morte, não vou me preocupar...", . A m�sica continua e entra em perfeita sintonia comigo, e eu com ela. Nada como entrar em sintonia com a m�sica, o mundo, com um olhar limpo, cristalino, aquele que n?o ignora o que h� de errado, ao contr�rio, se integra a tudo, ao fluxo. Um menino me ajuda a recolher as tangerinas roladas pelo �nibus, e sorri comigo. Estou, inexplicavelmente, "Tranquila".
"Que passe por mim a doen�a, que passe por mim a pobreza, que passe por mim a maldade, não vou me preocupar" soa um pouco alienado, mas não � bem isso. � uma vontade de dar boa noite pra todo mundo que passa, um abra�o, um tudo de bom, tenha bons sonhos, abra�ar o mundo e se desprender de si, das ang�stias, vontades e bobeiras que rondam o nosso mundinho, o nosso umbigo. Eu queria mesmo era dar uma tangerina a cada passageiro em vez de coloc�-las de volta na bolsa rasgada...Faltou coragem para descontaminar as cabe�as, j� tão cheias de desgra�as e fatalidades e no m�nimo iam achar que eu era uma louca, ou ainda, uma terrorista para os mais neur�ticos (!) Em casa, em frente ao monitor, saem mais f�cil as palavras: Senhoras e senhores, boa noite, eu não estou pedindo nada, s� quero lhes desejar tudo de bom, muito amor, um abra�o mais que apertado, tenham bons sonhos! Ah, querem uma tangerina??.

PS: Os trechos em it�lico são da m�sica "Tranquilo" de Kassin, na voz de Thalma de Freitas

Paulinha

Sexta-feira, Junho 04, 2004

"Lembre-se de mim toda vez que comer churrasco"

Foi o que ele escreveu, um dia, num cartão de aniversário. Se conheceram no colégio, na sétima série. Ela, estudando lá desde sempre. Ele, dois anos atrasado em função de ter passado esse tempo na Alemanha com o pai. No primeiro dia ela foi falar com ele na hora do recreio. Ficaram amigos de cara, aquele tipo de entendimento que não dá para explicar.

Logo ja estavam sentando juntos na sala de aula, para o horror da melhor amiga dela. Passavam o dia rindo e escrevendo bilhetes para ela, que sentava na primeira fila e tinha que sair da sala para rir faz bobagens que lhe mandavam. Assim foi até o final do segundo grau.

Ela fez vestibular e foi estudar em outra cidade. Ele ficou ajudando o pai no negócio da família. Mesmo assim, ainda se falavam ao menos uma vez por semana através de cartas. Tinham inventado um código que so os dois entendiam. Mesmo que fosse escrita de forma normal, as bobagens so faziam sentido para eles. E essa era a base de toda a amizade.

Ela acabou a faculdade e conseguiu um emprego longe. Ele casou e foi morar no exterior. Ela é uma pessoa que faz tudo pela internet. Ele sequer tem e-mail. Devido as inúmeras mudancas de endereço, acabaram perdendo contato.

Seis anos se passaram desde a última vez que um teve noticias do outro - um recado na secretária onde ele dizia que ia se mudar para a Suíça e ela retornou tarde demais. Ela precisou ir a sua cidade por dois dias para resolver um problema. Voltando para casa, resolveu bater na porta da loja do pai dele que, apesar de fechada, estava com uma luz acesa nos fundos. Quem abriu a porta foi ele, que apenas sorriu e disse "e aí? tudo bom?", tranquilamente. "Tudo", ela respondeu. E sairam para tomar um café. Riram muito, como no colégio. Não falaram de suas vidas, casamentos, desilusões, profissões: só falaram as bobagens que os havia aproximado desde aquele primeiro recreio e que continuavam tendo graca somente para eles.

O café fechou, ele a deixou em casa e eles nem trocaram endereço. Não sabem quando vão se ver, pois parece que ele esta fazendo doutorado na Europa (ela ouviu dizer, mas não sabe direito onde). Mas também não se preocupam muito com isso. Esse encontro provou que a amizade pode resisistir a distância e ao tempo. Que quando se encontra uma pessoa depois de anos e há a sensação de que nao se passou um minuto sequer significa que ela já é parte de sua vida, que estará lá te esperando para o próximo café.

Ah, e ela continua lembrando dele cada vez que come churrasco.

Quinta-feira, Junho 03, 2004

A visita (in)esperada

Só quem passou pela experiência de um amor que não foi correspondido tem a sabedoria necessária para recebê-lo plenamente. É que a amarga-doce desilusão de cada ferida se transforma em palha para o ninho que se faz no coração para que nasça, enfim, a felicidade em você. Pode ser machucadinho de merthiolate ou paulada na cabeça; vão-se acumulando bônus que no fim das contas se convertem em guardar sonho pronto pra se transformar em gratidão na hora em que os dias azuis ganharem mais luz.

Pra ver gente grávida dele, é só olhar para o lado e ver uma menina com o olhar perdido e a respiração apreensiva. Perceba que cada adorno que ela põe no corpo é para que o amor a veja. Tal qual a criança que espera pelo Papai Noel, ela aguarda a visita do amor, e faz tipo de quem não está ansiosa, a tolinha - pena que ele não tem um vinte e quatro de dezembro para chegar. Até aquele prendedor de cabelo colorido que não combina em nada com a roupa quer ser visto pelo amor, e nem fica com vergonha: sabe que o amor tem uma lógica própria, capaz de ele mesmo combinar com o prendedor dos cabelos, se preciso for. Ele é um louco, isso sim.

E a graça chega pertinho, tem vezes. É um irônico quase grande dia. Os mais desatentos podem não perceber. Os mais calejados, pensam que é a loucura disfarçada e custam a acreditar. Mas, se com o esquema todo armado ele diz que vai embora, é igual a deixar de ganhar na Mega Sena por um n�mero. Você marcou na cartelinha 44 e deu 45. Ou então, marcou os n�meros exatos e perdeu o bilhete. Aí é pior, porque você fez pouco caso dele, não acreditou que iria dar. Negou a esperança que quis iluminar sua vida, e cuidado. Ele pode ficar zangado e não querer voltar mais. Quem vai entender o amor, afinal?

Quarta-feira, Junho 02, 2004

Festa de descasamento

Um dia ela acordou e disse não. Pesadelo não havia tido, tampouco insônia. Nenhuma tarefa desagradável estava prevista para seu dia. O céu estava azul, a temperatura, amena. O não era para ele. E para a vida que ela tinha com ele. Ele veio dar 'bom dia' e ela respondeu com 'nunca mais'. Acabou. Não tinha nenhum motivo especial e todos os motivos se apresentavam juntos.
A princípio, ele não entendeu. Ela também não explicou. Não sabia explicar nem para si mesma como um amor tão grande virou agressão, desconfiança, indiferença. Como a paixão vira raiva, com a mesma força? E por que ela acreditou durante tanto tempo que aquilo iria passar, por que, depois de gritar um ao outro o que nunca deveria ser pronunciado, eles voltavam para a mesma cama?
Ela só sabia que estava cansada. Cansada de chorar: amor não é para fazer sorrir? Cansada de competir: amor não é para dividir? Cansada de ter que provar: amar não é acreditar?
Ele relutou, mas foi. Enquanto ele não partia, ela pensou muitas vezes em desistir, em deixar tudo como estava, eles estavam juntos fazia tanto tempo. Mas não desistiu. E ficou com a casa vazia, o armário nu, alguns dos CDs preferidos faltando na estante, o silêncio. Precisava aprender a estar sozinha. Mais ainda: tinha que deixar de ser metade e passar a ser uma só, inteira.
E ela tinha que se enxergar, se conhecer. Anos escolhendo em dupla, ela nem lembrava mais do que gostava mesmo e do que se fez gostar por causa dele. E começou a se olhar. Cabelo, rosto, corpo, roupas. Quem eram mesmo seus amigos? E a sua comida favorita? Os filmes que queria ver, os lugares que gostaria de vistar?
Ela e o espelho ainda estão se conhecendo. Mas ela já descobriu que gosta dos cabelos mais curtos. E que fica mais bonita com cinco quilos a menos. Já se lembrou dos amigos, alguns quase nem se lembravam mais dela. Tem pego pilhas de filmes que não tinha visto. E experimentou usar esmalte colorido. Deixou de assistir a futebol. Foi jantar comida japonesa. O mais difícil é dizer 'eu' em vez de 'nós'. Alguns verbos ela, involuntariamente, conjuga no plural. Mas são cada vez mais raros. Parece que ela está começando a se amar.

Terça-feira, Junho 01, 2004

O outro

- Olha só, eu acho que a gente não tá mais dando certo. Eu acho melhor a gente se separar.

Ele olhou para ela surpreso. Menos pelo conteúdo da declaração, pois já intuía o fim há meses, mas pela banalidade da frase: a mulher cultivava a pecha de original. Seu filme favorito era tcheco. O segundo pensamento foi a cara do ex-namorado dela, que havia acabado de comprar um apartamento na Gávea. O medo da resposta quase o impediu de perguntar. Quase:

- Você já tem onde ficar?

A praticidade da pergunta a pegou desprevenida. Não que esperasse uma reação apaixonada ? ou esperava? Nos livros tem gente que fica pálida. Na vida real, só os que não gostam de praia. O homem não estava pálido: mantinha o tom saudável de sempre e a olhava com calma. Ela odiou perceber que até aquele momento mantivera a fé. Pensando na cara de satisfação que a mãe faria quando chegasse com as malas, pensou rápido:

- Vou para a casa de uma amiga.

Ele então teve certeza. Por que ela não disse o nome da amiga, se a todas ele conhecia? A imagem do ex-namorado se misturou à do sogro perguntando outro dia se eles queriam ajuda para o aluguel atrasado. Humilhado, balançou a cabeça com um meio-sorriso:

- Vai ser melhor.

O meio-sorriso transformou a tristeza dela em angústia. Certa do fim do amor, não esperava a indiferença. Mas ele não teria o prazer de vê-la chorar, não. Levantou-se e fingiu separar discos na estante.

Ele a observou de costas e pensou: vamos ver se o homem da Gávea vai aceitar esse monte de vinil que você carrega. Olhou para a nuca envolta num cordãozinho prateado e sofreu.

Ela pensou: ele já tem alguém. Alguém que gosta de caminhar com ele de manhã cedo. Ela ficou com medo de que ele notasse as lágrimas.

Mas ele já tinha ido para o quarto, esvaziar o guarda-roupa.