“Psicopatas urbanos light”
Vou a pé para o trabalho, o que me faz passar todo dia por uma infinidade de porteiros, manobristas, donos de banca de jornal e pessoas comuns que fazem aquele caminho. É natural que aos poucos essas pessoas se tornem familiares, eventualmente algo acontece e eu sou obrigada a entrar em contato com elas. E sempre acabo cumprimentando todos, pelo menos de manhã. Me sinto mal ignorando, acho uma hipocrisia, afinal de contas, eu SEI que um é porteiro do prédio tal, que fulano é dono da banca da esquina e que o baixinho é manobrista do restaurante. Pois é... é aí que começa o problema...
As pessoas não estão acostumadas a gentilezas. Um simples bom dia pode assustar um brutamontes que faz a segurança de um prédio, pois ele está acostumado a ser ignorado. A grande maioria responde e fica satisfeita, o que para mim é vantagem: conhecendo e sendo gentil com os porteiros e pessoas que trabalham na minha rua a chance de me ajudarem no caso de eu precisar é de 100%. Um dia quase fui atropelada pela van de uma academia perto da minha casa e o porteiro do prédio ao lado chamou o motorista na chincha e depois veio me perguntar se estava tudo bem. Mas há aquelas pessoas que – por algum motivo – pensam que se estão recebendo um tratamento especial. E é aí que a coisa pode virar um estorvo ou uma preocupação.
Estou com um caso assim atualmente. Se for enumerar casos que me deram dor de cabeça, esse é o terceiro. O primeiro foi um manobrista de uma clínica, na frente da qual eu passava todo dia. Ele estava sempre lendo o jornal, eu o cumprimentava toda manhã, nada de grave. Um dia ele comentou: "vi você e suas amigas lá no Largo da Carioca, você estava linda de vestido azul". Troquei de caminho por uns tempos e o problema não passou daí. Logo depois houve o porteiro da rua em frente. A mesma coisa: eu dava bom dia toda manhã, mas desta vez apenas respondendo ao cumprimento insistente dele. Dito e feito: passou a fazer observações sobre a minha casa, do tipo "vi seu gatinho tomando sol na janela", "ontem tinha gente até tarde na sua casa, né?". Quando o encontrava em outras ruas, andando, ele fazia uma festa, como se fosse meu amigo. Um dia chegou a me cutucar na janela do Garota de Ipanema. Mudei meu caminho mais uma vez. Hoje ainda o vejo, mas mantenho distância.
O caso atual é o seguinte: todo dia de manhã passo em frente a uma floricultura. Um dos funcionários é um homem de uns 50 anos, bigodudo e forte, que insiste em me dar bom dia. Eu passo em frente a essa loja quatro vezes ao dia, já que almoço em casa. Uma manhã, de bom humor, respondi ao cumprimento. No dia seguinte já começaram os comentários – que eu ignoro – "está com frio hoje, lourinha?", "quer um café?". Um dia desses, na hora do almoço, ele estava num boteco e ficou me chamando. Ignorei. A noite, quando eu ia para casa, ele me pegou pelo braço e reclamou que eu o havia ignorado. Ao que eu me desvencilhei e apertei o passo ele ainda gritou "cuidado, hein?". Foi a gota d’agua. Minha vontade era voltar e enfrentá-lo, pô-lo no seu lugar. Ao invés disso, novamente mudei de caminho para o trabalho.
Não acredito que essas pessoas farão algo contra mim, mas a gente nunca sabe. Confesso que sempre fico apavorada quando estou com um desses “psicopatas” no meu pé. Mas o que é que se pode fazer? A política do ‘se não pode vencê-los junte-se a eles’ não me parece a melhor solução. Não vejo motivo para não ser gentil com as pessoas que forçosamente fazem parte do meu dia-a-dia. Enquanto isso, espero que essa pessoa se dê conta do que acontece ou arranje uma nova vítima. É um absurdo eu ter que ficar controlando meu itinerário por causa de um desocupado que reagiu dessa forma a uma simples gentileza.
Acho que há pessoas com uma carência tão grande que um mero bom-dia de um estranho passa a ser aguardado como um momento bom. E o fato dessas pessoas serem agressivas quando tentamos romper o vínculo – que não existe! – é por não terem mais nada a que se agarrar. Acredito que isso sempre existiu, mas não deixa de me chatear o fato de eu ter que me preocupar com uma coisa que deveria ser a regra, não a exceção: hoje em dia até ser gentil com as pessoas pode ser perigoso.
Uma pena.





