Sexta-feira, Julho 30, 2004

“Psicopatas urbanos light”

Todo mundo conhece algum: é aquela pessoa estranha que tratamos com gentileza e ela passa a se considerar íntima, virando um estorvo e – as vezes – uma preocupação. Tenho o dom de atrair esse tipo de gente, talvez pela minha forma de agir.

Vou a pé para o trabalho, o que me faz passar todo dia por uma infinidade de porteiros, manobristas, donos de banca de jornal e pessoas comuns que fazem aquele caminho. É natural que aos poucos essas pessoas se tornem familiares, eventualmente algo acontece e eu sou obrigada a entrar em contato com elas. E sempre acabo cumprimentando todos, pelo menos de manhã. Me sinto mal ignorando, acho uma hipocrisia, afinal de contas, eu SEI que um é porteiro do prédio tal, que fulano é dono da banca da esquina e que o baixinho é manobrista do restaurante. Pois é... é aí que começa o problema...

As pessoas não estão acostumadas a gentilezas. Um simples bom dia pode assustar um brutamontes que faz a segurança de um prédio, pois ele está acostumado a ser ignorado. A grande maioria responde e fica satisfeita, o que para mim é vantagem: conhecendo e sendo gentil com os porteiros e pessoas que trabalham na minha rua a chance de me ajudarem no caso de eu precisar é de 100%. Um dia quase fui atropelada pela van de uma academia perto da minha casa e o porteiro do prédio ao lado chamou o motorista na chincha e depois veio me perguntar se estava tudo bem. Mas há aquelas pessoas que – por algum motivo – pensam que se estão recebendo um tratamento especial. E é aí que a coisa pode virar um estorvo ou uma preocupação.

Estou com um caso assim atualmente. Se for enumerar casos que me deram dor de cabeça, esse é o terceiro. O primeiro foi um manobrista de uma clínica, na frente da qual eu passava todo dia. Ele estava sempre lendo o jornal, eu o cumprimentava toda manhã, nada de grave. Um dia ele comentou: "vi você e suas amigas lá no Largo da Carioca, você estava linda de vestido azul". Troquei de caminho por uns tempos e o problema não passou daí. Logo depois houve o porteiro da rua em frente. A mesma coisa: eu dava bom dia toda manhã, mas desta vez apenas respondendo ao cumprimento insistente dele. Dito e feito: passou a fazer observações sobre a minha casa, do tipo "vi seu gatinho tomando sol na janela", "ontem tinha gente até tarde na sua casa, né?". Quando o encontrava em outras ruas, andando, ele fazia uma festa, como se fosse meu amigo. Um dia chegou a me cutucar na janela do Garota de Ipanema. Mudei meu caminho mais uma vez. Hoje ainda o vejo, mas mantenho distância.

O caso atual é o seguinte: todo dia de manhã passo em frente a uma floricultura. Um dos funcionários é um homem de uns 50 anos, bigodudo e forte, que insiste em me dar bom dia. Eu passo em frente a essa loja quatro vezes ao dia, já que almoço em casa. Uma manhã, de bom humor, respondi ao cumprimento. No dia seguinte já começaram os comentários – que eu ignoro – "está com frio hoje, lourinha?", "quer um café?". Um dia desses, na hora do almoço, ele estava num boteco e ficou me chamando. Ignorei. A noite, quando eu ia para casa, ele me pegou pelo braço e reclamou que eu o havia ignorado. Ao que eu me desvencilhei e apertei o passo ele ainda gritou "cuidado, hein?". Foi a gota d’agua. Minha vontade era voltar e enfrentá-lo, pô-lo no seu lugar. Ao invés disso, novamente mudei de caminho para o trabalho.

Não acredito que essas pessoas farão algo contra mim, mas a gente nunca sabe. Confesso que sempre fico apavorada quando estou com um desses “psicopatas” no meu pé. Mas o que é que se pode fazer? A política do ‘se não pode vencê-los junte-se a eles’ não me parece a melhor solução. Não vejo motivo para não ser gentil com as pessoas que forçosamente fazem parte do meu dia-a-dia. Enquanto isso, espero que essa pessoa se dê conta do que acontece ou arranje uma nova vítima. É um absurdo eu ter que ficar controlando meu itinerário por causa de um desocupado que reagiu dessa forma a uma simples gentileza.

Acho que há pessoas com uma carência tão grande que um mero bom-dia de um estranho passa a ser aguardado como um momento bom. E o fato dessas pessoas serem agressivas quando tentamos romper o vínculo – que não existe! – é por não terem mais nada a que se agarrar. Acredito que isso sempre existiu, mas não deixa de me chatear o fato de eu ter que me preocupar com uma coisa que deveria ser a regra, não a exceção: hoje em dia até ser gentil com as pessoas pode ser perigoso.

Uma pena.

Quinta-feira, Julho 29, 2004

Opcionais de fábrica

Das vantagens da modernidade.  Pense na sua tia-avó, que conheceu seu tio-avô nos recônditos de uma cidade pequena qualquer deste Brasil afora ou adentro, casou-se e foi feliz, ou não, mas para sempre.  Ainda bem que você, criatura emacipadíssima, não está fadada a esta tragédia na sua vida descolada.  Você tem toda a prerrogativa de eleger seu príncipe ou princesa encantada podendo se utilizar das inúmeras ferramentas que os novos tempos que oferecem e que dispensam maiores apresentações.  Diante de uma sem-número de opções, só cabe a você a tarefa de se deparar com a alternativa ideal para a sua vida e reconhecê-la, em detrimento de tantas outras.
Estava eu, outro dia, observando a bolsa que uma amiga usava.  Ela escolheu, entre todas as bolsas do mundo, aplicar seus reais naquela.  A bolsa me pareceu funcional e bem bonita, mas seguramente não seria ela a escolhida se a eleitora fosse eu.  Não havia nela aquela harmonia perfeita das coisas que seduzem à primeira vista, a estranha combinação de aspectos que são capazes de exercer um fascínio mortal e inquestionável sobre o objeto, e que é tão particular.  Contudo, poderia sem problemas ser uma bolsa minha, que eu usasse todos os dias para ir ao trabalho.  Qual o diferencial, então, que guarda as chaves da felicidade?
Uma pesquisa recente publicada numa revista dá conta de embasar essas minhas malfadadas linhas, produto desses questionamentos sem muito jeito de serem solucionados.  Trata-se de uma investigação que conclui que um certo número de possiblidades de escolha na vida das pessoas aumenta seu grau de satisfação, sendo que quando este número se eleva demasiado, a satisfação dá lugar à angústia e torna os seres humanos infelizes.  Quem é que nunca passou pela situação de tentar comprar um shampoo, creme para os cabelos ou corpo, carro ou refrigerante e se deparar com as mais inimagináveis variações sobre o mesmo tema capazes de confundir até o mais ortodoxo dos consumidores?
Ocorre que essa angústia reside justamente no fato de que, elegendo uma, você pretere as demais opções.  E como saber se aquela é realmente a mais adequada?  Que a outra não seria melhor?  Bom, nesse caso, é só da próxima vez adquirir o outro para comparar.  E aí passar seu tempo tentando saber qual foi o verdadeiro diferencial e continuar, nem tão menos nem tão mais satisfeito com sua vida, que segue.  Será esse um dos motivos pelos quais pessoas interessantes, afins, que potencialmente se dariam muito bem juntas, perdem a oportunidade de possivelmente acertar e se desencontram?

Quarta-feira, Julho 28, 2004

Marcele

O rosto de 22 anos parecia ter mais de 30. O corpo muito magro, as mãos enrugadas e tatuadas, o cabelo maltratado, marcas de sofrimentos que os olhos pintados a lápis não disfarçavam. Mas o que impressionava mesmo era a sua sinceridade: "Meu irmão e os amigos eram envolvidos com o tráfico, estavam num carro roubado, armados, mas se renderam. Foram executados, todo mundo viu". Marcele não pedia para que tratassem o traficante de 19 anos, criado na Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré, como inocente. Queria apenas que o vissem como gente. Comandou uma tropa de mulheres, sofredoras como ela, até a delegacia. Nas mãos, levavam todas as provas que conseguiram recolher num beco da favela onde os quatro rapazes foram mortos. Executados, corrigia ela. Uma luva que os policiais usaram para recolher os corpos, cápsulas de bala espalhadas pelo chão, até fotos das marcas de sangue ela teve a frieza de fazer. E encarou os policiais de frente.
Mas os quatro eram bandidos. E bandidos não merecem atenção. Ninguém quer saber que um dos rapazes levou um tiro na mão, que lhe arrancou um dedo, indicando que tentou se proteger. Ninguém está interessado nas horas em que os quatro, feridos, ficaram rodando dentro da viatura policial antes de serem levados para o hospital. Ninguém pergunta quantas balas cada um tinha no corpo. Ninguém acha estranho que, num tiroreio, os quatro tenham sido mortos e nenhum policial tenha saído sequer ferido. Ninguém vê que o sangue no chão do beco formava os desenhos dos corpos, enquanto a versão oficial dava conta de que eles tombaram dentro do carro. Pelos quatro, só choram as mulheres que os amavam.
Marcele não tem vergonha de ser quem é. No Instituto Médico Legal, tomou a frente para liberar o corpo do irmão. Diante da polícia, deu os nomes dos policiais que acusa de assassinos e o número da viatura em que eles estavam. Levou a repórter em sua casa e lhe entregou o filme que registrou a cena do crime depois da retirada dos corpos. Antes, ressaltou: "Não precisa ter medo de entrar lá na favela que eu conheço todo mundo do movimento". Marcele tem coragem. Só que isso não adianta nada para quem vive na Vila dos Pinheiros e tem um irmão traficante. Seu clamor por justiça é inútil. Desculpe, Marcele, eu também não pude fazer nada.

Terça-feira, Julho 27, 2004

Eu não quero morrer

Morro de medo de morrer. Sempre foi assim. Por isso olho dos dois lados quando atravesso a rua e não dirijo. Bom, não penso na morte o tempo todo, mas pelo menos uma vez por dia. Meu Deus, vai tudo isso aqui pra debaixo da terra? Meus cinqüenta e três quilos, meu cabelo comprido, meu joelho com cicatriz de queda de bicicleta? Minha mente cheia de perversões. O pior é que todo o resto continuará. O samba, o chope do Capela, o pastel de carne-seca com catupiry do Belmonte... Muita gente boa vai continuar tomando o chope do Capela. E muita gente ruim, gente que não merece nem lamber o chão de lá. Políticos corruptos. Assassinos. E eu, que nunca matei ninguém, não poderei mais beber o chope de lá. A vida é injusta. Meus livros irão para um sebo. Minha mãe não ia querer guardar aquele monte de livro. Nem os vinis. Meu pai guardaria... porque ele ama livros. Mas talvez não, por causa da culpa. Olharia os livros e pensaria que poderia ter sido um pai melhor. Ahahahaha! Na morte todo mundo vira santo. E meu marido, guardaria meus livros? Eu só me casaria com um homem que amasse os livros. Mas e se ele casar de novo? Claro que vai casar, homem não fica sozinho, ainda mais depois de velho. A mulher que ele escolher vai querer meus livros, velhos e novos, e meus vinis, irremediavelmente velhos? Talvez ela os queira, e diga: "ela tinha tanto bom-gosto..." Talvez ela o convença a se livrar de tudo. Ciúmes de uma morta! "Ocupa muito espaço, meu amor..." Filha da puta! E meus filhos, guardariam? Duvido. Esses são os maiores ingratos do mundo. Venderiam tudo por uma miséria. Ficariam só com os CD´s. Mas até lá pode nem existir mais CD. Você digita no som/micro/TV/DVD o nome de uma música e ela começa a tocar. E ainda aparece um holograma do Zeca Pagodinho sambando. Cantando "Deixa a vida me levar". Te oferecendo uma cerveja. Ahahaha. E se quando eu morrer meus filhos ainda forem pequenos? Aí a madrasta deles educa do jeito que ela quiser. Sem amar os livros. Sem amar o samba. Sem me amar. Diz que eu não prestava. E eu não poderei fazer nada! E ela vai deitar na minha cama e transar com o meu marido. Meu Deus, tomara que ele compre uma cama nova. Mas talvez ela faça questão da minha, ache excitante saber que outra mulher amou aquele homem naquela cama, naquele colchão. E eu nada poderei fazer.

Será que eu consigo puxar o pé deles à noite?

Segunda-feira, Julho 26, 2004

Confira o seu palpite

Pra vc que veio conferir seu palpite na brincadeira Pimentas Embaralhadas, aí vai o resultado:

Segunda-feira - Luise
Terça-feira - Patrícia
Quarta-feira - Mariana
Quinta-feira - Vicki
Sexta-feira - Eugenia

Obrigada pela participação dos que participaram. rs....rs...rs...rs..... 
 
As apimentadas agradecem!

Declaração de amor a um amigo secreto

 Andei pensando em palavras. Palavras para dizer ao meu amigo secreto.
Talvez uma música, já que essa língua ele entende bem.
Não encontrei. E como o objetivo mesmo é fazer alguma coisa para nosso amigo, farei então uma declaração de amor ao meu tão querido amigo secreto:

Estar com você é aproveitar a vida com toda a força. Dividir com você toda a alegria a vontade de viver, faz com que a cada dia que passe você seja imprescindível dentro de mim.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto....

O quanto cresci perto de você. O quanto aprendi com todas nossas conversas, com todas as nossas farras, com todo carinho que temos um pelo outro. O quanto você me ensinou sobre como é bom viver a vida sem medo e sem apego, o quanto é necessário acreditarmos em nós mesmos e prá mim é admirável o quanto você sempre apostou no meu trabalho.
Te agradeço por todas as oportunidades, que abriram em mim inúmeras possibilidades de conhecer outro mundo, onde as pessoas fazem da música, sua razão de viver. Com você aprendi a ouvir música de outro jeito. Aprendi a dizer o que canto, aprendi a viver o que digo, a cantar o que vivo.
Com você minha alma ganhou nova vida em momentos onde acreditava somente na escuridão da minha dor. Muitas vezes voltei a sorrir ao encontrar seus olhos.
Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar...
Muitas vezes seu abraço acalentou a saudades do mundo inteiro, que sinto de vez em quando.
Os meus braços precisam dos teus, teus abraços precisam dos meus....
O bem estar e a segurança que sinto quando estou com você, não sinto com mais ninguém. Parece que se você está junto, tudo está bem. E de fato sempre está.
Toda nossa história. Nossos segredos, nossas conversas, nosso carinho. É tudo tão nosso, tão bom que o levo dentro de mim prá sempre.
Só faltava a gente trabalhar juntos. Admiro muito sua paciência, toda a generosidade que mostrou ter com todos nós, nestes meses de trabalho. Admirei sua dedicação e esforço como se nosso trabalho fosse o único que você estivesse fazendo. Pude aprender coisas, que só aprendi com você.
Tenho a sensação de que nossa relação me mostrou outro mundo, me fez perceber a vida de outro jeito e faz brilhar em mim hoje, uma força que a tempos não brilhava.
Você vale a pena de qualquer jeito e repetirei então, para terminar minha declaração de amor, uma frase que você me disse há um tempo atrás e que encheu meus olhos de água e nunca mais esqueci: Quando estou com você tenho vontade de viver tudo outra vez.

 
Com todo meu amor, meu imenso amor,

Mariana

Há uns três anos atrás, participei de um amigo secreto, do elenco do musical no qual estava trabalhando na época. Tirei o diretor musical, que é amigo pessoal até hoje. E escrevi este texto de presente!  Hoje, depois desse tempo todo, divido com vocês...

Sábado, Julho 24, 2004

Aos nossos fiéis e assíduos leitores

 
 
Não percam na próxima segunda-feira, dia 26 de julho, a revelação bombástica do resultado do jogo "Pimentas embaralhadas". 
Venham e confirmem seus palpites!!! 
Aos novos leitores, bem-vindos e voltem sempre e muito! 


A apimentada direção agradece.
 


Por que será?

Essa pergunta é uma constante em minha vida.
Gostaria de ter respostas para tudo aquilo que não consigo representar. O amor é o "por que será"? mais difícil de todos. Sei sempre porque deixo de amar, mas nunca sei porque começo a amar. E quando me apaixono não quero saber de "por que será?"...
Mas quando alguma coisa dá errado é a primeira pergunta que me faço - até porque "por que será" só pergunto a mim mesma. Digamos, um tipo de terapia que faço. "Obviamente", é outra palavra que sempre uso para me explicar; mesmo que não seja óbvio ela está sempre no meu discurso. "Obviamente", estou falando de amor, por neste exato momento estar apaixonada. E "por que será", que estou apaixonada? Meu Deus, quanta incerteza... "por que será"? "Por que será", que emendo um relacionamento no outro? "Por que será" que não consigo ficar sozinha?
"Por que será" que sempre aparece a pessoa certa, na hora certa e disponível? As pessoas que comigo convivem costumam dizer que sou carinhosa, atenciosa e muitas das vezes ajo como se fosse uma menininha.
"Obviamente", me pergunto: "porque será"?
Será que meu jeito agrada? Será? Pensar em mudar o jeito de ser, o jeito de amar, de se entregar e de se relacionar com as pessoas é uma tarefa árdua, que me consome... quando penso que tenho que mudar algumas coisinhas, começo a me perguntar: "por que será"?
E a me responder, "obviamente"!
E não tem fim... nem meio e muito menos começo. Desde que começei a me perguntar "por que será" e a me explicar com "obviamente", tudo começou a fazer sentido pelo menos para mim, pois percebi que não tenho as respostas, não sei quem as tem, e nem sei elas existem."

Joana

Sexta-feira, Julho 23, 2004

O noivo

- Teu noivo tá trabalhando em Bangu? - perguntou a manicure, enquanto terminava as unhas de Laura.

- Não... - admirou-se a freguesa. - Tá com a borracharia do pai dele, ainda!

- É que eu vi ele ontem em Bangu - explicou a moça, tampando a acetona. - Eu moro lá, você sabe...

Laura pagou a manicure e ficou admirada. Rogério era seu vizinho, no Grajaú, e a Mecânica Três Irmãos era no bairro vizinho, o Lins. Relatou o ocorrido à mãe, dona Vera. A mãe deu risada:

- Menina, ele não pode ter um amigo em Bangu? Puxa pela memória... vai ver ele foi levar o convite do casamento para alguém!

Mas Laura estava inconsolável:

- Eu tô com ele há seis anos! Ele não conhece ninguém de lá! Eu bem que achei ele estranho nos últimos dias, mãe!

Era verdade. Rogério estava distante no último encontro. Até esquecera de lhe abrir a porta do carro!E emagrecera um pouco no último mês... Agora sabia o motivo!

- Escuta, não é fofoca da Lucinha, não? Toda manicure é fofoqueira!

- Mãe, a Lucinha é minha amiga! Duvido que faria isso comigo!

Dona Vera pensou, pensou...

- Escuta, ele já entregou o convite de casamento pra teu tio Zé?

É verdade! Há anos Laura não via o tio Zé, irmão mais velho de sua mãe, e esqueceu-se de que ele morava em Bangu - mais precisamente, na Rua Rangel Pestana. As duas riram, aliviadas. Laura começou a se arrumar para receber o noivo, que todos os dias, pontualmente às sete horas da noite, aparecia lá. Dona Vera:

- Vou ligar para a tua costureira. Esse vestido nunca que sai!

Laura recebeu-o alegremente. Rogério sentou-se no sofá e começou a contar do dia:

- Precisa ver a Variant que chegou ontem lá. Tu não acredita, Laura, linda! Como nova, só tinha uns arranhõezinhos... Taí um carro forte, pra vida inteira!

Laura servia-lhe o cafezinho, sorridente:

- E então, como estava o tio Zé?

Era impressão ou uma nuvem cruzou nos olhos de Rogério?

- Estava bem! Ficou feliz com os convites!

- "O" convite - corrigiu Laura. - Ele é viúvo!

- É, é, "O" convite - apressou-se Rogério a repetir.

Ela trouxe o bolo de cenoura que fizera de manhã. Olhou-o comendo. Parecia o mesmo Rogério de sempre: bom, honesto, trabalhador. Fã do seu bolo de cenoura. E no entanto... Havia qualquer coisa estranha ali. A boca. A boca comia tensa.

Despediram-se com o beijo de sempre, no portão. Durou alguns segundos a menos que de costume! Ou não? Laura já não sabia o que era realidade e o que era imaginação de mulher apaixonada. Conheceram-se ainda no segundo-grau; foram o primeiro e único amor da vida do outro.

No outro dia de manhã, ela não foi à faculdade. Telefonou para a mecânica do noivo às dez da manhã. Ele não estava. Como era possível? Rogério era o primeiro a chegar e o último a sair do trabalho! Pedia quentinha por telefone na hora do almoço!

Decidida, foi de ônibus para Bangu, sem nem saber direito onde ficava. Perambulou por uma hora até que se lembrou: iria à casa do tio! Tiraria a dúvida na hora! Caminhou tentando se lembrar de onde era a rua Rangel Pestana... era um prédio laranja...

E então viu... Rogério! Caminhando rápido! Seguiu- o... ele estava entrando numa rua... nome? Rangel Pestana! A rua do tio Zé! Uma alegria tão grande a percorreu que não se lembrou de mais nada. Correu querendo abraçar aquele corpo do qual conhecia cada centímetro. Como pudera duvidar dele? Claro que ele tinha ido levar o convite no outro dia... e agora, provavelmente, iria... o quê? Por que voltara ele a Bangu? E... por que estava ele com um chaveiro à mão, prestes a abrir o portão daquele prédio laranja?
Mas quando esta dúvida veio à mente de Laura ela estava muito perto das costas de Rogério. A dois passos! Sem pensar, tapou-lhe os olhos com as mãos. Com a voz esganiçada pelas dúvidas, perguntou:

- Adivinha quem é?

A voz de Rogério era clara e apaixonada, um grito de alegria:

- Vera!

Quinta-feira, Julho 22, 2004

Estranha sensação

Quando ela o conheceu o achou feio. Mas não foi só isso. Ele quis se exibir e fez uma das coisas que ela mais detesta: falou do que não sabia. Para piorar, de uma ssunto que ela dominava. Mas, por obscuros motivos, ela fingiu-se de boba e deu corda para que ele se enforcasse. Mas ele não se enforcou. Durante os poucos minutos de conversa ela ponderou e resolveu dar-lhe uma chance. Ela e a amiga estavam em uma festa de amigo-de-amigo e iam embora dali há pouco. Convidou-o para ir junto. Ele disse que não podia. Ela se ofendeu por dentro, mas não demonstrou. Ele disse apenas: te ligo para dizer se encontrei e te empresto. Era um livro sobre o qual falavam e que ele pensava ter visto na casa do pai.
 
Dois dias depois ele ligou. Marcaram um cinema, onde ele levaria o tal livro. Ela se ofereceu para comprar os ingressos antecipadamente. O filme já havia começado e ela continuava sentada no sofazinho vermelho em frente a sala, se odiando por ter caído na conversa e levado um bolo, logo dele! Mas nisso ele chegou, esbaforido, pedindo desculpas pelo atraso. Novamente ele brincou com fogo sem saber: ela era britânica no quesito pontualidade. Mas , sem saber por que, ela deixou passar e aceitou as desculpas, com um sorriso bobo e uma alegria mais boba ainda por ele ter chegado.
 
Conversaram muito depois do cinema, num quiosque da Lagoa. O quiosque fechou e eles entraram madrugada adentro sentados a beira d’água. Nem ligaram para o perigo de assalto. E a partir daí passaram a se falar diariamente, aquelas pequenas bobagens do dia-a-dia "perdi o ônibus", "tô louca de fome e não consigo sair para almoçar", "esqueci meu guarda-chuva". Ela dormia na casa dele, ele na dela. Já conheciam os amigos um do outro, mãe, pai... Foi quando o pânico a cutucou: e se esse cara resolver que manda em mim?
 
Ela estava acostumada a ser solteira e independente. Podia não sair de casa, mas a idéia de saber que poderia sair a hora e com quem bem entendesse era confortadora. Claro que queria um namorado, mas quando se deparou com um em potencial, se apavorou.
 
Começou a procurar defeitos. Mas estranhamente só conseguia vê-los quando ele não estava por perto. Bastava ele aparecer para que ela esquecesse a lista mental de problemas que apontaria para si mesma justificando suas desconfianças. Afinal de contas, ninguém poderia ser tão perfeito assim. Alma gêmea? Que bobagem!
 
Mas os meses foram passando e o que era medo foi virando prazer: ela gostava de planejar as coisas com ele. Gostava de fazer as coisas que ele queria, só para vê-lo feliz. Sentia que se conheciam desde sempre e a vida que levava antes, onde ela era o centro do mundo, parecia ter sido de outra pessoa. Se sentia tranquila em saber que, mesmo ficando em casa, poderia sair a hora em que bem entendesse para ir à casa dele.
 
"Que sensação de tranquilidade é essa?" ela pensava. Estava acostumada a angústia do "será que ele vai ligar?". Ao mesmo tempo não era a previsibilidade de um "viu? Sabia que era ele...", mas uma certeza de um "sei que está comigo".
 
E ela, sempre muito analítica, foi colocando no papel cada sentimento, cada sensação, cada sintoma. Foi aí que percebeu que não estava apaixonada: estava amando!

Quarta-feira, Julho 21, 2004

Carta secreta de uma separação

Sinto, mas não posso agora.
Sinto, mas hoje não dá pra sorrir do mesmo jeito que sempre.
Sinto, mas que dia é hoje mesmo nesse meu calendário de dor?
Eu sinto, sinto com toda minha alma, mas hoje ficará pra depois aquele abraço apertado.
Aquele beijo de amor, hoje você finge que esquece. Eu sinto, claro que sinto, mas...
Tem dias, que a gente sente assim. Desse jeito. Com medo, angústia e tristeza.
Eu sinto, meu amor, mas dessa vez não posso te dar minha mão, ouvir os seus passos se aproximando da porta e tremer embaixo do lençol como quem prevê o seu carinho. Eu sinto, sinto muito aliás, mas hoje ficará pra outro dia, pra outra hora, aquele carinho na cama de antes de dormir. Hoje eu não posso. Hoje eu pressinto o fim da nossa história, o nó do nosso amor. E eu sinto, mas preciso te dizer que mesmo esperando por você a vida inteira, hoje eu não posso mais viver ao seu lado. Não posso mais sorrir com os olhos pra todas as suas brincadeiras e passar por cima dos seus defeitos secretos. Hoje, meu amor, mais do que nunca, eu tenho que te dizer que estou indo embora, que já não posso mais viver assim ao relento da nossa história.
Sinto o frio dos seus pés mais do que nunca. Sinto a dor dos seus soluços como se fossem meus, sinto o gelo das suas lágrimas como se fossem do mundo. Mas mesmo assim, me despeço.
Porque a vida urge. Tem um sol dentro de mim querendo brilhar e o meu céu está cheio de nuvens desde o dia em que te encontrei. Porque amor é sim renúncia, mas é também prazer. Porque amor é sim compreensão, mas é também limite. E eu sei que você me ama, mas eu já não sinto mais como antes. Como naquele dia, naquela festa, naquele seu cheiro doce de perfume de flor. Vou embora, meu bem. Não olhe pra trás. Feche os olhos e abra-os novamente somente quando uma outra mão, que não a minha pousar no seu colo e desbravar o seu ventre.
Sinto, mas...
Adeus!

Terça-feira, Julho 20, 2004

Percebendo-se

A primeira vez em que ela se deu conta foi quando faltou dinheiro para cobrir todas as despesas no fim do mês. E ela mediu na prática o quão extorsivos podem ser os juros do cheque especial. Também teve aquele sábado no shopping em que ela dividiu o valor da bota linda na vitrine pelas horas de trabalho e concluiu que não valia a pena investir três dias de labuta num calçado.
Um choque foi o dia em que a mãe a chamou para pedir conselhos. E, numa inversão do papel de filha, ela ajudou a resolver o problema daquela que sempre lhe deu prontas as soluções. Quase tão estranho foi servir de exemplo para a irmã mais nova da melhor amiga, que decidiu lhe seguir os passos na profissão.
E chegou o momento em que fazer o que gostava deixou de ser o único motivo para se manter num emprego. Veio junto a constatação de que não basta ter talento para vencer. E ela começou a enxergar do que são capazes as pessoas para atingir o que querem.
Numa noite, num bar, ela percebeu que já não ficava tonta com quatro chopes. Em compensação, o sono estava vindo mais cedo. Se a mesa não era mais enorme e barulhenta, os que a compunham agora eram amigos e não colegas.
Ela achou engraçado quando começou a se desinteressar por tantas bocas e passou a desejar uma só. E se viu namorando sério, mas sem aqueles planos de se casar e ter filhos. Ao mesmo tempo, começou a se perguntar se um dia iria viver com alguém, se um dia seria mãe.
E, no seu aniversário, as velas formaram uma idade na qual ela nunca havia se imaginado. Parecia que os anos tinham passado tão naturalmente que não lhe pesavam. Não tinha conquistado tudo o que a sua ambição planejara lá atrás. Também não via no espelho as tão faladas marcas do tempo. Envelhecendo? Não, ela estava só crescendo.


Segunda-feira, Julho 19, 2004

Pimentas embaralhadas

Nova semana, nova brincadeira.  Começa hoje o “pimentas embaralhadas”, onde cada uma das moças escreve seu texto sem assinar e deixa que aquele leitor mais assíduo do blog e conhecedor do estilo pessoal de cada uma tente adivinhar quem foi a autora do texto, justificando os motivos do palpite.  Os dias de postagem, é claro, não são os habituais e todos os textos seguirão uma mesma temática.  Nenhuma das pimentas irá comentar no blog até a plublicação do último post, na sexta-feira, quando será, enfim, revelada a identidade da autora. 
  

Sintomas
 
 
Abrem-se esbaforidas as portas do pronto-socorro, de onde irrompe o branco das roupas dos enfermeiros empurrando velozmente uma maca.  Nela, jaz ardendo em danações a moça.  Sua frio, achava que só na literatura de suas estantes houvesse falta de ar, não estou conseguindo respirar.  Os raros pensamentos que eram possíveis distinguir na mente em labirinto davam sinal de pouca claridade nas idéias.  Via o teto do nosocômio (fez questão de usar a palavra rocambolesca) passar em flashes, numa mistura de lâmpadas artificiais e delírios de febre.  No peito arfante, a certeza desprovida de embasamento técnico constatável de que só uma coisa no mundo podia nela tamanho transtorno de somatização.
Com a chegada do médico com a treinada expressão no rosto de não demonstrar nenhum esboço de sentimento, ouve-se a voz apreensiva da amiga mais impetuosa, que toma a frente e deixa as outras três, chorosas, passos atrás, e lança-lhe, quase num sussurro, a questão:  “é grave, doutor?”
A pergunta típica de seriados americanos e filmes de drama fê-la rir-se toda da alucinação forçadamente provocada.  Lá vinha o seu ônibus, abaixou-se para pegar as sacolas do mercado que repousavam encostadas em suas pernas, utilizando-se da destreza que a prática de freqüentadora assídua de coletivos lhe conferia:  logo, uma por uma era incorporada ao emaranhado de alças de plástico esticado que se ia fazendo nas mãos, punhos e braços.  Subiu os degraus do veículo com dificuldade, que não foi tanta a ponto de impedi-la de, sorrindo, cumprimentar o motorista com um radiante BOM DIA!, que não foi tocado pela luz da esfuziante menina e nem se deu ao trabalho de virar os olhos e transformar minimamente sua expressão de enfado, provavelmente provocada pela natureza do trabalho cansativo, para retribuir a gentileza, o que resultou num lacônico bom dia de resposta.
Já não cabiam dúvidas.  Nestes casos, o diagnóstico é cruelmente preciso:  estava realmente morrendo de fome.  E seguiu viagem pensando na falta de gentileza das pessoas nas relações sociais e na receita que experimentaria pôr em prática para o almoço, aproveitando a delícia de ter tempo livre nas férias.

Domingo, Julho 18, 2004

Dores

Hoje eu descobri que a leitura não funciona mais para mim. Não funciona como fuga, como antes. Não consigo desligar totalmente da realidade, a cabeça trabalhando sem parar. Alguém pode dar um jeito de parar? Eu quero e não consigo. Um inferno. Quando era menor, o livro era a minha fuga. A realidade está insuportável? Um livro e a viagem da imaginação para outros mundos melhores ou piores, mas suportáveis. Era um atrás do outro – sem escolha. Primeiro, as estantes da casa: alguns clássicos, livros de português – devo conhecer todos os textos usados para ensinar interpretação. A seleção só faria sentido mais tarde, mas mesmo agora não é uma palavra que integre meu vocabulário.
Mas eu devia falar de mim. É sempre assim: quando começo, dou um jeito de escapar pelas entrelinhas e faço um discurso, corro para coisas amenas. Para mim é tão difícil, apesar de pensar, pensar e analisar. De tirar conclusões definitivas e voltar atrás dois minutos depois. De saber que, no fundo, nunca vou saber e mesmo assim ter que viver. Tateando e descobrir um porquê que, na verdade, não interessa: o fim é o mesmo. Sempre tem o fim e aí qual é a importância?
Não estou falando do depois, se é que tem depois. Não é esta a questão. O problema é o mesmo e o de sempre: pra quê? Porquê? Cada um cria ou se apropria de algo para viver. Eu mesma. É que sempre tenho dúvidas. Algumas pessoas que conheço também têm. Outras não – ou será que eu não cheguei tão dentro pra saber?
Digressiono outra vez. Não sei de onde vem a lembrança dessa palavra que eu não gosto, mas deu vontade de usar.
Falava que a leitura não é mais o meu refúgio. Eu leio e viajo; mas tenho a consciência da fuga – por isso ela não funciona. Será que minha alma se acostumou a isso? Como acontece com os viciados: mesmo com doses maiores, chega uma hora que não adianta. A alma já descobriu o subterfúgio e a angústia continua. Angustiada por que? Por algo que não consigo explicar nem para mim mesma. Tento fazer tudo certinho – planejar, executar, aprender, crescer, errar e acertar. Ainda assim a angústia está ali: pairando soberana, rindo da inutilidade desse viver-em-caixinhas. Todas as caixinhas da vida: amor, trabalho, família, sociedade, amizade, várias, várias caixinhas sendo preenchidas.
Tampouco adianta largar tudo – correr a vida solta, esquecer as conseqüências – que diferença isso faz? Neste caso, quando ela volta, a ressaca é maior. O peso da realidade estraçalha a ilusão de liberdade. Romper com a corrente, por conta própria, não é solução – é mais uma das fugas. E existem tantas, tantas. Cada uma mais desesperada que a outra.
Percebo minhas fugas e isso as torna inúteis. Por isso, busco tantos desafios. É só mais uma forma de aplacar a sensação. Por isso, o desejo de árvore – só mais um caminho para tentar acabar com a opressão no peito que não tem nome nem razão – e que vai e volta não importa o que aconteça.
E todos constroem armadilhas ardilosas para escapar a essa e a outras dores. Tão bem construídas, que elas não podem chegar. Nem elas, nem nada mais – nem o que é bom. Tentamos desconstruir, mas sofremos por ficar sem chão. Onde os espinhos tão familiares? E a ferida, querida, que latejava tanto, cadê?
Quando desfaço uma armadilha e o sangue estanca, o que vem primeiro é a perplexidade. Só muito depois o alívio. Por último, quando chega, a paz e a alegria da ferida curada. É tão fácil acostumar com o ruim. O gozo é que causa espanto e culpa – católica, como ele diria. Nossa culpa católica. Para a menina que tem medo de sentir medo e da insegurança, algumas interrogações-espinhos são necessárias.
Por que isso hoje, um domingo de sol pálido no Rio de Janeiro, curtindo a réstia de sol – momento para relaxar e não pensar? Você parece um girassol, ele disse um dia. Minha frágil corola vai seguindo os últimos raios de sol, pedindo não se vá. Fica mais um pouco. Tenho outros lugares para visitar, amanhã eu volto, não se preocupe. Eu me preocupo e sofro por antecipação. A maior parte das coisas pelas quais sofremos não acontece. Perda de tempo. Tão fácil descobrir e tão difícil agir de outro modo. Quem é que consegue com tanta vida abarrotando tudo?

Didi

Sexta-feira, Julho 16, 2004

Quando eu me encontrar (final)

Acordo com uma dor de cabeça incrível. Tateando a mesa-de-cabeceira a procura do interruptor do abajur, esbarro com meu despertador em formato de gato Félix. Peraí: eu não trouxe meu despertador! Acendo a luz e olho em volta: estou no meu quarto. Olho a hora: 07h42. Ah, nem fui ainda. Acho que sonhei com a viagem. Penso um pouco e não consigo pôr as idéias em ordem, minha cabeça lateja, como se estivesse de ressaca. Deve ter sido a janta de ontem: comer muito e ir dormir dá em pesadelo. Mas é a ansiedade que me deixa assim. Não vejo a Martinha há muito tempo, desde que ela casou, e ela disse que tem uma coisa muito importante para me contar, mas não quis dizer ao telefone. Odeio isso, melhor não dizer nada.

Bom, mala quase pronta, só faltam os últimos detalhes. Vou chamar um táxi para ir à rodoviária: detesto andar de ônibus com mala, bolsa, casaco... Será muito cedo para ligar para a Sheila e reconfirmar os cuidados que ela deve ter com os gatos? Alô? Sheila? Te acordei? Que bom! Só para te lembrar que os gatos pedem comida mesmo sem fome, não precisa ter pena. Ração está na lata verde, em cima da geladeira. E tu, vai fazer o que no feriado? Sério? Ai, então aproveita, qualquer coisa me liga! Beijo... Obrigada, vai ser sim!

Essa droga de Neosaldina que não faz efeito... Já tomei duas e nada! Estou viciada, deve ser isso. Mas só tomei dois chopes ontem, que dor de cabeça é essa? Esse casaco fica, senão a mala não fecha. Também serão só uns dias, um casaco preto basta. Ai, esse interfone me irrita! Mas não sei onde baixar a campainha! Com essa dor de cabeça, então! Tô descendo, um minuto.

Entro no táxi, nem ponho a mala no porta-malas, ela é pequena e cabe no banco de trás, ao meu lado. Detesto mala grande. Aliás, detesto mala. Se pudesse iria só com uma mochila. Mas sapatos e casacos ocupam muito espaço. Por isso que eu só ando de Havaianas, cabem em qualquer cantinho, até na bolsa. Mas no frio não dá, né? Se fosse viagem de avião essa mala iria como bagagem de mão. Tem que convencer a comissária, mas cabe naquela bagageiro, sim. Sempre tive medo de perder bagagem, ainda bem que nunca aconteceu comigo. No ônibus, mesmo uma malinha dessas tem que ir lá embaixo. Melhor pegar pelo menos minha escova de dentes da necessaire, vai que eu preciso dela em alguma parada?

Chego à rodoviária meia hora antes do horário de partida do ônibus. Sento num banco e pego meu livro para ler enquanto espero. Mas não consigo me concentrar: algo está me incomodando, me distraindo. Olho para o lado e vejo que é uma mala rosa com flores. Ela está me atrapalhando, pois está dentro do meu campo de visão. E sua estampa nada discreta se destaca. Viro um pouco de lado e pronto, sumiu. Mas algo me faz prestar atenção à dona da mala. Uma moça triste, de uns trinta anos, olha pra o chão. Nesse instante um homem chega com uma caixinha de bombons embrulhada para presente. Entrega a ela e sai, ela levanta, faz menção de ir atrás, mas apenas senta novamente, chorando baixinho, olhando para a caixa. Abre a mala e guarda-a lá dentro, num cantinho. Fosse eu, teria aberto e comido pelo menos um. Chocolate nunca deve ser guardado para depois...

Quinta-feira, Julho 15, 2004

Quando eu me encontrar (IV)

No desenrolar da tarefa, vou sentindo um desconforto no peito, uma sensação que não consigo explicar a mim mesma. Odeio não poder esclarecer racionalmente tudo o que acontece comigo – engraçado isso, é como se eu permanentemente tivesse que prestar contas dos meus sentidos. A voz incisiva que vinha do outro lado da linha não pára de ecoar nos meus ouvidos: “preciso reavê-la”. Os pensamentos me desacatam pela violência com que se impõem em minha mente e percebo estar já atirando as roupas, os objetos da outra dentro da mala, querendo livrar minha memória daquele incidente que parecia estar tendo capítulos demais pro meu gosto.
O olhar, subitamente, pousa e se deita sobre a caixa. Como que num reflexo, tomo- a nas mãos para, neste mesmo segundo, soltá-la tão logo sentir algo que meu cérebro diz, no desespero de tentar decodificar tal impressão para algo pertencente ao que prezo como meu mundo real, ser muito próximo com a de um choque elétrico. Volto-me para a mala e fecho o zíper horrorizada, decidida a esperar a pessoa que trará de volta meu sossego e meus planos para uma viagem tranqüila na recepção da pousada.
Desço as escadas com pernas que não são as minhas: parecem detentoras de uma autonomia que não lhes foi conferida em momento algum. Em meio ao que atribuo ser uma inconveniente confusão mental causada pela inusitada situação, busco ter pensamentos concretos e adequados à ocasião. “Vou telefonar para a Martinha, que já deve estar preocupada a esta hora comigo, ainda não dei notícias”, eis um exemplo de um que seria mesmo formidável se ao menos de longe me ocorre.
Ali está. Um homem sentado na poltrona de vime da pequenina sala que faz as vezes de saguão do aprazível lugar que escolhi para me hospedar. Resoluta, inspiro um ar confiante e caminho até ele.
Em segundo plano, ouço sem poder registrar nitidamente a dócil voz da senhora me comunicando que este senhor disse estar sendo aguardado por você, veio por conta de uma mala. Hipnoticamente vidrada no fundo dos seus olhos verdes que fumavam debochados um cigarro de perfume antigo, sigo-o. Com estranha desenvoltura, ele ruma para o quarto 7, abre com intimidade a porta e ordena através de um gesto firme que eu me sente na cama. Imediatamente obedecido, abre sereno apesar de muito seguro a mala florida, de onde tira, em primeiro lugar, a caixa, pousando-a sobre a colcha xadrez. Vivencio ao mesmo tempo em que reflito no quanto é fantástico poder ser tudo ser tão natural: ali já compreendera eu ser aquilo a ordem natural das coisas, era assim que tinha de ser. Logo depois, retira da bolsa a agenda. Folheia e sorri no canto dos lábios, deixando-a de lado em seguida. Agora, o sentido fazia-se para mim por completo; mas nada que signifique que eu pudesse simplesmente libertar-me das amarras que me prendiam à burocracia que podemos agora chamar de cronologia dos acontecimentos. Envolta na atmosfera de torpor que nos atava como personagens únicos de toda a vida resumida naquele ato, recebo de suas mãos a caixa, e entendo que devo abri-la. Faço-o agilmente, ainda que com solenidade nos gestos.
E o que foi lucidez revela-se assalto quando me deparo com seu conteúdo. Sinto-me perder progressivamente os sentidos até mergulhar na escuridão que, paciente, esperava-me de braços abertos.

Quarta-feira, Julho 14, 2004

Quando eu me encontrar (III)

Muito estranho andar por aí vestida de outra pessoa. Ainda mais sendo essa outra pessoa uma completa desconhecida. Acho melhor parar na primeira loja de roupas e comprar alguma coisa. Por sorte, a mochila com documentos e dinheiro foi na minha mão durante a viagem. Cidade pequena, feriado, quase não há nada funcionando. E eu ainda tenho que telefonar para a minha amiga, que me convenceu a vir passar o feriado aqui. Tantos anos sem nos ver, depois que ela se casou e se mudou para o interior. Bem, para ela não posso pedir nenhuma peça emprestada: sempre vestiu uns dois números abaixo do meu.
Ah, finalmente uma portinha aberta. Lojinha pequena, de roupas e bijuterias. E eu me lembro das minhas bijuterias queridas, nas mãos de sei lá quem. E aquele casaco tão caro que eu mal usei? Será que a mala é de alguma maluca que achou as minhas roupas mais bonitas que as dela e resolveu não desfazer a troca? Bem, vamos resolver os problemas práticos. Na vitrine há uma calça e uma camisa de mangas compridas que devem me servir. Pelo menos a calça me vestiu bem. Vou levar ainda uma sapatilha, está muito frio para ficar andando por aí de Havaianas. Saio com a roupa nova no corpo e as da mulher misteriosa num saco plástico.
Preciso ligar para minha amiga. Ela insistiu para que eu me hospedasse na casa dela, mas eu queria aproveitar essa viagem sozinha, nunca havia caído na estrada sem companhia. Queria também andar pela cidade sem ninguém para me dizer aonde ir. Mas, e se ligarem para a pousada? Meu celular não pega direito nesse lugar, a dona não vai conseguir me avisar.
Volto para a pousada. Vou aproveitar e ligar para minha amiga de lá, passo na casa dela para o almoço. Algum telefonema para mim? A dona da pousada balança a cabeça negativamente. Será que a dona da mala ainda não se tocou do engano? A minha bolsa de viagem é verde, lisa, bem diferente da dela.
Vou para o quarto esperar até a hora de ir para a casa da minha amiga. Ah, a curiosidade de revirar mais as coisas da mala jogada no canto. Bem, tenho mesmo que guardar a roupa que peguei emprestada. O que é isso? Uma agenda. Mas do ano passado? Ana Maria Arruda de Castro. E tem telefone e endereço, de São Paulo. Será que na casa dela sabem me dizer onde ela está? Corro para a recepção para telefonar. Ninguém atende. Deve ter viajado com a família toda. Não, não vou ficar xeretando a agenda da mulher, coisa mais feia. Só vou dar uma olhada na foto presa com um clip no verso da primeira página. Parece uma família reunida, mãe, pai, quatro irmãos. Dois casais. Serão mesmo irmãos? Qual das mulheres será a Ana Maria? Será que ela está na foto? E a tal caixa continua lá, embrulhadinha. E se eu descolar o durex com todo cuidado e depois colar de novo?
A dona da pousada bate na porta do meu quarto: telefone para mim. Do outro lado, uma voz de homem:
– Bom dia, eu liguei para a empresa de ônibus e me disseram que a mala eu estou procurando está com você.
– A mala é sua?
– Bem, é e não é. Mas eu preciso reavê-la. Será que podemos marcar de nos encontrar para desfazer a troca?
– Sim, mas pelo que me disse o motorista, você está a uns 50 quilômetros daqui.
– Estou, mas posso ir até aí já.
– Tudo bem, estou esperando. Você sabe chegar na pousada?
– Sei, já estou saindo.
Eu, heim? O que será que esse homem quer com essa mala rosa? Será que é dele? Bem, pode ser uma drag queen. Ou um travesti, Ana Maria. Mas a voz não era afetada. Pode ser da mulher dele. Mas por que ela mesma não me ligou? Ah, contanto que ele traga as minhas coisas de volta, pode fazer o que quiser com a mala. Aliás, melhor arrumar tudo logo para entregá-la.

Terça-feira, Julho 13, 2004

Quando eu me encontrar (II)

- O café é servido de sete às dez - informa a dona da pousada com um sorriso. É uma senhora gordinha, de olhos azuis e cabelo grisalho, parecendo avó de propaganda de açúcar. - Tem bolo, pão quentinho, café feito na hora... - completa.

Agradeço, pego a chave que ela me estende e subo as escadas em direção ao quarto 7. É simples, com móveis escuros e pesados, mas bem grande. Chego à janela: a vista dá para o quintal da pousada, em que há cavalos, galinhas e bezerros caminhando lentos, como que aproveitando o sol fraquinho.

Tomo um banho rápido e saio enrolada na toalha branca da pousada. E então... ih, esqueci! A mala! Terei que abri-la, claro... Sento na cama e começo a pensar. Será que abrir a mala dos outros é algum crime? E se ela for muito mais gorda ou mais magra que eu?

Bem, cinco minutos depois, decido: não dá para passar o dia inteiro enrolada na toalha. Quero ver gente! É minha primeira viagem sozinha, e uma das vantagens de se viajar sozinho é que se é obrigado a conversar com as pessoas do lugar. Abro a mala cor-de-rosa e...

Cruzes! Um monte de roupa colorida! Não gosto, não gosto! Sou jeans, camiseta branca... A mulher é saia indiana, blusas estampadas, um casaco grande de lã cor de vinho e um saco plástico cheio de bijuterias fajutas. Espalhei o conteúdo na cama, mas as peças eram todas no mesmo estilo. Penso, penso e opto por uma pantalona preta e uma camiseta rosa. Odeio rosa, mas pelo menos a roupa era lisa. Por sorte compartilhávamos o gosto por sandálias Havaianas: o único calçado era um par amarelo, de número maior que o meu.

Já vestida e calçada, me sentindo estranhíssima, resolvo olhar o resto da bagagem. Um livro: "O Mito de Sísifo". Um vidro de doce de leite. Uma caixinha embrulhada para presente, do tamanho de uma caixa de bombons. Sacudo: não fez barulho de bombons. A curiosidade é grande... Mas como justificar para a mulher, cara a cara, a abertura da caixa?

Desço as escadas e conto à dona da pousada que estou esperando uma ligação da companhia de ônibus. Saio para a rua: dia lindo, gente caminhando, casas coloridas, criança jogando pião. Não lembro a última vez em que vi criança jogando pião. Quero conhecer melhor o lugar, mas não consigo parar de pensar na caixa.

Segunda-feira, Julho 12, 2004

Cem Dedos

Queridos leitores,

Esta semana estaremos escrevendo um texto a dez mãos, ou melhor, a cem dedos. Como sou a primeira da semana, proponho o tema com meu texto de início. E assim seguimos até o final da semana, onde as outras pimentas darão sequencia a esta história. Um bocado divertido isso tudo! Adorei a idéia.

Portanto,

Era uma vez...



Quando eu me encontrar

Calcinhas
Escova de dente
Hidratante
Blusas de frio
Pijama
Edredon
Meias quentes
Cachecol
Casacos

Aí está. Pronta a mala com as coisas mais importantes para a viagem do feriado. Estrada tranquila, ansiedade latente. Querendo encontrar pessoas, querendo chegar depressa. Desembarco na rodoviária e recebo a chocante notícia de que minha mala foi dada por engano a um outro passageiro que desembaracara numa cidade próxima dali.

Paralisada, com ar de espanto, ensaio meia dúzia de passos em direção a saída do desembarque. Mas... E minha mala? E minhas roupas???

Volto. Paro. Colcluo que se o passageiro levou outra mala, a dele de certo está por ali. Resolvo leva-la comigo. Parece uma mala de mulher também. Rosa, cheia de flores na estampa. Enquanto não destrocamos as bagagens, poderei ser um pouco outro personagem. Brincarei de usar outras roupas? Me arriscarei a abrir o zíper? Bom, de frio não morro. Essa pessoa parece ter trazido agasalhos, pelo tamanho da bagagem.

E assim saio resabiada e inconformada da miserável rodoviária. Confesso que com um ar de curiosidade: - Meu Deus, o que será que tem dentro da mala? E como ficarei eu usando as roupas dessa pessoa? E mais... Usarei as roupas desta pessoa?

Vou a pé até a pousada que havia reservado. Ficava a um quilômetro e meio de distância, mas desfilar por aí com outra identidade guardada dentro de uma mala cor-de-rosa cheia de flores me causava enorme prazer.

Domingo, Julho 11, 2004

Com certo atraso, por conta da minha viagem à Paraty e por falta de tempo antes de cair na estrada, o texto da convidada da semana vai ao ar somente hoje. Aí está a Dulce com seu texto sobre a espera. Aproveitem e obrigada Dulce pela colaboração aqui no Dedos!

Mariana


Dois Minutos

“Calma, dois minutos e esse relógio despertará”. Correrá desesperada contra o tempo para vê-lo. Ele vai chegar hoje. Daqui a uma hora e dois minutos segundo o horário que ele lhe dera. E já se imaginava convivendo com a espera dos atrasos comuns nos vôos. Não chegou a hora, faltam dois minutos. O tempo deve ser respeitado. Depois mergulhará na tarefa que será s’arrumar, correr, pegar o carro. Deve respeitar este tempo friamente calculado ontem à noite. “O que foi que pensei?” Tudo fora organizado. A bolsa, no chão encostada a porta do armário; a roupa limpa e passada em cima de uma cadeira. Demoraria uns trinta minutos para tomar banho, vestir-se e sair. O tempo fora todo calculado para evitar ansiedade. Por que ele não passa? Toda essa ansiedade irá passar e será passado que não mereceria ser lembrado. Ela estará no aeroporto no momento final de sua angústia. O rosto dele apareceria por entre a multidão. Porém o quanto o tempo custa a passar, falta um minuto e meio para as oito horas da manhã. Por que o tempo não passa mais rápido? Talvez se não pensasse tanto...
“Por que esse relógio não desperta? Será que esqueci de ligá-lo?” Não, quando acordou certificou-se que ele estava funcionando, isso faz tanto tempo ou poucos segundos? Parece que está acordada desde ontem. Preparou-se para que o hoje não fosse tão difícil. Foi para cama às onze horas e ficou vendo um programa na tv, apenas para que o sono viesse e dormisse tranqüilamente. Revirou-se durante a noite numa obsessão pelo dia de hoje, para que o tempo assumisse uma nova dimensão. Por que não conseguiu? Até os sonhos foram entrecortados por imagens de hoje. “Mas não posso pensar no futuro, não ainda, estou proibida de pensar sobre isso como um bicho calado diante do seu medo, o meu medo é o futuro”. Se pudesse prever o que acontecerá, suspira tentando quebrar a monotonia, falta um minuto. “Por que o tempo não passa mais rápido?” Talvez se pensasse em amenidades...
E olha fixamente para o relógio em cima da mesa de cabeceira ao seu lado direito. Desvia o olhar. Incomodava-lhe esta bola redonda chamada tempo. Ao lado capta o pequeno abajur muito velho de louça pintada de um enfadonho branco, a cúpula é de um soturno verde; odiava-o, mas fora um presente de sua mãe. A frente um porta-retrato com a foto dele. Por que a foto dele ainda está aqui? Por que guardou este retrato se quer esquecê-lo, será que consegue? Todos os minutos preenchidos com ele, como uma doença que insiste em não sair de seu corpo, uma obsessão para a qual tem se preparado para vencer. “Não posso viver assim, dependente, ansiosa, infeliz”. Calma, já decidira o que fazer. Passara meses, desde o último encontro pensando em como se livrar dele, mesmo que isso significasse esquecer dela mesma já que sua existência atual era espera-lo. Agora tem que descobrir uma outra dimensão. Mas não quer pensar sobre isto agora, ela já pensou tanto sobre isto. Ela não quer pensar, por isso organizara esta ida ao aeroporto de maneira que não pudesse pensar mais; já estava tudo decidido. Por que este tempo não passa? Faltam apenas trinta segundos.
Três meses, foi o tempo que durou a vira-volta de seus pensamentos. Por que agora irá mudar seus pensamentos? Não os mudará. Falta apenas meio minuto para que o relógio desperte, a partir daí não terá tempo para pensar. Não fique nervosa; estes são os trinta segundos mais demorados, demorará mais que sua ida ao aeroporto. Por que estes vinte e cinco segundos não passam? O medo era descobrir que talvez ele merecesse uma chance, mais uma. Em apenas um segundo ela poderia mudar tudo. Fez isso diversas vezes nestes doze meses. “S’um dia ele parasse de viajar tanto...” Era sempre o argumento pensando e repetido. Não, ela não poderia desistir agora. “Tomarei um banho de vinte minutos, escovarei os dentes...” e ela continua concentrada porque imaginá-lo fará mudar sua resolução de terminar. Passará mais uma vez pela mesma coisa, a felicidade dele estar ali e a infelicidade de vê-lo ir mais uma vez partir. “... colocarei o terninho, a camisa e o sapato, fecharei a porta e pegarei o carro. Comer? Tomarei um café quando chegar ao aero...” Trim! O despertador toca enfim.

Sexta-feira, Julho 09, 2004

Amigas, amigas...

- Rosana?
(...)
- Rosana?
(...)
- Rosana, ô, Rosana, acorda!!! – várias pessoas gritavam e riam!
- Aãh? Presente, professora!

Era o primeiro dia de aula na escola nova. Estava nervosa, não conhecia ninguém. De longe, Viviane pensava "que imbecil!". Mas, como sempre fazia, foi falar com ela na hora do recreio. Já tinha sido nova no colégio há dois anos, e ninguém viera lhe ajudar a se enturmar. Conversaram pouco, mas o suficiente para se tornarem amigas. E no decorrer do ano, melhores amigas. Tinham treze anos.

No ano seguinte Rosana mudou de escola, mas esta ficava perto da casa de Viviane. Era lá que ela esperava pelo pai no fim da tarde. As férias eram passadas metade com cada família, na praia, no sítio...

O colégio acabou. Veio o vestibular. E Rosana não sabia o que fazer. Acabou prestando para o mesmo curso que Viviane. Passando, a amiga mudaria de cidade, e ela não queria perder convivência diária. Ambas passaram. E ambas se mudaram.

Alugaram juntas um apartamento, e os anos de faculdade foram melhores do que podiam imaginar. Eram mais amigas do que nunca. Estavam sempre juntas, a ponto de alguns não saberem quem era Viviane e quem era Rosana.

Ao fim do curso, Viviane conseguiu um emprego no Rio. E Rosana foi junto, conseguindo um emprego logo depois. Passaram a pagar o aluguel com seus salários: até então eram bancadas pelas famílias. E isso mudou todo o rumo da amizade definitivamente.

Ganhavam pouco, mas eram jovens e não tinham problema com isso. Aos poucos Viviane passou a ver o quanto custava cada pãozinho, cada noite com a TV ligada, cada porta de geladeira aberta. Mas Rosana não. Por ironia do destino, logo foi promovida e passou a ganhar o dobro que Viviane, que já chegara empregada. E os ressentimentos começaram. Pequenos, mas começaram.

Viviane passou a apertar o cinto: não saía muito, o banho era rápido, economizava até o chocolate (antes dava conta de uma barra em frente a TV!). Enquanto isso, Rosana conheceu várias pessoas no trabalho e saía sempre. Muitas vezes chegava de madrugada com pessoas falando alto, e acabavam comendo o chocolate ou outra coisa qualquer que tinha na geladeira. Além de acordar Viviane.

As poucas vezes que tentaram conversar Rosana disse:

- Tu tá é com inveja dos meus amigos e de meu emprego. Eles te acham uma grossa, pois tu não é capaz nem de te levantar para dar oi...

E Viviane resolveu engolir e se conformar. Não queria brigar com Rosana. Talvez ela tivesse razão. Ganhava pouco e estava extremamente insatisfeita com o trabalho. Essa podia ser a razão de sua amargura.

Até que Rosana comecou a namorar. Sossegou um pouco, ficava mais em casa, saíam os três para tomar chope, jantar. Mas algo estranho acontecia: o namorado sempre esquecia a carteira. E Viviane acabava pagando o chope do namorado da amiga, pois a conta era dividida por dois. Não era o dinheiro, era a atitude: ela não tinha obrigação de pagar o chope do namorado da outra. Mas novamente nada falou. Não queria que a amiga a achasse mesquinha. Estavam tranquilas e ela não queria conflito.

Mas um dia passou do limite: o namorado brigou com os pais – com quem morava – e se mudou para o apartamento delas, que era um quarto-e-sala. Viviane passou a dormir na sala, pois se sentia constrangida dormindo com os dois no mesmo quarto. Quatro meses se passaram e o que era para ser provisório passou a ser permanente: o namorado continuava lá, mas não pagava aluguel ou contas, muito menos trazia um rolo de papel higiênico sequer para ajudar nas despesas. Viviane já nem ficava muito em casa, para evitar de vê-los, pois já estava farta daquilo tudo.

Um dia resolveu falar. Elas brigaram e se ofenderam até não poder mais. Viviane pegou suas roupas e foi embora. Tinham vinte e quatro anos.

Uns dias depois mandou um amigo buscar suas coisas: a fechadura havia sido trocada. Ele voltou mais tarde e pegou o que sabia ser da amiga, mas não escapou do olhar desconfiado de Rosana. Ainda a ouviu cochichar para o namorado "melhor cuidar: não quero que esse guri leve um alfinete que não seja dela".

Alguns anos se passaram, elas não mais se viram. Cada uma seguiu sua vida e são felizes. Sabem eventualmente uma da outra através de amigos comuns. E hoje, quando olham as fotos, não mais reconhecem a amizade que as uniu por tanto tempo. Só ficou o ressentimento.

Quinta-feira, Julho 08, 2004

Sem ponto final

Dois meses depois. Eu me lembro perfeitamente que você me deu de aniversário de namoro, eu acho, não tenho muita certeza. Não faz mal, a gente se encontra, pode ser ali mesmo na Cinelândia, em frente ao Odeon. Quando ele chegou, com expressão indefinida no rosto, testa suada e mordendo o canto esquerdo do lábio, ela sorriu melancolicamente diante das lembranças que ele trouxera em sua inseparável mochila de couro que fora presente dela. Que vontade boba de chorar. Toda vontade de chorar assim, súbita, é boba, eu acho. Cantou na cabeça uma música para ver se espantava as nuvens e se pôs, falsamente lúcida, a perguntar. Como você está? Pergunta idiota. Tentou novamente. Está saindo do trabalho? Claro que sim, respondeu-se. Sensação ruim de que sabia tudo o que ele iria responder, ainda que as vidas já estivessem separadas. Viu que eu cortei os cabelos? É, ficou bem diferente. Ele pode me perguntar se está tudo bem na casa nova. Tudo, o pior é quando aparece alguma lagartixa. Mas não deixou que ele tomasse a frente da situação. Ah, eu já quebrei o seu cartão de crédito. Eu ainda sou a mesma, Pedro. Ele parecia não reconhecê-la, olhava-a como se ela fosse transparente: fixou um ponto imaginário para concentrar o olhar. Pensou uma coisa, mas isso não disse. O momento parecia feito de cristal. Tentou fazer graça, incrível como ela, sempre espirituosa, hoje se soava ridícula. Fala a verdade, você tentou disfarçar e ficar com ele pra você e ver se eu me esquecia... Já não bastava aquele do Cartola? Patético, tudo já passou, será que é tão difícil assim dar-se conta? O que ele estaria sentindo naquela hora? Jamais saberia, ou talvez perguntasse um dia. Que dia? Imaginava risadas descontroladas. Quem errou? Julgamento sem réus. O inexplicável, o sem-razão estava diante de suas vidas, e nada se podia fazer. Não há conselhos a dar, não há motivos a enumerar, não há nada além dessa profunda suspeita da perda de algo que sequer se tem certeza de haver possuído um dia.
Taí uma coisa que a irritava quase que todos os dias desses quatro anos em que viveram juntos – ele sempre atrasado. Vinte minutos, já é demais. Ninguém se atrasa vinte minutos; se não veio, foi por que não quis. Passou na loja de CDs e comprou um novo no cartão que chegara de manhã pelo correio. Agora ele não precisa mais me devolver o Sinal Aberto.

Quarta-feira, Julho 07, 2004

Só você dói

O dia nasceu e o sol subiu, indiferentes à sua dor. O céu coloriu-se de azul, embora dentro de você chovesse. Os carros tomaram as avenidas, as pessoas encheram as ruas, na pressa ninguém atentou para o seu sofrimento. As lojas abriram apesar de, para você, ser luto oficial. Na hora do almoço, os restaurantes se encheram de gente que não faz idéia de que você não consegue engolir nada. E todos voltaram para seus trabalhos enquanto você permaneceu imóvel. À noite, o mesmo movimento de carros e gente, indo para casa, ninguém sabe que você continua no mesmo lugar, sem ter para onde ir. E o céu se salpicou de estrelas, e a lua se arrendondou enorme, não deram importância à sua escuridão. E todos dormiram, sem se perturbar com a sua vigília.
Tudo correu na maior normalidade. Nenhuma máquina parou nas fábricas da cidade. Nenhum vôo do aeroporto foi cancelado. Nenhuma barca deixou de cruzar a Baía de Guanabara. Nenhum ônibus parou de circular. Nenhum escritório encerrou o expediente. Nenhuma escola suspendeu as aulas. Nenhum shopping ficou vazio. Nenhum trabalhador teve feriado.
Nenhuma emissora de TV interrompeu a sua programação. No noticiário, não há uma palavra dedicada a você. Os jornais também não noticiaram a sua tragédia. Ninguém comentou, ninguém ficou sabendo. Nenhuma flor deixou de desabrochar, nenhuma pessoa perdeu a vontade de sorrir, nenhuma criança desistiu de brincar.
A dor é sua e somente sua. E amanhã o dia vai amanhecer outra vez e o sol vai subir e vão todos trabalhar e as lojas vão abrir e as máquinas vão produzir e os escritórios vão despachar e as escolas vão ensinar e as flores vão desabrochar e as pessoas vão sorrir e as crianças vão brincar. E depois de amanhã e depois e depois. Só você não tem forças para se mexer, só você se corrói. O mundo vive, só você dói.

Terça-feira, Julho 06, 2004

A última noite

- Eu queria não ter que trabalhar amanhã... - ela murmurou, amorosa.
- Ainda bem que eu tô desempregado - ele riu.
Ficaram em silêncio se olhando no escuro. Tinha sido a primeira vez...
- Escuta! Você podia faltar ao trabalho... Telefona e diz que tá doente...
- Não dá - ela sorriu. - Tem que ter atestado médico... Ainda mais que amanhã é segunda... fica muito na cara...
- Eu te levo de carro cedo à clínica em que o meu irmão trabalha -planejou o rapaz. - Ele te dá um atestado, com certeza. Aí a gente volta pra cá...
- Não é melhor ligar antes pra ele?
- Não precisa. Vai ser fácil, você vai ver.

***

Chegaram à clínica. O irmão de Carlos não tinha ido trabalhar. Lilian ficou nervosa.
- Carlos, já são nove da manhã! Deixa eu ir para o trabalho!
- Não! - implorou o apaixonado. - Faz uma consulta com outro médico daqui... diz que está com muita dor de cabeça! Quero tanto passar o dia com você...
O médico que estava livre àquela hora era o dr. Rivaldo. Ele impediu a entrada de Carlos no consultório:
- Não pode, desculpe.
Lilian contou que estava com uma fortíssima dor de cabeça. O dr. Rivaldo fez as perguntas de praxe e depois...
- O que são essas bolinhas vermelhas no seu braço?
- Bem... deve ser alergia, sei lá... - Lilian nunca havia parado para pensar naquilo.
O dr. Rivaldo examinou atentamente as bolinhas, ordenou que ela se deitasse na maca e saiu da sala. Ressabiada, a moça se deitou. O que estaria acontecendo?
O médico retornou com mais dois colegas. Agora todos usavam luvas e máscara. Examinaram detidamente as bolinhas e conversaram usando termos técnicos que Lilian não entendia. Ficou nervosa: e se não dessem o atestado? Já estava atrasada para o trabalho. Pensou em Carlos, no quanto a noite tinha sido maravilhosa...
- Dona Lilian - o dr. Rivaldo interrompeu seus pensamentos - Lamento informá-la de que a senhora será internada.
- O quê??? - gritou ela, levantando-se da maca. - Eu não tenho nada! Só dor de cabeça!
Um dos médicos desconhecidos sorriu:
- A senhora aparentemente tem dermorubitose, uma doença raríssima e altamente contagiosa. O tratamento é longo e...
- Carlos! - ela gritou novamente. - Eu quero falar com o Carlos! Meu marido... - mentiu.
O dr. Rivaldo foi implacável:
- Dona Lilian, a senhora não pode ter contato com ninguém enquanto não afastarmos totalmente a hipótese de dermorubitose! É um milagre seu marido não ter sido contaminado! Se o problema for dinheiro, não se preocupe. Seu caso é raro, importante para a Medicina. Faremos o tratamento de graça.
Lilian começou a chorar.

***

A periculosidade da doença de Lilian impediu que ela se tratasse numa clínica. Ela está, há dois anos, sozinha numa ilha, recebendo remédios e comida por helicóptero. Nunca viu Carlos novamente.

Segunda-feira, Julho 05, 2004

Um encontro notável

- Moça, dá licença. Eu não quero dinheiro não.... Sabe que que é....

E eu comprei o leite ninho! É que ela queria uma lata de leite. É que ela tinha nas mãos um pacote de fraldas e nos olhos um rio de desespero. E eu me confundi toda. Achando que era assalto, que era mais uma maluca dessas sem rumo, das quais meu preconceito burguês me faz sentir medo. É que ela queria um pouco de atenção. Alguém que olhasse pra ela e dissesse que sim, - eu vou com você na farmácia comprar o leite! Que dissesse que sim, eu tenho a salvação da sua vida escondida na minha bolsa. Eu tenho as respostas pra tudo o que você quer saber e nunca se perguntou.
Ela queria alguém que olhasse pras queimaduras dela e acreditasse na sua história e que ficasse pensando um final de semana inteiro sobre como e porque ela tinha queimaduras tão profundas em todo o corpo.

Que fogo foi que te pegou desprevenida, menina?
Foi paixão ou foi fogo de palha?
Foi de agonia ou foi de torpor?
Me conta mulher, que fogo foi esse que queimou sua alma, que manchou sua pele, que ralentou o seu passo, que acanhou sua vida?
Me conta menina dos olhos grandes, mulher do corpo delgado, me conta, vai, me diz: que fogo foi esse menina?
Foi fogo arretado ou foi fogo molhado?
Esse aí que destruiu os seus ossos e parou sua vida.
Que fogo foi esse que manchou os seus pés que cansou seu caminho e marcou sua história?
Quem foi que te disse pra pular na fogueira, pra despir seu regaço e queima-lo assim? Menina, mulher atrevida, mais negra que a noite, mas pobre que sempre.

Me desconcertou. Porque eu parei como há muito não parava para ouvir sua história e ficou aqui dentro. Guardada em silêncio, querendo sair.
Pronto menina, mulher. Pronto. Aqui está seu leite. Toma teu caminho de volta. Volta pra chama que arde em você. E em mim. Volta pra essa vida de cão, que te arranca a pele, e dilacera os sonhos. Volta, minha filha. Que o mundo espera pela gente. Pelo nosso sofrimento mesquinho, pela nossa indignação cotidiana. E se precisar e só chamar. Porque dentro de mim correm rios de leite em forma de lágrima, em forma de choro, com gosto de dia, com gosto de dor, com gosto de gozo. Dentro de mim corre o leite da perplexidade. Vai menina! Corre, senão o fogo te pega!

Sexta-feira, Julho 02, 2004

Saleiros

Eram melhores amigas, Renata e Fernanda. No aniversário de Fernanda, Renata só se deu conta que esquecera de comprar um presente ao chegar no bar onde seria a festa. Não hesitou: pegou um saleiro imundo de uma das mesas e embrulhou num saquinho de pano que tinha na bolsa: esse era o presente!

Fernanda não entendeu ao abrir. Renata disse “é para começar tua coleção de saleiros de boteco!”. Ela entendeu menos ainda mas, acostumada que estava as esquisitices da amiga, agradeceu e guardou o presente.

Algumas semanas depois, Fernanda brigou com o namorado, com quem morava, vindo passar uns dias na casa de Renata. O namorado não voltou, mas as semanas que passaram juntas foram decisivas: alugaram um apartamento maior. Era bom ter companhia e alguém para dividir as contas.

Numa tarde de sábado, num quiosque da Lagoa, Renata perguntou:

- Não vi tua coleção de saleiros, cadê? Tu não trouxe?

Fernanda tinha esquecido completamente da história. Nem sabia onde havia guardado o saleiro imundo ganho da amiga, se é que guardara.

- Ah, deixei na casa do Bruno. Ele adorou a idéia e estava mais empolgado do que eu. Fiquei com pena.

Sentiu-se mal por mentir. Mas Renata acreditou, achando que ela levara mesmo a sério a história e começara a colecionar saleiros. Para animar a amiga, disse:

- Vamos começar a nossa própria!
- Vamos!

E o saleiro do quiosque foi para a bolsa de Fernanda.

A partir daí, virou quase uma obsessão: passaram a roubar saleiros não só de quiosques, mas de botecos, boates, restaurantes, hotéis... em todo o lugar que iam ficavam de olho no saleiro e 99% das vezes o levavam. Foram pegas no Cipriani, do Copacabana Palace, e passaram a maior vergonha (haviam planejado jantar lá só para roubar o saleiro!!). Fernanda foi para a Europa e trouxe alguns lindos de lá. Havia um, originário de um restaurante em Toledo, inacreditável!

Já haviam instalado prateleiras na cozinha para a coleção, que não parava de crescer. Ganhavam de amigos, parentes. Até saleiros novos – sem sal! – constavam na coleção. Eventuais paliteiros tinham sua própria área, mais no canto.

Até que Fernanda foi transferida para São Paulo. A chance era boa, o salário também e ela aceitou. Depois de comemorar a promoção e chorar a mudança, veio o dilema: e os saleiros? Começaram pelo óbvio: quem pegou qual fica com ele. Mas Fernanda era mais cara-de-pau, havia pego quase todos. Sem contar os da Europa, todos dela. Resolveram então que cada uma escolheria dez. Os demais seriam distribuídos entre os amigos.

E assim foi. Fernanda está em São Paulo, Renata no Rio. Continuam amigas, mas a história dos saleiros perdeu a graça. Cada uma tem seus dez, guardadinhos numa caixa. Nunca mais roubaram nenhum. Mas toda vez que se deparam com um exemplar digno de estar naquela prateleira, ligam uma para a outra, lamentando o fim da coleção.

Quinta-feira, Julho 01, 2004

Sem trancas

Quer ver o caos se instalar por definitivo em sua vida? Experimente pegar a outra chave. E veja como uma solução, mascarada de simples, pode alterar uns detalhes em sua biografia. Você chegou da rua cheio de sacolas nos braços, abriu as portas com dificuldade, jogou as compras em cima de qualquer lugar, displicentemente e... aí está a chave para toda a desordem em que se transformará seu íntimo, o seu mais profundo, as entranhas de seu ser a partir de então. Ou melhor, o pior ainda está por vir, veja mais. A carteira foi parar em cima da pia da cozinha, o seu celular, que tocou (como eles são óbvios, meu Deus) enquanto você não podia atender – ainda estava no sexto andar! – subindo as escadas, o elevador está em manutenção, entrando em casa, abrindo a porta, não está vendo?, você pegou para ver quem era enquanto ia em direção ao banheiro. Não, é melhor ligar primeiro de volta para ela, o que será que ela quer ligando assim no meio do dia, não estaria no trabalho, por que a chamada proveio do celular? E aí, aproveitando o ensejo, você pega um copo d´água e leva a carteira para o banheiro, mas deixa o copo ao lado do telefone, que toca. “É o senhor Mauro quem fala? Boa tarde, o senhor acaba de ser contemplado pela promoção de assinaturas do Jornal do Brasil, que, por tempo limitado, está oferecendo aos seus clientes especiais...” Não, muito obrigado, não, eu não estou interessado, obrigado, mas não, EU NÃO QUERO PORCARIA DE JORNAL NENHUM! VOCÊS SÃO TODOS UNS BABACAS E ESSE JORNAL ANDA MESMO UMA MERDA! O MATERIALISMO HISTÓRICO... Tenha um bom dia, senhor. Corta para o celular: o telefone de casa estava ocupado, com quem você estava falando? Olha só, depois você me explica, agora você vai ter que vir aqui me buscar, que a gente vai na casa da mamãe, que passou mal e vamos ter que pegar a Lili lá para levá-la ao hospital, mas se ela não puder dormir lá hoje a gente vai ter que ficar... Tá, já estou indo.
Não ria, é sério: soa a campainha. Mas vocês não disseram que só ia dar para vir amanhã? É que eu tive um serviço aqui nessa rua daqui de trás, que foi rapidinho, aí deu pra adiantar. E como o senhor ligou dizendo que estava sem gás em casa, e deu essa folguinha, o que a gente puder fazer adianta logo o lado do senhor, e o meu também, né, menos um compromisso pra amanhã, que é sexta... Tudo isso você ouve por trás da porta, uma vez que se encontra momentaneamente impossibilitado de abri-la, por motivos que até o leitor menos atento já pode imaginar: não tem a menor idéia de onde deixou sua chave que usou para abrir a porta quando chegou da rua, ainda há pouco. Ela esperando, o cara do gás na porta, cadê a chave, cadê a chave...
(Congela a cena. Abrem-se as cortinas e entra um magrela narigudo algo careca com cara de galã dos anos 40 de smoking, voz macia de locutor de rádio, recitando:) E é exatamente aí que entra em cena a chave reserva. Tudo é falaciosamente simples: todo mundo tem uma chave reserva de casa guardada, não? (Close na mocinha na platéia meio hipnotizada, com olhar entre um curioso e prosaicamente embasbacado. Isso sem falar nos cabelos que, se a escritora for razoavelmente boa, dispensa comentários, pois vocês já deverão a esta altura poder imaginar) É claro, você vai pegar a chave reserva tão logo se lembre onde ela está guardada. Uma bomboniére, uma gaveta da estante, uma cristaleira, o telefone tocando, você encontrou. Abriu a famigerada porta. Entrou o maldito homem do gás. Está consertando o desditoso vazamento. Vou ligar para aquela histérica para avisar que já estou saindo.
Agora são dois molhos de chaves. O primeiro desaparecido, é claro, está em cima da mesa de centro olhando para você e rindo, rindo: mas está brincando de invisível. O outro, danadinho, agora resolveu se esconder, hihihi. É lógico – pensem comigo – a porta está trancada. Resolveu sair mesmo assim. Pela janela.