Terça-feira, Agosto 31, 2004

Orquestra Imperial: o melhor de tudo

No mundo tem muita música boa. Muita, muita... Não entendo, por isso, quem só gosta de um estilo. Quem é só roqueiro. Quem é só funkeiro. Quem é só samb... não, dificilmente alguém só gosta de samba - tem sempre um choro, um forró, uma "mpb" ao lado; o samba é uma paixão que nos mantém abertos, generosos.

Mas, me perco. Vamos voltar à noite de ontem, em que fomos, eu e a amiga Luise, assistir ao show da Orquestra Imperial. Na entrada, um susto - tocava funk! "Moço, hoje é a noite da Orquestra, mesmo?" "É, sim, é que tá na hora do intervalo." Depois, outro susto - Rubinho Jacobina, meu vizinho de prédio, havia se esquecido de colocar meu nome na lista de convidados - e eu tinha falado com ele no dia anterior! O promoter, gentil, ofereceu desconto na entrada para nós. Aceitamos - afinal, já estávamos lá...

Começamos a dançar; os funks do intervalo são irresistíveis, clássicos: "Ala la ô... ala lauê, deixa de ser violento e deixa a paz renascer, ê ê..." A juventude dourada dança alegremente e canta todas as letras. Digam o que disserem, o funk deixa esta cidade menos partida. Metade dos presentes é formada por playboys, muito, muito parecidos entre si. A outra metade é de "alternativos", muito, muito parecidos entre si. Em qual rótulo estamos?

Começa o show. Rubinho - ele mesmo, o desmemoriado - canta uma música que não conheço, com letra surreal e balanço delicioso, meio Jorge Ben - sim, Beeeen... No palco, reconheço alguns rostos - um do caras do trombone, um integrante do Los Hermanos, Kassin, Moreno Veloso (que estudou no meu ex-colégio, CEAT)... Todos os músicos são excelentes. Rubinho manda outra, com suíngue igualmente gostoso e letra espertinha: "Nega... vem me tirar do varejo..."

As músicas se seguem, de estilos, épocas e sonoridades variadas, tendo em comum apenas a qualidade. A megaromântica "Love me", a cinematográfica "Be my baby" (lembra? era da cena sexy de "Dirty Dancing"!), a nostálgica "C´est si bon", as calientes "Cachito" e "Perfidia" e... o samba, claro, que eles não são bestas, né? Tinha Zé Kéti, Elton Medeiros Dona Ivone Lara... Há arranjos surpreendentes, como música "lenta" com cuíca!

Dá pra dançar junto, dá pra dançar sozinho e dá pra ficar só assistindo, se maravilhando com o tanto de coisa boa existe no mundo.

Segunda-feira, Agosto 30, 2004

Desabafo

Às vezes tenho a sensação de estar velha...
E o que acho mais curioso é que tenho só 26 anos. Já tive essa sensação em outras idades. Sempre tive um pouco a mania de ser mais “madura”. Nem sei se é mania, talvez eu seja mesmo, mas acho isso um saco! Sempre achei!

E nestes últimos tempos, mais ainda. Quando a gente tem 20 anos, ou 18, é tudo tão fácil. A gente quer tão pouco da vida, porque a conhece ainda pouco, porque não sabe ao certo todas as possibilidades que ela nos oferece. Com a descoberta desses novos portais, parece que tudo “perde um pouco o encanto”, melhor dito, tudo muda. Ganha outra roupa. Uma roupa mais real, menos fantasiosa.

Quando a gente é responsável pela manteiga na geladeira, a gasolina no carro, o bom resultado na faculdade, o sucesso no trabalho, a busca de um relacionamento amoroso satisfatório e a realização espiritual, dentre tantas outras coisas, parece que a vida perde o sentido. Ou ganha sentido?!? É, ando confusa, mas talvez a vida ganhe sentido mesmo.

Mas é tão bom ter 18 anos. Bunda e coxa de 18 anos. Olhos de 18 anos, desejos de 18 anos, namorado de 18 anos, responsabilidades de 18 anos. Como é bom! E como os meus foram bons. Vivia apaixonada por qualquer menininho bonitinho de por aí. Estava descobrindo a música e toda força que ela tem na vida. Fumando maconha, fazendo sexo sem compromisso e com muita “seriedade”. Amando intensamente, sem perceber que isso não é assim tão importante na vida da gente. Com 18 anos, eu dava uma importância ao amor na minha vida, que agora não dou mais. Talvez por ter descoberto que o amor é apenas um pequeno pedaço da nossa trajetória. Mas que não é o único. Que a realização no trabalho, as vezes é tão prazerosa quanto uma relação afetiva.

Porém, ter dezoito anos tem seu desespero. Um desespero apertado no peito, do não saber o que fazer, uma angústia existencial de não saber direito para que servem o mundo e a vida. Um medo mascarado do futuro.

Hoje, quase dez anos depois, ainda tenho um pouco de medo desse futuro dos 18 anos. Mas ando mais tranqüila. Porque sofri um bocado, porque os dezoito anos me ensinaram muita coisa. Principalmente aquelas que não devo repetir. Que a gente faz quando tem essa idade danada, do encantamento, do riso fácil, do sono de anjo, da despreocupação como palavra de ordem.

É difícil ver o tempo passar. Ando pensando nisso. Tenho a plena consciência de que vivo intensamente cada pedaço meu, e que tenho sabido aproveitar as oportunidades, meu potencial, meus amores, tenho levado adiante meus desejos, e realizado sonhos, um atrás do outro.

Agora quero a sorte de um amor tranqüilo, um sossego de domingo na cama, abraçada com meu amor, que ainda está por vir. E que me ensinará sobre o amor sem apego, saudável, sincero. Eu quero.

Esta é a minha semana TPMêmica. Talvez um texto assim refletivo, com um quê de auto-biográfico, ou talvez totalmente expositivo. Mas é assim.

Tem dias que a gente ta a fim mesmo de falar assim. Como que procurando ingenuamente, um sorriso de mãe, que diga: - Calma, tudo vai passar!


Sexta-feira, Agosto 27, 2004

A Carta - parte final

Augusto lá em cima, esperando sabiamente ao som de um LP velho desses da Bossa Nova: “São demais os perigos dessa vida, pra quem tem paixão...” Deitado no sofá. Com a cabeça no nada ou talvez nos olhos cor-de-mel de Alice sorrindo marotamente depois do sexo.

E lá embaixo o rebú armado. Um corre-corre desgraçado, a tia Dulce gritando esbaforida, o primo-caso-amante-irmão de Alice ali parado. Estático. Suando frio! O que está havendo com esse mulherio?!?

Alice aos prantos. Misto de desespero, pânico, medo, revolta. Porque a mãe fora tão cedo? Justo naquele dia? Naquela hora? Daquele jeito? Quanta culpa meu Deus, quanta culpa!

Um ponto final.

E Bárbara derruba uma lágrima que borra as letras escritas à caneta tinteiro. São duras as palavras, é triste o momento e falta mesmo coragem pra se despedir. A doença corrói os ossos, arranca o fio de força vital pela raiz, aniquila qualquer possibilidade de retomada, de reconciliação, de tentativa.

Bárbara levou a vida sempre de maneira tranqüila. Talvez um pouco despreocupadamente. Mais do que se é necessário para evitar que essas coisas aconteçam na vida da gente. Que o ponto final chegue na hora errada, no momento impróprio, quando a filha está longe, sem saber de tudo, quando a solidão destrói por dentro, quando ainda há um longo caminho...

E ainda assim, ali com a caneta na boca, um cigarro acesso sendo tragado aos poucos, já que é esse o único, se é que se pode dizer, prazer que tem Bárbara na vida, ainda assim existe a vontade de dizer tudo isso à Alice. Coisas que o coração acanhado, a educação autoritária e o medo de amar fizeram com que Bárbara nunca dissesse a sua única, inesperada e tão desejada filha. "Porque tú fostes pra mim meu amor, como um dia de sol"

E agora estava tudo escrito, registrado.

- Posso morrer. Apenas preciso que esta carta chegue às mãos de minha filha. Talvez Dulce, minha irmã confidente possa entregá-la, sem abrir o envelope. Alice precisa saber e eu preciso dizer. É quase como se me afogasse nisso tudo.... Outra lágrima.

Minha filha querida,

Podes ler palavras de uma morta. Que em vida não disse o que aqui te escreve. Sinto dor por todo o corpo, como se me arrancassem aos poucos o que me resta de brilho, aliás, existirá brilho ainda nos meus olhos? Como no dia que você nasceu, tão bonitinha, pequena, chorona, cabeluda e de bochechas rosadas.

Escolhi Alice. Pelo Lewis Carroll mesmo. Por ele ser minha paixão e porque sempre desejei que vivesses num país ou mesmo num mundo maravilhoso. Porém desejei em vão. Pois a vida é imensa e o mundo bruto com aqueles que como você, têm o dom de viver a felicidade.

E assim sempre o desejei, embora não pareça. Sempre ao abrir os olhos todas as manhãs, desejei que você tivesse o que de melhor existe, assumindo enfim que o meu amor velado, minha admiração secreta, seriam coisas que eu talvez nunca conseguisse fazer com que você soubesse.

Assim como nunca pude te falar sobre seu pai. Quem foi esse homem que virou minha cabeça do avesso, que despedaçou meu corpo e alma, que invadiu minha vida. Foi esse homem, Alice, que te trouxe ao mundo junto comigo. Apenas uma noite, um minuto, um segundo de prazer infinito, que se traduziu em uma pessoa como você.

Pela fama que teve, seu pai, nunca assumiu nada. Nem a mim nem a você. Vinicius era um boêmio, um ébrio, um poeta. Amava a vida mais que tudo. Sua vida, seu mundo. E assim foi. Nem seu sobrenome, nem uma canção. Vinicius nunca fez nada pela gente. Veja que lindo seria Alice de Moraes!!! Que lindo seria um sucesso com nossos nomes, um poema de amor eterno à sua filha dos cabelos com cheiro de flor! Nada. Nunca.

E por isso escrevo. Porque sinto que já é hora de compartilharmos este segredo. É hora de apagar a luz da vida que há em meus dias. E estou indo embora. Mas não irei serena sem antes de te contar este segredo e te dizer que você foi o melhor que poderia ter me acontecido. Com você aprendi, mesmo sem fazê-la notar, a sentir amor. Por você e por mim. Você me ensinou a ter um motivo, um porquê, um querer que durou muito até se esgotar. E tudo isso foi por você.

Continue sempre assim, minha mais preciosa jóia. Que eu de onde estiver, estarei sorrindo sempre e pensando em ti.

Com amor,

Sua mãe

Na delegacia a bolsa escancarada encima da mesa do delegado bigodudo e carismático. Uma simpatia o seu Gilson! Litros de água com açúcar. O ventilador de teto rangia prá quase despencar. Tia Dulce mais calma, o primo-amante menos pálido, o trombadinha com a cabeça entre as pernas, descabelado e com a camisa toda rasgada, tal fora a força usada pelo jornaleiro para impedir sua fuga.. E Alice com envelope e carta na mão. Leu. Sorriu. Ensaiou um choro pueril não sem antes perguntar plácida e segura, acalmando a suposta futricagem a respeito do conteúdo do envelope:

- Podemos ir embora? Augusto está me esperando!, deixando claro que era dele que ela sentia saudades, era ele quem ela amava e era pra ele que ela revelaria seu segredo.

Assim. Com uma explosão secreta de emoção e contentamento. Filha de Vinicius de Moraes e agora órfã. Mas que honra! “De tudo ao meu amor serei atento...”

E guardou a carta bem guardada. No fundo da gaveta mais perfumada de todas. Lá, bem embaixo de tudo. Porque o amor, quando a gente sente de verdade, tem que ser bem cuidado, mesmo que num dia qualquer e com o passar do tempo, as folhas e as letras se desgastem. Tem sim que ser guardado como um segredo. No fundo do peito!

Quinta-feira, Agosto 26, 2004

A carta IV

- Eu vou com você!

Era João, que já pegava a mãe pelo braço e a conduzia até a porta. Alice, confusa, não sabia se dava atenção a Augusto, que segurava um vasinho de violetas, ou se tentava impedir a saída da tia e do primo.

- Augusto, senta um pouquinho que eu vou acompanhar a tia Dulce até lá embaixo e já volto.

Mas também não queria ficar resolvendo assuntos de família em frente a Augusto. Estavam juntos faz tempo, mas como não sabia o conteúdo da carta, queria estar a sós para analisar com clareza o que quer que sua mãe quisesse lhe dizer postumamente.

No corredor, fechou a porta atrás de si e pegou João pelo braço:

- Você e sua inconveniência natural!
- Não tenho culpa se você não tem coragem de assumir seus atos!

Tia Dulce nada entendia, e estava exausta. Só queria ir para casa. Aquilo tudo estava sendo muito desgastante e ainda por cima não tinha conseguido entregar a carta e tirar esse peso dos ombros. Por que aceitara essa condição maluca imposta por Wilma? Não tinha nada a ver com a história e sempre fora contra esse segredo, queria que a irmã o revelasse antes que tudo acontecesse.

Foi descendo os três degraus do hall do prédio, chegou a calçada. O apartamento de Alice estava abafado, ela tinha mania de não abrir as vidraças. Respirou fundo e fechou os olhos, tentando relaxar um pouco. Foi quando passou um trombadinha e arrancou sua bolsa, levando documentos, dinheiro, celular e... a carta!

Quarta-feira, Agosto 25, 2004

A Carta III

- Mãe, o que você está fazendo aqui?
Ela quase nunca saía, muito menos depois da morte da irmã. E nunca se dera muito com a Alice, João até evitava tocar em seu nome em sua presença. Motivos sobrando para que o moço pusesse - tão expressivo sempre – feição de embaraço no rosto angelical.
Alice puxou-o pelo braço, deu três passos largos em direção à cozinha e, com voz enérgica apesar de sussurrada, faiscou:
- João, você não ia passar aqui só depois da faculdade? Você não sabe que hoje é dia do Augusto voltar de Teresópolis e que ele sempre passa aqui em casa?
- Mas é que me ligaram avisando que não ia ter a aula do primeiro tempo, resolvi vir direto, não ia pra lá ficar esperando até oito e vinte pra segunda... Mas o que minha mãe está fazendo aqui?
- Ela disse que tem uma coisa importante pra me dizer, – segurou o primo com as duas mãos - você sabe o que é? Sabe de alguma carta da minha mãe?
- A carta... – não pôde conter seu corpo, que se empertigou estranhamente, como num reflexo das palavras que acabara de ouvir.
A campainha, em sua inconveniência contumaz, soou. Meio tonta e inteiramente confusa, Alice correu até a porta, com uma mão na testa e tentando sem sucesso pensar em como explicaria aquela casa cheia de gente – cheia do João, a quem ele odiava sincera e justamente – ao Augusto.
- Boa tarde, ou melhor, boa noite, já é boa noite, né?
Até o atrasado do namorado chegara antes da hora. Já deveria desconfiar que aconteceria isso, uma vez que é sabido que as coisas estranhas acontecem numa precisão própria e inverossímil.
- Bom, eu volto aqui outra hora – levantou-se tia Dulce.
Era só o que faltava! – fez Alice com um suspiro. Ir embora sem explicar que história de carta era aquela! Ensaiava grandes atos, ao mesmo tempo em que não conseguia frear os pensamentos que insistiam em ir para longe. Tinha recordações muito vivas da mãe. Veio à sua mente como um relâmpago o dia em que insistiu tanto para que ela escrevesse uma dedicatória no livro com que presenteara Alice num aniversário. Para que a filha adolescente não começasse com mais uma das crises típicas, desenhou as palavras tímidas na contracapa: “Com carinho, da sua mãe, Wilma”. Essa era a única memória escrita, que se lembrasse, que tinha dela. Não era dada às letras.

Terça-feira, Agosto 24, 2004

A Carta II

Dulce desabou no choro. E Alice não sabia se consolava a tia ou se a sacudia para que ela falasse logo que carta era aquela. Num segundo, a moça lembrou dos últimos momentos com a mãe. A doença, rápida e devastadora, a falta de coragem para se despedir, o sorriso da mãe sempre que a via. A mãe nunca falava em morte, talvez porque notasse que o assunto incomodava a filha. Nunca disse "adeus", nunca pediu para que a filha única se cuidasse. Parece que até o momento de partir ela escolheu: um fim de semana em que Alice cedeu aos apelos dos amigos e decidiu viajar para arejar a cabeça. A mãe se foi no domingo, quando ela estava na estrada, com o celular fora de área.
Nunca foram muito próximas, menos ainda confidentes. Alice sempre se identificou mais com o pai, separado da mãe desde que a menina tinha cinco anos. Nos últimos anos antes de a mãe adoecer, era com ele que Alice estava morando. A mãe dividia o apartamento com a tia Dulce. Alice ia lá quase todos os dias, mas nunca se sentiu realmente à vontade. Intimidade, só com o pai. Era ele sempre o primeiro a saber das novidades dela. Era a ele que ela pedia colo. Depois da morte da mãe, no entanto, achou que era a hora de aprender a viver sozinha. E alugou um pequeno apartamento, a uma quadra do pai.
Tia Dulce era sua madrinha, mas Alice nunca a chamou assim. Sempre achou a mulher meio esquisita, muito fechada, muito caseira, parecia tão solitária. Tão diferente da mãe, que adorava festas, tinha um grupo enorme de amigos, teve vários namorados depois da separação. Mas a mãe e a tia eram inseparáveis desde que Alice se entendia por gente. Entendiam-se no olhar. Logo, a tal carta devia mesmo ser algo muito importante.
- Tia, calma, pára de chorar. Cadê a carta, está aí com você?
A campainha. João. Mas ele chegou cedo! E agora?

Segunda-feira, Agosto 23, 2004

A carta

O telefone tocou assim que Alice entrou no chuveiro. Enrolou-se na toalha e correu para a sala, molhando o chão.

- Alô? Ah, oi, tia... Não, não, estava no banho. Ahn... hoje? É que eu tinha um compromisso... bom, então tá, às cinco está bom. Beijo.

Desligou o telefone aborrecida consigo própria. Por que não conseguia dizer não? Nem nãos grandes, como pedir demissão, nem nãos pequenos, como dizer à tia Dulce que não, não poderia recebê-la às cinco porque o namorado chegaria às seis.

Às cinco e dez, a tia apareceu. "Ela está tão parecida com a mãe...", pensou Alice. A mãe da moça falecera há um ano e Dulce, embora fosse mais moça, parecia mais velha que a morta. Beijaram-se. Dulce sentou-se no sofá vermelho, muito reta e séria.

- Tia, quer um suco, água, alguma coisa? Vou fazer um chá pra mim.

- Não, querida - sorriu de leve - E o Augusto, como vai?

- Tá bem; à noite ele vem pra cá.

Alice preparou para si uma xícara de chá. Na cozinha, estranhou o silêncio da tia. Depois do falecimento, andava muito estranha - normal, não? Minutos depois, a moça sentava-se no sofá com uma xícara de chá. Antes que pudesse falar qualquer coisa, Dulce olhou-a firme e disparou:

- Alice - o tom de voz era alto. - Eu fiquei te de dar uma coisa, desde que a sua mãe morreu.

A moça levou um susto. Depois de todo aquele tempo?

- Dar... o quê?

A mulher olhou para o lado, mexendo no próprio brinco.

- Uma carta... é que... eu só podia te mostrar depois que ela morresse...

- Tia, que carta é essa? - agora era Alice quem quase gritava.

Dulce abaixou-se, encostando a testa no joelho. A voz soluçava:

- Alice, Alice... é tão difícil!

Um milhão de dedos

Amigos, atendendo a pedidos, nesta semana tem nova edição do "Um milhão de dedos"! Eu começarei a contar a história. Daqui a pouco o texto vai para o ar; aguardem!

Sexta-feira, Agosto 20, 2004

Dia de Folga

O sol entrou devagarinho pela persianda. "Oba, um dia lindo pela frente!" Eram sete horas da manhã e ela estava feliz de ter dormido cedo e acordado disposta, torcendo por um dia de sol. Ultimamente torcia para que os finais de semana fossem nublados para que ficasse sem culpa na cama, dormindo e acordando dia todo. Mas hoje não: fizera mil planos para o dia e assim que fosse um horário decente para ligar para as amigas ligaria – sabia que era a única a estar acordada àquela hora de um Sábado.
Ligou a TV, procurou algo e não achou nada de interessante. Levantou, preparou um café, abriu a janela do quarto, arrumou a cama. Buscou o café e ficou olhando o movimento lá embaixo, pela janela. "Quanta gente na rua a essa hora! Mas também, com um dia desses...". Pôs um CD. A voz de Clara Nunes inundou a sala cantando ‘raioooooooou, resplandeceu, iluminou....". Música adequada para a luminosidade do dia e do seu humor. Como era bom acordar de bem com a vida sem motivo. Apenas de bem.
Olhou o relógio. 08h00. Como tinha planos para a rua a tarde inteira, resolveu não sair ainda. Abriu a persiana da sala completamente para que o sol entrasse e resolveu trocar as fotos dos porta-retratos. Pegou os álbus em cima da estante e começou a folheá-los. Fotos do colégio, da faculdade, de sua viagem à Europa, fotos soltas sem data... tudo foi se materializando na sua frente. Cada momento foi revivido e até algumas lágrimas surgiram entre as risadas altas que dava sozinha.
O telefone tocou. "Alô? Não, sobre o apartamento na Miguel Lemos não é aqui. Isso, é esse número mesmo, o senhor deve ter anotado errado." De volta as fotos. As selecionadas vão para os porta-retratos e algumas para a geladeira. Tinha o hábito de ter fotos na geladeira, presas com imãs. Gostava de ver as pessoas queridas na cozinha, um de seus lugares preferidos da casa.
Olhou novamente o relógio: 11h30. Acho que já da para ligar. Ligou para uma das amigas com quem queria almoçar. Chamou, chamou, não atendeu. "Fulana, me liga assim que acordar. São 11h30, onde é que você foi ontem que está dormindo até agora?". Resolveu tomar um banho enquanto esperava a amiga retornar. Tomou um banho longo, sem pressa. Escolheu a roupa do dia e deixou sobre a cama. "Ah, não li o jornal ainda!". Buscou o jornal deixado em sua porta e começou a escolher por onde começar. Foi quando viu a data: Terça-feira, 17 de agosto de 2004. "Meu Deus, hoje é Terça e não Sábado. De onde tirei essa idéia de que já era fim-de-semana?"
Já eram quase 13h00. Como é que ninguém do trabalho havia ligado perguntando por ela? Foi verificar o celular. A bateria havia acabado e ele estava desligado. Ouviu os três recados deixados pelo pessoal do trabalho: a chefe perguntando em dois o que havia acontecido, sua amiga do trabalho sacaneando em um. Não tinha coragem de aparecer e dizer que acordara pensando que era Sábado, quem acreditaria em tal desculpa esfarrapada? Ligar para dizer isso estava fora de questão. Pegou uma maçã e mordeu, como que para pensar melhor.
Analisou a situação: "Eu nunca faltei, nem por doença. Já fui trabalhar gripada e com febre, então não posso dizer que estou doente. Quer saber? Não vou dizer nada."
Feito isso, desligou o celular novamente, tirou o plugue do telefone da parede e entregou-se a um dia de folga sem culpa. Deu uma caminhada na praia, passou no hortifruti e fez compras para o almoço, cozinhou uma coisa boa para si mesma e passou a tarde assistindo DVD’s que estavam na sua lista há tempo mas que não encontravam tempo para serem vistos.
No dia seguinte acordou, se arrumou e foi para o trabalho como se nada tivesse acontecido. A chefe perguntava onde ela estivera no dia anterior e ela desconversava com algum assunto qualquer. A amiga do trabalho quase morreu de curiosidade querendo saber o que ela fizera de tão secreto. Ela comentava que tinha que fazr as unhas urgentemente e voltava para seu computador. Entre os e-mails, um da amiga cujo celular tocara sem resposta, dizendo que não entendera o seu recado e que tentara retornar o dia inteiro sem sucesso. Ela respondeu ignorando totalmente o fato e a convidando para almoçar no Sábado. Finalizou o e-mail assim: "Sábado, hein?! Não vai esquecer"

Quinta-feira, Agosto 19, 2004

Quando o amor é um clássico

Ele bem que achou graça naquele cabelo bagunçado. Ela, por sua vez, odiou-o prontamente, imagina, um menino até que bonito trajado com aquele pano de chão. Ela virou o rosto com raiva e ele sorriu, pois as madeixas balançaram de tanta força posta no ato. Assim foi o início do namoro, uns 27 minutos depois desse mis-en-cène.

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- Impedimento. Quando é que um jogador está impedido?
- Tá de brincadeira comigo, né?
- Tá bom, espertinha, e um volante, o que faz?
- Ai... – ela finge de impaciente - ó, pode ser o cara que marca fixo na entrada da área (aí é o cabeça-de-área), dando cobertura aos laterais também, ou aquele que arma as jogadas e apóia o ataque, jogando mais avançado.
Será que me enrolei? – ela pensa aflita, entrando no banheiro.
- E se for jogo perigoso dentro da área ou obstrução do jogador? É pênalti?
- Não, é tiro livre indireto.
Ele, deitado na cama com cara de perdido, só conseguia pensar o quanto era demais aquela mulher. Estava perdido. Nem viu os minutos passarem até seu retorno ao cenário. Sardenta e sorridente, vem mal-enrolada na toalha muito grande para o corpo franzino, atirado cenograficamente nos lençóis do motel, charminho para impressionar o rapaz.

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- Quando a gente fizer oito meses de namoro você vai ao Maracanã comigo?
- Vou...
- Vestido com a camisa do Fluminense?
Sempre a mesma conversa. Ele jamais vestiria outra camisa que não fosse o “manto sagrado”, já estava cansado de repetir. Ela, emburrada, contestava o namorado que lhe fazia todas as vontades, menos essa. Assim passavam os dias, loucos um pelo outro.
Pois na semana em que iriam comemorar um ano do dia quente de verão em que se conheceram no metrô horas depois do fim do primeiro jogo da final do Campeonato Estadual, o destino traiçoeiro lhes prepara uma surpresa: novo Fla x Flu, disputa da Taça Guanabara. A moça, voluntariosa, disse que iria de qualquer maneira, mesmo sem ele.
- De short branco.
Enlouquecido. Não ousara confidenciar aos amigos que estava cogitando, ou melhor, não, não estava pensando em não ir ao jogo, quer dizer, em ir, mas não na torcida do Flamengo... Sua mãe com a mesma ladainha de sempre, ficar assim por causa de futebol, menino, em vez de perder tempo com isso podia estar estudando pro Vestibular!
O celular só dava fora da área de cobertura ou desligado naquele sábado. Deixou em casa para se deixar levar pela mão vencedora daquela a quem deixou de amar loucamente durante todos os segundos do minuto em que subiu a rampa do maior estádio do mundo ouvindo a multidão bradar que era tricolor de coração, do time tantas vezes campeão.

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Nove anos mais tarde, num sábado, dessa vez sábado de calçadão da praia de Ipanema, ela vislumbra novamente aqueles olhos verdes certeiros. Levantou-se muito ágil do banco onde descansava da caminhada para simular um inevitável encontro casual. Ele vinha acompanhado por um garoto de uns quatro anos e com uma reluzente aliança de ouro na mão esquerda, que a desconcertou um pouco:
- Nossa, quanto tempo, o que anda fazendo da vida?
- Pois é, casei, me mudei do Rio, tive um filho...
- Que menino lindo, qual é seu nome?
Pouco confortável, buscou abreviar a falsa conversa amena. Em meio a uns aparece lá em casa, minha mãe vai adorar te ver, felicidades, ela, que já virara quase meio corpo em direção ao Arpoador, voltou-se resoluta:
- Maurício, qual é o time dele?
A pergunta congelou sua respiração por alguns instantes. Lembrou-se das discussões todas inúteis agora que eles travavam apaixonada e inadiavelmente na ânsia de decidirem para que time torceriam os filhos certos das crianças do passado.
- Santos - ele respondeu num quase-sorriso.

Quarta-feira, Agosto 18, 2004

Eu te amo

Tem gente que diz "eu te amo" como diz "bom dia". Acorda, olha para a pessoa ao lado, e manda a declaração, antes do café da manhã. Outros preferem "eu te amo" como substituto para "tchau". No telefone, pricipalmente, é útil para encerrar conversas: "então tá, um beijo, eu te amo". "Eu te amo" também costuma servir de argumento. Quando não se tem justificativas, alega-se apenas: "ah, você sabe que eu te amo". "Eu te amo" pode ser uma boa arma para derrubar o outro numa discussão. "Não grite comigo, não me trate desse jeito, porque eu te amo". Ou uma escada para se obter alguma vantagem. "Puxa, eu te amo, queria tanto que você fosse àquela festa comigo".
Há quem já dispare um "eu te amo" na primeira semana de convivência. Ou que use o "eu te amo" para fazer um rolo ganhar o rótulo de namoro. Também existem os carentes de ouvir as três palavrinhas mágicas, ficam perguntando a toda hora: "você me ama?". E os exibidos, que gostam de gritar "eu te amo" no meio da rua, de mandar e-mails com letras enormes e coloridas. Tem uns que até mandam fazer outdoor.
Claro que os discretos também habitam este mundo. Esses dizem "eu te amo" baixinho, colado ao ouvido, naquelas horas em que só estão os dois juntos, sem mais ninguém para ouvir. É um "eu te amo" contido, quase envergonhado, um "eu te amo" de bilhetes e cartões.
Raros mesmo são os que não gostam das três palavras juntas. Implicam com a sonoridade, acham batida a expressão. Não que eles não amem, longe disso. Mas creêm que todos os vocábulos da língua podem soar como um "eu te amo" se ditos junto de um beijo, um abraço, um carinho. Até um "bom dia", um "boa noite" ou um "tchau". E seguem falando "eu te amo" dos mais variados jeitos, com as mais diferentes roupagens. Até calados.

Terça-feira, Agosto 17, 2004

O homem que dorme

Está de bruços, com o rosto virado para a janela. A boca aberta e os cílios longos lhe conferem um ar infantil. Ela olha no relógio: cinco e meia da manhã. Ele não vai acordar tão cedo.

A luz fraca do domingo nublado entra no quarto. Sentada na cama, ela observa o homem. Como as pessoas são diferentes à luz do dia... Agora a pele do rosto exibia os restos de adolescência. O pescoço estava envolto num daqueles cordões que estavam na moda, com pinturas de santos. Escapulário, esse era o nome.

Os ombros eram cobertos de sardas (lembrou-se que quando era criança invejava as sardas de uma colega de escola). As costas eram lisas, até o pedaço em que as costas dos homens deixam de ser lisas, perto da bunda. Ali começavam os pêlos castanhos, que à luz ficavam dourados. Ela ficou surpresa: ele tinha estrias! Várias, na cintura, na bunda e nas coxas. Ela achava que só as mulheres tinham estrias. Teria sido ele gordo? Era possível: o corpo era cheio, as pernas grossas.

A mulher se levantou sem barulho, como só os recém-apaixonados são capazes. Lavou o rosto e escovou os dentes - sem pasta, claro, para ele não perceber. Voltou para a cama, deitou-se e fechou os olhos, mas não dormiu. Abriu-os ao mesmo tempo em que ele.

***

- Fala teu número - ele está junto à porta, com o celular na mão.

- Me dá você o seu - ela disse, rápida, pegando um pedaço de papel. - Meu celular pifou.

- 98 36 84 09 - respondeu ele, com um sorriso. - Liga mesmo!

Ela não retribuiu o sorriso: deu-lhe um beijo rápido e fechou a porta. Procurou o maço de cigarros, enquanto lutava desesperadamente contra a ternura que nascera enquanto via o homem dormindo.

Achou o maço. Pegou o isqueiro que estava dentro e queimou o papel com o telefone do homem.

Segunda-feira, Agosto 16, 2004

E quando a gente não esquece de jeito nenhum?



"...eu sei que você falou pra eu desparecer, mas eu queria saber como você está.."
(trecho de e-mail na minha caixa postal semana passada)

É de especial que te chamo, quando minha alma lembra seu rosto. É de saudades que sofro, quando minhas mãos lembram as suas. Pequenas mãos. É de vontade que não durmo, quando minha boca lembra a sua. Doce boca.

Tudo tão inacabado, tão incompreendido, tão intenso. Tamanha a intensidade que me fez voltar, me fez rever que não vale a pena estarmos longe, se o sentimento é tão nosso. Único. Não só mais pra mim, mas pra você também. Do seu jeito de não conseguir ser “desaparecido” dos meus dias. Do seu jeito de não conseguir ser como se deve ser, de vez em quando! Por você tentar tanto, por você insistir, mesmo sabendo do meu falso desejo de distância.

E é assim que festejo meus dias atualmente. Porque te tenho de volta, porque sei que nunca te perdi, sei que nunca me esquecestes e porque sei que sempre seremos assim. Especiais e em segredo. Porque nem você nem eu sabemos ao certo o que é. Mas o fio que nos une, não se rompe. É corrente forte, de carinho e sensação.

E eu me rendi. Às tuas tentativas, ao teu interesse em que eu te queira de volta.

Bem-vindo de volta, anjo! Meu anjo!

É pra você que escrevo isto!

Sexta-feira, Agosto 13, 2004

Não dá para viver sem

Nunca tinha tido TV a cabo. Achava ótimo e sempre filava um capítulo ou outro de Friends na casa de alguém. Mas achava caro pelo pouco tempo que aproveitaria, pois gostava de ler e sair, não sobrava tempo para TV. A sua própria as vezes passava dias sem ser ligada.

Um dia resolveu ter. Pediu logo o pacote completo, com todos os canais de filmes, canais em francês ("vai ser ótimo para eu praticar", pensou) e tudo o que tinha direito. Estava de férias, não tinha podido viajar e viu que o custo dos DVD’s já estava valendo uma assinatura da NET.

No primeiro dia nem dormiu: ficou zapeando os canais, saboreando aquele mundo de opções de entretenimento de todos os tipos, 24 horas, assistiu pedaços de programas que só ouvia falar, tentou entender algum francês, parou no canal alemão... Estava fascinada por tudo que perdera até então. Assim se passaram os dias de suas férias: somente assistindo a todos os filmes possíveis, se inteirando das histórias de inúmeros enlatados americanos, pulando de canal em canal sem conseguir se ater por muito tempo em nenhum.

Ao voltar das férias, era outra pessoa. Estava muito confusa: não sabia mais direito quem era. Havia adquirido algumas características de personagens com quem havia convivido por esses quase trinta dias de TV a cabo. Ora falava rápido e era extremamente sarcástica, como Lorelai Gilmore, de Gilmore Girls. Ora agia como se vivesse no mundo da lua, como Phoebe Buffay, de Friends. Ora era determinada e lógica, como Lilly Rush, de Cold Case. Havia namorado com um colega de trabalho e agora estava interessada em outro, recém chegado. Logo passou a agir como Abby, de ER.

Alguns acharam engraçado. Outros, que ela era assim mesmo. Os amigos se preocuparam, mas não muito. E ela foi levando a vida dessa forma, assumindo diversas personalidades durante o dia, mas somente para imitar o que via, pois se espelhava nessas personagens. Até que um dia...

Um dia ela declinou o convite para um happy hour pois já tinha "outro compromisso". No dia seguinte chegou furiosa ao trabalho. Uma amiga perguntou o que era e ela falou que estava de saco cheio das mulheres que apostavam todas as suas fichas de felicidade num homem e quando ele não correspondia elas ficavam sem rumo, por mais lindas e inteligentes que fossem. A amiga perguntou o que havia acontecido e ela controu todo o episódio de Sex & The City da noite anterior como se fosse a Miranda. A amiga achou engraçado e disse que também se indignara com a reação da Carrie ao abandono do Big. No que ela prontamente falou: "mas eu liguei para o Big mais tarde e falei-lhe umas verdades. A Carrie passou a noite chorando, fiquei na casa dela, nem passei em casa de manhã para dar comida ao Fatty". A amiga se assustou.

Ela passou a agir como se fosse mesmo personagens de sitcoms: às vezes estava preocupada com o seu hotel em Stars Hollow, o Dragonfly Inn. Recebia ligações imaginárias de sua filha Rory, que estuda em Yale. Marcava cafés com Rachel e Joey no Central Perk. E chorou ao se lembrar do enterro do Dr. Green.

Os amigos tentaram ajudar, mas ela disse que os loucos eram eles. Foi demitida, pois o seu rendimento havia caído muito. Ela não se preocupou – tinha o seu hotel em Stars Hollow, não? Até que um dia ela mesma passou a ficar confusa em relação a quem era. Estava num café, comia uma tortinha de chocolate e um café e pensava, pensava, pensava... Foi quando seu chaveirinho em forma de gato virou para ela e disse “você mora em Niagara Falls e está atrasada para seu emprego na loja de souvenirs!”

E ela desmaiou.

Quinta-feira, Agosto 12, 2004

Música

Admito que por vezes calco minha felicidade no lado de fora. Normal, todos em geral o fazem, ainda que sabendo que o ideal seria também buscar dentro de si as razões e respostas, nessa árdua tarefa de produzir o almejado bem-estar. Mas há algo que, no meio do caminho entre o externo e o interno, me causa sensação imediata de alegria: o som do riso das pessoas. Eu encontro em ver gente rindo tanta ternura que chego mesmo a pensar que aí está para mim algo que me faz tocar o supremo, o divino, o que quer dizer estreitar a relação difícil de entender com um Deus, com um algo que vai além do que o humano poderia jamais sonhar em inventar com sua inteligência.
Passava um filme no ônibus em que viajava esta semana. A comédia que estrelava Hugh Grant não me chamou a atenção, vi em dormir melhor negócio na matemática do aproveito do tempo da viagem. Li algumas páginas do livro e logo fui conduzida ao torpor que deixa ainda aquele mínimo de consciência para o contato com o mundo. Quando ouvi as gargalhadas de alguns companheiros momentâneos de viagem, fui tocada pela sensação que me fez sorrir de alegria imediatamente, esta mesma que procuro – em vão, bem sei – explicar através deste texto. Olhei para a pequena televisão e, ao que para mim, não inserida no contexto, eram expressões ordinárias dos atores e nada significavam, era, na soma dos fatores, o mágico. Era a reação mais arrebatadora. E é justamente o que me faz esquecer que o ser humano pode ser aquele animal cruel, que tenta sem maiores problemas sobre seus iguais, alvos que, não raro, são mesmo eu. Até ao que lhe bate o rosto, ao que lhe nega afeto, ao que lhe foi desleal é concedida a graça de ser belo na singeleza de um riso de criança.
Que é tão mais lindo quando os sorrisos provêm daqueles que, dentre toda a humanidade, me despertam amor. Cena mais maravilhosa é a de suas ledices. Meus caros, a satisfação que experimento simplesmente ver, ou (muito melhor) em fazer com que os santos do meu relicário leiam a graça na vida -que nem sempre é propícia, como é sabido - é a própria felicidade, inexorável em seus propósitos. Para mim, tal faculdade, a de encontrar e mostrar riso nos mínimos, é uma dádiva.
Rir junto é das bênçãos que todos deveriam cultuar, é caminho certo para perceber que, por vezes, as dores do mundo podem ser amenas, e que há algo na vida que faz todo o sentido.

Quarta-feira, Agosto 11, 2004

Só uma barata

Mas é só uma barata, dizem os amigos, o namorado, até o porteiro do prédio já sabe do meu pavor. Acham engraçado. "Olhe o seu tamanho e olhe o dela". Eles não conseguem enxergar o monstro em sua real dimensão. "Use o chinelo, lance mão da vassoura, pegue o inseticida, deixe os gatos fazerem o serviço". Como, se eu não consigo nem chegar perto? A vontade é de sentar e chorar.
Baratas tem um senso aguçadíssimo para perceber predadores no ambiente: nunca aparecem quando pressentem que há por perto alguém que possa eliminá-las. Vou pedir socorro a quem? O porteiro não pode deixar a portaria, os amigos que moram mais perto ainda demorariam a chegar. E já é tarde, mais uma habilidade delas: entrar em cena no avançado da noite, para diminuir as chances de a vítima conseguir ajuda. As antenas devem ter sensores de movimento dos mais sensíveis, pois detectam quando eu tento me mexer para escapar. Dona da situação, a criatura medonha começa a correr. E levanta as asas para que eu não me esqueça de que ela pode voar.
Trancar o lugar onde ela está é uma possibilidade. E rezar para a bicha ir embora por conta própria, invadir o apartamento vizinho. Minha avó dizia que barata não fica parada num lugar. Frase que também serve para aumentar o meu pânico. E se ela passar pela fresta da porta e resolver ir até a minha cama, para completar a noite de horror? Não consigo me concentrar mais em nada, só queria fechar a casa e fugir.
Aí cai por terra todo o orgulho de mulher independente. Tão senhora de si, tão destemida, sucumbindo diante de um inseto. Inseto para os outros, o que eu vejo é um monstro enorme, alado. O que eu fiz para merecer tal assombração? Logo eu, que não deixo as janelas escancaradas, que tenho pega-barata nas portas, que não pego nem um biscoito sem ter um prato por baixo para não deixar cair farelo que possa servir de chamariz.
Quantas vezes esses seres aterrorizantes já me venceram? Incontáveis. E eu não ofereço nem resistência. Desta vez, porém, impus a eles uma derrota. Acabei com um da espécie. Afoguei em inseticida, para ser exata. Não era dos maiores, admito, nem tinha asas. Mas é uma barata a menos no mundo.

Terça-feira, Agosto 10, 2004

Soldados

Era a primeira vez que George visitava Londres. Na verdade, era a primeira vez que saía do Texas, e estava muito emocionado. Mal ouvia as explicações do guia, na frente do Palácio de Buckingham. Admirava as dezenas de soldadinhos iguais que ficavam na entrada da famosa atração turística. Calça e sapatos pretos, casaco vermelho e aquele estranho chapéu comprido e peludo, parecendo um coelho retangular. Branquíssimos e impassíveis como estátuas.

O resto da excursão fazia as tradicionais palhaçadas para que um dos guardas desse um sorriso, unzinho que fosse. George sabia que isso não adiantava: os guardas sempre mantinham seus rostos imóveis. Resolveu ser diferente e ficou apenas admirando os uniformes.

Mas os minutos se passavam e as gargalhadas dos excursionistas eram cada vez mais intensas. Até o guia, contagiado pelo grupo anormalmente alegre, fazia as suas tentativas. Talvez rissem mais de si próprios que das caras dos soldados.

Então George, timidamente, resolveu entrar na dança. Caminhou para perto dos guardas e começou a fazer as caretas mais engraçadas que conseguia.

Segundos depois, quando estava na sua imitação favorita (um palhaço), um dos guardas jogou o rifle no chão e se aproximou. O guia e os turistas pararam os truques e arregalam os olhos: o que aconteceria?

O soldado deu um soco em George! E mais outro, e mais outro. Ninguém acreditava! Outros dois soldados se aproximaram. Cada um puxava uma das pernas de George para um lado. O americano gritava de dor. Depois, um outro soldado bateu a cabeça do turista no asfalto, com força. Os outros guardinhas morriam de rir. O rosto do turista estava virando uma massa disforme.

Todos estavam paralisados de medo. Ouviram o barulho do corpo de George sendo lançado na calçada.

E ouviram a frase, gritada pelo soldado que tudo iniciara, agora sorridente:

- Funny, isn´s it?

Segunda-feira, Agosto 09, 2004

Poesia invisível



Fechou o farol. Eles se aproximam pequenos, com pouca roupa e pé no chão. Como flechas. Com bolinhas de tênis que voam e saltitam pelo ar com especial equilíbrio, em busca de algum trocado. E vêm fagueiros com admirável rosto de novidade, de desafio, de torcida secreta para que nenhuma bolinha ouse escapar e dar vexame.

Tem sido assim nos últimos meses nas cidades grandes. É o desespero em forma de luta, em forma de mágica, e meio que sem querer essas crianças metaforizam a realidade-circo onde a vida é mesmo um risco, uma corda bamba, um interminável malabarismo.

E não de maneira diferente, esse menino se aproximou. Com um capuz na cabeça, fazendo movimentos "fantásticos" com seu casaco. E de repente começa a equilibrar bolinhas no ar, sim, as mesmas de sempre, porém invisíveis. E faz todos os movimentos corporais e expressões de um digno ás malabarista. Convicto, seguro, feliz.

A miséria desaparece. O frio que congela os dedos, não visita o corpo do menino sabido. E ele continua com seu show espetacular com atores invisíveis. E eu pasma. Meu queixo cai e arregalo os olhos. Ele nota, se envaidece. Eu me admiro, me compadeço, me emociono, sinto... tudo no curto espaço de tempo de um farol fechado.

Abriu. Ele vem até a janela com mãos de esmola. "Não tenho nada", digo como quase sempre. E ele, simples, me olha, sorri, faz um trejeito malandro qualquer e diz:

- Eu sou muito bom, não sou?

Sorrio. Engato a primeira e divido com minha amiga a sensação daquilo tudo.

Nos útlimos tempos, até a esmola aprendeu a fazer poesia. E a gente precisa aprender a enxergá-la.

Sexta-feira, Agosto 06, 2004

Cenas da Vida

Um sábado de manhã estava passando de ônibus por Copacabana quando vi uma moça com um laço vermelho imenso na cabeça. Pensei "meu deus, o que é isso???". Quando ela saiu detrás do ponto pelo qual passava, percebi que ela estava vestida de Branca de Neve. Fantasia completa! Andava como se estivesse de calça jeans e camiseta, em plena avenida Nossa Senhora de Copacabana às 11h30 da manhã de um Sábado.

Até hoje me pergunto o que aquela moça fazia vestida de Branca de Neve àquela hora. Muito cedo para estar a caminho de animar alguma festinha infantil. Muito tarde para estar chegando em casa após uma festa a fantasia. Me faz pensar nas coisas que vemos, ouvimos ou lemos e que ficam para sempre em nossa cabeça, sem um motivo lógico.

Tenho muitas cenas na cabeça. A maioria eu nem lembro se eu vi, sonhei, li ou imaginei.

Uma velhinha descendo um pequeno barranco pedindo para o ônibus parar. Era de manhã cedo e estava muito frio e úmido.

Um cachorro nosso atropelado na esquina do meu colégio, onde eu estudei a primeira e a segunda série.

Um menino sendo buscado pelo pai no meio da aula, na terceira série. E as crianças comentando que ele tinha um problema na vista e não podia ver televisão.

Eu dizendo para a minha mãe "mãe, enquanto eu enchia a bola de chiclete comecei a rir e ela ficou cheia de riso!".

Um amigo meu gravando um programa de rádio – brincadeira que fazíamos gravando uma fita sozinhos e depois ouvindo em grupo – gritando a plenos pulmões "Ernest Sarleeeeeeeeeet".

Meu professor de matemática me pedindo para eu ir ao quadro resolver um problema.

Meu avô lendo a embalagem de um bombom: "Ene, ene, ene" (a marca era Neugebauer e a logomarca eram três letras ene).

Meu primeiro dia de trabalho no Rio, em que peguei um ônibus errado para São Conrado e fui parar no ponto final, que era na Rocinha. E lá eu vi as crianças soltando pipa de uma laje.

Minha amiga Dani estressada no vestiário do hotel onde trabalhávamos, muito antes de sermos amigas.

O Djou, meu gato, brincando com seu irmão dentro de uma jaulinha na clínica veterinária.

Recentemente um amigo me controu que quando era criança e conversava com o pai, comentou do Chico Buarque e o mesmo disse "é um ótimo músico, mas como político...". E ele passou dez anos de sua vida pensando que Chico Buarque fosse um deputado ou senador que fazia música nas horas vagas! Coisas que ficam na cabeça e formam nosso jeito de ser.

As coisas não tem hora para acontecer. As lembranças acima não aconteceram num perfeito domingo de sol. São cenas da minha vida que por algum motivo pareceram mais importantes que outras para a minha memória afetiva. E uma coisa que eu posso dizer com certeza hoje em dia: apesar de todos os percalços, aproveito todos os dias da minha vida, nem que seja somente ir ao trabalho, voltar para casa e assistir televisão. Aproveito o solzinho da manhã ao sair de casa, relaxo na hora do almoço e volto tranquila para casa. Não sou uma desesperada pela chegada do fim de semana para enfim "viver".

E tenho a sorte de ser cercada de pessoas que também vivem assim.

Quinta-feira, Agosto 05, 2004

Dor comezinha

Ela dorme todo santo dia. Acorda todo santo dia. Vive uma vida que por cima dos panos é bem normalzinha: trabalha, faz um curso, sai com as amigas, pega um cineminha durante a semana, toma um chopinho na sexta, almoça com a família aos domingos. Nos intervalos, vive intrigada. Deu pra querer saber o que faz com que uma pessoa seja mais bonita que outra. Que combinação de traços, de trejeitos, que fórmula matemática, física ou química distingue uma maçã das demais? O que faz com aquele gesto à toa, aquele meio-sorriso ou gargalhada seja diferente das tantas outras que ela pacientemente analisa todos os dias buscando uma que se aproxime pelo menos um pouco daquela que não lhe sai do pensamento? E aquele olhar sem querer, a voz sem querer, o encostar que dá um calafrio sem querer, a palavra engraçada sem querer. Domingo passado a tia Neuza disse que todos os dias no final da tarde deu pra ter uma dorzinha de cabeça chatinha, finiiinha... Depois melhora. Ela quis saber o que fazia pra sarar. Nada, respondeu a tia. A mãe fez Delícia de Abacaxi de sobremesa, leu no jornal. Que ótimo, ela exclamou - mas sem ponto de exclamação mesmo. O pai dormia no sofá, meio corpo caído pro lado e dois pés no banquinho velho de guerra, tantos anos. Ela perdeu-se na televisão, riu um riso de palhaço chorando quando veio a lembrança dele através da música que toca na novela que deu no comercial. E depois um risinho nervoso quando perguntaram o que ela tanto sonhava acordada, essa moça não perde essa mania. Talvez o momento não tenha sido o ideal, era isso que ela pensava. Porém, o que nada ali naquela sala nem naquela vida sabia mesmo é que há dezesseis anos ela havia desistido de tudo. Simplesmente. Fingia viver sem turbulências, um probleminha aqui outro acolá. Ninguém sabia da condenação. Do beijo e da cama que desgraçaram aquela vidinha de mulher feliz, inteligente, independente e bonita que ela passou a odiar secretamente. Se ela tivesse coragem.

Só pensava obsessivamente durante todos os minutos de sua vida que coisa era essa que fazia com que ela o amasse tanto e ele não a amasse também. Se eu descobrir, juro que te deixo em paz e morro de uma vez, acabando com essa mania de contar a dor superlativa sobre as demais usando diminutivos.

Quarta-feira, Agosto 04, 2004

Quem disse que ele não volta?

O quarto está vazio. E nenhuma roupa ficou fora do armário. A cama se mantém arrumada como nunca. O jornal sobre a mesa não foi sequer tocado. Na pia da cozinha, não há copos para lavar. Silêncio. O som está desligado, assim como a TV e o computador. Ninguém abriu o pacote de biscoitos, nem o pote de sorvete, nem as latas de cerveja.
Mas quem disse que ele não volta? Os CDs ficaram na estante. Quem sabe não saiu para um passeio? A chave do carro permanece pendurada no mesmo lugar. Quem garante que não é uma brincadeira? Ele não levou nem a carteira.
E se eu fizer a comida de que ele mais gosta? Será que ele vem? E se eu puser para tocar aquela música que ele vive cantando? Será que ele ouve? E seu eu lhe comprar aquele tênis que ele achou muito caro? Será que ele chega para receber? E se eu sair com o cachorro? Será que ele nos encontra? E se eu chamar todos os amigos para uma festa? Será que ele aparece?
Por que ele iria embora? Por que deixaria a casa, a gente, os planos? Por que escolheria o nunca mais? Não, ele não foi. Nem se despediu. Nem levou nada. Nem deixou um bilhete. Nem telefonou para avisar. Ainda ontem ele estava aqui. Ainda ontem escutei sua voz. Ainda ontem senti seu cheiro. Ainda ontem toquei suas mãos.
Eu vou ficar aqui calada. Vou para a porta fazer companhia ao cachorro, que espera. Também vou esperar. E vou deixar tudo pronto. Não, eu não vou aceitar, não vou me conformar. Não vou esquecer, não vou me levantar. Vou esperar.

Terça-feira, Agosto 03, 2004

Passagem

Acordou. Estava tudo branco. Era sonho ou pesadelo, aquilo? Fechou os olhos de novo, pensando: "vou abrir e tudo estará normal." Quando a gente sonha, não sabe que está sonhando. Devagarinho, abriu-os novamente: mesma coisa. Uma névoa clara a rodeava de cima a baixo. Suspirou. O que fazer numa hora dessas? Nunca sabemos. Não está em livro algum.

"Será que morri?", perguntou-se. Nunca havia pensado muito se haveria um depois. Na verdade, não havia pensado muito até então. Ela era jovem, muito jovem, e agir sempre lhe parecera mais natural - instintivo, até.

Olhou para baixo, para o corpo. Não o enxergava direito, mas parecia diferente, mais escuro! Mexeu os membros: estavam pesados, como se entorpecidos. Sentiu dores. Teria sido dopada? Teria sido atropelada? Vai ver havia comido demais. A sensação era de um cansaço sem fim. Mas tinha dormido bem... a impressão que tinha é que estava dormindo há dias. Tentou lembrar-se da noite anterior e não conseguiu. Os pensamentos lhe vinham estranhos, desconectados, como se pertencessem a outro alguém.

Começou a mexer a cabeça, lentamente. Para um lado e para o outro. Ia estendendo ao máximo os movimentos até que... bateu em algo! Sim, a névoa branca que a envolvia estava, por sua vez, dentro de uma espécie de bolha, de saco de dormir. Estava presa!

Que haviam feito com ela? Desespero. Súbita falta de ar.

De repente, tudo ficou quente demais, e uma luz fortíssima invadiu-lhe os olhos. Era o sol! O sol nascia sobre ela! O calor era cada vez mais insuportável. Tentou gritar, mas o som não saía.

Em segundos, aprendeu a movimentar-se. Juntou as poucas forças que tinha e debateu-se. Aos poucos sentiu que o pano (pano?) que a envolvia cedia. A névoa em volta escorria pelo buraco que conseguira abrir: não era névoa, mas uma substância espessa e clara. Com a claridade que entrava, seu corpo agora se revelava em negro e azul. Molhado.

Devagar, conseguiu sair para a luz do sol, ofuscante. Quase caiu na grama: quando se aproximava do solo, algo (instinto?) libertou-lhe os membros, que se abriram magicamente.

Borboleta agora, voou.

Segunda-feira, Agosto 02, 2004

Receita de uma falta



Ingredientes:

Uma pessoa de quem vc goste muito
Um quilo e meio de lembranças doces
Meio quilo de imagens amargas
Uma dúzia de sorrisos
Dois sonhos inteiros
Uma gota de lágrima
Saudades a gosto


Modo de fazer:

Junte as lembranças doces ao meio quilo de imagens amargas. Faça disso uma mistura homogênea e sem muito sofrimento. Separe um pouco e deixe guardado para uma outra ocasião. Pegue os sonhos, esquente-os no peito e reserve. À saudade junte a gota de lágrima e mexa cuidadosamente. Não coloque força na mistura. Tudo poderá ir por água abaixo, caso sua intenção seja bruta. Apenas junte os ingredientes. Um a um, faça deles um pedaço seu. Por fim, cubra a pessoa especial com toda essa calda. Está pronto! É assim que a gente faz falta!