Quinta-feira, Setembro 30, 2004
Um dos objetivos da minha vida é poder iluminar cada dia mais meus bens com a luz da lucidez. Saber os motivos que me levam a tomar determinadas decisões, analisar o que eu faço aparentemente "sem pensar", entender os caminhos que escolho trilhar. E creio que venho conseguindo isso. Porém, há dois lados nessa moeda: há coisas que não são passíveis de entendimento. Viver tentando consegui-lo é quase sempre motivo de angústia e sofrimento. Saber dosar o limite entre uma e outra é tarefa complicada. Tentar entender o que não dá e o que não é para entender desgasta. Um distinto senhor aqui da Justiça chega todos os dias no trabalho e troca seus sapatos por pantufas azuis e assim passa o dia, arrastando-se sorrateira e confortavelmente pela seção, assustando colegas, por vezes. Louco? Também eu, a presunçosa lúcida, inteligente e analisada devo sê-lo segundo a ótica de alguns. Será que aquilo em que se acredita existe? Será que inventamos nomes, situações, padrões, tudo para acreditar neles e poder vivê-los? Acho que sim. Será que escolhemos chamar de paixão os devaneios inatingíveis de nosso coração e vivenciá-los segundo regras sem nexo que nós mesmos criamos? Será que andamos por aí de pantufas despertando risos nos que nos enxergam sob outro ângulo? E – muito pior! – será que tudo acontece mesmo numa chamada “hora certa”, quando enfim estamos preparados para receber? É muito possível. Pode ser mesmo que haja uma lógica tão evidente em tudo e nós, que pensamos estar tão donos da situação, não passemos de objeto quando o que mais se quer é ser sujeito. Como eu lutei contra isso nos últimos tempos. Mas se é assim, tudo bem. Agora eu vou passar a inventar histórias em que eu seja a Cinderela, sem ter que passar pelo estágio de Gata Borralheira. E louvemos a capacidade de sermos loucos o suficiente para ter a claridade que dá a prerrogativa de viver seu mundo próprio.
Quarta-feira, Setembro 29, 2004
No corredor do inferno
O calor no corredor interno do segundo andar do prédio da Polinter, na Praça Mauá, vai se tornando insuportável à medida que os minutos correm. A área de circulação não tem a proteção do ar-condicionado das salas dos delegados e investigadores. Calor abafado, sufocante. Um andar abaixo fica a carceragem, onde sabe-se lá quantas centenas de homens amontoam-se num espaço em que talvez não coubesse nem um terço deles. Para lá, dá a única janela do corredor. Por ela, sobe um ar ainda mais quente, como se o suor de todos os presos formasse uma nuvem incandescente.
O vapor fumegante carrega o odor de transpiração que exala das celas. Depois de um tempo, é possível quase se acostumar com o cheiro. Mas então um movimento qualquer da massa carcerária provoca uma nova onda fétida.
De repente, eles começam a gritar. Sons incompreensíveis, como urros de animais. Aparentemente, nada de anormal: os policiais nem interrompem seus afazeres. As vozes se calam também repentinamente.
Passa um detento pelo corredor. Acabou de chegar. Algemado, é levado por um policial rumo à carceragem. Mulato, magro, braços finos, pernas finas, rosto jovem, veste bermuda e calça sandálias de dedo. Idêntico a tantos outros cujos punhos já foram cerrados por um par de algemas. Igual a quase todos lá em baixo. Mais um para engrossar a massa e encorpar a nuvem.
O vapor fumegante carrega o odor de transpiração que exala das celas. Depois de um tempo, é possível quase se acostumar com o cheiro. Mas então um movimento qualquer da massa carcerária provoca uma nova onda fétida.
De repente, eles começam a gritar. Sons incompreensíveis, como urros de animais. Aparentemente, nada de anormal: os policiais nem interrompem seus afazeres. As vozes se calam também repentinamente.
Passa um detento pelo corredor. Acabou de chegar. Algemado, é levado por um policial rumo à carceragem. Mulato, magro, braços finos, pernas finas, rosto jovem, veste bermuda e calça sandálias de dedo. Idêntico a tantos outros cujos punhos já foram cerrados por um par de algemas. Igual a quase todos lá em baixo. Mais um para engrossar a massa e encorpar a nuvem.
Terça-feira, Setembro 28, 2004
Londres
Queridos amigos,
estou muito, muito feliz. Londres e uma cidade linda: as igrejas, museus, at'e pr'edios comerciais s'ao belos... as vezes olho uma construcao incr'ivel e descubro, surpresa, que 'e um banco!
O frio existe, mas nada de insuportavel. Ainda nao precisei usar o casaco megareforcado que a Lu me emprestou... Ando de jeans, tenis, meia, blusa de manga comprida e um casaco por cima. As vezes uso luva e gorro.
Fiz varios passeios... na verdade, saio do albergue por volta das 10 da manha e nao volto antes das 10 da noite... ja fui a Abadia de Westminster, a Catedral de Saint Paul, ao London Eye (uma roda-gigante gigante), ao Museu de Madame Tussaud (aquele museu de cera com celebridades), 'a Torre de Londres, a Covent Garden, a Portobello Road... Tem gente do mundo todo aqui, inclusive muuuitos brasileiros...
Tenho provado coisas diferentes... de nada adianta, ou melhor, pouco adianta visitar um lugar e n'ao ter pelo menos um vislumbre da culin'aria... tomei um t'ipico caf'e da manha ingles, comi comida indiana... '
O tempo 'e pouco para tudo que eu gostaria de fazer... planejava passar um dia em Oxford, que 'e perto, mas ser'a imposs'ivel... vou para Paris amanh'a, quarta... Mas tudo bem, 'e imposs'ivel fazer tudo. Vou voltar.
Um grande beijo a todos,
Eug"enia.
estou muito, muito feliz. Londres e uma cidade linda: as igrejas, museus, at'e pr'edios comerciais s'ao belos... as vezes olho uma construcao incr'ivel e descubro, surpresa, que 'e um banco!
O frio existe, mas nada de insuportavel. Ainda nao precisei usar o casaco megareforcado que a Lu me emprestou... Ando de jeans, tenis, meia, blusa de manga comprida e um casaco por cima. As vezes uso luva e gorro.
Fiz varios passeios... na verdade, saio do albergue por volta das 10 da manha e nao volto antes das 10 da noite... ja fui a Abadia de Westminster, a Catedral de Saint Paul, ao London Eye (uma roda-gigante gigante), ao Museu de Madame Tussaud (aquele museu de cera com celebridades), 'a Torre de Londres, a Covent Garden, a Portobello Road... Tem gente do mundo todo aqui, inclusive muuuitos brasileiros...
Tenho provado coisas diferentes... de nada adianta, ou melhor, pouco adianta visitar um lugar e n'ao ter pelo menos um vislumbre da culin'aria... tomei um t'ipico caf'e da manha ingles, comi comida indiana... '
O tempo 'e pouco para tudo que eu gostaria de fazer... planejava passar um dia em Oxford, que 'e perto, mas ser'a imposs'ivel... vou para Paris amanh'a, quarta... Mas tudo bem, 'e imposs'ivel fazer tudo. Vou voltar.
Um grande beijo a todos,
Eug"enia.
Segunda-feira, Setembro 27, 2004
Presente
Senta. Levanta. Respira. Coração. Bate. Forte. Fraco. Devagar. Lento. Dorme. Acorda. Sonha. Chora. Deseja. Teme. Levanta mais uma vez. Escova os dentes. Sangue. Banho. Sono. Leite. Só um pouco. Pão. Pequeno. Fruta. Urgh! Melancia não! Carro. Trânsito. Mau humor! Sono, sono, sono sem fim... Aula. Sorriso. Simpatia. Orgulho. Cuidado. Aluno. Dia. Sol. Calor. Corre. Casa. Gatos. Dorme. Um pouco. Iogurte. Light. Música, mantra. Sono. Bom. Acorda. Levante. Escova os dentes. Sono. Arroz integral e beterraba. Só. Pêssego. Pele. Desejo de novo. Saudades. Passado. Texto. Corre. Hora. Sol. Sede. Coca-cola. Light. Aula. Alunos. dicionário. Sorriso. Tesão. Menino. Corre. Carro. Sol. Engarrafamento. Trabalho. Ar-condicionado. Ufa. Senta. Levanta. Café. Preocupação. Descanso. Pausa. De um compasso e olhe lá. Dieta. Barra de cereal. Foto. Amor. Saudades. Blog. Texto. Fotos. Tempo. Tempo. Tempo. Tempo. Sete da noite. Casa. Computador. Senta. Levanta. Gatos. Saudades. Amor. Medo. Sono.
Senta. Levanta. Respira. Coração. Bate. Forte. Fraco. Devagar. Lento. Dorme. Acorda. Sonha. Chora. Deseja. Teme. Levanta mais uma vez. Escova os dentes. Sangue. Banho. Sono. Leite. Só um pouco. Pão. Pequeno. Fruta. Urgh! Melancia não! Carro. Trânsito. Mau humor! Sono, sono, sono sem fim... Aula. Sorriso. Simpatia. Orgulho. Cuidado. Aluno. Dia. Sol. Calor. Corre. Casa. Gatos. Dorme. Um pouco. Iogurte. Light. Música, mantra. Sono. Bom. Acorda. Levante. Escova os dentes. Sono. Arroz integral e beterraba. Só. Pêssego. Pele. Desejo de novo. Saudades. Passado. Texto. Corre. Hora. Sol. Sede. Coca-cola. Light. Aula. Alunos. dicionário. Sorriso. Tesão. Menino.
Senta. Levanta. Respira. Coração. Bate. Forte. Fraco. Devagar. Lento. Dorme. Acorda. Sonha. Chora. Deseja. Teme. Levanta mais uma vez. Escova os dentes. Sangue. Banho. Sono. Leite. Só um pouco. Pão. Pequeno. Fruta. Urgh! Melancia não! Carro. Trânsito. Mau humor! Sono, sono, sono sem fim... Aula. Sorriso. Simpatia. Orgulho. Cuidado. Aluno. Dia. Sol. Calor. Corre. Casa. Gatos.
Senta. Levanta. Respira. Coração. Bate. Forte. Fraco. Devagar. Lento. Dorme. Acorda. Sonha. Chora. Deseja. Teme. Levanta mais uma vez. Escova os dentes. Sangue. Banho. Sono. Leite. Só um
Quisera talvez uma pausa. Mas tem sido bom. Está sendo. Como frases soltas. E verbos no presente do indicativo. Eita vida!
Senta. Levanta. Respira. Coração. Bate. Forte. Fraco. Devagar. Lento. Dorme. Acorda. Sonha. Chora. Deseja. Teme. Levanta mais uma vez. Escova os dentes. Sangue. Banho. Sono. Leite. Só um pouco. Pão. Pequeno. Fruta. Urgh! Melancia não! Carro. Trânsito. Mau humor! Sono, sono, sono sem fim... Aula. Sorriso. Simpatia. Orgulho. Cuidado. Aluno. Dia. Sol. Calor. Corre. Casa. Gatos. Dorme. Um pouco. Iogurte. Light. Música, mantra. Sono. Bom. Acorda. Levante. Escova os dentes. Sono. Arroz integral e beterraba. Só. Pêssego. Pele. Desejo de novo. Saudades. Passado. Texto. Corre. Hora. Sol. Sede. Coca-cola. Light. Aula. Alunos. dicionário. Sorriso. Tesão. Menino.
Senta. Levanta. Respira. Coração. Bate. Forte. Fraco. Devagar. Lento. Dorme. Acorda. Sonha. Chora. Deseja. Teme. Levanta mais uma vez. Escova os dentes. Sangue. Banho. Sono. Leite. Só um pouco. Pão. Pequeno. Fruta. Urgh! Melancia não! Carro. Trânsito. Mau humor! Sono, sono, sono sem fim... Aula. Sorriso. Simpatia. Orgulho. Cuidado. Aluno. Dia. Sol. Calor. Corre. Casa. Gatos.
Senta. Levanta. Respira. Coração. Bate. Forte. Fraco. Devagar. Lento. Dorme. Acorda. Sonha. Chora. Deseja. Teme. Levanta mais uma vez. Escova os dentes. Sangue. Banho. Sono. Leite. Só um
Quisera talvez uma pausa. Mas tem sido bom. Está sendo. Como frases soltas. E verbos no presente do indicativo. Eita vida!
Sexta-feira, Setembro 24, 2004
"I can't get no..." (*)
Que o ser humano é insatisfeito por natureza todo mundo sabe. Mas o que é que faz a gente desistir daquilo que brada aos quatro ventos que quer no momento que consegue?
Ela está bem sozinha, mas admite que um namorado cairia bem. Agora, me explica, por que cada vez em que está na iminência de conseguir um, entra em pânico? Por que é que no momento em que o candidato a namorado - que ela tanto lutou para conquistar, chorou, sofreu - decide o que quer e faz uma surpresa chegando na sua casa com comida chinesa, ela prefere ficar sozinha e assistir televisão? O que é que a faz dizer que está com sono, virar para o lado e fingir dormir ao lado daquele que a fez varar tantas noites acordada pensando nos mil motivos para ele não ter ligado?
Ai, meu deus, por que a gente é assim? Depois ela reclama que ninguém quer compromisso, ninguém quer nada sério. Será que ela também não está incluída nesse grupo? Falar é fácil, mas e aí? Enquanto não se tem, se xinga as amigas "pára de reclamar, pelo menos tu tem o fulano, que é um amor. Queria ver se tivesse que ficar como eu, sozinha. O mundo é fubango, ninguém quer nada com ninguém". Mas e ela? Quer MESMO alguma coisa com alguém?
Não sei. Nem ela. E isso a deixa com vontade de se esconder embaixo das cobertas até que a venham resgatar. De preferência, com a resposta para todas as suas dúvidas.
(*) "Satisfaction", Rolling Stones
Ela está bem sozinha, mas admite que um namorado cairia bem. Agora, me explica, por que cada vez em que está na iminência de conseguir um, entra em pânico? Por que é que no momento em que o candidato a namorado - que ela tanto lutou para conquistar, chorou, sofreu - decide o que quer e faz uma surpresa chegando na sua casa com comida chinesa, ela prefere ficar sozinha e assistir televisão? O que é que a faz dizer que está com sono, virar para o lado e fingir dormir ao lado daquele que a fez varar tantas noites acordada pensando nos mil motivos para ele não ter ligado?
Ai, meu deus, por que a gente é assim? Depois ela reclama que ninguém quer compromisso, ninguém quer nada sério. Será que ela também não está incluída nesse grupo? Falar é fácil, mas e aí? Enquanto não se tem, se xinga as amigas "pára de reclamar, pelo menos tu tem o fulano, que é um amor. Queria ver se tivesse que ficar como eu, sozinha. O mundo é fubango, ninguém quer nada com ninguém". Mas e ela? Quer MESMO alguma coisa com alguém?
Não sei. Nem ela. E isso a deixa com vontade de se esconder embaixo das cobertas até que a venham resgatar. De preferência, com a resposta para todas as suas dúvidas.
(*) "Satisfaction", Rolling Stones
Quinta-feira, Setembro 23, 2004
Adeus, enfim
- Você já vai
- Vou
- Leva o guarda-chuva
- Não precisa
- Por favor, fico preocupada
- Não fica não
- Tá.
- E se
- Tudo bem
- Mas se não
- Claro
- E quem disse
- Ninguém. Não precisa dizer
- Mais nada
- É
- Você consegue ver
- Consigo
- E como é daí
- É doce e azul
- Pensei que a paixão era vermelha
- Eu também. Dá pra sentir daí
- Não
- Era o que eu queria hoje
- Mas eu não sinto
- Eu imaginava
- Que bom, assim não sofre tanto
- Quisera mesmo
- Eu sei
- Se sabe, se sabia por que
- Porque sim
- Porque sim, não, porque não
- Ah, é assim
- Então é. E você já vai
- Vou
- Da esquina se sente menos ainda
- Não posso sentir nada, eu avisei
- É de cor de gelo seu coração
E ponto final
- Vou
- Leva o guarda-chuva
- Não precisa
- Por favor, fico preocupada
- Não fica não
- Tá.
- E se
- Tudo bem
- Mas se não
- Claro
- E quem disse
- Ninguém. Não precisa dizer
- Mais nada
- É
- Você consegue ver
- Consigo
- E como é daí
- É doce e azul
- Pensei que a paixão era vermelha
- Eu também. Dá pra sentir daí
- Não
- Era o que eu queria hoje
- Mas eu não sinto
- Eu imaginava
- Que bom, assim não sofre tanto
- Quisera mesmo
- Eu sei
- Se sabe, se sabia por que
- Porque sim
- Porque sim, não, porque não
- Ah, é assim
- Então é. E você já vai
- Vou
- Da esquina se sente menos ainda
- Não posso sentir nada, eu avisei
- É de cor de gelo seu coração
E ponto final
Quarta-feira, Setembro 22, 2004
Dieta de novo
A calça quase parou nos quadris. Subir o zíper exigiu alguns segundos sem respirar. É, chegou a hora. Não dá mais para adiar: preciso emagrecer.
Dieta. Palavrinha maldita. Significa comer sem gosto e continuar com fome. Nenhum nutricionista seria capaz de me convencer de que é possível sair satisfeita de um almoço cujo cardápio se compõe de alface e peito de frango grelhado, com uma fruta de sobremesa. E o arroz com feijão? E a farofa? E a batata? E o bife à milanesa? Pelo menos de um doce eu preciso ou vou entrar em crise de abstinência de glicose.
Já tomo refrigerante light normalmente, ponho adoçante no suco e no café. Onde mais vou cortar? O lanche da noite. Agora, vai ser só pão árabe e queijo branco. E olhe lá. Se puder substituir por uma sopinha, melhor. A fome da tarde engano com café e chiclete diet. E Deus me proteja de uma gastrite.
Se der vontade de comer um doce naquela hora de tensão, pego um chá. Com adoçante, claro. E a minha ansiedade, aplaco com o que? Nada de balinhas muito menos de chocolate. Barrinha de cereal, saboreando cada pedacinho para aproveitar bem a cota de açúcar permitida.
Pelo menos lá em casa tentações não entram. Bem, tem uma caixa de bombons no armário da sala, mas está bem escondida. Os biscoitos recheados que eu trouxe na última ida ao supermercado vou dar para a faxineira. Pão de queijo, só no fim de semana. E a imagem das calças subindo sem apertos e das saias sem pneuzinhos sobrando me leva adiante.
Mau humor? Ainda não, ainda sou um ser sociável. A menos que alguma amiga sílfide venha reclamar comigo que está muito magra e não consegue engordar.
Dieta. Palavrinha maldita. Significa comer sem gosto e continuar com fome. Nenhum nutricionista seria capaz de me convencer de que é possível sair satisfeita de um almoço cujo cardápio se compõe de alface e peito de frango grelhado, com uma fruta de sobremesa. E o arroz com feijão? E a farofa? E a batata? E o bife à milanesa? Pelo menos de um doce eu preciso ou vou entrar em crise de abstinência de glicose.
Já tomo refrigerante light normalmente, ponho adoçante no suco e no café. Onde mais vou cortar? O lanche da noite. Agora, vai ser só pão árabe e queijo branco. E olhe lá. Se puder substituir por uma sopinha, melhor. A fome da tarde engano com café e chiclete diet. E Deus me proteja de uma gastrite.
Se der vontade de comer um doce naquela hora de tensão, pego um chá. Com adoçante, claro. E a minha ansiedade, aplaco com o que? Nada de balinhas muito menos de chocolate. Barrinha de cereal, saboreando cada pedacinho para aproveitar bem a cota de açúcar permitida.
Pelo menos lá em casa tentações não entram. Bem, tem uma caixa de bombons no armário da sala, mas está bem escondida. Os biscoitos recheados que eu trouxe na última ida ao supermercado vou dar para a faxineira. Pão de queijo, só no fim de semana. E a imagem das calças subindo sem apertos e das saias sem pneuzinhos sobrando me leva adiante.
Mau humor? Ainda não, ainda sou um ser sociável. A menos que alguma amiga sílfide venha reclamar comigo que está muito magra e não consegue engordar.
Terça-feira, Setembro 21, 2004
Memória
De manhã cedo, cheiro de café. Era assim que o dia começava, e depois o pão francês quentinho, com manteiga derretida, que margarina era horrível e desde pequenininho ele torcia o nariz.
(na época ele não sabia que o café da manhã precisa ter fibras, muitas fibras.)
Depois, recreio, os melhores dias tinham Goiabinha. Não a fruta, mas o biscoito macio recheado de goiabada que vinha numa embalagem vemelha. Às vezes tinha também pão de forma com patê, pão do qual a mãe tirava, cuidadosamente, as beiradas - por que depois de grande a gente não liga? Tinha dia em que saía atrasado e o pai dava dinheiro para misto árabe, que ele comprava na cantina se sentindo importante, porque ele era pequeno mas podia escolher com ou sem orégano, mas sempre com presunto e mussarela, que era o queijo mais alegre porque combina com pizza e dá fiozinhos.
Na hora do almoço, chegava com tanta fome que mal conseguia esperar a empregada preparar o arroz branco, puxado no alho, o feijão cremoso, a salada de alface com tomate e cebolas em rodelas e a carne, que podia ser um bife à milanesa bem sequinho, que depois ela ao comer falava que era uma das comidas que mais sujava louça mas que valia a pena.
(outra comida que sujava muita louça era panqueca: liqüidificador inclusive).
À tardinha, depois de dormir, acordava sempre com fome, e ele e a empregada ficavam no sofá assistindo TV e ela dava vitamina de abacate, de banana ou de mamão (agora é shake que isso chama).Gostava também de cream cracker com manteiga, que ele fazia um sanduíche e apertava para ver a manteiga saindo pelos furinhos feito minhoquinhas. Teve uma época em que ele ficou viciado em Amendocrem e as tardes eram cheias de pão de fôrma com Amendocrem, depois enjoou.
À noite os pais sempre estavam em casa e todos comiam juntos na mesa, e a janta podia ser comida de verdade ou quando a mãe estava animada e não muito cansada um caldo verde com perfume de azeite e que deixava verdinho nos dentes. Ele pensava como é que porco pode ser xingamento se a carne de porco era a mais gostosa de todas.
No final de semana eles compravam frango de padaria e coca-cola. Vinha com um saquinho de farofa amarelinha e sem gosto, mas o frango era gostoso, bem dourado, e a sobremesa era musse de pobre, que a mãe fazia batendo gelatina com creme de leite.
E na segunda-feira às vezes ele amanhecia com dor de barriga, porque no domingo à noite eles assistiam ao Fantástico comendo brigadeiro direto da panela.
(na época ele não sabia que o café da manhã precisa ter fibras, muitas fibras.)
Depois, recreio, os melhores dias tinham Goiabinha. Não a fruta, mas o biscoito macio recheado de goiabada que vinha numa embalagem vemelha. Às vezes tinha também pão de forma com patê, pão do qual a mãe tirava, cuidadosamente, as beiradas - por que depois de grande a gente não liga? Tinha dia em que saía atrasado e o pai dava dinheiro para misto árabe, que ele comprava na cantina se sentindo importante, porque ele era pequeno mas podia escolher com ou sem orégano, mas sempre com presunto e mussarela, que era o queijo mais alegre porque combina com pizza e dá fiozinhos.
Na hora do almoço, chegava com tanta fome que mal conseguia esperar a empregada preparar o arroz branco, puxado no alho, o feijão cremoso, a salada de alface com tomate e cebolas em rodelas e a carne, que podia ser um bife à milanesa bem sequinho, que depois ela ao comer falava que era uma das comidas que mais sujava louça mas que valia a pena.
(outra comida que sujava muita louça era panqueca: liqüidificador inclusive).
À tardinha, depois de dormir, acordava sempre com fome, e ele e a empregada ficavam no sofá assistindo TV e ela dava vitamina de abacate, de banana ou de mamão (agora é shake que isso chama).Gostava também de cream cracker com manteiga, que ele fazia um sanduíche e apertava para ver a manteiga saindo pelos furinhos feito minhoquinhas. Teve uma época em que ele ficou viciado em Amendocrem e as tardes eram cheias de pão de fôrma com Amendocrem, depois enjoou.
À noite os pais sempre estavam em casa e todos comiam juntos na mesa, e a janta podia ser comida de verdade ou quando a mãe estava animada e não muito cansada um caldo verde com perfume de azeite e que deixava verdinho nos dentes. Ele pensava como é que porco pode ser xingamento se a carne de porco era a mais gostosa de todas.
No final de semana eles compravam frango de padaria e coca-cola. Vinha com um saquinho de farofa amarelinha e sem gosto, mas o frango era gostoso, bem dourado, e a sobremesa era musse de pobre, que a mãe fazia batendo gelatina com creme de leite.
E na segunda-feira às vezes ele amanhecia com dor de barriga, porque no domingo à noite eles assistiam ao Fantástico comendo brigadeiro direto da panela.
Segunda-feira, Setembro 20, 2004
Café com rebu
Quarta-feira, 10 horas da manhã. Sentada na manicure, salão de beleza de bairro com ares “nobres” e cheio de pompa. Mão e pé dentro do meu orçamento, janela entre uma aula e outra e lá vamos nós.
Moças simpáticas e atenciosas, preocupam-se em garantir o ritual princesa completo.Café, sorrisos, água morna, esmalte bonito, bom-humor e cuidado.
Ela senta do meu lado. Exatamente no sofá do lado. Muito perto. E desanda a falar. Fala compulsivamente sobre roupas, perfumes, esmaltes, alergias, mãe, celular, lixa de unha, cabelo, homem, artistas, televisão... No que eu sorrio a cada observação jocosa da moçoila atacada. Ufa! Não agüentaria falar tanto assim!
Há algo de muito estranho na minha colega de “ritual mocinha”. Começo meu processo observação profunda e detalhada, que quando entra em ação, salve-se quem puder! Cada célula, uma anotação cerebral. Silenciosa, claro, mas com um tom de maldade e cinismo que me assustam! Tema para outro texto, certamente!
Hummm, o cabelo dela nesse loiro palha, ta bem esquisito.
E essa voz? Caramba! Que esquisita!
Que cor horrível de batom. Esse rosa pálido cintilante... Nada a ver!
Gente, mas tem algo de muito estranho com essa moça!
Começo pelos braços. Não são braços de mulher. Passo para as mãos. Não são mãos de mulher. Têm uma porção de pêlos depilados, ou arrancados com gilete, o que causa um ar de decadência miserável e me dá angústia imensa!A pele! A pele do rosto, não é de mulher. Parece que uma grossa capa de base cobre os pêlos da condição masculina. Agora sim. Percebo. O estranhamento da figura vem dela ser o que não é. Ou ser o que é, mas de um jeito equivocado, ou de não saber quem é, ou de... Chega!
Momentos de dúvida e espanto. Estava lá sentado(a) ao meu lado um transexual. Como ainda me assusto com essas coisas! Inevitável choque, diria!
E é isso mesmo. A moça, moço, sai da sala e eu pergunto à pedicure, num acesso incontrolável:
-É homem???
Ao que ela responde com cara de paisagem.
-É. Você percebeu né?
Sim, querida. Eu percebi. Percebi que há gente no mundo que tá mesmo muito mal resolvida, que deve ser uma loucura ter essa confusão na cabeça, que a vida sexual desse moço deve ser muito traumática, que é mesmo triste perceber que isso existe e não só nesse caso e sim a cada esquina. Em cada canto, em cada beco, uma vida dessas assim, com dramas existenciais tão severos. Com níveis de negação tão elevados, com uma compreensão da aceitação humana tão complexa. Mas insisto em pensar que eu não tenho a mínima idéia do que é isso. E que pra saber só passando pela situação, que na verdade, eu nunca poderei experimentar, por ser uma mulher convicta da minha opção sexual e feliz com ela, em dia com a minha sexualidade e de maneira saudável.
Mas que o café do meu esmalte tem um quê de rebu essa semana, isso tem!
Moças simpáticas e atenciosas, preocupam-se em garantir o ritual princesa completo.Café, sorrisos, água morna, esmalte bonito, bom-humor e cuidado.
Ela senta do meu lado. Exatamente no sofá do lado. Muito perto. E desanda a falar. Fala compulsivamente sobre roupas, perfumes, esmaltes, alergias, mãe, celular, lixa de unha, cabelo, homem, artistas, televisão... No que eu sorrio a cada observação jocosa da moçoila atacada. Ufa! Não agüentaria falar tanto assim!
Há algo de muito estranho na minha colega de “ritual mocinha”. Começo meu processo observação profunda e detalhada, que quando entra em ação, salve-se quem puder! Cada célula, uma anotação cerebral. Silenciosa, claro, mas com um tom de maldade e cinismo que me assustam! Tema para outro texto, certamente!
Hummm, o cabelo dela nesse loiro palha, ta bem esquisito.
E essa voz? Caramba! Que esquisita!
Que cor horrível de batom. Esse rosa pálido cintilante... Nada a ver!
Gente, mas tem algo de muito estranho com essa moça!
Começo pelos braços. Não são braços de mulher. Passo para as mãos. Não são mãos de mulher. Têm uma porção de pêlos depilados, ou arrancados com gilete, o que causa um ar de decadência miserável e me dá angústia imensa!A pele! A pele do rosto, não é de mulher. Parece que uma grossa capa de base cobre os pêlos da condição masculina. Agora sim. Percebo. O estranhamento da figura vem dela ser o que não é. Ou ser o que é, mas de um jeito equivocado, ou de não saber quem é, ou de... Chega!
Momentos de dúvida e espanto. Estava lá sentado(a) ao meu lado um transexual. Como ainda me assusto com essas coisas! Inevitável choque, diria!
E é isso mesmo. A moça, moço, sai da sala e eu pergunto à pedicure, num acesso incontrolável:
-É homem???
Ao que ela responde com cara de paisagem.
-É. Você percebeu né?
Sim, querida. Eu percebi. Percebi que há gente no mundo que tá mesmo muito mal resolvida, que deve ser uma loucura ter essa confusão na cabeça, que a vida sexual desse moço deve ser muito traumática, que é mesmo triste perceber que isso existe e não só nesse caso e sim a cada esquina. Em cada canto, em cada beco, uma vida dessas assim, com dramas existenciais tão severos. Com níveis de negação tão elevados, com uma compreensão da aceitação humana tão complexa. Mas insisto em pensar que eu não tenho a mínima idéia do que é isso. E que pra saber só passando pela situação, que na verdade, eu nunca poderei experimentar, por ser uma mulher convicta da minha opção sexual e feliz com ela, em dia com a minha sexualidade e de maneira saudável.
Mas que o café do meu esmalte tem um quê de rebu essa semana, isso tem!
Domingo, Setembro 19, 2004
Esclarecimento e texto convidado!
Com um dia de atraso, posto o texto da nossa ilustre convidada da semana, Ana Amélia. Aproveito para dizer que o Dedos passa por um momento de abandono por parte da minha pessoa humana. Ando com muito trabalho, como muitos sabem e tenho deixado um pouquinho de lado esse espaço aqui. Continuo. Firme e forte como um pudim, mas continuo! rs...rs.... Peço então desculpas pela minha aparente "displicência". Aí vai o textinho da sósia da Simony! Beijos Meninas, Pimenas e leitores assíduos! É nóis, né empresário?!?
Cantoria Inusitada ou Senhora 1
Estávamos todos sentados naquele 569 depois de esperá-lo uns bons minutos. Eram, mais ou menos, 6 e meia da tarde. Talvez muitos, como eu, estivessem saindo do trabalho para ir estudar e – por quê não? – aproveitar essa pequena viagem para recuperar o sono que o maldito despertador fez o favor de interromper pela manhã. Todos balançávamos como que numa coreografia ensaiadíssima, pra lá e pra cá. As cabeças, por vezes, batiam na janela e nos faziam despertar do sono que só o ônibus, aquele berço gigante, é capaz de nos proporcionar.
E a rotina de ônibus se repetia mais uma vez. Havia os estudantes com suas enormes mochilas, havia as turmas que falavam alto e conversavam como se estivessem numa festa, havia aqueles sujeitos suspeitos que sempre fazem com que as mulheres indefesas nunca se sentem ao lado deles, havia as senhoras que sentam nas primeiras fileiras... Sempre os mesmos personagens da mesma novela diária.
Eis que, de repente, o silêncio é quebrado.
“MI AMORE, MI AMOREEEE”.
Alguém que subia vagarosamente no ônibus, pela porta da frente, começava a cantar. O motorista, os primeiros passageiros, as pessoas do lado de fora, todos riam daquela criatura que adentrava o recinto. Eu, lá do fundo do ônibus não conseguia enxergar o que se passava. Era uma voz feminina. Ela cantava. A plenos pulmões. Cantava sem pudores, cantava muito. Todos se entreolhavam. “Deve ser alguma mendiga, coitada, que sofre de problema mental”, pensei. Mas não era, não. Finalmente, eu e meus companheiros de fundo de ônibus, esticamos nossos pescoços e conseguimos ver uma senhora muito bonitinha até. Ela parecia avó de novela mexicana com uma bola rosa – de blush - em cada bochecha, seu batom era vermelho e forte; o cabelo, bem tingido de preto e super penteado. Nem o calor de 40 graus a impedira de usar meia calça e blusa de linho e embora mal conseguisse subir os degraus do ônibus, calçava saltos altíssimos para uma senhora daquela idade. E ela cantava e cantava. A atmosfera entre os passageiros foi de estranheza, perplexidade e piedade daquela senhora que não tinha vergonha de nada.
Seu repertório era eclético, antes cantava uma canção italiana; depois, uma folclórica. Subitamente, uma ambulância passou e integrou seu som ensurdecedor ao caos do trânsito. A senhora não titubeou em gritar: Cala a boca, sirene! Alguns dos passageiros riram; outros a ignoravam. Continuou a cantar, dessa vez era o Hino Nacional. Cantava com um respeito digno da parada de 7 de setembro. De repente, interrompeu sua cantoria. Esqueceu-se do hino para dizer a um senhor encorpado que descia do ônibus: “Vai com Deus, fazer uma dieta, meu filho, você tá muito gorducho”. (Nessas alturas já se ouviam algumas gargalhadas). O ônibus passava a ser o palco da senhorinha sem censuras. Ela incomodava a muitos, não a mim.
Finalmente, no último ponto antes do Túnel Rebouças, a senhora desceu. Se despediu do motorista e de nós de forma meiga e carinhosa: “Fiquem com Jesus, meus amores, paixão da minha vida.”. Estava com vontade de aplaudi-la, acho que alguns de nós estávamos, mas nos contivemos, afinal, não pegaria bem. A senhorinha se foi, o silêncio entediante voltou a reinar. Todos voltamos a encostar a cabeça na janela daquele ônibus que agora nos embalaria até nossos destinos. E nesse caminho, já com saudades da senhorinha, cada um cantarolava bem baixinho sua música favorita.
Senhora 2
Hoje, a caminho do trabalho, vi outra senhora diferente. Essa não estava com o rosto pintado, não tinha o cabelo tingido nem a elegância e alegria daquela senhorinha do ônibus, tampouco cantava. Esta, era simples e não menos interessante.
Vestia roupinha cinzenta, saia plissada, sandálias com meia, camisa pólo bem branquinha, e segurava uma bolsa de alça curtíssima. Parecia zangada, muito zangada.
Parada em frente a uma portaria, com a cabeça branca voltada para o alto, ela brigava, apontava o dedo para o prédio e ralhava com ele. Fundamentava seus argumentos, defendia seu ponto de vista, brigava com as janelas e o concreto. Ela estava magoada e parecia muito ofendida.
O que teria acontecido com esta senhorinha? Por que estava tão brava? Não era a primeira vez que a via por essas bandas. Já presenciei outras de suas brigas com outros prédios, outras janelas. Pobre senhorinha. Tomara que um dia ela pegue o ônibus 569, e conheça aquela outra senhora, a das bochechas cor de rosa. Quem sabe não se tornariam amigas? Quem sabe?
Ana Amélia
Cantoria Inusitada ou Senhora 1
Estávamos todos sentados naquele 569 depois de esperá-lo uns bons minutos. Eram, mais ou menos, 6 e meia da tarde. Talvez muitos, como eu, estivessem saindo do trabalho para ir estudar e – por quê não? – aproveitar essa pequena viagem para recuperar o sono que o maldito despertador fez o favor de interromper pela manhã. Todos balançávamos como que numa coreografia ensaiadíssima, pra lá e pra cá. As cabeças, por vezes, batiam na janela e nos faziam despertar do sono que só o ônibus, aquele berço gigante, é capaz de nos proporcionar.
E a rotina de ônibus se repetia mais uma vez. Havia os estudantes com suas enormes mochilas, havia as turmas que falavam alto e conversavam como se estivessem numa festa, havia aqueles sujeitos suspeitos que sempre fazem com que as mulheres indefesas nunca se sentem ao lado deles, havia as senhoras que sentam nas primeiras fileiras... Sempre os mesmos personagens da mesma novela diária.
Eis que, de repente, o silêncio é quebrado.
“MI AMORE, MI AMOREEEE”.
Alguém que subia vagarosamente no ônibus, pela porta da frente, começava a cantar. O motorista, os primeiros passageiros, as pessoas do lado de fora, todos riam daquela criatura que adentrava o recinto. Eu, lá do fundo do ônibus não conseguia enxergar o que se passava. Era uma voz feminina. Ela cantava. A plenos pulmões. Cantava sem pudores, cantava muito. Todos se entreolhavam. “Deve ser alguma mendiga, coitada, que sofre de problema mental”, pensei. Mas não era, não. Finalmente, eu e meus companheiros de fundo de ônibus, esticamos nossos pescoços e conseguimos ver uma senhora muito bonitinha até. Ela parecia avó de novela mexicana com uma bola rosa – de blush - em cada bochecha, seu batom era vermelho e forte; o cabelo, bem tingido de preto e super penteado. Nem o calor de 40 graus a impedira de usar meia calça e blusa de linho e embora mal conseguisse subir os degraus do ônibus, calçava saltos altíssimos para uma senhora daquela idade. E ela cantava e cantava. A atmosfera entre os passageiros foi de estranheza, perplexidade e piedade daquela senhora que não tinha vergonha de nada.
Seu repertório era eclético, antes cantava uma canção italiana; depois, uma folclórica. Subitamente, uma ambulância passou e integrou seu som ensurdecedor ao caos do trânsito. A senhora não titubeou em gritar: Cala a boca, sirene! Alguns dos passageiros riram; outros a ignoravam. Continuou a cantar, dessa vez era o Hino Nacional. Cantava com um respeito digno da parada de 7 de setembro. De repente, interrompeu sua cantoria. Esqueceu-se do hino para dizer a um senhor encorpado que descia do ônibus: “Vai com Deus, fazer uma dieta, meu filho, você tá muito gorducho”. (Nessas alturas já se ouviam algumas gargalhadas). O ônibus passava a ser o palco da senhorinha sem censuras. Ela incomodava a muitos, não a mim.
Finalmente, no último ponto antes do Túnel Rebouças, a senhora desceu. Se despediu do motorista e de nós de forma meiga e carinhosa: “Fiquem com Jesus, meus amores, paixão da minha vida.”. Estava com vontade de aplaudi-la, acho que alguns de nós estávamos, mas nos contivemos, afinal, não pegaria bem. A senhorinha se foi, o silêncio entediante voltou a reinar. Todos voltamos a encostar a cabeça na janela daquele ônibus que agora nos embalaria até nossos destinos. E nesse caminho, já com saudades da senhorinha, cada um cantarolava bem baixinho sua música favorita.
Senhora 2
Hoje, a caminho do trabalho, vi outra senhora diferente. Essa não estava com o rosto pintado, não tinha o cabelo tingido nem a elegância e alegria daquela senhorinha do ônibus, tampouco cantava. Esta, era simples e não menos interessante.
Vestia roupinha cinzenta, saia plissada, sandálias com meia, camisa pólo bem branquinha, e segurava uma bolsa de alça curtíssima. Parecia zangada, muito zangada.
Parada em frente a uma portaria, com a cabeça branca voltada para o alto, ela brigava, apontava o dedo para o prédio e ralhava com ele. Fundamentava seus argumentos, defendia seu ponto de vista, brigava com as janelas e o concreto. Ela estava magoada e parecia muito ofendida.
O que teria acontecido com esta senhorinha? Por que estava tão brava? Não era a primeira vez que a via por essas bandas. Já presenciei outras de suas brigas com outros prédios, outras janelas. Pobre senhorinha. Tomara que um dia ela pegue o ônibus 569, e conheça aquela outra senhora, a das bochechas cor de rosa. Quem sabe não se tornariam amigas? Quem sabe?
Ana Amélia
Sexta-feira, Setembro 17, 2004
As amigas da minha vó
Domingo de manhã, 10h00. Um grupo animado, arrumadíssimo, colares de pérolas, terninhos clássicos mas coloridos: bege, vinho, cor-de-abóbora, azul turquesa... Tomam chimarrão na sala de uma delas, uma gata vira-lata passeia preguiçosamente por entre as pernas das senhoras, em busca de um afago. Estão animadas, falando sobre a amiga que completa 80 anos nesse dia e cuja festa começará ao meio-dia. Um grande almoço, com direito a rever todas as pessoas "das antigas" que as circunstâncias da vida trataram de afastar.
A van chegará as 10h30 em ponto para buscá-las. O aniversário é em Porto Alegre, onde a aniversariante mora já há 15 anos ("Nossa, 15 anos... Como o tempo passa..."). O grupo ainda mora em São Leopoldo, cidade da região metropolitana, há cerca de meia hora - com trânsito - da capital, nas mesmas casas de 15 anos atrás. Contrataram uma van, pois não querem perder por nada a homenagem.
- Falta a Marli!
- Liga para ela.
Rebuliço!
- Me passa a agenda! Ih, não tenho o telefone da Marli!
- E agora?
- Vamos procurar na lista! Me passa a lista. Qual o sobrenome da Marli?
- Não sei, ela é irmã da Judite, procura aí.
- A Judite, do armarinho? Sério? Não sabia...
- Eu também não. Que coisa, nem parecidas elas são. Nunca vi as duas juntas.
- Pois é. Mas procura aí: Marli, irmã da Judite.
- Isso não consta na lista. Qual o sobrenome da Judite?
- Não sei.
- (...)
- Quem quer um chima?
O chimarrão passa para a dona da casa, que senta na poltrona logo abaixo da janela. Pela porta aberta, que dá para a calçada, entra a cabeça do "seu" Armando.
- "Seu" Armando! Pontual como sempre! Vamos, a van chegou!
- Vamos, vamos!
As senhoras entram na van prateada, com ar condicionado, já acostumadas ao seu espaço. "Seu" Armando coloca o banquinho que serve de degrau para que elas embarquem mais facilmente com seus saltinhos. A van é velha companheira de viagens a Gramado e Canela, lugares que onde as amigas adoram passar finais-de-semana. "Seu" Armando é sempre o motorista oficial ("muito educado, discreto, atencioso.")Entram todas.
- Falta a Marli!
- Liga para ela!
- Não temos o telefone dela, lembra?
- Ah, então liga para a Judite e pergunta.
- (...)
- Mas a Judite não foi convidada para a festa... Será que não fica chato?
- Não precisamos dizer nada da festa, só pedir o telefone da Marli.
- Ah é... Alô? Judite? Neusa, tudo bem? Tudo tranquilo por aqui. Escuta, tu pode me dar o telefone da Marli? Isso, celular é melhor. Ah, muito obrigada! Quando é que tu vem aqui para um chima? Então tá, vou comprar uma cuca também. Tchau! Um beijo pra ti!
- Tá, agora liga para a Marli!
- Qual o número?
- Mas tu é que sabe, acabou de pegar com a Judite!
- Ninguém anotou?
- Não, tu não falaste alto, só escutou.
- E agora?
- Ah, se a Marli não chegar em cinco minutos a gente vai sem ela. Ela pega um táxi, o endereço está no convite.
- Então tá.
Nesse instante, ouvem-se os passinhos apressados da Marli. Ela chega e olha para dentro da van, o rosto vermelho do caminhar rápido, no sol.
- Oi, gurias! Desculpe a demora, mas estava na missa!
- Bah, já estávamos quase indo sem ti! Entra, entra que queremos ser as primeiras a chegar!
E a van partiu, com as velhinhas felizes a caminho do aniversário da amiga.
A van chegará as 10h30 em ponto para buscá-las. O aniversário é em Porto Alegre, onde a aniversariante mora já há 15 anos ("Nossa, 15 anos... Como o tempo passa..."). O grupo ainda mora em São Leopoldo, cidade da região metropolitana, há cerca de meia hora - com trânsito - da capital, nas mesmas casas de 15 anos atrás. Contrataram uma van, pois não querem perder por nada a homenagem.
- Falta a Marli!
- Liga para ela.
Rebuliço!
- Me passa a agenda! Ih, não tenho o telefone da Marli!
- E agora?
- Vamos procurar na lista! Me passa a lista. Qual o sobrenome da Marli?
- Não sei, ela é irmã da Judite, procura aí.
- A Judite, do armarinho? Sério? Não sabia...
- Eu também não. Que coisa, nem parecidas elas são. Nunca vi as duas juntas.
- Pois é. Mas procura aí: Marli, irmã da Judite.
- Isso não consta na lista. Qual o sobrenome da Judite?
- Não sei.
- (...)
- Quem quer um chima?
O chimarrão passa para a dona da casa, que senta na poltrona logo abaixo da janela. Pela porta aberta, que dá para a calçada, entra a cabeça do "seu" Armando.
- "Seu" Armando! Pontual como sempre! Vamos, a van chegou!
- Vamos, vamos!
As senhoras entram na van prateada, com ar condicionado, já acostumadas ao seu espaço. "Seu" Armando coloca o banquinho que serve de degrau para que elas embarquem mais facilmente com seus saltinhos. A van é velha companheira de viagens a Gramado e Canela, lugares que onde as amigas adoram passar finais-de-semana. "Seu" Armando é sempre o motorista oficial ("muito educado, discreto, atencioso.")Entram todas.
- Falta a Marli!
- Liga para ela!
- Não temos o telefone dela, lembra?
- Ah, então liga para a Judite e pergunta.
- (...)
- Mas a Judite não foi convidada para a festa... Será que não fica chato?
- Não precisamos dizer nada da festa, só pedir o telefone da Marli.
- Ah é... Alô? Judite? Neusa, tudo bem? Tudo tranquilo por aqui. Escuta, tu pode me dar o telefone da Marli? Isso, celular é melhor. Ah, muito obrigada! Quando é que tu vem aqui para um chima? Então tá, vou comprar uma cuca também. Tchau! Um beijo pra ti!
- Tá, agora liga para a Marli!
- Qual o número?
- Mas tu é que sabe, acabou de pegar com a Judite!
- Ninguém anotou?
- Não, tu não falaste alto, só escutou.
- E agora?
- Ah, se a Marli não chegar em cinco minutos a gente vai sem ela. Ela pega um táxi, o endereço está no convite.
- Então tá.
Nesse instante, ouvem-se os passinhos apressados da Marli. Ela chega e olha para dentro da van, o rosto vermelho do caminhar rápido, no sol.
- Oi, gurias! Desculpe a demora, mas estava na missa!
- Bah, já estávamos quase indo sem ti! Entra, entra que queremos ser as primeiras a chegar!
E a van partiu, com as velhinhas felizes a caminho do aniversário da amiga.
Quinta-feira, Setembro 16, 2004
Estratégias
Se você ligou da última vez, nem pense em ligar de novo. É a vez dele. Se nada acontecer em uma semana, aí você pode mandar um e-mail, mas não exclusivamente pra ele. Mande para todos os amigos da sua lista chamando para uma festa. Se não houver, invente uma. Se for seu aniversário ou algo assim, que sorte! temos aí uma excelente desculpa. Falando em e-mail, nada de responder alguma mensagem dele com a mesma urgência do seu interesse, ou seja, mal ela pipoca na sua caixa de entrada e você já escreveu um texto com introdução, desenvolvimento, conclusão e título. Uma manhã ou uma tarde de espera não fazem mal a ninguém. Tudo bem, se você estiver muito ansiosa, no mínimo três horas, mas nunca menos do que isso. O ideal mesmo é só no dia seguinte. Se a coisa entre vocês estiver mais ou menos engrenada, nada de ficar dizendo que está com saudades ou fazendo declarações do gênero. Isso só depois do quinto encontro, mais ou menos. Nada de bandeira. Em resumo, a fórmula é simples: ele avançou, você recua. Dois passos de elefante, um seu de tartaruga. Joga no contra-ataque, jogadas ensaiadíssimas, só vai na boa. Na boa, não, na ótima, e olhe lá.
Tem uma hora que você pensa que isso não pode fazer sentido. Mas é o jogo de sedução, respondem os experientes. É humano, dizem os entendidos, é assim que funciona. Suspiro.
Um dia, um certo encantamento no ar – típico daqueles que dizem com todas as letras que algo fora do normal está acontecendo – faz com que todas as regras pré-estabelecidas sejam imediatamente esquecidas. Sintomática amnésia. Quando se vê, já passou e muito da fronteira do sorrir muito, do pousar sutil e elegantemente as mãos no outro numa conversa propositadamente envolvente e tantas outras. Olhando pra trás, nem dá pra ver a linha de partida. E, como num jogo em que se ganha de virada quando o empate já era um bom resultado e ninguém mais acreditava na vitória, ela vem. Bendita amnésia. Acabou-se o temor que faz com que cada palavra seja milimetricamente medida. Diz logo meu amor vem me ver. E ele vem. Liga uma, duas ou três vezes seguidas. E ele gosta. Medo, agora, só o de estrear um caderno recém-saído da papelaria e começar uma história novinha em folha. Que vem gostoso, misturado com frio na barriga e muita vontade. Vontade de seguir de mãos dadas, tranqüilamente, rumo à linha de chegada.
Tem uma hora que você pensa que isso não pode fazer sentido. Mas é o jogo de sedução, respondem os experientes. É humano, dizem os entendidos, é assim que funciona. Suspiro.
Um dia, um certo encantamento no ar – típico daqueles que dizem com todas as letras que algo fora do normal está acontecendo – faz com que todas as regras pré-estabelecidas sejam imediatamente esquecidas. Sintomática amnésia. Quando se vê, já passou e muito da fronteira do sorrir muito, do pousar sutil e elegantemente as mãos no outro numa conversa propositadamente envolvente e tantas outras. Olhando pra trás, nem dá pra ver a linha de partida. E, como num jogo em que se ganha de virada quando o empate já era um bom resultado e ninguém mais acreditava na vitória, ela vem. Bendita amnésia. Acabou-se o temor que faz com que cada palavra seja milimetricamente medida. Diz logo meu amor vem me ver. E ele vem. Liga uma, duas ou três vezes seguidas. E ele gosta. Medo, agora, só o de estrear um caderno recém-saído da papelaria e começar uma história novinha em folha. Que vem gostoso, misturado com frio na barriga e muita vontade. Vontade de seguir de mãos dadas, tranqüilamente, rumo à linha de chegada.
Quarta-feira, Setembro 15, 2004
Sim
Vestido de noiva, igreja, festa. Ou decisão súbita, mala arrumada, mudança improvisada. A vontade de unir duas vidas é igual. Compartilhar, dividir. Mesmo que seja um quitinete e um monte de contas para pagar. De papel passado ou sem assinar nada. Tanto faz se vão se referir um ao outro como marido e mulher ou se vão continuar se tratando por namorados. A casa agora é deles.
Ela sabe que ele ronca a noite inteira, ele está ciente de que ela vê TV até a madrugada. Os lençóis vão ser de algodão puro. Ela conhece bem a mania dele de ficar horas jogando no computador, ele tem plena consciência de que ela é viciada em internet. O quartinho de empregada vai virar escritório. Ela já desistiu de reclamar das cuecas que ele larga no cesto de roupas, ele não se cansa de pedir para ela recolher as calcinhas do chuveiro. A máquina de lavar pode ser comprada à prestação. Ela nunca escondeu que não sabe cozinhar, ele sempre deixou bem claro que não lava banheiro de jeito nenhum. Além dos pratos e copos, é bom também ter umas taças de vinho.
Ele prometeu que não vai ter crises de ciúme quando ela esticar um chope depois do trabalho. Ela jurou que não vai implicar com o futebol semanal dele. Ambos se comprometeram a não brigar pelo controle remoto. E a alternar os almoços de domingo com as famílias de cada um. Quem sujar uma louça lava imediatamente. Será que o dinheiro vai dar para pagar uma faxineira?
Sim, agora são só os dois. Sim, eles não têm dúvidas. Sim, o outro vai estar em casa esperando toda noite. Sim, vão acordar juntos toda manhã. Sim, o mesmo endereço, o mesmo número de telefone. Sim, vigília em dias de febre. Sim, companhia em horas de insônia. Sim, aliança. Sim, eles acreditam. Sim, eles aceitam.
Ela sabe que ele ronca a noite inteira, ele está ciente de que ela vê TV até a madrugada. Os lençóis vão ser de algodão puro. Ela conhece bem a mania dele de ficar horas jogando no computador, ele tem plena consciência de que ela é viciada em internet. O quartinho de empregada vai virar escritório. Ela já desistiu de reclamar das cuecas que ele larga no cesto de roupas, ele não se cansa de pedir para ela recolher as calcinhas do chuveiro. A máquina de lavar pode ser comprada à prestação. Ela nunca escondeu que não sabe cozinhar, ele sempre deixou bem claro que não lava banheiro de jeito nenhum. Além dos pratos e copos, é bom também ter umas taças de vinho.
Ele prometeu que não vai ter crises de ciúme quando ela esticar um chope depois do trabalho. Ela jurou que não vai implicar com o futebol semanal dele. Ambos se comprometeram a não brigar pelo controle remoto. E a alternar os almoços de domingo com as famílias de cada um. Quem sujar uma louça lava imediatamente. Será que o dinheiro vai dar para pagar uma faxineira?
Sim, agora são só os dois. Sim, eles não têm dúvidas. Sim, o outro vai estar em casa esperando toda noite. Sim, vão acordar juntos toda manhã. Sim, o mesmo endereço, o mesmo número de telefone. Sim, vigília em dias de febre. Sim, companhia em horas de insônia. Sim, aliança. Sim, eles acreditam. Sim, eles aceitam.
Terça-feira, Setembro 14, 2004
A queda
O barulho me acordou. Tudo estava embaçado, em volta. Era a primeira vez que eu tomava um remédio para dormir. Afinal, era a primeira vez que viajava durante tantas horas - quatorze. Ao meu lado, uma adolescente gordinha, de cabelo claro, parecendo estrangeira, chorava baixinho.
Foi ela a primeira coisa que enxerguei. Depois, olhando em volta, ainda tonta, constatei que alguns choravam baixo, outros se abanavam, as aeromoças andavam para lá e para cá com ar consternado. Duas velhas rezavam um terço. Tinha alguma coisa errada.
"Para um avião que vai cair até que tá tudo calmo", pensei com algum humor. Nos filmes tem sempre gente gritando, confusão... Por enquanto as coisas estavam calmas. As pessoas falavam várias línguas, e entendi que o barulho que me despertara era de uma turbina que explodiu.
Ao contrário da maioria das pessoas, que almeja morrer dormindo, eu sempre quis estar consciente. Então constataria se seria verdade aquela história de que a nossa vida passa como um filme diante da gente, nesse instante. Comigo, provavelmente pelo efeito do remédio, não era bem assim. Pensava no presente: no meu filho, no filho dele, que se recusava a me chamar de vovó, nos meus pais velhinhos e no meu terceiro marido, que herdaria tudo - sem merecer, diga-se de passagem. Pensei em escrever um testamento para corrigir essa injustiça, mas os braços estavam moles. De mais a mais, se eu não sobreviveria, quanto mais um pedaço de papel.
Olhei a menina com mais atenção. Agora que o efeito passava, reparei que tinha um rosto bonito, mesmo gordinho. Coitada, ia morrer virgem. Talvez nunca tivesse beijado na boca. Deus não é justo.
Fui até o banheiro para lavar o rosto. Como os banheiros diminuíram com o tempo! Seria para evitar que os casais... bem, a essa altura dos fatos, acho que todos os casais do avião pensavam a mesma coisa. De volta à cadeira, puxei conversa com a menina. Era inglesa e estava mais calma. Explicou-me que desde que o avião saíra do Brasil apresentara problemas. Conversamos sobre nossos países - ela voltava de um intercâmbio. "Diziam que eu podia ser assaltada no Brasil. Agora vou morrer num avião da British Airways", sorriu.
Uma hora depois, o avião começou a cair. Lentamente, muito lentamente. Tinha gente que nem se conhecia e se abraçava. Eu e a menina nos olhamos, apenas.
- Vamos dividir o vidro de comprimidos? - ela perguntou. Tinha adivinhado meus pensamentos. Eu não era tão forte quanto imaginava.
- Vamos - respondi, sorrindo.
Foi ela a primeira coisa que enxerguei. Depois, olhando em volta, ainda tonta, constatei que alguns choravam baixo, outros se abanavam, as aeromoças andavam para lá e para cá com ar consternado. Duas velhas rezavam um terço. Tinha alguma coisa errada.
"Para um avião que vai cair até que tá tudo calmo", pensei com algum humor. Nos filmes tem sempre gente gritando, confusão... Por enquanto as coisas estavam calmas. As pessoas falavam várias línguas, e entendi que o barulho que me despertara era de uma turbina que explodiu.
Ao contrário da maioria das pessoas, que almeja morrer dormindo, eu sempre quis estar consciente. Então constataria se seria verdade aquela história de que a nossa vida passa como um filme diante da gente, nesse instante. Comigo, provavelmente pelo efeito do remédio, não era bem assim. Pensava no presente: no meu filho, no filho dele, que se recusava a me chamar de vovó, nos meus pais velhinhos e no meu terceiro marido, que herdaria tudo - sem merecer, diga-se de passagem. Pensei em escrever um testamento para corrigir essa injustiça, mas os braços estavam moles. De mais a mais, se eu não sobreviveria, quanto mais um pedaço de papel.
Olhei a menina com mais atenção. Agora que o efeito passava, reparei que tinha um rosto bonito, mesmo gordinho. Coitada, ia morrer virgem. Talvez nunca tivesse beijado na boca. Deus não é justo.
Fui até o banheiro para lavar o rosto. Como os banheiros diminuíram com o tempo! Seria para evitar que os casais... bem, a essa altura dos fatos, acho que todos os casais do avião pensavam a mesma coisa. De volta à cadeira, puxei conversa com a menina. Era inglesa e estava mais calma. Explicou-me que desde que o avião saíra do Brasil apresentara problemas. Conversamos sobre nossos países - ela voltava de um intercâmbio. "Diziam que eu podia ser assaltada no Brasil. Agora vou morrer num avião da British Airways", sorriu.
Uma hora depois, o avião começou a cair. Lentamente, muito lentamente. Tinha gente que nem se conhecia e se abraçava. Eu e a menina nos olhamos, apenas.
- Vamos dividir o vidro de comprimidos? - ela perguntou. Tinha adivinhado meus pensamentos. Eu não era tão forte quanto imaginava.
- Vamos - respondi, sorrindo.
Segunda-feira, Setembro 13, 2004
Dinheiro na mão é vendaval e a falta de dinheiro é furacão
Sai do meu nome a mancha da inadimplência. Sai da minha alma o peso da dívida. Este mês, depois de alguns agoniantes conjuntos de trinta dias, começo a respirar aliviada por ter de volta direito ao crédito neste país descrente.
Pensei muito durante este tempo de difciculdade financeira no real valor que o dinehrio tem ou pode chegar a ter. Pra mim, ele era importantíssimo. Sempre dei muito valor, talvez pela minha educação.
O tempo e a vida me ensinaram a me desapegar desse vício. E de maneira dura: por pura necessidade. E me fez um bem enorme. Percebi que a gente pode muito mais coisa do que a gente acha que pode quando está sem grana. Que nem tudo está perdido. Que as dívidas acabam com o tempo, se o propósito for mesmo saná-las, e no meu caso, sempre foi.
E cá estou. À beira de um nome branco, alvo, limpinho em folha.
Pra nada. Na verdade pra poder dar asas a minha imaginação e começar a pensar que talvez eu possa mudar de carro e comprar um casa. Sonhos e anseios de mediana importância, ao meu ver, no âmbito mais étereo da coisa.
Mas sou humana e ainda a caminho da iluminação, que aliás em nada tem a ver com o dinheiro e com poses materiais. Quero sim aproveitar tudo o que o dinheiro me dá. E com orgulho de estar conquistando cada vírgula da minha vida, através de mim mesma.
As vezes tenho vontade de gritar bem alto: viva o capitalismo! risos sarcásticos.....
Pensei muito durante este tempo de difciculdade financeira no real valor que o dinehrio tem ou pode chegar a ter. Pra mim, ele era importantíssimo. Sempre dei muito valor, talvez pela minha educação.
O tempo e a vida me ensinaram a me desapegar desse vício. E de maneira dura: por pura necessidade. E me fez um bem enorme. Percebi que a gente pode muito mais coisa do que a gente acha que pode quando está sem grana. Que nem tudo está perdido. Que as dívidas acabam com o tempo, se o propósito for mesmo saná-las, e no meu caso, sempre foi.
E cá estou. À beira de um nome branco, alvo, limpinho em folha.
Pra nada. Na verdade pra poder dar asas a minha imaginação e começar a pensar que talvez eu possa mudar de carro e comprar um casa. Sonhos e anseios de mediana importância, ao meu ver, no âmbito mais étereo da coisa.
Mas sou humana e ainda a caminho da iluminação, que aliás em nada tem a ver com o dinheiro e com poses materiais. Quero sim aproveitar tudo o que o dinheiro me dá. E com orgulho de estar conquistando cada vírgula da minha vida, através de mim mesma.
As vezes tenho vontade de gritar bem alto: viva o capitalismo! risos sarcásticos.....
Sexta-feira, Setembro 10, 2004
O que se passa?
Tudo o que ela queria saber era o que se passava na cabeça de seu gato. Há uma citação famosa que diz "na cabeça dos gatos tudo ao seu redor lhes pertence" ou algo do gênero. Não lembro o autor da frase ou as palavras exatas, mas o sentido está claro.
Um dia, observando seu gato dormir, se deu conta que apesar de nunca terem trocado uma palavra - trocado não seria o termo certo, pois o gato não tem palavras para oferecer - ela sabia exatamente como ele se sentia e o que queria somente através do seu olhar e de seus gestos. Que coisa louca. um bichinho dito irracional que sabe transmitir para um ser humano - bicho que muitas vezes não consegue entender a sutileza dos gestos - exatamente o que precisa e sente.
Muitas vezes já se pegou perguntando coisas a ele ou perdendo parte de um filme porque o viu perseguindo algum bichinho voador e se perdeu na beleza de sua delicada caçada, que ele executa sem fazer um barulhinho ou derrubar um bibelô da estante, com a leveza de uma bailarina. E pensa: como é que um gato vira-latas desses, encontrado na rua, e que não faz nada mais do que ser ele mesmo pode despertar tanta ternura, tanto carinho, tanta preocupação?
O gato chegou na vida dela numa época em que estava confusa, querendo mudar de vida, de emprego, de apartamento... Uma noite, voltando do trabalho, ouviu um miadinho vindo de uma caixa na beira da rua: eram dois gatinhos imundos, famintos e deixados lá para morrer. Ela os levou para o veterinário e duas semanas depois adotou com um deles (o outro foi adotado pela própria veterinária, que se apaixonou imediatemante por eles, e ia ficar com os dois!). E o gato foi sua companhia constante nesse período de crise, dando-lhe carinho e sendo solidário quando ela mais precisou. Teve poucas pessoas com quem contar na época.
Hoje não vive sem ele. Sofre de pensar que um dia ele vai morrer. Morre um pouco cada vez que tem submetê-lo a algo fora de sua rotina. Não há como explicar a um gato que uma viagem de fim de semana ou que uma consulta ao veterinário vão acabar logo. E - apesar de entender tudo o que ele quer - as vezes se pega falando "fala, meu bem, fala o que você quer!". Mas aí pensa duas vezes e não insiste. Vai que ele abre a boca e fala? Ela cai dura.
Um dia, observando seu gato dormir, se deu conta que apesar de nunca terem trocado uma palavra - trocado não seria o termo certo, pois o gato não tem palavras para oferecer - ela sabia exatamente como ele se sentia e o que queria somente através do seu olhar e de seus gestos. Que coisa louca. um bichinho dito irracional que sabe transmitir para um ser humano - bicho que muitas vezes não consegue entender a sutileza dos gestos - exatamente o que precisa e sente.
Muitas vezes já se pegou perguntando coisas a ele ou perdendo parte de um filme porque o viu perseguindo algum bichinho voador e se perdeu na beleza de sua delicada caçada, que ele executa sem fazer um barulhinho ou derrubar um bibelô da estante, com a leveza de uma bailarina. E pensa: como é que um gato vira-latas desses, encontrado na rua, e que não faz nada mais do que ser ele mesmo pode despertar tanta ternura, tanto carinho, tanta preocupação?
O gato chegou na vida dela numa época em que estava confusa, querendo mudar de vida, de emprego, de apartamento... Uma noite, voltando do trabalho, ouviu um miadinho vindo de uma caixa na beira da rua: eram dois gatinhos imundos, famintos e deixados lá para morrer. Ela os levou para o veterinário e duas semanas depois adotou com um deles (o outro foi adotado pela própria veterinária, que se apaixonou imediatemante por eles, e ia ficar com os dois!). E o gato foi sua companhia constante nesse período de crise, dando-lhe carinho e sendo solidário quando ela mais precisou. Teve poucas pessoas com quem contar na época.
Hoje não vive sem ele. Sofre de pensar que um dia ele vai morrer. Morre um pouco cada vez que tem submetê-lo a algo fora de sua rotina. Não há como explicar a um gato que uma viagem de fim de semana ou que uma consulta ao veterinário vão acabar logo. E - apesar de entender tudo o que ele quer - as vezes se pega falando "fala, meu bem, fala o que você quer!". Mas aí pensa duas vezes e não insiste. Vai que ele abre a boca e fala? Ela cai dura.
Quinta-feira, Setembro 09, 2004
Amigos íntimos
Até pela maneira como se conheceram e tudo aconteceu com a naturalidade do curso das coisas inevitáveis e certas, sentiam dificuldades nas mínimas. Nada de planos, nada de cobranças, nada de padrões. Detestavam padrões. Tinham ojeriza a sistemas. Aliás, combinavam em tudo. Gostavam das mesmas músicas, dos mesmos filmes, das mesmas cores e das mesmas bebidas. O perfeito entendimento nas tantas madrugadas quantas eles perderam a conta, dava conta da intensidade da relação. Fechavam os olhos e cada centímetro, cada célula daqueles corpos eram seus lares, com a propriedade de quem desde sempre se sabe no lugar exato. Detalhes, reações, suspiros e olhares eram a verdadeira expressão da sincronicidade. E, contudo, adentrar o quarto era renovação, era a descoberta da vida que se possui. Adentrar os corpos e a alma era fazer o justo e o perfeito, no entrelace mais primoroso do prazer e do carinho jamais imaginado pelos deuses do amor. Tinham um do outro um decalque na pele gravado pela certeza da singularidade daquele tipo de afeto.
Um dia, entre comidinhas para depois do amor e televisão ligada, ele notou:
- Olha, aquela atriz tem um sinal nas costas parecido com o seu. Só que o dela é mais pra cima...
De olhos arregalados e traídos, sentiu-se despida. Enrolou-se no lençol e indignou-se:
- Como você sabe? Deu agora para ficar reparando em mim?
- Como assim, Lili, a gente se conhece há dez anos.
Ficou sem resposta. Parecia que o acordo tácito que estabeleceram desde a primeira vez que se viram estava sendo descumprido. Ele estava violando o contrato que selaram na cama dela no mesmo dia em que se conheceram, sem palavras e claríssimo: pra sempre assim.
- Desde quando você me chama de Lili? Você sempre me chamou de Lídia.
- Lídia, o que deu em você?
Já de pé, olhando de cima a cena, pegou o vestido preto preferido dele no chão e, vestindo-se, na expressão intrigada do amante, saiu do quarto e sentou-se no sofá, desmoronada nas teses frágeis que acarinhou por todo esse tempo. Já sabiam de tudo e nada juntos. Já eram todos e ninguém. Eram aquilo que sempre temeram, sempre quiseram e que sempre e nunca concordaram em ser.
Ele só fez buscá-la pela mão e conduzi-la de volta ao colchão de amar, de onde jamais saíram.
Um dia, entre comidinhas para depois do amor e televisão ligada, ele notou:
- Olha, aquela atriz tem um sinal nas costas parecido com o seu. Só que o dela é mais pra cima...
De olhos arregalados e traídos, sentiu-se despida. Enrolou-se no lençol e indignou-se:
- Como você sabe? Deu agora para ficar reparando em mim?
- Como assim, Lili, a gente se conhece há dez anos.
Ficou sem resposta. Parecia que o acordo tácito que estabeleceram desde a primeira vez que se viram estava sendo descumprido. Ele estava violando o contrato que selaram na cama dela no mesmo dia em que se conheceram, sem palavras e claríssimo: pra sempre assim.
- Desde quando você me chama de Lili? Você sempre me chamou de Lídia.
- Lídia, o que deu em você?
Já de pé, olhando de cima a cena, pegou o vestido preto preferido dele no chão e, vestindo-se, na expressão intrigada do amante, saiu do quarto e sentou-se no sofá, desmoronada nas teses frágeis que acarinhou por todo esse tempo. Já sabiam de tudo e nada juntos. Já eram todos e ninguém. Eram aquilo que sempre temeram, sempre quiseram e que sempre e nunca concordaram em ser.
Ele só fez buscá-la pela mão e conduzi-la de volta ao colchão de amar, de onde jamais saíram.
Quarta-feira, Setembro 08, 2004
Sob controle
Sempre mediu cada passo, não andava no escuro. Sabia para onde estava indo e por que. Nunca gostou de correr riscos. Planejava cada ato, cada fala, cada tentativa, cada investida. Tinha horror ao acaso. Odiava surpresas. Preferia saber de tudo antes. Também não suportava imprevistos: tudo tinha que ser previsível. Quando algo escapava de suas planilhas, maldizia o mundo.
Adorava traçar metas. Sabia quando, como e por quais meios cada um de seus objetivos se concretizaria. E se enfurecia quando não viravam realidade. Tinha na cabeça um calendário para o ano todo, com o que faria a cada mês. Não se permitia fugir ao que havia antecipado. A cada dia, ao acordar, organizava na cabeça as suas prioridades. E as cumpria religiosamente.
Não houve uma viagem que tenha feito sem reservar passagens e hotel. Nem uma única vez que tenha ido ao cinema sem saber antes a que filme assistiria. Ou que tenha se sentado num restaurante sem ter em mente que prato pediria.
Sempre se impôs limites. Sabia o quanto podia comer para não ultrapassar o peso ideal, o quanto podia beber de álcool para não sair do sério, o quanto podia falar para não expôr demais a própria intimidade. Previa as reações físicas de seu corpo e tomava os remédios certos quando sentia dor ou passava mal.
Jamais teve comportamentos atípicos. Não conhecia impulsos. Loucuras nunca tinha feito: nem arroubos de paixão, nem pedidos súbitos de demissão, nem dicussões que acabassem em agressão. Tampouco desafiava seus medos: ao contrário, os evitava.
Exercia ingerência até sobre os próprios sentimentos. Em tempo algum havia chorado em público. Ninguém desconfiava se estava sofrendo. Raramente levantava a voz: disfarçava a raiva com destreza. Mesmo as relações afetivas baseavam-se em critérios racionais – embora às vezes tivesse trabalho para esquecer pessoas que sua avaliação reprovara.
E foi assim até o fim dos seus dias. A hora da morte igualmente foi planejada, auxílio funeral pago. Felizmente, não estava mais aqui para ver que o modelo de caixão que escolhera para o velório foi trocado por outro mais barato e as flores de que fizera questão estavam em falta. O forno crematório que tinha como último desejo apresentou defeito bem na sua vez. Acabou numa sepultura de improviso.
Adorava traçar metas. Sabia quando, como e por quais meios cada um de seus objetivos se concretizaria. E se enfurecia quando não viravam realidade. Tinha na cabeça um calendário para o ano todo, com o que faria a cada mês. Não se permitia fugir ao que havia antecipado. A cada dia, ao acordar, organizava na cabeça as suas prioridades. E as cumpria religiosamente.
Não houve uma viagem que tenha feito sem reservar passagens e hotel. Nem uma única vez que tenha ido ao cinema sem saber antes a que filme assistiria. Ou que tenha se sentado num restaurante sem ter em mente que prato pediria.
Sempre se impôs limites. Sabia o quanto podia comer para não ultrapassar o peso ideal, o quanto podia beber de álcool para não sair do sério, o quanto podia falar para não expôr demais a própria intimidade. Previa as reações físicas de seu corpo e tomava os remédios certos quando sentia dor ou passava mal.
Jamais teve comportamentos atípicos. Não conhecia impulsos. Loucuras nunca tinha feito: nem arroubos de paixão, nem pedidos súbitos de demissão, nem dicussões que acabassem em agressão. Tampouco desafiava seus medos: ao contrário, os evitava.
Exercia ingerência até sobre os próprios sentimentos. Em tempo algum havia chorado em público. Ninguém desconfiava se estava sofrendo. Raramente levantava a voz: disfarçava a raiva com destreza. Mesmo as relações afetivas baseavam-se em critérios racionais – embora às vezes tivesse trabalho para esquecer pessoas que sua avaliação reprovara.
E foi assim até o fim dos seus dias. A hora da morte igualmente foi planejada, auxílio funeral pago. Felizmente, não estava mais aqui para ver que o modelo de caixão que escolhera para o velório foi trocado por outro mais barato e as flores de que fizera questão estavam em falta. O forno crematório que tinha como último desejo apresentou defeito bem na sua vez. Acabou numa sepultura de improviso.
Terça-feira, Setembro 07, 2004
Garotos
- Aêêê... finalmente!
- Como vai, querida?
- Tudo bem! Senta aí, diz as novidades... Cícero, traz um garoto na pressão prá minha amiga?
- Ai, tava seca por um chope. Menina, fiquei ontem com o Pedro!
- Ai, aquele gostoso que eu fiquei anteontem! Beija muito, né?
- Pois é... bem que você me avisou! E você, como foi de sabadão?
- Saí com o Felipe... o da Aninha e da Carla.
- A Aninha fala bem dele... Já a Carla detonou.
- Cá entre nós, a Carla é que tá certa. Por falar nela, outro dia nós duas ficamos com o André na festa da Claudinha.
- Ah, eu soube! Primeiro foi você e depois ela, né?
- É, nós duas combinamos que eu ficaria com ele primeiro porque eu tinha que encontrar o Júnior depois.
- Uma de cada vez é melhor, né? Pô, mês passado eu tive que ficar com o Ricardo ao mesmo tempo em que a Renata, porque a namorada não saía de perto dele na roda. Mas assim que a garota foi ao banheiro o Ricardo veio atrás da gente.
- Ahaha... me lembra quando eu outro dia dividi o João com a Alessandra na festa da Clara...
- VOCÊ FICOU COM O JOÃO?! COMO É QUE EU NÃO VI?
- ...foi depois que você saiu... não te contei?
- NÃO!
- ...
- AMIGA, VOCÊ SABIA QUE EU GOSTAVA DELE!
- Ai, linda, deixa isso pra lá... foi só uma vez... E a Alessandra também ficou!
- MAS A ALESSANDRA NÃO É MINHA AMIGA! É SÓ CONHECIDA!!!
- Menina, não grita, o pessoal daquela mesa já tá olhando! É que vocês já tinham ficado há muito tempo... já fazia uma semana...
- ...
- Perdeu a validade, fofa...
- É... pensando bem, você tem razão. Uma semana já é tempo demais. Se pelo menos tivesse sido um dia antes...
- Eu deixo você escolher a comida, tá bem?
- Beleza. Vamos de bolinho de bacalhau?
- Fechou.
- Cícero, uma porção de bolinho de bacalhou e dois garotos, por favor!
- Como vai, querida?
- Tudo bem! Senta aí, diz as novidades... Cícero, traz um garoto na pressão prá minha amiga?
- Ai, tava seca por um chope. Menina, fiquei ontem com o Pedro!
- Ai, aquele gostoso que eu fiquei anteontem! Beija muito, né?
- Pois é... bem que você me avisou! E você, como foi de sabadão?
- Saí com o Felipe... o da Aninha e da Carla.
- A Aninha fala bem dele... Já a Carla detonou.
- Cá entre nós, a Carla é que tá certa. Por falar nela, outro dia nós duas ficamos com o André na festa da Claudinha.
- Ah, eu soube! Primeiro foi você e depois ela, né?
- É, nós duas combinamos que eu ficaria com ele primeiro porque eu tinha que encontrar o Júnior depois.
- Uma de cada vez é melhor, né? Pô, mês passado eu tive que ficar com o Ricardo ao mesmo tempo em que a Renata, porque a namorada não saía de perto dele na roda. Mas assim que a garota foi ao banheiro o Ricardo veio atrás da gente.
- Ahaha... me lembra quando eu outro dia dividi o João com a Alessandra na festa da Clara...
- VOCÊ FICOU COM O JOÃO?! COMO É QUE EU NÃO VI?
- ...foi depois que você saiu... não te contei?
- NÃO!
- ...
- AMIGA, VOCÊ SABIA QUE EU GOSTAVA DELE!
- Ai, linda, deixa isso pra lá... foi só uma vez... E a Alessandra também ficou!
- MAS A ALESSANDRA NÃO É MINHA AMIGA! É SÓ CONHECIDA!!!
- Menina, não grita, o pessoal daquela mesa já tá olhando! É que vocês já tinham ficado há muito tempo... já fazia uma semana...
- ...
- Perdeu a validade, fofa...
- É... pensando bem, você tem razão. Uma semana já é tempo demais. Se pelo menos tivesse sido um dia antes...
- Eu deixo você escolher a comida, tá bem?
- Beleza. Vamos de bolinho de bacalhau?
- Fechou.
- Cícero, uma porção de bolinho de bacalhou e dois garotos, por favor!
Segunda-feira, Setembro 06, 2004
Sacerdote do silêncio
Sei dos seus sulcos cada um em mim.
Como centelhas de saudades.
Uma a uma.
Sorrateiras, sussurram segredos
Sem sentido, sensivelmente,
Silenciosas.
Sinto a suavidade dos teus dedos
Nos meus seios. Sós.
Sangrando súplica.
Por te querer sombriamente.
Semblante sábio o seu.
Serenidade sórdida.
Sofrimento.
Certeza.
E eu sem sentido.
À procura submissa da sua sinceridade.
Semeando novos caminhos, somando
Amargura.
Te buscando, sem saber.
Onde te encontrar.
Antes tarde do que nunca: Tomando banho, uma imensidão de palavras com S inudaram meu pensamento. E que lindas são elas! Sublimes....rs.... E eis então uma prévia meio crua!
Au revoir!
Como centelhas de saudades.
Uma a uma.
Sorrateiras, sussurram segredos
Sem sentido, sensivelmente,
Silenciosas.
Sinto a suavidade dos teus dedos
Nos meus seios. Sós.
Sangrando súplica.
Por te querer sombriamente.
Semblante sábio o seu.
Serenidade sórdida.
Sofrimento.
Certeza.
E eu sem sentido.
À procura submissa da sua sinceridade.
Semeando novos caminhos, somando
Amargura.
Te buscando, sem saber.
Onde te encontrar.
Antes tarde do que nunca: Tomando banho, uma imensidão de palavras com S inudaram meu pensamento. E que lindas são elas! Sublimes....rs.... E eis então uma prévia meio crua!
Au revoir!
Sexta-feira, Setembro 03, 2004
Das voltas que o mundo dá
Ja tinha quase cinquenta anos. Sua vida era boa, com um bom emprego, bons amigos, um bom apartamento. Não tinha problemas de saúde ou dinheiro. Era bonita, inteligente, bem-articulada, educada.
Nunca havia casado, mas já tivera diversos namorados. Todos como ela: inteligentes, divertidos, estabilizados. Todos duradouros, mas não eternos. E estava muito bom assim: não tinha que dar satisfação a ninguém, suas decisões eram tomadas por ela e por ninguém mais. Podia assistir TV o final-de-semana inteiro de pijama, se assim desejasse. Podia sair e chegar em casa com o sol raiando se assim decidisse. Podia ouvir seus discos, receber seus amigos, mudar os móveis de lugar ou a cor das paredes sem pedir a permissão de ninguém. E essa era a vida que ela queria. Pelo menos, era o que ela dizia.
Até que um dia, um telefonema a tirou do sério. Um ex-namorado de quase vinte anos atrás ligou. Estava morando em Paris, e uma saudade súbita bateu em seu peito e ele não hesitou: ligou e perguntou como ela estava. Ela ficou desorientada! Não estava acostumada a esse tipo de coisa! Sua vida sempre foi controlada por ela! Como uma pessoa - mesmo que querida - ousava tirar-lhe do prumo desse jeito?
Esse telefonema foi o primeiro de muitos. Hoje se falam todo dia, por qualquer motivo, qualquer bobagem. Ele já esta de passagem comprada para o Brasil. Ela está em pânico. Mas mais feliz do que jamais pensou que um dia estaria.
Nunca havia casado, mas já tivera diversos namorados. Todos como ela: inteligentes, divertidos, estabilizados. Todos duradouros, mas não eternos. E estava muito bom assim: não tinha que dar satisfação a ninguém, suas decisões eram tomadas por ela e por ninguém mais. Podia assistir TV o final-de-semana inteiro de pijama, se assim desejasse. Podia sair e chegar em casa com o sol raiando se assim decidisse. Podia ouvir seus discos, receber seus amigos, mudar os móveis de lugar ou a cor das paredes sem pedir a permissão de ninguém. E essa era a vida que ela queria. Pelo menos, era o que ela dizia.
Até que um dia, um telefonema a tirou do sério. Um ex-namorado de quase vinte anos atrás ligou. Estava morando em Paris, e uma saudade súbita bateu em seu peito e ele não hesitou: ligou e perguntou como ela estava. Ela ficou desorientada! Não estava acostumada a esse tipo de coisa! Sua vida sempre foi controlada por ela! Como uma pessoa - mesmo que querida - ousava tirar-lhe do prumo desse jeito?
Esse telefonema foi o primeiro de muitos. Hoje se falam todo dia, por qualquer motivo, qualquer bobagem. Ele já esta de passagem comprada para o Brasil. Ela está em pânico. Mas mais feliz do que jamais pensou que um dia estaria.
Quinta-feira, Setembro 02, 2004
A esfinge de Camões
É possível que pessoas como eu, que têm relações de afeto com palavras e para quem elas deixam de ser meros instrumentos para comunicar uma mensagem, já tenham se visto atordoados com reflexões metalingüísticas. Falo, mais especificamente, das sensações que as letras nos passam quando resolvem se juntar e de seus significados abstratos.
Há palavras tão mascaradas que a impressão que tenho é que por mais que alcance saberes evoluídos, conheça segredos de estado, ganhe condecorações de honra ao mérito, jamais me serão desvendados o significado. Hermenêutica, por exemplo. Quem se graduou numa faculdade das chamadas ciências humanas pode me confirmar que esse tipo de palavra aparece em 95% dos textos que você tem que ler para as aulas. Os autores pensam que me enganam: duvido que eles dominem mais do que vagamente seu significado. Colocam os vocábulos ali, numa frase preferencialmente com mais de cinco orações, de sintaxe truncada e estilo de gosto duvidoso, o que resulta numa sentença de sentido obscuro, daquelas que você certamente passará por cima sem maiores problemas e pensará ao ler que já é hora de dar uma parada na leitura e assistir um pouco de televisão. Lembro-me de levar uma questão parecida a uma amiga que estudava comigo. A questão em questão era uma própria palavrinha questionável dessas: epistemológico. Por mais que estudássemos com afinco as linhas que o Aurélio ditava na esperança de nos tirar do limbo em que nos encontrávamos toda vez (muita vez) que nos deparávamos com ela, nada fazia possível realizar o sonho de dominar o conceito. Pessoas ao longo de meu trajeto acadêmico o tentaram, derrotadas. Até hoje, humilhada, confesso que não posso dizê-lo.
Porém, não me sinto uma perdedora. Acho o mistério que envolve a língua tão epifânico quanto conhecer mais dela. Permito-me ser enrolada por ela porque ela me encanta, tal como um apaixonado que fecha os olhos para algo que questione a integridade do ser amado. Portanto, se alguém souber me explicar o que quer dizer ontológico – que se enquadra no mesmo caso – não o faça: deixe-me em paz em meu romance, deixe-me deleitar roçando a língua nessas incultas e belas flores do mundo.
Vamos com novíssimos exemplos. Abro o livro que estou lendo na página 19. Eis uma expressão, a saber: de maneira insidiosamente gradual. Que poderia ser algo insidioso? A meu ver, esta integra aquela classe de palavras que já se vendem de cara. A quem ocorreria que se diz respeito a algo que não seja mesmo traiçoeiro, capcioso? E o som que produz? Se entrega. Quase posso ver as expressões das pessoas nos rostos de quem a pronuncia, expressão que seria um misto de malícia com apreensão. Evolução perniciosa. Que eu me lembre, nunca consultei o dicionário para saber o que seria ser pernicioso. Por outro lado, não tenho a ilusão de que a idéia que vem à cabeça de ser alguma coisa prejudicial seja um evento meramente espontâneo ou mágico. Se há umas que não combinam com seu significado, outras que são esdrúxulas, há ainda as meigas, afáveis, doces, pode-se dizer, numa tentativa de explicação melhor, que isso faz parte de um estranho quebra-cabeça que montamos com essa maravilha que é a expressão através da língua. E tal fato nos dá a conhecer cada vez mais o mundo e a nós mesmos a medida em que nos apropriamos progressivamente dela, dia-a-dia. Só consigo pensar que tê-las em minha vida trata-se de uma dádiva.
Há palavras tão mascaradas que a impressão que tenho é que por mais que alcance saberes evoluídos, conheça segredos de estado, ganhe condecorações de honra ao mérito, jamais me serão desvendados o significado. Hermenêutica, por exemplo. Quem se graduou numa faculdade das chamadas ciências humanas pode me confirmar que esse tipo de palavra aparece em 95% dos textos que você tem que ler para as aulas. Os autores pensam que me enganam: duvido que eles dominem mais do que vagamente seu significado. Colocam os vocábulos ali, numa frase preferencialmente com mais de cinco orações, de sintaxe truncada e estilo de gosto duvidoso, o que resulta numa sentença de sentido obscuro, daquelas que você certamente passará por cima sem maiores problemas e pensará ao ler que já é hora de dar uma parada na leitura e assistir um pouco de televisão. Lembro-me de levar uma questão parecida a uma amiga que estudava comigo. A questão em questão era uma própria palavrinha questionável dessas: epistemológico. Por mais que estudássemos com afinco as linhas que o Aurélio ditava na esperança de nos tirar do limbo em que nos encontrávamos toda vez (muita vez) que nos deparávamos com ela, nada fazia possível realizar o sonho de dominar o conceito. Pessoas ao longo de meu trajeto acadêmico o tentaram, derrotadas. Até hoje, humilhada, confesso que não posso dizê-lo.
Porém, não me sinto uma perdedora. Acho o mistério que envolve a língua tão epifânico quanto conhecer mais dela. Permito-me ser enrolada por ela porque ela me encanta, tal como um apaixonado que fecha os olhos para algo que questione a integridade do ser amado. Portanto, se alguém souber me explicar o que quer dizer ontológico – que se enquadra no mesmo caso – não o faça: deixe-me em paz em meu romance, deixe-me deleitar roçando a língua nessas incultas e belas flores do mundo.
Vamos com novíssimos exemplos. Abro o livro que estou lendo na página 19. Eis uma expressão, a saber: de maneira insidiosamente gradual. Que poderia ser algo insidioso? A meu ver, esta integra aquela classe de palavras que já se vendem de cara. A quem ocorreria que se diz respeito a algo que não seja mesmo traiçoeiro, capcioso? E o som que produz? Se entrega. Quase posso ver as expressões das pessoas nos rostos de quem a pronuncia, expressão que seria um misto de malícia com apreensão. Evolução perniciosa. Que eu me lembre, nunca consultei o dicionário para saber o que seria ser pernicioso. Por outro lado, não tenho a ilusão de que a idéia que vem à cabeça de ser alguma coisa prejudicial seja um evento meramente espontâneo ou mágico. Se há umas que não combinam com seu significado, outras que são esdrúxulas, há ainda as meigas, afáveis, doces, pode-se dizer, numa tentativa de explicação melhor, que isso faz parte de um estranho quebra-cabeça que montamos com essa maravilha que é a expressão através da língua. E tal fato nos dá a conhecer cada vez mais o mundo e a nós mesmos a medida em que nos apropriamos progressivamente dela, dia-a-dia. Só consigo pensar que tê-las em minha vida trata-se de uma dádiva.
Quarta-feira, Setembro 01, 2004
Cidade perdida
Bala perdida. Mais um. Morreu? Não, só ferido. Criança. De novo? Mais um tiroteio. Operação da polícia. E os mortos? Bandidos. Mais um tiroteio. Trânsito interrompido, gente abaixada. Deu 18h. Ninguém tem coragem de subir o morro para ir para casa depois do trabalho.
Adianta se refugiar no banheiro? Nada, tiro de grosso calibre atravessa várias paredes. Melhor parar de passar por ali. Mas não dá para adivinhar, hoje é em Vila Isabel, cada dia é num lugar.
Falsa blitz. Mataram uma mulher. Deve ter reagido. Não, os caras atiraram sem dizer nada. Ah, foi em Bangu, muito longe. Mas já teve aqui bem perto. Atiraram em outro homem no volante do carro. Será que foi assalto? Ninguém viu. Melhor entregar tudo. E a mulher que mataram no portão de casa? Nem deu tempo.
Outro tiroteio. Nada de mais. Linha Vermelha fechada, Linha Amarela também. Por enquanto, sem feridos. De onde vêm as balas? Como saber? Acertaram um motoqueiro. Estava passando. Tiro na cabeça. Morreu na hora.
De onde sai o barulho de disparos que a gente ouve de dentro de casa? Não tem nenhum morro perto. Não serão fogos? Não, som de tiro é inconfundível. Fuzil. Parece que foi invasão de traficantes rivais. Quanto tempo isso vai durar? Em Senador Camará já vão meses. E a Rocinha? Agora está calma. Até quando?
Caramba, aquele cara que mataram era primo de um colega. Entraram no ônibus e dispararam. Só podia estar devendo. A polícia não tem pistas. Cacete, mataram um sujeito a poucos metros lá de casa. Medo? Não, a gente só vai quando chega a hora.
Adianta se refugiar no banheiro? Nada, tiro de grosso calibre atravessa várias paredes. Melhor parar de passar por ali. Mas não dá para adivinhar, hoje é em Vila Isabel, cada dia é num lugar.
Falsa blitz. Mataram uma mulher. Deve ter reagido. Não, os caras atiraram sem dizer nada. Ah, foi em Bangu, muito longe. Mas já teve aqui bem perto. Atiraram em outro homem no volante do carro. Será que foi assalto? Ninguém viu. Melhor entregar tudo. E a mulher que mataram no portão de casa? Nem deu tempo.
Outro tiroteio. Nada de mais. Linha Vermelha fechada, Linha Amarela também. Por enquanto, sem feridos. De onde vêm as balas? Como saber? Acertaram um motoqueiro. Estava passando. Tiro na cabeça. Morreu na hora.
De onde sai o barulho de disparos que a gente ouve de dentro de casa? Não tem nenhum morro perto. Não serão fogos? Não, som de tiro é inconfundível. Fuzil. Parece que foi invasão de traficantes rivais. Quanto tempo isso vai durar? Em Senador Camará já vão meses. E a Rocinha? Agora está calma. Até quando?
Caramba, aquele cara que mataram era primo de um colega. Entraram no ônibus e dispararam. Só podia estar devendo. A polícia não tem pistas. Cacete, mataram um sujeito a poucos metros lá de casa. Medo? Não, a gente só vai quando chega a hora.





