Terça-feira, Novembro 30, 2004

Basta! - Parte II

Abriu a porta resoluto:
- Sabe o que eu acho Que estou emburrecendo aqui neste lugar.
O chefe levantou a cabeca, tirou lentamente os oculos e, num suspiro de professora primaria contrariada, pousou-os lentamente sobre a mesa de marmore?
- ... Como?
- Que estou me desperdicando aqui. Que ha meses tento mostrar a esse monte de imbecis que sao todos voces como fazer essa desgraca funcionar e ninguem me ouve. Que eu cansei de jogar meu talento pela janela junto com a fumaca dos inumeros cigarros que tenho que fumar por dia. Que eu rezo a todo minuto a sei la que Deus para nao enlouquecer dentro desta gaiola.
Enquanto falava, ia sentindo um comichao vermelho escalando seu corpo. Era a liberdade. Riu loucamente de nervoso e realizacao.
- Acho melhor voce pensar bem nas coisas que diz, se quiser manter seu emprego!
- Na verdade, eu nao tenho o menor interesse em manter meu emprego.
Saiu da sala e jogou-se num abraco de um dos tres colegas de trabalho por quem nutria algum sentimento bom. Era o continuo, que inspirava compaixao pela inteligencia curta e carinho pelo coracao puro. Era o unico que sorria, alias, diante da cena que serviria de distracao nos cafes de todo o predio durante duas semanas.
Quando saiu do edificio, ja caminhava a mais ou menos meio metro do chao. Ao dobrar a esquina, ha podia ver o topo das cabecas dos transeuntes. Talvez estivesse muito alto quando alcancasse o seu destino certo, inevitavel e imediato: Rua das Palmeiras, 309.

Segunda-feira, Novembro 29, 2004

Cem Dedos

Caros leitores,

Esta semana é a semana dos Cem Dedos. Cada uma das colunistas escreve um trecho do texto surpresa proposto pela primeira da semana, que aliás segue uma ordem variada a cada nova edição.

Participem com seus comentários, palpites, idéias e sugestões.

As pimentas agradecem!

Basta!

Naquele dia, pela primeira vez ele acordou antes da mulher. O despertador tocaria às 7h, mas às 6h ele estava de pé. Saiu do quarto sem fazer barulho, carregando um par de sapatos que estava debaixo da cama. Catou uma calça e uma camisa na pilha de roupas passadas sobre o sofá do quarto do computador – ninguém se lembrava de guardá-las – e se vestiu no banheiro. Saiu de casa sem acender nenhuma lâmpada e foi tomar café na padaria. Com o cuidado de desligar o celular.
Às favas a dieta. Pediu uma média dupla e um pão na chapa com bastante manteiga. Com uma fatia de presunto dentro. Para arrematar, um sonho, bem grande, bem cheio de creme. Ainda não eram 8h. Passou na academia. Chamou a recepcionista e anunciou: queria se desligar. Na hora, chegava o professor de musculação.
- Você ficou maluco? Agora que está ganhando condicionamento físico vai desistir? Já dá para ver alguns músculos.
Seria a primeira vítima:
- Desisti a tempo de não ficar igual a você, cheio de músculos inchados e disformes. Mais um pouco, eu estaria começando as frases com "pô" e dizendo "vamos dar mais gás". Logo eu começaria a dar em cima de todas as mulheres com bunda grande e cabelo pintado de louro. Desculpe, não quero isso não.
O professor e a recepcionista olhavam assustados. Ele seguiu para o trabalho.
A secretária o cumprimentou como de hábito:
- Bom dia, chegou cedo hoje?
- Cheguei cedo só para te dizer que você é muito burra, que não consegue executar o serviço mais elementar. E que eu sei do seu papel de cagoete para o chefe, de olho em cada um dos nosso passos. E que o seu perfume é horrível, as suas roupas são cafonas e seu cabelo cheira longe a cigarro.
A secretária caiu no choro. Àquela altura, toda a sala olhava para ele. Deu um bom dia alto e foi até a sala do chefe.

Sábado, Novembro 27, 2004

Crônica Matrix de eternas festas

As coisas rodam, tantas vezes, tão rápido, embora sutilmente, que não percebo o filme entre instantes consecutivos. E fico na fissura de lembrar o ontem exato, porém milenar...

Quem vai esquecer de um lugar que não chega? "Tem chão, mas não tem erro" (risos...). Foto para lembrar...

Teste de freio (menos uma lombada...). Estrada "Cidade dos Sonhos". Será que tem ETs como em Varginha? Óvnis em Maricá... E aquelas duas na estrada? "Mas cuidado com a ponte" (gargalhadas...). Só a cruz brilhante no espelho retrovisor (sinistro...). Pelas estradas da vida... De repente, um oásis de entretenimento. Cultivo ao vício, futuro matador...

Surpresa no desaconchego da chegada. Sacudir o mofo. Não está faltando a porta do banheiro??? Relógio quebrado. Bala que some (depois sempre aparece, anjos, anjos...). E o sapato que eu voltei? Só sei que era menor, caía no paralelepípedo... E não era meu... Complexo de Cinderela (...risos...).

E no festival do chopp? Surreal é fila de banheiro. Que se dêem as carnes aos famintos. Vomita o não dito na estrada distante!!! Mas siga, sempre. E bebida aos ávidos (...risos...).

"Qual o seu nome?". Quem quer saber? O outro também não era o Tom Cruise... "Cuecão de couro", “Cabelinho”... Dançando na areia. Cerveja para todo lado. Deve-se seguir regras à risca. "Nunca beba água, só beba chopp". Mas "não serão permitidos abusos"...

Sair no fim? E quando é o fim? Amanhã tem estrada, tem trabalho. Venha lucidez lucidez. Arranhando. Do corpo à alma. Estranhas analogias. Não é nada, nada, César...

Água, sempre água, do México a Astolfo Dutra, passando por Maricá, se possível; mas não tinha... Abrindo a geladeira depois do adocicado café... Pão fresco e manteiga não dietética?! “Volte quando quiser”... Mas não esqueça do freio de mão... Desembaça, desembaça, Hulck.

Os sinais também voltam. Gato na estrada. Lembrança do que morreu. Que não podia. Não devia. Como ressuscitar? Tem milharal. Trevo. Mas, sempre, sempre, "acredite nas placas"!!! Dedinho no volante, ou "apontando". Só música.

Já que os telefones não funcionam, só resta voltar, sempre, sempre. Mas com fotos de celular... E sem ser nas curvas perigosas... Nem atropelando gatos...

Cai a ficha. Aliás, “este telefone é de ficha ou de cartão” ??? Sem ‘negativos’... Gargalhadas...

Falta combustível, mas é só parar um pouco... Depois é só realidade... Calor, trânsito; ficar acordado. Se existir...

P.S: Que não seja na serra de Petrópolis nem numa careta existência!!!

Daniele

"Eu hoje represento a loucura, mais o que você quiser.
Tudo que você vê sair da boca de uma grande mulher, porém, louca!!!
Eu hoje represento o segredo enrolado num papel.
Como Luz Del Fuego não tinha medo, ela também foi pro céu, cedo!!!!"


[Rita Lee]

Sexta-feira, Novembro 26, 2004

O encontro

Ele sentado no banco da frente me chamou a atenção. Fiquei pensando o que leva a um homem a ficar naquele estado, bêbado. Pensei que talvez pudesse ter sido demitido. Dá um medo. Talvez tenha esposa e filhos e como dizer a eles que não tem mais emprego.
O rosto castigado pelo tempo me deu a certeza da idade.
Talvez tenha filho doente e não tenha dinheiro. Pensei: doenças não deveriam dar em todos, porque é preciso dinheiro para ficar bom.
Podia ser também que não tivesse o que levar para casa. Deve dar um certo desespero saber que têm pessoas contando com o seu dinheiro para comer.
Pode ser que a proximidade com o Natal o tenha feito beber. Como contar para os filhos que essa coisa de Papai Noel é tudo mentira, que é ele quem compra os presentes e neste ano e também em todos outros vividos, não teve dinheiro para o tal presente. É muito ruim matar as esperanças e os sonhos de alguém.
Mas para mim, no fundo, tinha perdido a esperança. A esperança de dias melhores e de acreditar que podia planejar o futuro.
De repente, o ônibus faz uma curva numa velocidade que todos se assustam e numa fração de segundos, em meio aos berros que todos direcionavam para o motorista, ele cai.
Não consegui abrir a boca. Pensei no motorista, no seu dia, como deve ser cansativo dirigir o dia todo, num calor infernal, sem banheiro ou parada par comer. Salário pequeno. Também não deve ter esperança.
E ele continuou caído, ninguém levantou, ninguém ajudou. O ônibus pára no primeiro ponto e as pessoas começam a pulá-lo como um obstáculo. Uma lagrima cai, e mais forte do quer qualquer coisa, levanto e tento ajudá-lo. Observo que ele sangra, não parecia sentir dor. Talvez esse seja mais um motivo para sua bebedeira, não sentir dor.
Retiro uma blusa e começo a limpá-lo. Nossos olhos se encontraram, ele querendo me dizer muitas coisas e eu chorando por dentro.
Algumas pessoas vieram ao nosso encontro e ajudaram. Algumas por vergonha de ter fingido que ele não estivesse caído, outros por compaixão.
O sono não quis me fazer companhia, deu lugar às inquietações. Como podem as pessoas ignorar outro ser humano? Quem somos para jugá-lo? Quem pode dizer sobre o sofrimento de alguém?

Michelle

Quinta-feira, Novembro 25, 2004

Desejo de morte ou de dor

Sempre me perguntei como é que eu conseguia todos os dias inventar uma fantasia diferente para vestir. Pareceram-me diariamente ridículas as personagens da vida concreta. Era, porém, o artifício de que me utilizei durante meus poucos relâmpagos de existência para sobreviver à dor de renascer, sol a sol, para esta vida que sempre foi de me racionar alívios.
Agora, no adeus, te dou de presente minhas últimas palavras. As palavras que sempre me foram caras, querido, bem o sabes. Foram dos poucos lenitivos às angústias tão excessivas quanto necessárias.
Espero que o que eu vou dizer agora não te apavore – sei que sou (era?) dada a te assustar -, mas digo que só faço questão de levar comigo um único presente, que são teus olhos. Mais especificamente, tua maneira de me olhar. Quando disseste que irias embora, jurei não deixar jamais que ninguém me olhasse. Como se preciso fosse: não poderiam, não saberiam. Só nós dois podíamos tocar o amor que provinha dos nossos olhares.
A cama permaneceu intacta, sagrada. Todo o fogo que eu te dei a conhecer nela, dei de uma só vez. É que eu era (sou?) dada a perder as medidas. A luz do amor entre os corpos inviabilizou-se. Esgotei-me inteira na última vez, no último suspiro, no último gozo. Pra nunca mais.
A nossa música, o teu riso, os meus trejeitos, os abraços eternos, as lágrimas, as palavras os telefonemas de madrugada, os beijinhos de manhã. E você não chega para me colocar na cama, para me fazer dormir no teu ombro. Se você chegar a tempo, não te deixo escapar mais. Te conto de uma vez por todas do lugar que guardei na minha vida pra você.

Quarta-feira, Novembro 24, 2004

Quase

Advérbio.
Perto, aproximadamente. Pouco menos. Por pouco, não; por um triz, não. *
A pouca distância de; próximo, perto. Com ligeira diferença para menos. Pouco mais ou menos; quando muito; aproximadamente. Um tanto. Por um triz; por pouco que não. **
Um não que parou no meio do caminho para virar sim. Ou um sim que chegou bem perto, mas desistiu de virar não. O quase é uma pedra no meio da estrada. Às vezes machuca e às vezes acorda. O quase é um muro sem portão e sem escada. Às vezes assusta e às vezes desafia. Interrompe. Começa tudo de novo. Volta tudo, do início. Mais uma vez, outra chance. Para tentar alcançar o sim. Ou agarrar o não.
Quase fogo é faísca.
Quase vitória é medalha de prata.
Quase aprovação é meio ponto faltando.
Quase sorte é terno da Megassena.
Quase sol é mormaço.
Quase noite é crespúsculo.
Mas quase alegria ainda é tristeza.
Quase bom ainda é ruim.
Quase sucesso ainda é fracasso.
Quase morte ainda é vida.
Quase acabado ainda é esperança.
Quase amor ainda é desilusão.

* Aurélio eletrônico
** Houaiss eletrônico

Terça-feira, Novembro 23, 2004

Pra fazer um samba com beleza

Há um ano atrás, no meu aniversário, eu ganhava "O Lamento do Samba", de Paulo César Pinheiro. Que presente... Conceitual, o disco defende a tristeza como elemento intrínseco ao samba - e à vida, talvez. "O que faz ser eterno um bom samba/é a beleza que tem seu lamento", ensina o mestre na faixa-título, um dos mais belos manifestos da música brasileira.

Essa tristeza pode ser a do amor terminado, como a de "Fechado por dentro": "Enfim eu compreendi que amor perfeito/É só nome de flor, outro não há." Para quem não lembra, PC escreveu a otimista letra de "Amor perfeito", uma das músicas na voz da Clara de que mais gosto... E pode ser a tristeza-revolta da terceira faixa,"Nomes de favela". Que nasce hino da cidade, pedindo para ser cantada desde o Bip Bip até o Pagode do Carlinhos Doutor, retrato de Rio inteiro que é: "O galo já não canta mais no Cantagalo/a água não corre mais da Cachoeirinha..." A frase final impõe luta: "Ou lá na favela a vida muda/ou todos os nomes vão mudar!"

Assim como as letras, as melodias são todas do compositor, e valorizadas por arranjos econômicos, limpos. Sua voz rascante, da qual, pessoalmente, gosto muito, é acompanhada por um timaço de músicos. Aliás, é até estranho dizer que os músicos o "acompanham", porque o som dos instrumentos é tão claro e tudo é tocado com tanto brilho que a gente lembra dos acordes como lembra das palavras. Então eu lembro da flauta de Eduardo Neves em "Você jamais" (dos versos "você jamais vai me fazer sofrer/agora esse prazer você não vai ter mais..."), lembro dos dedilhados comoventes de Maurício Carrilho, Luciana Rabello e Pedro Amorim em "É uma sina": "Ai, acho que é uma sina/eu de amor sofrer/sempre a mesma dor"...

Dê-se este presente no Natal. Acho que agora entendo porque ganhei o mesmo disco de duas pessoas diferentes - a Valéria Sorriso e o Gerdal. Era porque eu tinha que tê-lo mesmo.

Segunda-feira, Novembro 22, 2004

Não vou mais por ali

Eu fui até lá. Fui até onde você falou que me esperaria.

Fui até onde os sonhos mandaram e o desejo me levou. Eu fui pra ver se te encontrava. Eu fui porque eu queria te encontrar e te levar pela mão até o meu mundo. Eu quis te mostrar a corrente de vida que jorra do meu ventre. Eu quis te emprestar meus olhos para um olhar sereno e tranqüilo e te dizer que eu te amo e que você é mais do que eu sempre quis. Eu fui até lá. Fui até a esquina dos meus impulsos e te procurei sem medo.

Cansei de gritar seu nome e esperar por você na tarde chuva, na noite de frio, na manhã de sol pra deitar na areia e te beijar sem fim. Eu sempre esperei que você viesse e me cantasse aquela música só nossa, que tem como lembrança a noite mais linda que a gente viveu. Eu fui e te encontrei. E você veio e me disse das discussões com Deus, me contou do medo de amar alguém como eu.

Você veio e ali ficou. Sentado no fundo do meu coração ansiando pelo carinho e pelo toque dos meus dias na sua sublime existência.

Você veio. E ficou. Permaneceu. E assim como a noite, no auge da madrugada vira dia, você foi embora.

E não disse nada. Não teve sequer a delicadeza de saber que eu te esperava, que o seu lugar estava guardado, que eu te desejo mais que tudo. Ou se teve, teve pavor das minhas lágrimas, teve o insuportável egoísmo de não querer sequer compactuar com a minha dor.

Você arrancou de mim, a esperança de um alívio de amor seguro, arrancou de mim, com a sua crueldade, todos os carinhos e palavras que teci na colcha dos nossos planos. Você pensou em você. No seu desespero, na sua angústia, na sua incapacidade.

Mas você não pensou em mim. Não pensou na profundeza da cova que eu precisarei cavar pra te enterrar dentro de mim, num canto esquecido, sem uma só lembrança.

E hoje deixo verter sua falta, sua ausência pelas frestas de mim mesma e choro pela distância.

Não pela distância de nós dois, mas pelo longo caminho que você ainda terá que percorrer pra encontrar outro alguém te ame como eu te amei.

Sexta-feira, Novembro 19, 2004

3 x 4 de mim mesma

Que saudade de chupa-chupa, sacolé, ki-suco.
Saudade de passar o dia na praia, de me bronzear e depois colocar roupa branquinha.
Que saudade de responder o que é fotossíntese, de brincar de elástico, de brincar de teatrinho.
Saudade de brincar de pega ladrão, pique- esconde , pique bandeira.
Que saudade Hi-fi, dança da vassoura, musica lenta.
Saudade dos papeis de carta, do álbum de figurinha e beijos escondidos.
Saudade do Balão Mágico, da Xuxa , da vontade de se paquita.
Saudades dos salgadinhos piraquê, skine, sacanagem e sanduíche de queijo com presunto.
Saudade do Menudo, Blitz, Legião Urbana. Saudade da Play House, Vera,Professorado, Cê que sabe.
Saudade do Estácio, da Praça Seca, Madureira e Anchieta.
Saudades do meu primeiro namorado, do segundo e depois e depois do depois.
Saudade de não me sentir culpada por não saber o que vou fazer, saudade não precisar acordar de manhã cedo para trabalhar, porque faltar escola pode.
Saudade de não ter mínima noção para que seve creme anti-rugas.
Saudade do meu sorriso fácil, da minha alegria infantil, da minha inocência.
Mas todas essas coisas estão aqui, dentro de mim, coisas que eu vou levar para o resto da vida. Estão comigo as lembranças de coisas inesquecíveis.
Hoje sou o que já fui mais o que sou agora, colecionando essas coisas, colocando em ordem de grandeza cada detalhe que foi importante, cada momento que interferiu nos meu dias , que deixou marcas, cada instante que foi cravado no meu peito como uma tatuagem.
Essas são as minhas marcas, a minha historia e talvez não tenha a menor importância, pois só eu sei o quanto foi incrível vivê-los.
Hoje é só o começo de tudo, porque ainda sou a menina que tanto achei sentir saudades.

Michelle

Quinta-feira, Novembro 18, 2004

Não

Tive aqui na ponta dos meus dedos as palavras mais exatas para escrever. Elas vieram soltas, elas foram cuidadas, elas nasceram do desejo. Eram as melhores. As primorosas. Ousaria dizer que elas eram quase perfeitas, na perfeição que o mundo concede.

Ocorre que escolhi não dizê-las. Fechei os olhos, calei a boca, virei a cara. Nada de boas frases. Nada de parágrafos redondos. Não às obras-primas. Nada de transformar um pouco o universo para recebê-las em meu papel. Nada de mover. Sim, pois escrever é mudar um pouco o mundo. É mexer as moléculas de lugar e despender energia. E corre-se o risco de o texto ficar tão lindo, muito mais lindo do que eu, minhas crenças, minhas idéias e concepções. É só deixar-se historiar, entre ação e recepção, entre sujeito e predicado, entre dar e receber, que se pode achar o texto único e original. E se for de fato? Quando se joga, o maior medo é o de ganhar. Perder é cômodo.

Então, melhor não olhá-lo nos olhos e saber que ele existe. Melhor não querer saber que a história com final feliz pode ser escrita. Estrangulemos a história, joguemos o conto no lixo dos contos interiores jamais lidos. Sejamos personagens da ficção de nossa vida real.

Para você que está lendo deixo, deliberadamente, o meu não.

Quarta-feira, Novembro 17, 2004

Ela quer um bebê

Ela quer um bebê. Só seu. Quer um filho, quer ser chamada de mãe. Quer ver a barriga crescer e passar pelo parto. Quer amamentar. Quer carregar no colo.
Ela quer um bebê há um, dois, três, quatro, cinco anos. Mas o bebê não vem. Primeiro, suspendeu a pílula. Achou que em poucos meses ficaria grávida. Nada. Depois, tentou contar os dias férteis. Pensou que bastaria transar quando estivesse ovulando. Nada. Procurou um médico. Descobriu que tinha baixa produção de óvulos. Passou a estimular a ovulação com comprimidos. Nada. Voltou ao médico. Trocou os comprimidos por injeções na barriga. Nada.
Ela quer um bebê com tanta vontade que nunca se sentiu fazendo sacrifícios. Engoliu a culpa por ser ela e não o marido a ter problemas. Aprendeu a ter desejo nos dias marcados pelo médico. Inventou surpresas e fantasias para despertar o marido, frustrado com o sexo com hora marcada. Soube conviver com a dor das agulhadas no ventre. Gastou boa parte das economias.
Ela quer um bebê e já escolheu o nome. Também fez o projeto do quarto. E tem o enxoval quase completo. Comprou ainda umas roupas de gestante. Ela sabe que podem ser gêmeos, resultado comum dos tratamentos contra a infertilidade. E fez todas as contas para inserir a prestação de um carro maior no orçamento mensal.
Ela quer um bebê e continua querendo. Mas jura que não chora mais quando chega a menstruação. Nem se desespera mais quando uma amiga lhe conta estar grávida. Ela não tem dúvidas de que chegará a sua vez. Só se irrirta quando alguém lhe sugere uma adoção. Está juntando dinheiro para uma fertilização in vitro.

Terça-feira, Novembro 16, 2004

Compositores, lado B

Pouca gente já ouviu falar em Paulo Gesta, Gerson Gomes, Oswaldo de Oliveira e Arnaldo Passos. Mas estes ilustres desconhecidos são responsáveis por algumas das músicas das quais a gente mais gosta. Eles formam uma espécie de lado B dos compositores – aos que não pegaram a época do vinil, este era o lado do disco que não continha os sucessos.

Normalmente isso acontece quando a parceria é formada por um compositor mais conhecido e outro menos. Assim, “Na cadência do samba” e “Errei Erramos” viraram “músicas de Ataulpho”, mas foram compostas também, respectivamente, por Paulo Gesta e Arthur Vargas Jr. Aliás, repare que Paulo Gesta é autor de “Juraci”, ao lado de parceiro famoso, Geraldo Pereira. Falando em Geraldo Pereira, a gente nunca lembra do parceiro Arnaldo Passos quando canta “Que samba bom” e “Escurinha”. E de quem é “Doralice” e “Sábado em Copacabana”? Do Caymmi, claro... mas acompanhado por Almeida e Arnaldo Passos, respectivamente (olha ele de novo!). Mais: sabia que “Peixeiro Grã-fino” é de Candeia com Bretas e “Formiga Miúda”, de Wilson Moreira e Sérgio Fonseca, um dos orgulhos de Nova Iguaçu?

Quando a dupla é igualmente famosa, é fácil lembrar dos dois. Assim, normalmente sabemos que “Onde a dor não tem razão” é de Paulinho da Viola e Elton Medeiros, que “Saudades da Amélia” é de Ataulpho e Mário Lago, que “Segura ele” é de Pixinguinha e Benedito Lacerda, que “Beatriz” é de Chico e Edu Lobo, que “Refém da Solidão” reúne Paulo César Pinheiro e Baden Powell...

Deixe de preguiça e preste atenção no encarte dos seus discos do Nelson Cavaquinho: “Juízo Final” não é só do Nelson, é também de Élcio Soares; “Palhaço” une o mangueirense com Oswaldo de Oliveira Martins e Washington; “Cuidado com a outra” traz também o nome de Augusto Tomaz Jr e o choro “Caminhando” é de Nelson com Norival Bahia. Ou seria alguma das músicas apenas de Nelson? Sabemos que ele às vezes vendia a parceria... Pois é, boa parte das parcerias antigas do samba eram de mentira. Se você ler no encarte que “O orvalho vem caindo” é de Noel Rosa e Kid Pepe, ignore o segundo, que impunha o “acordo” no braço. No caso de Ismael Silva e Wilson Batista, a pobreza os obrigou a ceder parcerias a cantores famosos ou pessoas com conhecimento em rádios, que fariam a divulgação das músicas. O clássico “Se você jurar”, registrado inicialmente como de Francisco Alves e Nilton Alves, foi escrito mesmo por Ismael Silva, que anos depois buscaria seus direitos. O “Rei da Voz” também registrou como sua, e só sua, “Me faz carinhos”, que era apenas de Ismael. Da mesma forma, Wilson Batista escreveu sozinho as músicas em que constam como parceiros Germano Augusto, Jorge de Castro e Ari Monteiro, conforme o pesquisador Paulo César de Andrade nos informa. Ou seja, são só de Wilson os deliciosos versos “tirar patente no sindicato dos ‘Inimigos do Batente’” (o samba "Inimigo do Batente" foi falsamente registrado como se fosse do campista com um tal Germano Augusto). Já “Fui eu”, escrita por Wilson Batista e Dunga, consta como de Marina Batista e Dunga por outros motivos: Marina era esposa de Wilson e isso serviu para driblar questões de contrato.

Quando a gente sempre vê um compositor cantando nas rodas uma música que sabemos que é de sua autoria, aí é que ignoramos que ele teve parceiros ali. Da próxima vez que você cantar “Água de Chuva no Mar” junto com o Wanderley Monteiro, lembre dos parceiros Gérson Gomes e Carlos Caetano.

Às vezes a imprensa é culpada. O “sucesso que embalou o penta” na voz de Zeca Pagodinho foi amplamente divulgado, mas em raros lugares se liam os nomes dos compositores de "Deixa a vida me levar", Serginho Meriti e Eri do Cais. Mas tem hora que a gente mesmo se engana: de tanto ver seu Walter Alfaiate cantando “Sacode carola”, eu poderia jurar que a música era dele. Não: os autores são Hélio Nascimento e Alfredo Marques. Muito prazer.

Agora, com vocês, Chocolate e Elano de Faria. Não conhece? Eu também não. Só sei que é deles uma das músicas mais lindas da trilha sonora do filme “Apolônio Brasil”. A voz de Alessandra Verney e o piano de Leandro Braga são as estrelas de “Canção do Amor”. Com licença.

Segunda-feira, Novembro 15, 2004

O sol há de brilhar mais uma vez

Poderia falar do roubo do meu carro. Poderia falar da sensação de impotência e raiva que isso me causou. Poderia falar da vontade que tenho de ter um amor traqnuilo. Poderia falar da sensação de solidão que me acompanhou em alguns momentos nesta semana.

Mas escolhi falar do lado bom da vida. Escolhi contar que meu mundo tem um céu iluminado cheio de estrelas e cometas de calda reluzente.

Cada dia que passa percebo que a realidade é sim o reflexo do espelho do nosso mundo interior. Que há coisas no mundo que nos causam desgosto, nos causam revolta, nos dóem e arrancam o sangue das víceras e carregam de peso nossos olhos.

Aprendi a viver desse outro jeito. Desse jeito onde há graça nas coisas simples, onde há certeza no indizível, onde há remédio no que se supõe incurável.

Venho aprendendo comigo mesma. A existência é uma colcha de retalhos que têm alguns deles desbotados, que têm remendo por toda a parte, que têm tecidos coloridos, que têm pedaços mal costurados, que têm bainha bem feita e buraquinhos na medida certa da nossa alma.

Prefiro valorizar o bom. O riso, o silêncio saudável, o compartilhar prazeroso, as companhias do bem, o que dá prazer.

O que há de ruim tenho deixado pra trás e talvez me surpreendido com isso. Essa naturalidade simples e difícil de optar por aquilo que me soma, que me tira do estado de lobotomia, que renova minha fé: um samba de que gosto cantado em coro por uma multidão, uma comida saborosa, um abraço apretado, atenção de amigo preocupado, o telefonema inesperado, a meditação intensa...

Pequenas grandes coisas que tem feito com que eu veja a vida sem óculos escuros, mesmo o brilho do sol sendo forte!

Sábado, Novembro 13, 2004

Os caminhos cruzados de Elis Regina e Nara Leão

Nara Leão nasceu no dia 19 de janeiro de 1942. Elis Regina morreu no dia 19 de janeiro de 1982. Elis, que implicou muito com a musa da bossa nova depois que ela aderiu ao iê-iê-iê da Jovem Guarda, teceu elogios à rival numa entrevista ao jornal Última Hora em... 19 de janeiro de 1976. Coincidências à parte, as vidas de Elis e Nara tropeçaram em pedras semelhantes. Uma delas tinha nome e sobrenome: Ronaldo Bôscoli.

O jornalista, letrista e produtor Bôscoli havia namorado Nara na adolescência. Foi noivo da cantora entre o final dos anos 50 e o início dos 60, na época em que o apartamento da família Lofego Leão, na avenida Atlântica, servia de ponto de encontro dos entusiastas da bossa nova. Todos bem nascidos e bem criados na zona sul carioca, como Roberto Menescal, Carlinhos Lyra, João Gilberto, Luiz Carlos Vinhas e Luizinho Eça.

O relacionamento de Nara e Bôscoli foi por água abaixo em 1961, quando Maysa anunciou à imprensa, sem o conhecimento do jornalista, que se casaria com ele. É certo que os dois dormiram juntos na turnê que haviam acabado de fazer na Argentina, Uruguai e Chile, mas a história do casamento foi invenção de Maysa. E Nara rompeu com Bôscoli de uma maneira enérgica: não atendia nem os telefonemas do compositor, em quem seu pai, o severo Jairo Leão, depositava um bocado de confiança.

Pois bem. Elis Regina e Ronaldo Bôscoli casaram-se no civil no dia 5 de dezembro de 1967. Em comparação à idade de Bôscoli, Elis era ainda mais nova do que Nara: 16 anos contra 13 de diferença. O casamento durou cinco anos, entre separações, reconciliações e o nascimento do primogênito João Marcelo Bôscoli, hoje dono da gravadora Trama. Bôscoli, o Ronaldo, só teria novamente acesso à Nara Leão anos mais tarde.

O jornalista e compositor Nelson Motta foi testemunha da rixa entre Elis e Nara. "A Elis tinha uma grande voz. Nara Leão era o contrário: tinha poucos recursos vocais, mas usava muito bem a inteligência. Era hostilizada pela Elis por causa da pequena voz, mas reunia os melhores repertórios e trabalhou muito pela música brasileira. Já a Nara vivia dizendo que Elis era uma grande cantora".

Até a imprensa sabia que Elis detestava Nara. As duas foram convidadas para estrelar a série ‘As grandes rivalidades’, publicada na revista Manchete. O crítico de música e jornalista Sérgio Cabral lembra esse episódio em ‘Nara Leão, uma biografia’, lançada pela Lumiar. "O clima era de hostilidade, principalmente por parte de Elis Regina", afirma Cabral no livro.

E continua, linhas abaixo: "Bem humorada, Nara até brincou com a rival na hora das fotografias. ‘Como é? Estão dizendo por aí que não queremos posar juntas. Podemos ou não?’ Elis nada respondeu e, à medida que as fotos eram batidas, foi perdendo a paciência, até que estourou: ‘Vou embora porque não gosto de Nara Leão’. Em seguida, Carlos Marques entrevistou as duas isoladamente".

Sérgio Cabral destaca a agressividade de Elis para com Nara. "Elis Regina foi contundente: ‘Eu não tinha nada contra a moça Nara Leão. Hoje eu tenho porque me irrita a sua falta de posição, dentro e fora da música popular brasileira. Ela foi a musa, durante muito tempo, mas começou gradativamente a trair cada movimento do qual participava. Iniciou na bossa nova, depois passou a cantar samba de morro, posteriormente enveredou pelas músicas de protesto e, agora, aderiu ao iê-iê-iê. Negou todos...’".

Só a título de curiosidade, vale reproduzir o trecho da entrevista ao Última Hora, de Samuel Wainer, na qual Elis aplaudia a paciência da irmã de Danuza e, portanto, cunhada de Wainer, adiantando a postura que adotaria com ela no futuro: "Eu sou esquentada. Tem gente que é calma, a Nara Leão, por exemplo, é uma pessoa que tem uma paciência histórica, sentou, esperou tudo acomodar e fez um disco certo. Aliás, ela sempre faz as coisas certas nas horas corretas e para as pessoas exatas. Eu sou guerreira e pego a metralhadora para sair atrás de quem me enche o saco".

Monica Ramalho

Sexta-feira, Novembro 12, 2004

Agora que te encontrei

Agora que te encontrei, sinto um certo medo. Medo de ficar de frente com você. Porque ficar de frente é sempre tão difícil. Medo dos nossos encontros e desencontros. Medo de querer ficar e não mais ir. Medo de querer ficar presa. Medo que tenhamos a nossa música, as nossas cartas, o nosso lugar. Medo de você entrar e eu não querer te deixar sair. Medo de te desejar de madrugada, de te precisar. Medo de querer ouvir a sua voz. Medo de querer te beijar e nunca mais parar. Medo de desejar as suas mãos, como agora desejo você perto de mim. Medo de sentir os seus lábios encostados nos meus. Medo de querer te esperar. Medo de querer te encontrar. Medo que dê certo. Medo que não dê mais tempo. Porque já sinto você dentro de mim. Porque já quero que você fique. Porque já quero ficar presa. Porque já temos a nossa música, as nossas cartas, o nosso lugar. Porque você já entrou e eu não quero te deixar sair. Porque já te desejo de madrugada. Já te preciso. Porque já quero ouvir a sua voz. Porque já quero te beijar e nunca mais parar. Porque já desejo as suas mãos. Porque quero te esperar. Porque quero te encontrar. Porque já deu certo.

Michelle

Quinta-feira, Novembro 11, 2004

Beatriz (Uma palavra enorme)

(Mario Benedetti)

Liberdade é uma palavra enorme. Por exemplo, quando termina a aula, se diz que você está em liberdade. Enquanto dura a liberdade, você passeia, você brinca, você não tem por que estudar. Se diz que um país é livre quando uma mulher qualquer ou um homem qualquer faz tudo o que dá vontade. Mas até os países livres têm coisas muito proibidas. Por exemplo matar. Quer dizer, se pode matar mosquitos e baratas, e também vacas para fazer bife. Por exemplo, é proibido roubar, ainda que não seja tão grave que você fique com algum troco quando Graciela, que é minha mãe, me manda comprar alguma coisa. Por exemplo, é proibido chegar atrasado na escola, ainda que nesse caso tenha que fazer uma cartinha, ou melhor, Graciela tem que fazer uma cartinha justificando por quê. Assim diz a professora; justificando.
Liberdade quer dizer muitas coisas. Por exemplo, se você não está presa, se diz que está em liberdade. Mas meu pai está preso e está na Liberdade, porque assim se chama a cadeia onde ele está já há muitos anos. A isso o tio Rolando chama que sarcasmo. Um dia, contei a minha amiga Angélica que a cadeia em que está meu pai se chama Liberdade e que o tio Rolando tinha dito que era um sarcasmo e a minha amiga Angélica gostou tanto da palavra que quando seu padrinho lhe deu um cachorrinho, ela colocou o nome dele de Sarcasmo. Meu pai é um preso, mas não porque tenha matado ou roubado ou chegado tarde na escola. Graciela diz que meu papai está em Liberdade, ou seja, preso, por suas idéias. Parece que meu pai era famoso por suas idéias. Eu também às vezes tenho idéias, mas ainda não sou famosa. Por isso, não estou em Liberdade, ou seja, não estou presa. Se eu estivesse presa, queria que minhas duas bonecas, a Toti e a Mônica, fossem também presas políticas. Porque eu gosto de dormir abraçada pelo menos com a Toti. Com a Mônica nem tanto, porque ela é muito malcriada. Mas eu nunca bato nela, sobretudo para dar esse bom exemplo à Graciela.
Ela meu bateu poucas vezes, mas quando me bate eu queria ter muitíssima liberdade. Quando ela me bate ou me chama a atenção eu lhe chamo Ela, porque ela não gosta que eu fale assim. É claro que eu tenho que estar muito alunada para chamá-la Ela. Se, por exemplo, vem meu avô e me pergunta onde está sua mãe, e eu respondo ela está na cozinha, todo mundo já sabe que eu estou alunada, porque se não estou alunada digo só Graciela está na cozinha. Meu avô sempre diz que eu saí a mais alunada da família e isso me deixa muito contente. Na verdade, Graciela também não gosta muito que eu a chame de Graciela, mas eu chamo porque é um nome lindo. Só quando estou muito apaixonada, quando eu estou adorando muito e beijo e abraço e aperto e ela me diz ai menininha não me aperta assim, então sim, eu a chamo de mãe ou mamãe, e Graciela se comove e fica muito terninha e me acaricia os cabelos, e isso não seria assim tão bom se eu dissesse mãe ou mamãe por qualquer besteira.Ou seja: liberdade é uma palavra enorme. Graciela diz que ser um preso político como meu pai não é nenhuma vergonha. Que é quase um orgulho. Por que quase? Ou é orgulho ou é vergonha. Por um acaso seria bonito que eu dissesse que é quase uma vergonha? Eu estou orgulhosa, não quase orgulhosa, do meu papai, porque ele teve muitíssimas idéias, tantas e tantíssimas que o prenderam por causa disso. Eu acho que agora meu pai continuará tendo idéias, tremendas idéias, mas tenho quase certeza de que não vai contar pra ninguém, porque, se contar, quando ele sair da Liberdade para viver em liberdade, podem colocá-lo de novo na Liberdade. Estão vendo como é uma palavra enorme?

Compartilho com vocês a minha primeira experiência em traduzir um texto literário. Adoro esse conto, que é do escritor uruguaio Mario Benedetti. Reparem como é divino: o tipo de discurso que o autor introduziu através da personagem de uma menina, o ritmo delicioso que ela impõe ao texto. Fatalmente, deve haver alguma tradução desse conto para o português. Mas eu, como não conheço, me permiti fazer uma. Confesso que adorei.

Quarta-feira, Novembro 10, 2004

Medos

Medo de dormir só no berço. Do abandono. Medo do escuro. Dos monstros debaixo da cama. Medo de ir à escola pela primeira vez. Da rejeição. Medo de mudar para um colégio maior. Da estranheza. Medo de ficar menstruada. De virar mulher. Medo de repetir o ano. De matemática. Medo do primeiro beijo. De não saber. Medo do primeiro amor. De levar um fora. Medo da perda. Da morte. Medo da primeira transa. Da dor. Medo da reprovação. De física. Medo de amar. Do compromisso. Medo de não passar no vestibular. Do fracasso. Medo da primeira prova. De cálculo. Medo de ter escolhido a carreira errada. Da frustração. Medo de mudar. De outra decepção. Medo de morar junto. Da incompatibilidade. Medo da primeira entrevista de estágio. De falar besteira. Medo de escrever o primeiro texto profissional. De não ser coerente, nem clara, nem concisa. Medo de conseguir o estágio dos sonhos. De não corresponder. Medo de entrar numa favela. De tiroteio. Medo de propôr a separação. Da solidão. Medo de morar sozinha. Da auto-suficiência. Medo de assinar o contrato de trabalho. Da responsabilidade. Medo das broncas do chefe. De demissão. Medo de querer mais. De não conseguir. Medo de amar de novo. Da repetição. Medo de barata. De não haver ninguém por perto para matar. Medo de não realizar os planos. Da mediocridade. Medo de ter filhos. De nunca tê-los também. Medo dos 30 anos. Da aproximação. Medos todos num medo só. De sempre ter medo.



Terça-feira, Novembro 09, 2004

Memória

Esqueci o celular em casa. Esqueci de comprar a ração das gatas. Esqueci de desligar o som. Falando em música, hoje de manhã cantarolava baixinho: "Verde, amarelo, azul e branco... formam o pavilhão do meu país..." Lembra? Era assim que começava "Voa, canarinho, voa", sucesso do Júnior em 82. Lembro até da capa do disquinho: ele com a camisa amarela justinha da Seleção e o cabelo black power. Na época, todos os jogadores tinham o cabelo grande, até o Careca. Rá, rá, hoje todos são carecas.

Meu chefe acabou de perguntar se fiz a modificação que ele pediu no parecer sobre o processo eleitoral em Paty do Alferes. Não fiz, esqueci... Mas lembro quando ia com a minha família para Paty e Miguel Pereira, conhece? Ficávamos no Hotel Fazenda Interpass, em Arcozelo. Era tudo pertinho. Lembro da mesa retangular imensa do café da manhã. Eu adorava as geleinhas de potinho e sempre levava algumas pra comer depois com o dedo. Mas então, o processo da eleição de Paty do Alferes. Demorei a terminar o parecer, porque minha memória para o mundo jurídico é péssima. Nunca peça para eu advogar para você. Mas lembro de um professor que disse um dia para a classe: quem quer falar bem tem que ler os sermões do Padre Antônio Vieira. Rá, aposto que nenhum dos meus colegas lembra disso!

Por que não posso escolher o que lembrar? Que serventia existe em saber a música do desenho do Ursinhos Gummy? "Veja e ame os Ursinhos Gummy..." Eu nem gostava deles! Mais valeria ter memorizado como o seu Manoel fez para trocar meu chuveiro. Não sei os critérios que minha mente tem para organizar as gavetas da memória, mas a utilidade, certamente, não está entre eles. O gosto de uma noite ocupa mais neurônios que oscinco anos de UERJ.

É, Aldir. Ninguém lembra porque quer.

Domingo, Novembro 07, 2004

Deixa

"Deixa, a paixão também existe,
Deixa, não me deixe ficar triste..."

[Vicinius de Moraes]

Ele é bonito. Muito bonito. Executivo de alto nível, amante da boa música. Bom pai, inteligente, sagaz, sedutor, charmoso, simpático, sexy...

Ele é um dos homens por quem eu talvez me apaixonasse há um tempo atrás. Ele sabe falar de amor. Ele conhece o amor. Ele sabe uma mulher. Sim, sabe os caminhos de uma mulher, e o rumo que o pensamento de uma mulher toma quando o assunto é paixão.

E ele me deseja. Evidentemente. Ele fala coisas bonitas. Ele pede pra que eu cante pra ele. " Bate outra vez, com esperanças o meu coração..." em Dó menor. Dolente. E canto lento. Ele me olha no fundo dos olhos. Ele fica até o final do meu lado e não cansa de me cortejar. Ele me oferece carona. Se preocupa se eu sinto frio ou sono. Ele me olha. Me despe. Me inibe. Me intimida.

Ele talvez me excite, me interesse. Ele é tudo isso. Mas é também o que eu menos queria que ele fosse. Ele é tudo o que ele não podeira ser. Ele é e eu não posso fazer nada.

Ele é seu pai.

Porque é de você que eu gosto. É pra você que eu quero me entregar. É pra você que eu quero me despir. É pra você que eu quero cantar olhando nos olhos e beijar a boca e acariciar o cabelo. É com você que eu quero falar sobre o amor e te mostrar o meu jeito de amar. É você quem eu quero que se preocupe com meu frio e sono. É a você que eu quero mostrar os caminhos ocultos de uma mulher.

Mas ele é seu pai. E ele me quer e eu quero você. E você não me quer, ou finje que não, ou não sabe que quer. Seu pai sabe o que eu gostaria que você soubesse.

Mas você é assim. Um menino lindo e que tira meu sono e que me fez perder a cabeça, como há muito não acontecia.

E meu coração tem razão demais quando se queixa!

Sexta-feira, Novembro 05, 2004

Tristeza

Tentei fingir que não estava ali, mas ela insistiu ficar. Entrou sem pedir licença e se instalou como quem senta no sofá para ler um livro. Trouxe com ela uma certa melancolia, algumas lágrimas e um pouco dela mesma. Dialoguei, mas ela ignorou os meus argumentos e pediu para eu parar de sorrir. Continuo tentando fazê-la desistir de mim, mas ela lembra de coisas que fazem desanimar. Entramos numa briga, eu e a tristeza. Digo que não a quero. Ela diz que já está em mim. Mando um sorriso como sinal de ironia. Ela me devolve uma lágrima como sinal de estar ali. Imploro para ela desistir. Ela diz que desistiu de sorrir. Tento disfarçar, mas acena me mostrando onde está. Cansada de brigar e tentar não deixá-la ficar, desisto. Ela cresce e toma conta de mim. Eu pergunto porque ela quer ficar e ela responde que é preciso chorar. Chorar pela dor que ficou escondida. Eu insisto que não preciso lamentar. Sorrir é a solução. Ela então chora. Um choro de um sentimento que eu não reconheço. Choro de coisas que não vivi. Choro pelas palavras não ouvidas. Choro pelas não ditas. Choro pela dor que eu pensei que já tinha passado. Choro pela ausência de um alguém que eu não sei quem. Choro pela música que não existe, pelo cartão não recebido. Choro pelo telefonema nunca acontecido. Choro porque ela que ficar e eu preciso voltar a sorrir.

Michelle

Eis o primeiro texto de nossa mais nova pimenta, que passará a escrever às sextas. Bem-vinda, Michelle!

Quinta-feira, Novembro 04, 2004

Sentido da vida

Este texto começa com um suspiro de quem tem a certeza de que vai dar voltas e voltas sobre o tema sem esclarecer nada. Bom, na verdade, vamos dividir a angústia da busca de algumas respostas, pois não seria esse um dos objetivos da escrita e da leitura?
Começo então a falar sobre a consciência que me permite saber que o limite das respostas que se conseguem com os questionamentos, por exemplo, o mesmo que me permitiu saber desde o início dessas linhas que há coisas no mundo para conhecer, outras para entender e algumas só para aceitar, exercitando os vícios e virtudes. Descobri há algum tempo que um dos sentidos da vida é conhecer-se. Tocar seu íntimo sem medo, entender os movimentos que são dados diariamente, voluntários ou não. Tudo isso no objetivo de ser cada vez melhor. Agora, o nó da questão: este é um sentido da minha vida, em primeiro lugar. Não posso afirmar que será o sentido da sua, que este é o sentido certo, a orientação verdadeira. Outro: qual é o “ser melhor” de cada um? Qual o tanto real das verdades institucionalizadas, das socialmente estabelecidas, das culturais e das intrínsecas à natureza do ser humano? E as que cada pessoa ou cada coletividade inventa para poder viver em paz com seu anjo e seu demônio interior, como a verdade das religiões?
Atenho-me, então, a falar das minhas verdades, resignadamente. Tive, na adolescência, uma prática religiosa muito intensa, que, de certa forma, agradeço por me dar certas diretrizes que estão comigo até hoje. E, atualmente, posso ponderar tudo que aprendi e converter para a minha vida de relação sem culpas. Aliás, uma das coisas que aprendi no contato com o mundo foi que a grandiosidade que se revela através de um Deus não é aplicável a não ser em doses homeopáticas na vida dos seres humanos.Sendo assim, hoje vivo o amor de cada dia com intensidade, porque descobri que isso me dá felicidade. Descobri que estar com minhas pessoas queridas e trocar afeto é uma das minhas verdades, é a minha evolução, meu estar bem. É o que me faz amar sem medidas, como uma profissão de fé. E isso é a base dos meus possíveis objetivos para existir, como, por exemplo, escrever esse texto para que cada um que leia queira também mexer um pouco em seu interior, queira experimentar amar sem medo a vida para tentar descobrir aí um pouco de realização.

Quarta-feira, Novembro 03, 2004

Língua minha

Os verbos irregulares me foram apresentados ainda na infância. Lá pelos quatro, cinco anos, quando comecei a dizer "eu sabo", "eu fazo", logo me corrigiram: é "eu sei" e "eu faço". E eu tão pequena descobri um mundo de exceções. Vi, espantada, que o "ser" é uma festa delas.
Na adolescência, me foi revelado que "saudade" é uma palavra intraduzível em outras línguas, porque o sentimento a que ela dá nome nasceu português. Ninguém me contou, mas, ao prestar atenção em outros idiomas, também percebi, com um certo orgulho, que "ser" e "estar" como verbos diferentes e independentes é exclusividade nossa.
Pelos corredores da universidade, esbarrei nos africanos: angolanos, cabo-verdianos. E eles me mostraram um outro português, cheio de futuros do presente, de vogais anasaladas abertas. Até mesóclises eles faziam, assim, no dia-a-dia, um luxo. E eu não me cansava de ouvi-los falar amánháã, com os "as" abertos, nem de esperar por um "encontrar-me-ei".
Quando escrever virou profissão, mergulhei no vocabulário. Virei íntima dos dicionários e me impus o desafio de não repetir palavras. Depois, o de variar as estruturas. E conquisto uma medalha imaginária a cada vez que consigo dizer algo de maneira diferente.
Mas foi preciso chegar ao mestrado para voltar à infância. Diante do professor que tratava dos paradigmas dos verbos irregulares, provando que há uma lógica até nas exceções, eu olhava para aquelas listas e me lembrava das surpresas de criança aprendendo a falar. Era hora de racionalizar a paixão.

Terça-feira, Novembro 02, 2004

A espera

A senhora colocou a travessa sobre a mesa, sorridente.

- Carne assada com molho ferrugem! Ele vai adorar!

A moça assentiu:

- Vai, mãe.

Sentaram-se.

- Daqui a pouco ele chega. O hospital deve estar cheio!

Obediente, a filha aguardou. Quantos minutos, ali, em volta da travessa de carne e a de arroz? Seus olhos passeavam pelos pratos, pela parede verde-clara, pela única foto na parede. A mãe olhava o relógio dourado-gasto, o telefone e a porta da casa.

Nada de Eduardo. A mãe, agora conformada, serviu a filha e a si própria. Reclamou que o filho trabalhava demais, que o hospital sugava o sangue do jovem médico, mas concluía que o falecido marido, Deus o tenha, estaria orgulhoso.

- Teu pai nunca imaginaria que Eduardo seguiria a carreira dele, hein? Era até meio bobinho quando menino! Mas não largava o estetoscópio do pai!

A filha segurou um sorriso. Agradeceu por dentro o fato de o pai ter morrido cedo, logo depois do seu nascimento. O telefone tocou e a mãe correu para atender.

- Oi, meu velho. Ah, não... acabei de servir o jantar aqui! Não, não, a gente tá só esperando o Eduardo. Tá bem. Eu falo pra ela te ligar.

Para a filha, desviando o olhar:

- Era teu tio. Perguntou se a gente não queria jantar lá hoje. Imagina! Quando teu irmão chegasse, ia comer o quê? Pediu pra você liga uma hora dessas.

O tio era o irmão mais velho da mãe. Foi gentil quando a moça pediu ajuda, mas não quis se comprometer:

- Não faz nada que é pior. Tu sabe que a nossa família tem o sangue meio ruim, não sabe? Vai que o que você fala piora a situação. A fagulha que começa o incêndio, entende?

Continuaram comendo em silêncio. Quando acabou, a mãe estava tranqüila, até sorridente de novo. Falou, apontando com o queixo a foto do filho:

- Essa foto do teu irmão encostado no Fusca já tá velha. Tinha uns quinze anos, só! Depois vocês dois podiam procurar uma dele mais velho... Do dia da formatura, por exemplo... Ele estava um estouro, tu te lembras? Ah, não lembra, tu era novinha... Olha, não tinha formando mais lindo naquele clube!

- Eu nunca acho nas suas coisas, mãe.

Era a resposta de sempre, repetida agora. Retiravam as travessas e pratos sujos da mesa. Eu não planejei, diria a moça depois. E era a verdade: a frase saiu da boca tão rápida como se ela a tivesse dito todo aquele tempo para fora, em vez de para dentro.

- Sabe, mãe, não tem foto do Eduardo mais velho.

O ar tranqüilo sumiu do rosto da mulher mais velha. Os olhos se arregalaram e a boca se crispou.

- Claro que tem, ficou maluca? Você é que é bagunceira e não acha nada nessa casa.

- Mãe, não tem, mãe. Aquela é a últ...

A mulher avançou, mas a moça foi mais rápida e segurou-lhe os pulsos.

- Aquela é a última, mãe! A do dia!
- Cala a boca! gritava a outra, enquanto tentava soltar os braços. Cala a boca, sua mentirosa!

Rodaram pela sala, derrubando o abajur. As lágrimas corriam pelo rosto da filha, mas ela não soltou a mãe.

- Você não teve culpa, mãe, ninguém teve... Eu não agüento, oito anos é demais! Todo dia, todo dia... eu vou acabar maluca igual à senhora! Mãe, ele morreu mais eu tô aqui, aqui!

A mãe caiu de joelhos. A moça se sentou ao seu lado. Agora as duas choravam baixinho no chão.

- Ele já estaria trabalhando num hospital... Três de segundo-grau, mais cinco de faculdade...- calculava a mãe em voz baixa, como num sonho.

A moça não respondeu. Na mente de ambas, a mesma cena: a mãe tentando tirar Eduardo das ferragens do Fusca, enquanto as pessoas gritavam:

- Ei, tem outra criança no carro também!