A senhora colocou a travessa sobre a mesa, sorridente.
- Carne assada com molho ferrugem! Ele vai adorar!
A moça assentiu:
- Vai, mãe.
Sentaram-se.
- Daqui a pouco ele chega. O hospital deve estar cheio!
Obediente, a filha aguardou. Quantos minutos, ali, em volta da travessa de carne e a de arroz? Seus olhos passeavam pelos pratos, pela parede verde-clara, pela única foto na parede. A mãe olhava o relógio dourado-gasto, o telefone e a porta da casa.
Nada de Eduardo. A mãe, agora conformada, serviu a filha e a si própria. Reclamou que o filho trabalhava demais, que o hospital sugava o sangue do jovem médico, mas concluía que o falecido marido, Deus o tenha, estaria orgulhoso.
- Teu pai nunca imaginaria que Eduardo seguiria a carreira dele, hein? Era até meio bobinho quando menino! Mas não largava o estetoscópio do pai!
A filha segurou um sorriso. Agradeceu por dentro o fato de o pai ter morrido cedo, logo depois do seu nascimento. O telefone tocou e a mãe correu para atender.
- Oi, meu velho. Ah, não... acabei de servir o jantar aqui! Não, não, a gente tá só esperando o Eduardo. Tá bem. Eu falo pra ela te ligar.
Para a filha, desviando o olhar:
- Era teu tio. Perguntou se a gente não queria jantar lá hoje. Imagina! Quando teu irmão chegasse, ia comer o quê? Pediu pra você liga uma hora dessas.
O tio era o irmão mais velho da mãe. Foi gentil quando a moça pediu ajuda, mas não quis se comprometer:
- Não faz nada que é pior. Tu sabe que a nossa família tem o sangue meio ruim, não sabe? Vai que o que você fala piora a situação. A fagulha que começa o incêndio, entende?
Continuaram comendo em silêncio. Quando acabou, a mãe estava tranqüila, até sorridente de novo. Falou, apontando com o queixo a foto do filho:
- Essa foto do teu irmão encostado no Fusca já tá velha. Tinha uns quinze anos, só! Depois vocês dois podiam procurar uma dele mais velho... Do dia da formatura, por exemplo... Ele estava um estouro, tu te lembras? Ah, não lembra, tu era novinha... Olha, não tinha formando mais lindo naquele clube!
- Eu nunca acho nas suas coisas, mãe.
Era a resposta de sempre, repetida agora. Retiravam as travessas e pratos sujos da mesa. Eu não planejei, diria a moça depois. E era a verdade: a frase saiu da boca tão rápida como se ela a tivesse dito todo aquele tempo para fora, em vez de para dentro.
- Sabe, mãe, não tem foto do Eduardo mais velho.
O ar tranqüilo sumiu do rosto da mulher mais velha. Os olhos se arregalaram e a boca se crispou.
- Claro que tem, ficou maluca? Você é que é bagunceira e não acha nada nessa casa.
- Mãe, não tem, mãe. Aquela é a últ...
A mulher avançou, mas a moça foi mais rápida e segurou-lhe os pulsos.
- Aquela é a última, mãe! A do dia!
- Cala a boca! gritava a outra, enquanto tentava soltar os braços. Cala a boca, sua mentirosa!
Rodaram pela sala, derrubando o abajur. As lágrimas corriam pelo rosto da filha, mas ela não soltou a mãe.
- Você não teve culpa, mãe, ninguém teve... Eu não agüento, oito anos é demais! Todo dia, todo dia... eu vou acabar maluca igual à senhora! Mãe, ele morreu mais eu tô aqui, aqui!
A mãe caiu de joelhos. A moça se sentou ao seu lado. Agora as duas choravam baixinho no chão.
- Ele já estaria trabalhando num hospital... Três de segundo-grau, mais cinco de faculdade...- calculava a mãe em voz baixa, como num sonho.
A moça não respondeu. Na mente de ambas, a mesma cena: a mãe tentando tirar Eduardo das ferragens do Fusca, enquanto as pessoas gritavam:
- Ei, tem outra criança no carro também!