No começo, você fica parado, inerte. Está preso, acomodado a uma situação que, se não é confortável, bem, ao menos é conhecida. Sentado em uma antiga cadeira de balanço, que rangeria se você fizesse algum movimento, permite aos seus olhos contemplar a árida e desolada paisagem ao redor. O ócio começa a se tornar irritante e seu corpo inicia um discreto movimento de ir e vir na cadeira. Ao longe, surge uma nuvem de poeira. A nuvem vai se aproximando.
Junto com ela, são ouvidas músicas e uma grande balbúrdia se forma.
Alguns minutos depois, você percebe que se trata de um trem. Um circo. Sua atenção é atraída pelos grandes elefantes e ferozes leões. A mulher barbada, o engolidor de espadas e o mágico são de tirar o fôlego.
Este circo não tem um nome. Vamos chamá-lo de "vida".
O Mestre do picadeiro joga um papel enrolado em uma pedra na sua direção. Você estica o braço e, sem sair da cadeira, pega o pequeno embrulho. É um convite. O circo irá se apresentar na cidade vizinha.
Mas você não se mexe. Lê o convite e fica ali, vendo, aos poucos, a vida passar. Você esboça um sorriso amarelo e despede-se dele. Com sua mão direita, acena, enquanto a mão esquerda pousa sobre o peito, contendo qualquer sentimento que tente fugir em direção à vida que já vai longe.
Sua mão diz ao seu coração:
- Contenha-se, a vida é perigosa. É melhor não ir atrás dela.
Contudo, em algum momento, você se cansa. O convite do Mestre coça em suas mãos. Você olha para o horizonte e vê a trilha suave, quase imperceptível, que a vida deixou ao passar por você. Você quer, mas ainda não sabe se tem coragem para seguir os rastros deixados no chão. Enquanto a sua necessidade de auto-preservação e o seu desejo travam uma guerra surda, surge um homem com uma pá nas mãos. Ele não anda rápido ou devagar, apenas anda. Seu rosto não apresenta qualquer expressão, como se não julgasse você. Para dizer a verdade, ele não se importa com julgamentos, pois tem um trabalho a fazer. Suas mãos ágeis movimentam a pá, que vai cobrindo a trilha. Quem é esse homem? Ele não tem um nome, mas há quem o chame simplesmente de tempo.
Você se dá conta de que precisa ser mais rápido do que esse homem, e corre. Foge da prisão de esmeraldas em que a inércia o colocou e vai. Apenas vai atrás do circo, sem pensar em segurança ou proteção. Seu coração bate forte pela primeira vez. Sua mão esquerda não consegue mais contê-lo e os sentimentos começam a romper a carapaça emocional que você construiu por anos, jorrando, fluindo para o corpo e para a cabeça.
Sua mente já nem se recorda mais dos tempos em que ficava parada, ruminando inutilidades em uma velha cadeira de balanço.
Momentos depois, você o alcança. Finalmente entra em contato com esse universo tão distante da paisagem solitária de onde você fugiu. Ah, agora você sorri de verdade. Um sorriso gostoso, sem vergonha ou pudores sociais, semelhante àqueles que você dava quando criança, ao ouvir uma piada tola ou a promessa de um bolo quente preparado por sua avó. Seus sentidos ficam confusos diante das personagens interessantes e dos mistérios ocultos, das festas, das luzes coloridas, dos sorrisos gentis e dos flertes casuais. E você se encanta completamente por ele.
Suas mãos querem tocar cada parte dos cenários, seus pés querem correr sobre o picadeiro, suas mão direita aponta em direção às infinitas novidades. Só a mão esquerda, a da cautela, não emite opinião, preferindo o silêncio e a contenção. E, apesar de repressora, ela também é sábia.
A empolgação inicial termina, a ilusão de plena felicidade se desfaz e você enxerga além do véu de Maya, além das ilusões. A lona do circo é bela, mas há remendos e partes rasgadas. Há luzes queimadas ou intensas demais. Alguns mistérios poderiam ter continuado ocultos. Ao menos, continuariam interessantes. Muitos flertes mostraram-se vazios ou se transformaram em promessas impossíveis de serem cumpridas. As festas acabaram, há bêbados por todos os lados, homens brigando, mesas e cadeiras destruídas.
Os leões e elefantes choram de tristeza pela liberdade perdida. O Mestre do Picadeiro grita com seus empregados e demite um ou dois sem um motivo justo, apenas para descarregar sua ira. A renda da bilheteria não havia sido tão boa.
Você pára e observa, ressentido, o circo sendo arrumado para seguir viagem. A lona, os artistas, os animais, todos são recolhidos aos vagões do trem. Ele se vai, e você fica olhando. A mão direita nem mesmo acena ou sorri. Ela se fecha em mágoa e decepção. A esquerda firma os dedos contra o peito outra vez, mas não seria preciso, pois seus sentimentos - feridos - não querem mais sair. Eles temem a liberdade.
Alguns minutos depois, reconfortado, tendo seus cabelos afagados pela inércia, você revê aquele homem de expressão vazia e mãos ágeis. O tempo caminha e começa a apagar os rastros do circo que seguiu seu rumo. Você toma a pá de suas mãos e assume sua tarefa, jogando a areia do chão sobre o caminho. Você não quer mais saber como encontrar o circo.
E você fica parado, inerte, repousando na tranquilidade de uma situação conhecida. Sentado em uma cadeira de balanço antiga, sem fazer qualquer movimento e aguardando a vinda de um outro circo sem nome.
Bruno Cunha