Terça-feira, Dezembro 28, 2004

Tempos de recesso

Conforme os gentis leitores deste blog já devem ter notado, as pequenas pausas de Natal e Ano Novo fizeram com que as moças não tenham sido muito assíduas por aqui. Mas informamos que em 2005 voltamos com muita vontade de dividir com todos nossos textos, o que adoramos ter feito em 2004. Saibam todos que o Dedos das Moças foi muito especial na vida de todas nós.
Fiquem por enquanto com nossos votos de um Ano Novo maravilhoso.

Receita de Ano Novo
(Carlos Drummond de Andrade)

Receita de Ano Novo Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegrama?)
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre

Sexta-feira, Dezembro 24, 2004

Natal é tempo de esperança

Chamo o táxi, explico o lugar. O motorista me ajuda a colocar os pacotes no carro e lá vamos nós em direção à esperança. Como o lugar é longe, ele, curioso com a quantidade de embrulhos, me pergunta se comprei tudo aquilo. Respondo que tudo é doação. Ele sorri e diz: – Nossa, esse pessoal deve ter muito pecado! As pessoas acham que basta comprar uma bolinha de futebol e pronto: Está salvando o mundo! Digo que se a única ajuda vem em forma de um brinquedo, vale a pena contribuir com o sorriso de uma criança.
Ele sorri e diz que não tem mais jeito. O negocio é fogo morro acima e água morro abaixo. Eu faço uma expressão de desaprovação. Ele me olha, não se segura e confessa: na sua idade eu também tinha esperança. Fizemos o restante do trajeto em silêncio. De vez em quando ele me olhava pelo retrovisor, talvez m busca de esperanças. Chegamos ao meu destino. Ele me ajuda a retirar os embrulhos, enquanto pergunto quanto custou a corrida. Ele responde: - Nada. Fica aí minha contribuição. Sorrimos e eu lhe desejo um feliz 2005 com mais esperanças.
Um homem de mais ou menos 18 anos, pergunta para onde vou, antes de responder, sou atraída para cintura dele, que possui como complemento do corpo muito magrelo, duas armas. Tento não olhar. Explico o porque de estar ali, quando os meus olhos são atraídos para uma caminhonete, dessas de gente "granfina", parada muito perto de mim. Dois homens que as roupas são como cartazes dizendo eu não sou daqui, estão com uma das mãos aspirando algo em um papel branco, então sinto o peso de uma mão nos meus ombros, olho um pouco assustada, uma mulher sorri e diz – Oi, sou a Fulana, nos falamos por telefone. Eu retribuo o sorriso, ela me carrega para longe. Diz que as pessoas que vão ali comprar coisas, querem sossego, não querem ninguém olhando. Penso: Mas e as crianças, as mulheres, os pais de família que ali estavam, não são ninguém olhando. A esperança dos homens aspirando o pó branco é que não sejam.
No olhar de cada criança a expectativa de abrir o tão esperado presente é contagiante, todas estão alvoroçadas, correndo de um lugar para outro. Um homem começa a chamar os nomes e cada uma vem ao meu encontro, receber um embrulho e elas me retribuem com os olhos brilhando. Quando achei que tinha acabado, uma menina, a mais bela que já vi a até hoje, chega sorrindo e pergunta: Onde está ele, o papai Noel. Digo que ele esta muito atarefado e foi embora, mas deixou um presente. Ela agradece, mas não vejo o brilho nos olhos dela, pergunto o nome dela, e a chamo.
Ela para, eu pergunto: Não ganhou o que queria? Neste exato momento, pensei que compraria o que ela quisesse, fosse uma bicicleta (faria uma vaquinha entre amigos). Ela desabafa: Queria meu pai, ele está preso, todos os dias peço a Deus, mas ele continua lá. Não a nada que eu possa fazer, deixo chorar. Ela vai com a esperança de ter o pai de volta.
Vou a casa da mulher que amparou o tempo em que estive ali, ela me oferece um pedaço de bolo com café, e enquanto como, conversamos. Ela pergunta se valeu a pena, digo que sim, e completa: - eu tenho esperança que as coisas vão melhorar. Eu vou e ela fica com a esperança nas pessoas.
Volto para casa com uma sensação estranha, ao longo do caminho, olho o rosto das pessoas. Todas com a mesma esperança da aquela mulher: Que as coisas vão melhorar.
Porque natal é tempo de esperança!

Michelle

Quinta-feira, Dezembro 23, 2004

O nosso amor a gente inventa?

"Que me perdoe
Se eu insisto nesse tema
Mas não sei fazer poema ou canção
Que fale de outra coisa
Que não seja o amor"
(Antônio Carlos / Jocafi)


Vem de dentro, de fora, do meio, do meio da confusão, do nada, de tudo isso, de cima, de baixo, do cansaço, da necessidade, de longe, de pertinho, de bem debaixo dos seus olhos, do alcance das mãos.

Vem tranqüilo, afoito, desacreditado, de chofre, de chofer, a pé, de mansinho, correndo, cansado, delivery, para os mais modernos.

É calmaria, obsessão, gastura, doce, salgado, pobre, rico, chão, céu, presente, martírio, sufoco, música, grito, azul, amarelo, vermelho, lilás, verde, líqüido, pedra, fogos de artifício, lenha na fogueira, fogo na roupa, fogo de palha, porto, triste, machucado, orgasmo, sono, estrela, lua, laço de fita, amargura, Ano Novo, Natal, festa junina, Carnaval, capim, trevo de quatro folhas, purpurina, confete, pétala, serpentina, falta de ar, vela, cheiro, sede, destino, desgraça, passarinho, sorte e azar.

É rejeitado, acolhido, sufocado com travesseiro, guardado na gaveta, na parte lá de cima do armário, posto na estante, no altar, em cima da cama, debaixo dos lençóis, no sapato pra ser pedra, na empada pra ser azeitona, no banco pra ser praça, na praça pra ser banco, no cabelo pra ser enfeite, no lixo pra ser lixo, na mão pra ser anel, na rua pra ser desconhecido, na vida pra ser verdade.

Abre a porta.

Quarta-feira, Dezembro 22, 2004

Pedidos de Natal

Quero de Natal uma tarde inteirinha de sono. No frio ou no ar-condicionado, com cobertor e cortina escura.
Quero também um dia de muito sol em Dois Rios. E outro no Abraãozinho, com peixinhos comendo na minha mão.
Quero um chope bem gelado de fim de tarde no bar da praça de Ubá, com as amigas de adolescência.
Quero um domingo ensolarado em Ipanema, com comprinhas no bazar do Galeria Café e na feira hippie depois da praia.
Quero uma sessão de DVDs de "Sexy and the City" com as amigas, com pipoca, pão de queijo, vodka e Coca-Cola.
Quero comida síria caseira, com pudim de leite de sobremesa.
Quero andar no bondinho do Pão de Açúcar e no trenzinho do Cristo Redentor.
Quero um fim de semana de liqüidação nos shoppings, com descontos de pelo menos 50%.
Quero dançar uma noite inteira na Brazooca ou na Soundtrack, até amanhecer.
Quero um passeio de barco em Arraial do Cabo.
Quero comer feijoada no Mineiro e depois visitar a Academia Brasileira de Literatura de Cordel.
Quero assistir a uma sessão de cinema num fim de tarde de fim de semana no Centro e depois caminhar pelas ruas vazias.
Quero ficar deitada abraçada, só deixando o tempo passar.
Quero rever amigos sumidos.
Quero a felicidade dos momentos mais simples e a paz mais banal.

Segunda-feira, Dezembro 20, 2004

Perdas e ganhos


Quando a gente perde um amor, ganha a possibilidade de repensar em tudo de novo. Em como amar mais uma vez e cada vez melhor.
Quando a gente perde um amigo, ganha a possibilidade de perceber o quanto ele faz falta e como é difícil passar por cima do orgulho e ligar de novo e de novo pra pedir desculpas e tentar mais uma vez.
Quando a gente perde um emprego, ganha a possibilidade de conseguir outro melhor e mais prazeroso.

E assim um sem número de ganhos escondidos, que vestem máscara de perda, pra gente se acostumar a sofrer com ela, se quiser.

E quando a gente perde tempo, esse não tem volta, mas a gente ganha a clareza de que nada é tempo perdido. De que nunca perde-se tempo.

Cada dia me convenço mais de que as coisas acontecem sempre e quando tem que acontecer.

E eu ainda continuo esperando por você! Pacientemente...

Sábado, Dezembro 18, 2004

A espiral

No começo, você fica parado, inerte. Está preso, acomodado a uma situação que, se não é confortável, bem, ao menos é conhecida. Sentado em uma antiga cadeira de balanço, que rangeria se você fizesse algum movimento, permite aos seus olhos contemplar a árida e desolada paisagem ao redor. O ócio começa a se tornar irritante e seu corpo inicia um discreto movimento de ir e vir na cadeira. Ao longe, surge uma nuvem de poeira. A nuvem vai se aproximando.

Junto com ela, são ouvidas músicas e uma grande balbúrdia se forma.

Alguns minutos depois, você percebe que se trata de um trem. Um circo. Sua atenção é atraída pelos grandes elefantes e ferozes leões. A mulher barbada, o engolidor de espadas e o mágico são de tirar o fôlego.

Este circo não tem um nome. Vamos chamá-lo de "vida".

O Mestre do picadeiro joga um papel enrolado em uma pedra na sua direção. Você estica o braço e, sem sair da cadeira, pega o pequeno embrulho. É um convite. O circo irá se apresentar na cidade vizinha.

Mas você não se mexe. Lê o convite e fica ali, vendo, aos poucos, a vida passar. Você esboça um sorriso amarelo e despede-se dele. Com sua mão direita, acena, enquanto a mão esquerda pousa sobre o peito, contendo qualquer sentimento que tente fugir em direção à vida que já vai longe.

Sua mão diz ao seu coração:

- Contenha-se, a vida é perigosa. É melhor não ir atrás dela.

Contudo, em algum momento, você se cansa. O convite do Mestre coça em suas mãos. Você olha para o horizonte e vê a trilha suave, quase imperceptível, que a vida deixou ao passar por você. Você quer, mas ainda não sabe se tem coragem para seguir os rastros deixados no chão. Enquanto a sua necessidade de auto-preservação e o seu desejo travam uma guerra surda, surge um homem com uma pá nas mãos. Ele não anda rápido ou devagar, apenas anda. Seu rosto não apresenta qualquer expressão, como se não julgasse você. Para dizer a verdade, ele não se importa com julgamentos, pois tem um trabalho a fazer. Suas mãos ágeis movimentam a pá, que vai cobrindo a trilha. Quem é esse homem? Ele não tem um nome, mas há quem o chame simplesmente de tempo.

Você se dá conta de que precisa ser mais rápido do que esse homem, e corre. Foge da prisão de esmeraldas em que a inércia o colocou e vai. Apenas vai atrás do circo, sem pensar em segurança ou proteção. Seu coração bate forte pela primeira vez. Sua mão esquerda não consegue mais contê-lo e os sentimentos começam a romper a carapaça emocional que você construiu por anos, jorrando, fluindo para o corpo e para a cabeça.

Sua mente já nem se recorda mais dos tempos em que ficava parada, ruminando inutilidades em uma velha cadeira de balanço.

Momentos depois, você o alcança. Finalmente entra em contato com esse universo tão distante da paisagem solitária de onde você fugiu. Ah, agora você sorri de verdade. Um sorriso gostoso, sem vergonha ou pudores sociais, semelhante àqueles que você dava quando criança, ao ouvir uma piada tola ou a promessa de um bolo quente preparado por sua avó. Seus sentidos ficam confusos diante das personagens interessantes e dos mistérios ocultos, das festas, das luzes coloridas, dos sorrisos gentis e dos flertes casuais. E você se encanta completamente por ele.

Suas mãos querem tocar cada parte dos cenários, seus pés querem correr sobre o picadeiro, suas mão direita aponta em direção às infinitas novidades. Só a mão esquerda, a da cautela, não emite opinião, preferindo o silêncio e a contenção. E, apesar de repressora, ela também é sábia.

A empolgação inicial termina, a ilusão de plena felicidade se desfaz e você enxerga além do véu de Maya, além das ilusões. A lona do circo é bela, mas há remendos e partes rasgadas. Há luzes queimadas ou intensas demais. Alguns mistérios poderiam ter continuado ocultos. Ao menos, continuariam interessantes. Muitos flertes mostraram-se vazios ou se transformaram em promessas impossíveis de serem cumpridas. As festas acabaram, há bêbados por todos os lados, homens brigando, mesas e cadeiras destruídas.

Os leões e elefantes choram de tristeza pela liberdade perdida. O Mestre do Picadeiro grita com seus empregados e demite um ou dois sem um motivo justo, apenas para descarregar sua ira. A renda da bilheteria não havia sido tão boa.

Você pára e observa, ressentido, o circo sendo arrumado para seguir viagem. A lona, os artistas, os animais, todos são recolhidos aos vagões do trem. Ele se vai, e você fica olhando. A mão direita nem mesmo acena ou sorri. Ela se fecha em mágoa e decepção. A esquerda firma os dedos contra o peito outra vez, mas não seria preciso, pois seus sentimentos - feridos - não querem mais sair. Eles temem a liberdade.

Alguns minutos depois, reconfortado, tendo seus cabelos afagados pela inércia, você revê aquele homem de expressão vazia e mãos ágeis. O tempo caminha e começa a apagar os rastros do circo que seguiu seu rumo. Você toma a pá de suas mãos e assume sua tarefa, jogando a areia do chão sobre o caminho. Você não quer mais saber como encontrar o circo.

E você fica parado, inerte, repousando na tranquilidade de uma situação conhecida. Sentado em uma cadeira de balanço antiga, sem fazer qualquer movimento e aguardando a vinda de um outro circo sem nome.

Bruno Cunha


Sexta-feira, Dezembro 17, 2004

Das coisas que a gente não vê

26 de Dezembro. Olhou o calendário, lá estava ele de novo. Quanta coisa representada numa só data.
Parou diante do dia, e tudo voltou como filme na sua memória.
Acordou cedo, a agitação do casamento não estava deixando dormir, tão próximo e tantas coisas para serem feitas.
Tomou o café e pegou o restante dos convites que faltava entregar.
Selecionou de um casal de amigos conhecido recentemente e resolveu ir ao centro da cidade entregar pessoalmente.
Simpatizou com eles na reunião da igreja. Ninguém entendeu quando ela disse que convidaria aquele casal para a cerimônia, nem ela mesmo, tudo ficaria mais claro depois.
No caminho, foi pensando, sempre desejou casar na igreja com véu e grinalda, toda a família reunida, festa. Mas eles se perderam, ela não sabia onde, mas não deseja mais casar com ele. Pensou como chegou até ali, porque não gritava para todo mundo que não queria mais casar, não teve coragem antes, não podia fazer agora faltando três semanas para o casamento.
Estava cansada, cansada de representar que estava super feliz.
Chegou ao escritório e desmoronou na cadeira. Mais uma vez representou, entregou seu convite, pediu desculpas por estar tão próxima da data e, resolveu ir embora.
Naquele exato momento as despedidas foram interrompidas com um som de uma campainha, anunciando o porque de convidar aquele casal.
Ele entrou lindo e o mundo parou. Sua vida começou a fazer sentindo, olhou de novo para ele, ele sorriu e conversaram.
Ela não queria mais despedir, queria ficar ali, olhando para ele, sonhando com ele.
Não teve jeito, tiverem que dizer adeus, mas eles trocaram telefones.
Ela sabia que jamais teria coragem para ligar. Foi para casa, encontrou o noivo, mas não conseguia parar de pensar no homem que conheceu naquela tarde.
Pensou que só ligaria para ele uma única vez, só para ouvir a sua voz, talvez o encontrar só mais uma vez.
Eles se encontraram no dia seguinte e ficaram juntos por oito anos a partir daquele dia.
E ela escreveu no calendário, no dia 26 de dezembro, como faz todos os anos: “esperança nas coisas que a gente não vê”

Michelle

Quarta-feira, Dezembro 15, 2004

Onde está o seu racismo?

Onde está o seu racismo? Será que você o guarda bem escondido? Ou de vez em quando ele teima em escapar da caixa na qual foi acondicionado? Talvez você o tenha perdido, mas, se procurar bem, pode achar algum vestígio dele. Assim, num canto da casa, embaixo da cama, sob uma pilha de livros, no armário de bugigangas. O racismo, tal qual poeira, voa mesmo nos lugares mais limpos.
O seu racismo pode ser hereditário. É o que vem nos seus cromossomos, desde que os mais antigos ancestrais. Mesmo que você negue, ele faz parte do seu código genético. Esse defeito congênito, aliás, atinge tanto brancos quanto pardos ou pretos. Todos tendem a enxergar uma diferença maior que a cor da pele entre eles. Quem tem esse tipo de gene costuma levantar do ônibus ao ver entrar um grupo de negros ou fazer cara feia para uma branca que sambe.
O seu racismo também pode ter sido ensinado. Esse faz parte primordialmente da educação da classe média. A empregada é negra, a babá é negra, a manicure é negra, o porteiro é negro. Só os amigos de papai e mamãe são todos brancos. Na escola, desde o jardim de infância, há tão poucos coleguinhas negros que a criança de pele clara passa a achar que eles são mesmo minoria. E a de pele escura começa a conceber a beleza tendo traços finos e cabelos lisos como modelo.
O seu racismo pode ainda ser envergonhado. É um tipo disseminado entre gente de todas as cores de pele. São amigos de brancos e negros, freqüentam as casas um dos outros, levam os filhos para brincar juntos. Basta, porém, a filha arrumar um namorado negro, ou o filho aparecer em casa com uma branca para ele se revelar, ainda que encabulado, no dia das apresentações.
E existe o racismo institucional, que prega ser preciso dar aos negros mais facilidade para conseguir um emprego ou uma vaga na universidade, porque eles não têm como competir em igualdade de condições com os brancos. Esse racismo também tem a sua dose de vergonha e se veste com um discurso defendendo a compensação de injustiças que remontam à escravidão. Fica tão bonito que há negros que gostam.
Procure direitinho pelo seu racismo. Veja se ele não está no seu bolso quando você se surpreende ao conhecer um negro com pós-graduação. Ou quando você desconfia daquele negão naquele carro importado. Ou quando você chama uma negra de moreninha. Dê uma geral que você acha.

Terça-feira, Dezembro 14, 2004

Discos

- Com esse você pode ficar. Já passei dessa fase - ele sorriu, irônico.

Ela recolheu os vinis da banda, fingindo ignorar a alfinetada.

- Eu ainda gosto. Gosto de pensar que o caminho...

- ...seja um só - completou ele, ajudando a tirar o pó com uma flanela. - Ele adorava esses versos messiânicos, citações bíblicas...

- Eu gosto da banda E do vocalista - ela frisou, fechando a cara. - Vamos mudar de assunto. E ela? - perguntou, apontando as muitas capas da cantora. - Como é que a gente faz?

- Meio a meio. Eu gosto, você gosta, fazer o quê?

- O último é meu. Você sabe por quê.

Ele sabia: a faixa 16 era a canção do exílio. No início do namoro, ela teve que passar dois meses fora e ele morreu dois meses por dentro. Nos telefonemas, ela dizia que ia voltar, que sabia que ainda ia voltar. No aeroporto, quando foi buscá-la, eles fecharam os olhos e tocaram as próprias faces durante muitos minutos, sem coragem de olhar nos olhos, porque os olhos não mentem quando as coisas mudam. Mas não haviam mudado, ainda não. Só muito depois elas mudariam, e tanto que agora...

- E eles? - ele interrompeu seus pensamentos, apontando com o queixo mais uma pilha grande. - Depois deles...

- Não apareceu mais ninguém - ela completou, sorrindo - E não apareceu mesmo.

- Tá bom, são seus. Você sabe que eu sempre preferi os...

- Eu sei. O mundo se divide assim...

Sorriram, cúmplices. A partir daí, a tarde transcorreu sem brigas. Argumentavam gentis, como é fácil ser gentil quando escondemos os pensamentos. Abriam concessões, exigiam com doçura, relembraram histórias. Teve uma hora em que ele pegou um dos discos de seu cantor de samba favorito, um em que a capa exibia várias fotografias em miniatura, e ficou nostálgico:

- Na época do vinil dava para criar tanto, né? O cd não tem espaço pra fazer uma capa legal. Olha só, essa daqui, num cd as fotos ficariam microscópicas.

Ela concordou em silêncio. Foi o que os uniu: haviam se conhecido num sebo no centro da cidade. Pegaram ao mesmo tempo o mesmo disco de uma cantora americana e se descobriram apaixonados - mordendo da mesma estranha fruta, conforme ele diria dias depois.

Agora chegavam ao fim da partilha: na sala vazia, apenas as duas caixas enormes, cheias, em quantidade aparentemente equilibrada. Ele estranhou uma coisa:

- Não vi os discos do...

- Eu dei.

Ele gritou, abismado:

- O quê? Ficou maluca? Quando é que foi isso?

- Tem um mês, mais ou menos. Quando a gente decidiu... É que eu sabia que a gente não chegaria a um acordo. Não com relação a ele. Achei que você podia nem dar falta...

- Puta que pariu! Como é que eu não ia dar falta? Olha, a maioria dos discos dele eu já tinha antes de te conhecer! O primeiro, então, eu rodei os sebos durante anos até achar!

Ela ficou com medo, mas reclamou:

- Mas o seu favorito é meu... aquele em que ele tá no meio das samambaias!

Ele se levantou, com asmãos na cintura.

- Me diz onde eles estão. Me diz que eu vou buscar agora!

O medo dela aumentou. Nunca o vira naquele estado. Contou que guardara tudo na casa da mãe dela. Não pretendia enganá-lo, queria apenas evitar uma briga, repetiu. Afinal, a separação estava transcorrendo de forma tão civilizada... Assim que ela chegasse na casa da mãe daria todos para ele, todos.

Duas horas depois, o homem estacionava na portaria do prédio da agora ex-sogra. E que agora era da ex-mulher também. A moça entregou em silêncio um caixote marrom e pesado. Ele fez questão de abrir na frente dela para conferir se eram mesmos os discos. Ela entrou de novo no prédio, continuando em silêncio.

Ao chegar em casa, arrependeu-se de ter sido tão duro. A mulher só queria proteger o resto de afeto que existia entre os dois. Sempre fora mais madura. Por que abrir a caixa na frente dela, mostrando uma desconfiança imotivada?

Cheio de remorso, escolheu seu disco favorito do compositor: conforme a mulher lembrava, o "da samambaia". Ao pegar o vinil, uma surpresa: profundos riscos brancos. E no outro disco, e no outro...

Todos os discosdo compositor preferido dos dois foram cuidadosamente riscados, aparentemente com uma chave.

Segunda-feira, Dezembro 13, 2004

Das coisas que eu acredito

Desde pequena tenho uma relação bem peculiar, diria, com essa questão da religião e das crenças de uma maneira geral.

Talvez como se nunca tivesse ficado claro pra mim, e talvez eu sempre tenha duvidado um pouco da existência de tais ou quais “ícones”. Sempre foi assim. Fui educada numa escola de freiras, fiz primeira comunhão e era aluna dedicada do curso preparatório para o recebimento de tal sacramento.

Freqüentei grupos católicos, quando pequena, e sempre me dei muito bem em todas as causas "religiosas" das quais fiz parte.

Mas sempre uma pulga atrás da orelha. E quem é Deus? É o velhinho sentado na nuvem, olhando pra gente lá de cima? De certo que não, desde sempre pensei isso.

Com o passar dos anos, fui conhecendo outras crenças, outras maneiras de compreender o sagrado e de vivenciar na vida prática o que é Deus e onde mora.

Mesmo assim, nada me convencia de nada. A Bíblia, o Alcorão, o Bhagavad-Gita, as parábolas, a figura de Jesus, de Buda, de Maomé...

Freqüentei de tudo, a partir de então. Terreiros de candomblé, grupos de meditação dinâmica, rituais budistas e a dúvida sempre lá. Sempre: E então? Pra que serve tudo isso? Pra onde vou e de onde venho e o que vim fazer aqui?

Ainda hoje reconheço que milhares de perguntas não têm resposta. Ainda hoje percebo que há momentos em que a gente fraqueja e momentos em que a gente pensa profundo o que é a existência humana.

Certa vez um amigo, hoje perdido no tempo, me disse: - Mariana, você é uma buscadora. E isso calou fundo dentro de mim.

E sim. Percebi que vim ao mundo para buscar uma maneira de encontrar Deus, tenha Ele o significado que for. E assim persisto. Numa busca atribulada desde sempre, porém serena, de um ano pra cá. E ouso pensar que talvez o tenha encontrado. Talvez tenha encontrado respostas nas filosofias antigas, orientais, nos Upanishads e em escritos universais e na experiência dos Siddhas e suas jornadas espirituais.

Hoje percebo que não procuro mais tão ansiosmente. Pela certeza, quem sabe, de que Deus é um pedaço meu, um pedaço do meu caminho e que mora certamente dentro de mim. Nas minhas atitudes, nos meus quereres e propósitos. Na minha relação com o mundo, com os outros, comigo mesma. E como dói olhar de frente pras feridas da alma, e compreender a divindade de tudo isso, entender que são parte de um todo, um fragmento de universo que habita o intimo de cada um de nós.

Acreditar em Deus, pra mim, tem sido acreditar em mim mesma e à isso não atribuo nem uma gota de convencimento. Porque entendo que a faísca de iluminação está em entender que Deus não é como eu, nem tem meu nome, mas que eu sim sou um pedaço do Deus manifesto.

Enfim um tema polêmico e de incansável discussão. Apenas me interessa registrar que é imensamente prazeroso acalmar uma busca dentro da gente. Que muitas vezes, quando algumas respostas aparecem, a gente parece que dorme melhor, que vive melhor, que se entende melhor. (Mas não por isso, sofre menos! )

Apenas isso.

Saravá!

Sexta-feira, Dezembro 10, 2004

Dia desses, uma dessas lindas moças aí ao lado, escreveu sobre os compositores esquecidos. Aqueles que foram co-autores de grandes sucessos mas que ninguém sabe quem é. Ficaram ofuscados pela sombra do parceiro famoso. Mas existem outros que tiveram um destino ainda mais ingrato: foram estigmatizados por uma única composição de sucesso, que acabou virou sobrenome artístico. Em 1966, Niltinho, um sambista da Imperatriz Leopoldinense, alcançou o sucesso numa parceria com Haroldo Lobo, gravada pela divina Elizeth Cardoso:"tristeza/por favor vá embora...". Daí em diante, ganhou sobrenome: Niltinho Tristeza. Depois foi autor do samba-enredo campeão "Liberdade, Liberdade". Mas quem se lembra dele por isso? Mas não foi o único caso. Em 1965, no clássico LP "Roda de samba – Conjunto A voz do morro" o sambista Joãozinho assinou uma parceria com o Jair do Cavaquinho: "Vai/pecadora arrependida/vai cuidar da sua vida...". Assim nasceu o Joãozinho da Pecadora. Já nos anos 80 Martinho da Vila fez muito sucesso com esse samba: "Na aba do meu chapéu/você não pode ficar...". E fez mais uma vítima: um dos seus autores – Paulinho Correia - ficará para eternidade conhecido como Paulinho da Aba. Às vezes, o samba nem precisa ter sido um grande sucesso. Jorginho Saberás, compositor da Vila Isabel, que por ser homônimo de Jorge Aragão, foi rebatizado com o sobrenome de um de seus sambas.

Muniz Sodré, no seu excelente ensaio "Samba, o dono do corpo", nos explica que a síncope, característica essencial do samba - quando um tempo forte invade um tempo fraco - cria um vazio no tempo que nos induz a preenchê-lo com palmas, sons ou movimentos do corpo. Mas teve um "vazio" num samba que gerou um dos sobrenomes mais inusitados da MPB. Diz a lenda que, quando Paulinho da Viola gravava o seu clássico "Foi um rio que passou em minha vida", tinha um verso que pedia um complemento, deixava um vazio a ser preenchido. Aí um ritmista, o Jorge, lá do fundo do estúdio, mandou essa, espontaneamente: Porém.../"-Ai, porém..."/há um caso diferente... Pronto, ele até hoje atende pelo nome de Jorge Porém.

Portanto, amigos(as) compositores ainda não consagrados: muito cuidado na hora de escolher o nome de uma canção: ela poderá ser o seu sobrenome no futuro.


Dia do palhaço

Passei o dia todo pensando nele. Então comecei a me preparar para o nosso próximo encontro. Escolhi a roupa que eu mais gostava. Vestido amarelo de alcinhas, com um piu-piu desenhado na frente, para acompanhar minha mãe testemunha de toda a minha agitação. Fez em mim Maria Chiquinha com fita branca e amarela. Ela sorria para mim como sinal de entender o que estava acontecendo dentro de mim.
Apesar de não saber exatamente o que era, as cores me fascinaram.
Estava indo para escola. Um caminhãozinho passou anunciando apresentação para aquela noite, mas não foi o som, apesar de muito alto, que me chamou a atenção.
O que me fascinaram foram às cores. Parecia um arco –íris.
Sim as cores. A beleza do amarelo, a força do vermelho, o brilho do azul e todas as outras que brincavam com os meus olhos. Tudo em perfeita harmonia. Eu ali parada, sem coragem de movimentar nenhuma parte do meu corpo para não perder nada daquele espetáculo.
Ao longe, avistei um vulto. Não consegui entender do que se tratava, via apenas as cores brilhantes que disputavam com o sol o poder de brilhar. Fui andando ao seu encontro tentando perceber mais daquela figura, que até aquele momento, para mim era desconhecida. O rosto, branco demais, era contornado por uma bolota vermelha bem ao centro, no lugar do nariz. Os olhos grandes como nunca tinha visto. Pensei que assim deveria ser os olhos do lobo mau. O cabelo, cor de laranja, um pouco estranho, nunca visto antes.
Perguntei para minha mãe qual o nome dele, ela me respondeu: - Palhaço.
Tentei entender aquela figura que tanto chamava a minha atenção, entender porque ele insistia em sorrir. Olhei ao redor para ver se existia alguma coisa engraçada que o fizesse sorrir tanto, mas nada.
Até que - surpresa - o palhaço se mexeu. Eu arregalei os olhos enquanto ele movia lentamente o corpo e direcionava para mim um sorriso acompanhado de uma flor. Uma margarida, colhida dali do canto, entre a rua e a calçada.
Entendi naquele momento que o tempo não parava. Nossos olhos se encontraram, entre a mistura de sons e das cores que insistiam em chamar a minha atenção. Lá estava ele.
E até aquele momento, de começar a me arrumar, não conseguia pensar em outra coisa.
E assim nasceu o meu amor pela figura do palhaço, que até pode ser um ladrão de mulher, mas é principalmente um ladrão de tristezas. Que afinal sua única função na vida é alegrar pessoas, fazê-las sorrirem, e que função mais nobre!
Ele que talvez muitas vezes não pode dar atenção as suas dores, porque é a sua função fazer as pessoas esquecerem as suas próprias. À ele é dada a função de nos fazer sorrir com os tombos, os erros e a tristeza inventada. Ele que, não importa o que aconteça dentro dele, faz a gente sorrir. Meu muito obrigada a todos os palhaços.

Michelle

Quinta-feira, Dezembro 09, 2004

Geografia

Metáfora perfeita esta que figura o coração como sendo um lugar, andei pensando.
Vale dizer, ante todo, que quero falar daquele coração que guarda as paixões – as dos amores de amantes. Pois há aqueloutros que guardam os amores fraternos e tantos outros afins (parece-me que a realidade dos corações se sobrepõe, são múltiplas em uma, são folhas de uma resma) nada do que vou dizer se aplica. É que nesses cabe a geografia do nonsense, o que quer dizer que o espaço não é lógico, pois que é indefinível. Seu tamanho adapta-se tanto quanto forem os afetos somados.
Já este primeiro coração é rígido quando às leis da física. Ordinariamente, somente uma pessoa ocupa todo o lugar disponível (quando há). Dependendo do quanto se deixa e se quer deixar, não há outra alternativa possível. A vontade de estar daquele que já ali porventura se encontre também é fator relevante, ainda que nem sempre seja fundamental, pois é sabido que as chaves do coração são códigos secretos, sigilosa combinação de cofre.
Um imprevisto (na verdade, pensando bem, bem previsível) pode acontecer e mais de um descobrir a senha. Aí vira um empurra-empurra daqueles, confusão mesmo. Gente querendo entrar, gente pedindo pra sair, conscientemente ou não.
O certo é que a anatomia desse órgão – o coração das paixões – obedece a preceitos e requer certa ordem em sua aparente desordem. Cada espacinho que é tomado na luta por territórios, significa um chega pra lá de outro alguém que, despercebido, está morando ali por um bom tempo sem pagar aluguel.
E é assim. As boas ofertas ganhando o lugar dos inadimplentes. Até chegar a hora e a vez daquele esperado contrato de compra e venda. E quem diria? A casa mais bonita que vem sendo arrumada há tempos só está esperando o arremate definitivo.

Quarta-feira, Dezembro 08, 2004

Não era nada

Então não era nada, nada mesmo. Era só bobagem, coisa pouca, insignificância. Para quem importaria? Não era nada, nada mesmo. Era só mais uma tarde de sol, só algumas horas das 24 do dia, só um dia dos 365 do ano. Quem atentaria? Não era nada, nada mesmo. Era só uma vontade tola, um desejo bobo, um capricho infantil. Por que alguém se mobilizaria? Não, não era nada, nada. Era só uma rua vazia, uma cadeira vazia, uns braços vazios. Que diferença faria? Não, não era nada. Era só uma solidão, um aperto, uma asfixia. Quem socorreria? Mas não era nada. Eram só lágrimas envergonhadas de cair assim por nada. Por que alguém consolaria? Afinal não era nada. Era só exagero, drama, necessidade de atenção. Quem olharia? Ah, não era nada. Eram só palavras que não saíam já que não havia nada a dizer. Como alguém ouviria? Nada, nada, não era nada. Era só uma sensação de abandono, de desamparo, de desproteção. Como alguém perceberia? Meu Deus, não era nada. Era só a noite que chegava, era só o tempo que passava. Que mudança traria? Puxa, mas não era nada, nada mesmo. Eram só pensamentos ruins, avaliações equivocadas. Que mal teria? Não era nada, não, não era nada. Era só um pedido que não foi feito, um sim que não foi consentido. Quem lembraria? Claro que não era nada. Era só uma saudade sem motivo, um ciúme sem cabimento, uma mágoa sem causa. Por que alguém se desculparia? Então não era nada, nada, nada. Era só egoísmo, instransigência. Que atitude mereceria? Não era nada mesmo. Era só uma pessoa diante de um mundo enorme. Quem ligaria? Nada, nada, nada, não era nada.

Terça-feira, Dezembro 07, 2004

Esse é o cara

Tenho todos os discos do Cartola. Citei Chet Baker em meu último texto para o blog. Me apaixonei pelo Zé Miguel Wisnik ao vê-lo falar pela primeira vez. Mas em certos momentos, só há uma voz que eu quero ouvir. Voz com a qual cresci e que reneguei na adolescência, mas que, na idade adulta, reaprendi a amar. De um cara que dialogou com Caetano, Gal Costa, Bethânia, Luiz Ayrão, Marisa Monte, Skank. É, meu amigo, é o Roberto Carlos.

Você nunca entenderá a alma brasileira se não gostar do Rei. A história da nossa música tem sido escrita junto com ele, a começar pelo proto-rock dos anos 60. É muito fácil os roqueiros, hoje, posarem de rebeldes; queria ver nos anos 60. Roberto, Wanderléa, Erasmo passaram o pão que o diabo-pai-do- rock amassou, meus filhos. Faziam sucesso, mas eram atazanados pelos Ratinhos da época, acusados de desencaminharem a juventude. Juventude que, ontem e hoje, se esbalda ao som de delícias como "Calhambeque", "Parei na contramão", "Splish splash"...

Nos anos 70... Ai, nos anos 70 Roberto se esmerou. Foi sua melhor fase. Você nunca teve vontade de gritar para alguém: "Sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo"? Rááá! Mais: "Nesse mundo desamante, só você, amada amante, faz um mundo de nós dois." Não é lindo? "Ninguém podia amar do jeito que eu amei/E devo confessar: aí foi que eu errei..." E ele cantava coisas sexy quando ainda isso era "feio"! "Vou cavalgar por toda noite por uma estrada colorida..." O que não o impediu de ter uma obra variada, com coisas religiosas ("Jesus Cristo"), confessionais ("Traumas" e "O divã"), dançantes ("Todos estão surdos") e até a niilista "O astronauta".

A partir dos anos 80, suas músicas caíram de nível, conforme todos sabemos. A última música legal foi a cafajestíssima "Cama e mesa", a do "sabonete que te alisa embaixo do chuveiro". Por outro lado, o lançamento do acústico MTV, em 2002, mostra um certo desejo de mudança. Sabe que recentemente Roberto gravou, de sua autoria, um rap bem bacana?

O cara ainda fará uma volta triunfal. Aguardem.

Segunda-feira, Dezembro 06, 2004

Onde o sol bate e se firma

“Os transeuntes me agitam
Me perco sobre a multidão
Mas vejo através das lentes negras
Lindo, teu corpo lindo
Serás amor minha canção.”

[Luis Melodia]

Com isso de terem roubado meu carro, a cidade me levou de volta aos meandros do transporte coletivo. Nos primeiros dias, fiquei estarrecida em perceber como sou alienada desse mudo todo. Como vivo em outra realidade, como não compactuo com fatos importantes no cotidiano de grande parte das pessoas, como por exemplo, o atraso do ônibus das seis horas e as conseqüências que isso tem no dia de cada um.

Agora, passado um mês subindo e descendo de ônibus, metrôs, vans e afins, já tenho outra impressão. Sinto-me incluída, cúmplice, participante dessa massa humana que ocupa o transporte de uma cidade como São Paulo. E talvez para o espanto dos leitores e até para o meu próprio, confesso que estou feliz da vida.

Ta certo. Andar de ônibus e metro não é nada muito agradável, ou melhor, depende do seu ponto de vista. Acho tudo rápido, limpo, com itinerários eficientes. Não moro na periferia e isso talvez faça toda a diferença, mas juro que é uma beleza andar nas lotações da ponte ORCA, que fazem o transporte da Estação Vila Madalena a Estação Barra Funda do metrô, que aliás é onde fica o Memorial da América Latina, que aliás é onde eu trabalho.

Você acaba não dirigindo, não se estressa, vai sentado, o onibinhos não pára... É uma delícia. Dá pra pensar na vida, no dia, na noite, em tanta coisa! Além do rádio ligado em estações maravilhosas, tamanho repertório de música trash que oferecem. E eu adoro! Rá!

Além disso, as pessoas que a gente vê! Cada uma com seu jeito, seu cabelo arrumado pro trabalho, sua roupa passada e engomada, ou não, desleixada e despreocupada. Meninos e meninas voltando da escola, universitários, trabalhadores braçais, atletas, auxiliares domésticas, advogados estagiários...Toda sorte de tipos humanos que minha imaginação permite brincar de saber quem são, o que fazem, aonde vão, de onde vem.

Descubro através das minhas lentes negras, corpos de meninos lindos, olhares de pessoas tristes e tento adivinhar porque, escuto papos divertidíssimos, trágicos e reveladores.

A diversidade do mundo veio me visitar e eu como curiosa que sou, já escreveria um livro com todas as pessoas que passaram por mim durante esse um mês de cidadã paulistana com quase todas as letras.

Que beleza!

Sexta-feira, Dezembro 03, 2004

Basta! (final)

Ele pegou o celular: era a mulher.

- Hugo! Você ficou maluco? Ligaram do seu trabalho dizendo que você arrumou a maior confusão! Teu chefe falou que você pediu demissão, mas eu não acreditei!

- É verdade, meu amor. Olha, vem pra cá que eu te explico tudo. Tem tanta coisa que eu preciso falar... Eu estou na Rua das Palmeiras, número...

- De jeito nenhum! Vou cortar o cabelo às duas horas. Olha aqui, eu quero só ver como é que a gente vai pagar o sofá novo! Além do mais...

Desligou o celular com um sorriso amargo. Precisava pedir demissão do casamento também.... Empurrou o pesado portão de ferro e penetrou no quintal fresco, cheio de goiabeiras, com folhas secas no chão. O sobrado continuava o mesmo: amarelo, mas com pintura nova. Caminhou devagar, subiu os cinco degraus e bateu na porta, sem saber por quê.

Quem atendeu foi uma menina de uns quinze anos que era...

- Márcia! - murmurou, assombrado.

- Vou chamar minha mãe - respondeu a garota. - Manhêê!

E então Márcia adentrou a sala. Vestido simples, chinelos, cabelo preso... Continuava linda. Mesmo com ruguinhas em volta dos olhos.

- Hugo! Você!

Abraçou-o. O cabelo dela tinha cheiro de flor.

Conversaram a tarde inteira. Ela comprara a casa quando engravidara. Jamais imaginaria que Hugo pudesse ter morado lá - afinal, se conheceram na adolescência, quando ele já estava na Glória. Era mãe solteira por opção: não acreditava no casamento. Tinha uma loja de produtos naturais em Santa Teresa que ia bem.

- Ai, Hugo, aprendi a fazer um hambúrguer de soja que você vai adorar! - ria.

Hugo contou-lhe tudo: do casamento sem paixão, do emprego chato, daquela manhã redentora, em que havia flutuado. Ela ouvia, os grandes olhos atentos. Relembraram as tardes que passavam ouvindo vinis de Chet Baker. Cantaram juntos "My funny valentine".

Ela:

- Ih, perdi a hora! Tenho que passar na loja, em Santa. Te deixo em casa.

Foram em silêncio, tímidos agora, intensamente felizes ainda. Ela o deixou na porta do prédio, na Glória.

- Espero outra visita! - sorriu. Linda.

Hugo não conseguiu subir para o apartamento. A coragem que nascera naquela manhã subitamente morrera. Como encarar a fúria da mulher por sua demissão? Como encarar o fato de que se reapaixonara por Márcia?

Uma hora depois, continuava encostado no portão do prédio, observando o entra-e-sai de pessoas, o trabalho dos porteiros... Era um fraco. Dizia para si mesmo: sou um fraco. Subiria e abraçaria a mulher, pedindo perdão pelos aborrecimentos do dia. Telefonaria para o trabalho se desculpando, inventando uma crise de stress. Aliás, pensando bem, estava mesmo estressado, era isso. No outro dia tudo tudo voltaria ao normal. Ajeitou a gravata e tocou o interfone.

Um carro encostou no meio-fio.

- Hugo!

Era a voz de Márcia! Mas não podia ser...

Ela colocou a cabeça para fora da janela. Disse apenas duas palavras:

- Vem comigo.

Ele foi.

Quinta-feira, Dezembro 02, 2004

Basta! - Parte IV

Ficou ainda parado por um longo tempo. Pensou em todas as escolhas feitas até essa manhã.
Sempre foi assim, desde de muito pequeno sempre fez as coisas para agradar, lembra das pouquíssimas vezes que fez o que queria. Sempre desejou um carrinho de bombeiros, mas a mãe sempre dava para ele um de policia, mas o mais incrível era que ela sempre falava com o tom de confirmação – Esse que você quer, meu filho? Ele simplesmente confirmava e assim foi levando a vida. Usando as roupas que não queria. Pensou o quanto odeia suflê de chuchu e quantas vezes comeu.
À medida que ele foi crescendo isso foi ficando cada vez mais grave, no fundo queria ser jornalista, mas todos disserem que ele queria ser contador, acabou se convencendo disso.
Acreditou que a vontade dos outros era a sua vontade. Talvez o maior dos seus enganos tenha sido quando se apaixonou pela Marcinha, linda. Todas as vezes que fecha os olhos, lembra dela. Seus lábios, a maçã do rosto, seus cabelos, sua pele, o cheiro do seu suor, o balançar do seu corpo quando andava. Mas se convenceu que gostava mais da Maria José e com ela se casou.
E assim foi levando a vida. Pensou que talvez azul marinho não fosse a sua cor predileta, talvez Raul Seixas não seja o seu cantor favorito, qual a musica que mais gostava, qual o filme mais gostou.
Aos poucos foi desistindo de querer o seu próprio querer e acabou se acostumando a querer o que os outros queriam. Até a aquela manhã.
Até ali todo o seu mundo era preto e branco, depois de tudo que aconteceu começou aos poucos a colorir as paginas do livro da sua vida.
Agora diante da sua casa de infância, lembrou do momento exato que resolveu dar um outro rumo a sua vida.
Tudo ficou muito claro para ele, quando atendeu ao telefone.

Michelle

Quarta-feira, Dezembro 01, 2004

Basta! - Parte III

As asas despontaram como flores das costas curvadas pelo ócio. Eram feitas de plumas. Plumas de anjo. Daqueles anjos caídos. Meio humanos, meio homens e fascinantes. Asas do Desejo. A brisa leve, como a do alvorecer, amenizava aos poucos as rugas herdadas pelo tempo, miserável tempo. E cada vez mais as casas ficavam pequenas, as asas ficavam maiores, o peso diminuía. O peso do mundo. O peso do medo, da mágoa, do bom dia não-respondido inúmeras vezes pelo cobrador rabugento do ônibus de todos os dias, do beijo não-dado pela mulher amada de toda a vida, do tapa dos dias de todo dia no semblante rude.

Como se fosse pluma. Leve como a roupa de anjo que vestiu ao sair do edifício infecto do trabalho imundo. Rua das Palmeiras, 309, a rua da infância, adorável lembrança. E assim foi voando, o mundo pequeno aos seus pés e alma em suas mãos. Respirando nuvens de chuva, raios de sol. Dividindo o céu, seu céu, com todos aqueles pássaros, com os gaviões que não mordem, com as pombas que não fedem, com as águias que não ferem. No céu, não há tempo para a impertinência. Se param de bater as asas tombam no chão sem vida, num átimo de segundo. Viver, ou melhor, voar, é mais importante no céu. O sentido da brisa mansa, o cheiro do vente leve, os pingos da chuva da manhã. Enquanto se voa, se experimenta que há no mundo coisas que às vezes a gente não percebe, coisas para as quais a gente fecha os olhos, coisas que a gente não sente o gosto.

E de volta os pés na superfície. Ali parado. Na porta do edifício infecto do trabalho imundo. Ali, com um sorriso nos lábios. Aliviado por ter soltado o botão de pressão que apertava seu peito. Algumas palavras. Alguns gestos. E tão intensa tranqüilidade! Será assim com os inconseqüentes? Que dizem e falam sem pensar? Ele não era assim. Nunca fora assim. Mas hoje tinha sido. E tinha sido também um pouco mais feliz, ou talvez, um pouco menos triste.

Ali parado. Com as asas de anjo sob os ombros, feitas de pluma de anjo caído, na frente do edifício imundo do trabalho infecto, com gosto de brisa leve na boca, com a pressão do peito desabotoada.

Imóvel. Com um punhado de nuvem nas mãos e uma fresta de asa nas costas.