Segunda-feira, Janeiro 31, 2005

Eterno menino

Vem
Eterno menino
Que a doçura dos meus beijos precisa do mel dos seus olhos

Vem
Arlequim dos meus sonhos
Que o sal do meu ventre precisa do toque da sua calma

Deixa eu amar você
Sem espaço pra razão
Sem limite pra paixão

Agora que eu descobri
O que é viver enluarada
Toma conta das minhas fases
E se refaz do cansaço que a vida te ensinou

Vem,
Meu homem de delicadeza
Nomeia meus caminhos
Revela meus segredos

Ainda há tempo sem pressa
Relógios sem hora
Ainda há sol de amanhecer
Na luz do nosso amor

Vem,
Além dos olhos do mundo
E me presenteia com o calor do seu verso
Que eu deitei na sua alma
E desejo repousar.

Sábado, Janeiro 29, 2005

Conto de Natal

Aquela mulher sim sentia dor, intrínseca. Uma dessas dores que seca as tripas, resseca o ventre e não explica o porquê. Doía na profundeza de suas entranhas e um grito mudo rasgava sua garganta e engasgava em soluço seco, sôfrego, delirante.

Mas não havia explicação e ela era apenas mais uma mulher em um quarto úmido a sentir dor. Uma entre milhares espalhadas pela cidade, ou talvez pelo bairro. Quem sabe no mesmo prédio não havia mais uma, semelhante?

Era natal e era uma mulher e era sozinha e o quarto vazio era úmido e escuro, apesar da grande janela com vista pro mar em plena Zona Sul do Rio de Janeiro. Tantos gostariam tanto de uma janela assim para ver o mar! Tantos se satisfariam com tão pouco. Pouco?

Aquela mulher já não via o mar, os vidros da janela eram foscos. A luz do sol incomodava tanto pela manhã! Maresia com cheiro de mofo. E os vizinhos de elevador, cachorro em punho, bicicleta a postos... eram tão felizes... Horas ao cair da tarde tomando água de coco nos quiosques da orla e ela nunca foi sequer convidada. Gente metida. De certa forma era bom manter distância, sem fofocas, preservar sua privacidade. Assim ninguém nem chegava perto. Por falta de coragem?

E era natal. Quando menina chegou a ganhar alguns presentes, mas começou a trabalhar e trabalhar era importante. Sua família era pequena, até que acabaram morrendo, era o natural. E ela não comprava presentes, não tinha mesmo para quem dá-los. Nada ganhava, tampouco. Também, de quem ganharia? Mais um natal, e nem o carteiro passava pedindo a caixinha de natal.

Aliás, não fosse o porteiro e a faxineira aparecerem vez ou outra, capaz de pensarem que o apartamento estava vazio. Todo fim-de-semana era a mesma coisa, viva o desespero dos que dependem da tv. E agora, um mês inteiro: férias enlouquecedoras. Antes passar o dia inteiro fazendo contas em uma sala gelada. Ganhava bem, era competentíssima. Mas não tinha trabalho no fim-de-ano. Então... férias.

Havia já uma semana, a dor era insuportável. E nenhum médico explicava direito e ela não explicava também direito a nenhum. Onde doía? Ela não saberia responder. Os médicos então vinham com uma história de análise, essas besteiras, e ela nunca tentou. Um médico um dia descobriria a verdade. Afinal, obviamente, ela devia ter era câncer... Sim... Câncer? Lógico, só podia ser câncer! Aquela tia velha tinha mesmo morrido de câncer. Mas, então, não havia mais jeito... Ela ia morrer logo, tinha câncer.

Tomou então uma atitude. Era natal e a janela enorme estava lá, e ela abriu os vidros foscos e dava para ver o mar. Não teve dúvidas, escreveu um bilhete no espelho com um batom velho vermelho-cor-de-escritório que ela nunca ousou usar no trabalho: "Vôo de vista para o mar tentando me libertar deste câncer que acaba comigo". Achou brega, mas daria muito trabalho limpar e reescrever. Foi novamente até a janela e pulou, sem pestanejar. Talvez tenha experimentado um leve sorriso nos lábios, apenas. Pulou do décimo andar e era natal e ela sentia dor e era sozinha e "morreu na contramão atrapalhando o tráfego" tocava ao longe numa vitrola atemporal.

No seu apartamento, agora iluminado, nada: apenas o vazio, maior que antes. No banheiro, um bilhete no espelho falando de um câncer... Que câncer? Autópsia: ausência de tumores, malignos ou benignos. Notícias nos jornais: nenhuma. Apenas mais uma mulher sozinha pulou de um apartamento vazio na Zona Sul do Rio e era natal e os vizinhos pararam para olhar...

Beatriz Fontes
(28/12/1998)

Adendos:

Mas e se essa mulher não se matasse assim?

E se ela abrisse a janela, olhasse o sol, visse o mar e resolvesse apenas dar um mergulho? Aí, vai que ela fecha a porta, de maiô, e atravessa a rua e é atropelada. Não, é natal e se não há suicídio, atropelamento é desperdício... Pouparia o trabalho dela. Então, ela atravessa e pisa a areia e entra no mar e... a dor sumiu! Tomou Doril? Argh.

Então, talvez, esquece isso e volta pra janela aberta e ela pula e cai no toldo e não morre, só fica toda quebrada e vai pro hospital e é internada em uma clínica... Louca, completamente. Falando num câncer imaginário, sentindo a dor cada vez mais forte... Mas aí era a dor da pancada, do tombo... Suicida incompetente. Aí ela se enforca com seus lençóis...

Ou de repente, vira uma artista plástica bem sucedida, reconhecida em todo o mundo... Ou talvez, ao tentar morrer enforcada, quebra a perna... ou... morre de câncer... ou... melhor deixar pra lá.

Maria Beatriz de Andrade
(28/12/98 – minutos depois)

Sexta-feira, Janeiro 28, 2005

É preciso ter esperança

É preciso ter esperança quando:
O Papai Noel não aparece, ele vem no ano que vem;
Você não recebe o presente que tanto queria, o que você recebeu vai ser muito útil;
Você não recebe a carta que você esperava, o carteiro volta amanhã;
Você muda de escola, vão surgir novos amigos;
Você chora pela primeira vez; sorrisos irão surgir;
Você recebe uma bronca, só as pessoas que nos amam tem coragem de criticar;
Aquele menino não te tirou para dançar, ele não te viu;
O rapaz não retorna a sua ligação, não deram o recado;
O seu primeiro beijo não foi tão bom como o suas amigas descreveram, ainda aconteceram outros;
O seu primeiro amor vai embora, outros virão;
O amor da sua vida não chega, outros existirão,
O garoto no sinal te pede esmola, as coisas vão melhorar;
O seu olhar cruza com o de alguém te roubando, ele não teve outra forma de sobreviver;
Não ouviu um adeus, não ouve tempo para despedidas;
Você sente medo das escolhas, você fez o melhor que pode;
É preciso escolher entre coisas que você gosta, sempre tem o depois;
Você é traído, a pessoa também está enganada;
Você é decepcionado, sempre há uma explicação;
Você fica com raiva de alguém, dê a oportunidade de vocês conversarem;
Tudo parece desmoronar, durma, no dia seguinte tudo parece melhor ;
Alguém te machuca, não foi a intenção;
Você sente saudades, ele vai voltar;
Você se sente sozinho, alguém vai surgir;
A esperança tiver para acabar, renove-a.Porque a esperança não pode ser a ultima a morrer, é preciso que ela não morra.

Michele

Quarta-feira, Janeiro 26, 2005

A Miséria

A Miséria vive em barracos de madeira erguidos ao lado de um enorme cano de ferro, parte de uma adutora. A Miséria mora colada a um valão fétido. A Miséria pisa em chão de terra. A Miséria não tem água nem luz em casa. A Miséria nunca teve rede de esgoto. A Miséria já pariu muitos filhos e emenda uma gravidez atrás da outra. A Miséria deixa as suas crianças se divertirem na água suja e permite que elas façam do lixo seus brinquedos. A Miséria não veste os pequenos, que andam pelados pela lama. A Miséria não trata os vermes que fazem crescer as barrigas da sua prole. A Miséria tem dentes faltando e rosto enrugado. A Miséria é gorda mas subnutrida. A Miséria tem a pele marcada. A Miséria tem as unhas sujas. A Miséria está sempre com trajes mínimos. A Miséria cheira forte a suor. A Miséria coabita com baratas, ratos, moscas e mosquitos. A Miséria cria urubus no quintal. A Miséria não trabalha nem estuda. A Miséria passa o dia vendo a vida passar. A Miséria sempre guarda um trocado para a cachaça. A Miséria é vizinha da Violência. A Miséria entrega para a Violência tomar conta os filhos que não pode criar. A Violência recebe de boa vontade os filhos da Miséria. A Violência dá presentes aos filhos da Miséria. A Violência adota os filhos da Miséria. A Miséria, porém, sabe que seus filhos sempre voltam quando chega o fim. A Miséria chora por eles e espera resignada pelos outros que outros virão. A Miséria raramente briga com a Violência. A Miséria e a Violência ontem estavam juntas nos barracos sobre a lama de Manguinhos.

Terça-feira, Janeiro 25, 2005

Morte

De repente, ficou obcecado pela idéia da própria morte. Todos os dias de manhã, antes de pegar o metrô para o trabalho, olhava os trilhos com desejo. Ao passear com a família pelo Aterro (moravam na Marquês de Abrantes), fantasiava que iria largá-los e correr para as pistas, a fim de que o primeiro carro ou ônibus o carregasse. Um dia viu um filme em que viciados assaltavam uma drogaria. Imaginou quantos vidros de tranqüilizantes eram capazes de fazê-lo empacotar: dez, quinze, vinte? A esposa se enternecia ao vê-lo contemplar a paisagem da varanda do apartamento. "Será que aqui do sexto andar eu conseguiria me matar ou só se eu morasse depois do décimo?" era no que o homem pensava.

O problema era que faltava coragem. Ou talvez faltasse medo - suicídio é ato de força ou fraqueza? Imaginou que poderia acabar tetraplégico ou retardado, e imagina só a cara da mulher, tendo que dar banho nele todo santo dia.

- Que é que você tá pensando, Arthur? - ela quis saber, enquanto faziam supermercado. - Tá esquisito...

- Tô é chocado com o preço desse inseticida - disfarçou. - Oito reais e cinqüenta e quatro centavos!

Um dia, assistiam ao "Fantástico" sozinhos, enquanto os gêmeos jogavam videogame no quarto. O programa noticiou que uma adolescente havia se matado com a arma do pai, no Leblon. O médico do pronto-socorro sentenciou para a câmera:

- É impossível escapar de uma bala na têmpora. Não é à toa que Getúlio Vargas escolheu esta forma para sair da vida e entrar na História!

Era tudo o que precisava ouvir. Então um tiro na cabeça, logo acima da orelha, é batata? Cem por cento? Satisfação garantida? Pois seria assim. E ó, tinha antecessores ilustres. Subiu o Dona Marta e comprou com facilidade uma Taurus, que veio com silenciador e balas de brinde.

Pensou nas providências a serem tomadas antes do fatídico dia. Dinheiro para o enterro? Havia na conta. O escritório? O estagiário já sabia tanto quanto ele. O vice-síndico era de sua inteira confiança e tinha a senha da conta-corrente do prédio. Não tinha ninguém a perdoar ou pedir perdão. Ficou impressionado ao ver que não era necessária nenhuma providência antes de morrer.

Ah, uma carta - deixar ou não uma carta? Dizem que quem fica se sente culpado. Melhor deixar claro que não era nada pessoal.

Inventou para a mulher que trabalharia até tarde naquele dia. Depois que os colegas foram embora, afrouxou a gravata e pegou a sacola de supermercado que colocara no frigobar do escritório, retirando a garrafa de Black Label. Enquanto bebericava o uísque, criou no computador um arquivo com o nome "suicídio.doc". Começou a escrever: "Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2005".

Quem deveria aparecer primeiro dentre os destinatários da carta? Os pais eram criaturas excepcionais. Vieram do Nordeste sem nada, e foi com sacrifício que pagaram colégio particular para Arthur. O único filho honrou o dinheiro gasto, passando em quinto lugar para Ciências Contábeis na UFRJ. Por outro lado, a mulher também era ótima: carinhosa, inteligente e trabalhadora, dava aula em três colégios. Mas talvez devesse digitar primeiro o nome dos filhos, pois, embora saudáveis e espertos, eram a parte mais frágil naquela história toda.

Pensar nos destinatários trouxe lembranças felizes: o feriado em São Lourenço em que os gêmeos andaram pela primeira vez a cavalo, a mulher entrando de branco na igreja, olhando para baixo com medo de tropeçar, o pai ensinando-o a jogar xadrez. Os garotos no último aniversário, rindo banguelas para as câmeras, os pais cozinhando juntos no último domingo, a mulher mordendo seu pescoço na noite anterior.

Saiu do escritório com a maleta numa mão e a garrafa de uísque na outra. "Mas como é que eu pude pensar nisso?!" murmurava, incrédulo, entre lágrimas e risadas. A vontade de abraçar a mulher, os filhos e os pais era tão concreta quanto aquela rua.

Não viu o caminhão. As testemunhas deram razão ao motorista, dizendo que o homem que atravessou a rua parecia bêbado. No outro dia, o chefe viu o arquivo que estava aberto na tela do computador, relatando o fato, pesaroso, à família de Arthur.

E então todos tiveram certeza de que ele queria mesmo ir embora.

Segunda-feira, Janeiro 24, 2005

Caligrafia

Ele autografa em todos os cantos do corpo dela o seu nome de homem famoso e reconhecido. Ele autografa na alma dela a cadência do seu samba e a poesia de suas letras. Ele inebria os lábios dela com seu beijo doce e manso. O jeito malandro de falar, o traquejo, o jeito avoado. A seduzem.

Ele a cobre de elogios e a chama de rainha. Ele a incentiva. Diz que quer que ela cante as músicas dele. Ele a envolve, a preseteia, a quer por perto, a acompanha, a faz rir. Ele já dá vexame de ciúmes, já fica bravo e preocupado. Porque ela não vai amá-lo como ele vai amá-la. Ele faz planos. Conta com ela e pra ela.

Ele anda assim. Apaixonado.

E ela só de olho. De canto de olho. Resabiada.

Mas ela quer. Ela arrisca. Ela samba ao som da voz cálida desse homem doce, dos olhos de mel e da alma de menino.

E ele autografa o coração dela. Com caneta de saudades e letra de lembrança.

Sábado, Janeiro 22, 2005

Mamãe, papai...eu sou...


"Como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena, ainda que o pãoseja caro e a liberdade pequena"
(F. Gullar)

É chegou o grande dia! Após muita terapia, muito pensar e debater, pesar os prós e os contras, você irá enfim dizer para a tua família: "mamãe, papai...eu sou..." Você está namorando sério, apaixonada, tem certeza que ela é a mulher da tua vida e começou a se questionar: "por que não assumir? Sair do armário pelo menos aqui em casa?" Ora, você não tem problemas em aceitar o que escolheu e todos já têm quase certeza mesmo! A mamãe pergunta pelo namorado que nunca apareceu, o papai repara tua tristeza depois da briga com aquela "amiguinha", embora pai sempre desconfie por último. Está decidido e é agora ou nunca, já até bolou como será. Papai e mamãe jantando. Não jantando não...o assunto pode lhes causar indigestão. É melhor falar depois da novela, chegar e ir dizendo na bucha: "papai, mamãe...eu sou...", sou o que? Qual a melhor palavra? Não, sapatão definitivamente não! É tão grosseiro e além do mais você só calça 37 e não usa pochete. "Eu sou lésbica", é um pouco melhor, você já se vê na ilha deLesbos, rodeada de mulheres guerreiras em seus cavalos brancos. Humm, mas lésbica soa tão mal, parece uma patologia, algo como "eu sou diabética",viu até termina igual! "Eu sou homossexual" é outra opção, mas e se teu pai perguntar: "peraí, teu irmão também não é isto? Será genético?"Claro!! Você já sabe como irá falar...Papai e mamãe estão no sofá, você os olha, sente aquele frio na barriga e pensa em desistir. Mas quem disse que você é mulher de correr da raia?Não, já não dá mais pra segurar e se eles te amam, blá, blá, blá, blá,blá, desfia novamente todos os teus argumentos. O medo, no entanto, diz lá do outro lado: "mas será que tem mesmo que contar?
" T - E - M! tem porque tem, tem porque já não dá mais, é uma necessidade pessoal, nem todos querem falar, nem todos tem a coragem necessária para falar e arrumam mil desculpas para não dizer. Então, decidida você vai e diz: "papai, mamãe...eu namoro uma mulher, eu amo uma mulher!!"Viu! Não foi fácil?? Fácil não foi, mas você fez assim mesmo e agora sente até um tiquinho de orgulho pela própria coragem. Não se trata de ser panfletária ou sair na parada gay, não é sair dizendo para todo mundo que prefere mulheres, nem carregar uma carteirinha do sindicato lés . É algo mais profundo que isto, uma busca de respeito pela liberdade de ser o que é.
Agora é só dar água com açúcar para a mamãe e esperar um mês para o papai voltar a falar contigo.

Sexta-feira, Janeiro 21, 2005

Ter esperança

Se eu fosse um poeta, agora escrevia o mais belo poema com todas as lágrimas que escorrem no meu rosto.
Se eu fosse um compositor faria a mais bela musica, que tocaria em todas as rádios o som da minha dor.
Se eu fosse um escritor faria o mais belo texto com as mais dolorosas declarações de dor.
Se eu fosse um artista plástico então faria a mais bela exposição da tristeza.Mas sou apenas eu. Eu o que me faz companhia: a dor de uma ausência, o choro de uma saudade, a lagrima de um amor que não está aqui.
Um amor que se foi, sem ao menos se despedir, sem dar tempo de me acostumar com a sua falta.
Um amor que é o meu amor de verdade, um amor de menina, moça e de mulher.
Um amor companheiro, amigo, amante. Um amor das palavras certas, do carinho na hora correta, do aconchego necessário.
Um amor de silêncios e vozes. De risos e lágrimas. De alegrias e tristezas. Um amor de guerra e paz. De chegadas e partidas. De idas e vindas. De muito e pouco. De tudo e de nada.
Um amor que é só meu e por isso se foi, como tantas outras vezes. Porque no amor é preciso ser dois, é preciso se amar junto, para formar um.
Então choro, um choro já derramado, mas que agora as lágrimas dificultam avistar outros amores, outros desejos, outras esperanças.
É necessário ter esperança porque ela limpa os olhos e nos faz entender que tudo vai passar.

Michele

Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

De frente

Deram-se dois beijinhos cordialmente. Ela não deixou de notar como ele estava magro, ele continuava achando ela linda de cabelos curtos. Nada disseram. Sentaram-se na roda. Amenidades em discussão. Ela em frente a ele. Sim, eles podiam participar da mesma reunião, ainda tinham os mesmos amigos e, afinal, terminaram tudo sem brigas. Ela nem tinha nada contra a nova namorada dele, a moça era até simpática.
Mas quem eram eles naquele momento? Ela não era mais um diminutivo, ele não era mais um apelido. Ela não havia perdido o gosto pela argumentação, ele não tinha abandonado o costume de levantar a voz para defender suas idéias. Eram os mesmos, no entanto não se reconheciam. Que mãos, que olhos, que lábios eram aqueles?
Sabiam-se tanto e naquela sala se sentiam tão estranhos. Tinham tanta intimidade e naquela noite não conseguiam ficar à vontade. O que era tão natural parecia quase forçado. Os olhares fugiam de se cruzar, as vozes calavam-se para não se misturar. Será que ele ainda bebe cachaça pura? Será que ela ainda cata as folhinhas verdes de tempero no prato? E esse All Star, ele nunca gostou de tênis. E esse esmalte vermelho, ela sempre achou muito chamativo.
Vergonha de perguntar sobre as notícias que tinham pelos amigos. Ele não indagou se ela havia melhorado da alergia. Ela não o interrogou sobre o projeto do mestrado. Ele hesitou em servi-la da carne que cortava, ela recuou quando ia oferecer a ele mais cerveja. Comeram como se jamais houvessem partilhado o mesmo prato, a mesma cama, os mesmo planos. Conversaram como se jamais tivessem passado a madrugada em claro escolhendo os nomes dos futuros filhos. Evitaram chegar muito perto como se jamais tivessem esquadrinhado o corpo um do outro.
Despediram-se, outra vez com dois beijinhos. Ele mandou um beijo para a mãe dela. Ela lembrou que precisava devolver um livro para a irmã dele. Foram. Sem dor, sem amor, sem mágoa, sem desejo. Levaram só saudade.

Terça-feira, Janeiro 18, 2005

Macau, Tóquio

"Tão limitado, estar aqui e agora
dentro de si, sem poder ir embora.
Dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo império
sem território, Macau"


Terminei de ler "Macau", de Paulo Henriques Britto, no mesmo dia em que revi "Encontros e Desencontros" ("Lost in Translation"), dirigido por Sofia Coppola. As duas obras teriam em comum apenas o ano de lançamento no Brasil, 2004, e o Oriente: o livro tem o nome da colônia portuguesa na China e no filme o cenário dos - ah, tradução... - encontros e desencontros vividos pelos protagonistas é o Japão contemporâneo.

Ela é Charlotte, interpretada pela novata Scarlett Johansson. Tem vinte e poucos anos e está acompanhando o marido, um fotógrafo ocupadíssimo, em Tóquio Japão para fazer fotos de uma banda de rock. Recém-formada em Filosofia, não sabe muito bem o que fazer da vida. É linda, de uma beleza anti-passarela (li que na época do lançamento a discreta barriguinha fez a imprensa americana especular se ela estaria grávida. Selvagens...)

Ele é Bob Harris, ator cinqüentão e decadente que está na cidade para filmar um comercial de uísque. É vivido por Bill Murray em seu melhor papel até agora: cínico e melancólico na medida certa. A própria diretora declarou que escreveu o roteiro pensando em Bill. O personagem é casado há vinte e cinco anos e tem dois filhos, mas ficamos sabendo pelos poucos faxes e telefonemas que troca com a mulher que andam bem distantes – sem trocadilho.

Os personagens nos são apresentados de forma lenta, elegante, sutil. Aliás, eles demoram a se conhecer; o espectador já sabe um pouquinho sobre cada um antes do primeiro encontro. O Japão é mostrado em todos os seus contrastes: imensos anúncios em neon, delicados arranjos de ikebana, apartamentos com paredes transparentes, dos quais se vê a cidade, cerimônias de casamentos tradicionais. Mas os signos da globalização também foram filmados: a boate das strippers, o apresentador de TV imbecil e o punk que canta "God save the Queen", dos Sex Pistols, existem no Rio, em Estocolmo e em Casablanca.

"Também já estive aí, no não-lugar
onde você agora não se encontra.
Também não me encontrei."


Bob e Charlotte estão perdidos. Em suas vidas pessoais e profissionais, na cidade, na língua. Mas, assim como a China nos é familiar em Macau, os personagens deste filme se tornarão, um para o outro, lares, através do milagre da cumplicidade. Que é construída de forma delicada, através de olhares, sorrisos tímidos, diálogos enxutos, toques discretos.

A seqüência do karaokê é uma das mais lindas do cinema. Charlotte, de peruca rosa – e ela só fará o que se segue porque está com a peruca rosa, assim como os super-heróis precisam de uniforme para salvar o mundo – canta "Brass in Pocket", dos Pretenders, para Bob. Sua performance é sexy e graciosa: "I´m special... So special!"... E então é a vez do ator. "Essa é difícil", ele comenta, antes de soltar a voz. À primeira vista pensamos que a dificuldade está no tom agudo da música escolhida. Mas talvez o problema esteja no fato de que a letra de "More than this", do Roxy Music, antecipa o final de sua história com a moça (é, se você não assistiu ao filme é melhor parar de ler): "More than this / You know there is nothing..."

No final do filme, ele diz algo a ela no ouvido que não sabemos o que é; ouvimos apenas um "...OK?" e a concordância dela: "OK!". Os românticos de plantão têm o direito de imaginar que ele sussurrou seu número de telefone, mas acredito que, parafraseando a música escolhida, Bob preferiu confirmar para a moça que não seria possível nada "mais que aquilo". Nada mais que a memória daqueles momentos mágicos - a magia do que está fadado a não permanecer.

"Que precisão tem o amor de linhas retas
se paralelas afinal são nada mais
que a garantia do infinito desencontro?"


(Todos os trechos em itálico são de "Macau").

Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

2005

Caros leitores,

Começa então nosso ano-novo aqui no Dedos das Moças. Esperamos contar com a visita de todos e que nossos textos contribuam para dias mais felizes, bons momentos e boa leitura na vida de cada um de vocês!

Bem-vindos ao nosso 2005!

O que nunca te direi

E assim construo a colcha de retalhos da minha dor. Te procurando em cada rosto, em cada beijo. Te encontrando em cada lágrima e em cada grito.

Quisera me submeter a rituais de esquecimento, te apagando dos meus dias, te afastando da minha vida. Quisera não sofrer pelo amor que te sinto. Quisera uma imensidão de atitudes, que meus ossos não alcançam e que meu ser não reconhece. Quisera ignorar o sofrimento, como tenho feito, mas hoje-agora, ele é muito maior do que eu.

Te guardei em segredo durante tanto tempo. Tentando quem sabe, me convencer de que tudo entre nós não passava mesmo de uma ilusão longínqua de amor verdadeiro. De nada adiantou amar em estradas de mão única. De nada adiantou desejar que você trilhe comigo passos que não estão marcados pelo seu caminho, por não pertencerem ao rol do nobre sentimento que te tenho.

Esperei durante dias e noites a fio, que você me procurasse, que você me dissesse que eu realmente sou quem você procura. Mas não atendi a nenhum telefonema, não recebi nenhuma carta, não presenciei nenhuma surpresa. Louca ilusão essa minha de querer acreditar que o amor pode tudo, que pode ultrapassar o que a gente não vê. Louca e triste ilusão!

Agora é como se meu peito se rasgasse aturdido pela ausência do seu sorriso, de suas palavras, de suas promessas não cumpridas. E se não fosse física a dor, talvez fosse mais suave. Mas é aqui, dentro de mim, em cada canto dos meus músculos que mora todo o amor que sonhei em te dar um dia. É em cada poro da minha pele que está escrito o seu nome, insistentemente na minha vida.

E não consigo te esquecer. Ainda não sei se quero. Talvez não. Mas é como ter uma obrigação. Pra mim você virou tarefa a ser cumprida. Lição pra aprender de cor e salteado. Pra mim você é folha caída num jardim de esperança. Pra mim você é página rasgada pelas mãos velhas de um sábio esquecido.

E você insiste em visitar meus pensamentos. Em invadir outros rostos e outros olhos. Você insiste em se parecer a metade das pessoas que conheço, você insiste em pensar em mim e não se desligar da minha alma. E eu sofro. Porque te quero. Sempre comigo.

Inútil mania egoísta essa dos apaixonados de acreditar que o meu amor por você é talvez um dos únicos que já sentiram por ti e o mais bonito. E você nem sequer conhece minhas frestas, minhas janelas, meus jardins. Não sentiu o perfume do meu corpo. Não visitou meus caminhos.

E nem visitará, nem desejará, nem sentirá. Porque além de você não querer, hoje o que havia entre a gente se quebrou. É caco de vidro que corta profundo. Que deixa marca e cicatriz aparente.

E porque hoje você partiu meu coração em mil pedaços e a dor que eu sinto é indizível e agora prefiro mesmo te apagar da minha história.

Sábado, Janeiro 15, 2005

A Miopia de Íris

A cidade onde Íris morava era diferente de todas as cidades do mundo. Os habitantes já nasciam com graves problemas de visão. Íris era privilegiada: apenas oito graus de miopia a separavam das esquinas, dos postes e dos meio-fios espalhados pelas ruas de argila e guache de Miopiópolis. Por essa razão, a menina cresceu ajudando os mais velhos a realizar pequenas tarefas cotidianas que exigissem o uso de um olho mais apurado. Ela, por exemplo, era a única cidadã apta a badalar o sino da igreja, já que enxergava como poucos as horas no relógio de pulso. E assim toda a população se orientava dia após dia. Acontece que a menina, talvez pelo dote extraordinário de ver melhor que seus pares, sentia-se compelida a buscar novos horizontes. Numa bela manhã, reuniu seus pertences na mochila e entrou no primeiro trem que encontrou pela frente, sem saber ao certo aonde chegaria. Desembarcou numa grande metrópole, repleta de arranha-céus, veículos cruzando avenidas em alta velocidade, pessoas se locomovendo de um lado para o outro e cores, muitas cores. A primeira vontade de Íris foi procurar um orelhão para contar aos pais as novidades. Sentiu um tremendo remorso por ter partido em segredo, mas quem disse que encontrava um telefone público entre tantas motocicletas estacionadas na calçada, tantos vendedores ambulantes e canteiros diante de construções vistosas? Íris bem que tentou puxar conversa com um engravatado, mas ele estava mais preocupado em calcular o salário daquele mês que em ajudar a pobre moça. Depois entrou numa banca de jornal e o atendente também foi grosseiro. Reclamou que o trabalho dele era vender revistas e jornais, não prestar informações bobas como aquela. Foi quando Íris pensou em como seus olhos turvos eram importantes à população de Miopiópolis e no quanto amava aquela gente. E arrependeu-se profundamente por ter abandonado a sua cidade. Lembrou do quanto se divertia tocando o sino e pregando botões, catando arroz e lendo em voz alta para as famílias os livros que eram impressos em letras miúdas. Íris quis voltar, mas descobriu que ninguém ali fazia idéia de onde ficava Miopiópolis.

Faz alguns dias que a moça espera, na mesma estação, ser capaz de avistar o caminho de casa.

Monica Ramalho

Sexta-feira, Janeiro 14, 2005

Best-seller

Ela escreve com os dedos, com o coração e com a alma, resultado disso: Textos Maravilhosos. Ficou para eu escolher um texto da querida Lu. Que tarefa difícil! Entre os mais belos, escolhi um que para mim significa muito.



- Tem que ir pra escola, sim senhora, estudar para ser alguém na vida.Que palavras sem sentido para se ouvir aos nove anos de idade. Não foi ainda conhecido nenhum exemplar da espécie humana enquanto criança de nove anos de idade que entendesse o que os mais velhos, a quem devem um respeito cego, queriam afinal dizer com essas máximas. Nada de questionar, nada de ver televisão, nada de tomar iogurte antes de jantar, nada de ter vontade própria, nada disso: já pro banho. E por que não pode chegar no colégio nem um minutinho depois que o portão fecha? Por que não pode ficar acordado até tarde se tem dias que o sono não vem?Um dia você entende. E um dia tudo fez sentido pra menina que não gostava de ter que usar o uniforme escolar usado do irmão mais velho – era a filha do meio, e as roupas passavam dele pra ela e dela pra irmã. Um dia ela cresceu e saiu do subúrbio levando na alma o que a alma desses lugares de gente boa, sincera e alegria no coração tem de melhor pra oferecer.Na casa de pobre, o dinheiro curto não dava pra comprar os livros da escola. Eram sempre herdados de alguém, tal como o uniforme. Já vinham com manha, ela só se deu conta mais tarde. Um dia, não tinha o livro de OSPB. Não deu pra arranjar. Aí foi que veio a herança mais preciosa, a lição maior da escola das escolas. Seu livro era o amor de cada folha de um caderno copiada de um original sem vida como os livros nunca mais puderam ser. A letrinha desenhada da mãe, palavra por palavra, desenho por desenho, pintadinho nas cores certas, com os números das páginas no rodapé e o preciosismo que só conhecem aqueles que viram de perto o amor de verdade. Um dia, ela compreendeu o que é o infinito, e entendeu tudo o mais.


Luise


Quinta-feira, Janeiro 13, 2005

A poesia no meio da rua

Oh, dúvida cruel! Fiquei entre dois. Até imprimi e aproveitei a companhia da mamãe e do irmão pra me ajudarem. Os dois escolheram o outro (A gente morre e a gente nasce, o de estréia, que no ensejo sugiro a leitura), mas acabei me decidindo por esse. Com vocês, nossa Pati.

A poesia estava no meio da rua. Num pedaço de papel, escrito em letra de computador, jogado no chão. A poesia não tinha nome.Era a criação mais trabalhada de um poeta escondido dentro de um homem qualquer. Uma manhã, ele se armou de coragem e procurou uma editora. Ouviu do diretor que não tinha talento, que deveria deixar de escrever. Então ele jogou na rua as rimas e as suas ambições artísticas.Era a declaração mais ensaiada de um romântico preso dentro de um rapaz tímido. Uma tarde, ele se imbuiu de ímpetos e foi atrás da moça que amava à distância. Soube dela que não era ele o homem que ela queria, que ele faria melhor gostando de outra. Então ele atirou no asfalto as letras digitadas com aflição e o seu sonho de amor.Era a tentativa mais adiada de reconciliação de uma namorada perdida como moça solteira. Uma noite, ela se embriagou de vinho e seguiu o homem que ainda queria como namorado. Viu que ele já formava outro casal, que outra o acompanhava. Então ela largou na calçada a folha de papel e a sua esperança de voltar a ser feliz.Era o presente mais inesperado para uma mulher desiludida como esposa. Uma madrugada, ela se encheu de boas lembranças e aceitou os versos que o marido insistia em lhe oferecer. Sentiu que para ela já não pulsava mais nada, que não havia mais como amá-lo. Então ela deixou cair pela janela as palavras tão bem arrumadas e a sua vontade de dar a eles mais uma chance.A poesia era só uma poesia. Largada no meio-fio. Abandonada ao relento. A poesia não tinha autor.

Pati

Quarta-feira, Janeiro 12, 2005

Sobre a primeira vez de uma série de inúmeras vezes

Hoje é a minha vez de escolher, um texto da Mari. Fiquei em dúvida entre vários, mas me decidi pelo de estréia.


...E ela se lembra, de repente, da primeira vez na vida. A primeira vez de todas as coisas! A primeira vez que mascou chiclete. Comeu um pacotinho em dez minutos! A mãe lhe havia dito que chiclete era para mascar um pouquinho e jogar fora. Acontece que ela ainda não sabia quanto era um pouquinho na linha do tempo. Se lembrou da primeira vez que foi a escola. E os olhos encheram d’água. Porque foi difícil. A separação da mãe sempre fora difícil para a menina das primeiras vezes. E o primeiro choro? A primeira respiração? O primeiro medo? Esses a menina não lembrou. Costuma-se dizer que o que causa dor, geralmente se esquece. E ela se esqueceu. Se lembrou do primeiro beijo. Da cara da professora de inglês, quando viu a menina beijando o menino mais bonito da escola. Da bronca e da vergonha. Do medo e da insegurança. Lembrou da primeira vez que foi amada. E do primeiro gozo. Que casualmente foi antes dela perder a virgindade. Foi como um raio. Um estremecer. Um amanhecer por dentro pra aquela sensação de recomeço. De vida nova. Porque quando a gente goza, parece que a gente nasce outra vez. Lembrou da primeira despedida. Ou da segunda? Ou da última? Sim, das despedidas ela nunca esqueceu. Nem das pessoas que foram embora. E nem daquelas que ficaram.Lembrou da primeira declaração de amor. E do primeiro fora. E da primeira vez que não correspondeu ao amor de alguém. A primeira noite na sua casa! Sozinha! E lembrou do medo que sentiu de que houvesse ladrão atrás da porta. E uma barata na cozinha. E um rato embaixo da cama. Lembrou da primeira vez que tentou ser mãe. E da perda do filho. Do sangramento. Por dentro e por fora. Do bebê no vídeo da ultra-sonografia. Sim, ela lembrou da primeira vez que entendeu a eternidade. E que sentiu solidão.Lembrou da primeira vez que pisou num palco. Do frio na barriga, do texto na cabeça, do branco na alma. Do êxtase do público. Lembrou das pirmeiras noites de festa, dos primeiros passos de independência...Lembrou da primeira vez que ouviu "Amo você" e chorou. Porque fazia tempo que ninguém lhe dizia isso. E lembrou sim, da última vez que disse que amava alguém. Porque isso ela não faz nunca, e quando faz é porque ama de verdade. Lembrou da primeira vez que fez uma pesquisa através do computador. E do fascínio que traz o conhecimento. E do mundo que há dentro do mundo. E se lembrou também da primeira vez que percebeu Deus. E do calor da sua presença. E da certeza de seu abraço. E da sensação de unidade! E assim é que a menina repete e repete a imensidão das primeiras vezes. E preenche os dias com novas estréias. Preenche as horas com primeiros minutos. Porque a cada instante há uma primeira vez. Em gota de sangue há uma primeira e renovada célula. Em cada noite há a promessa de um sol nascente. E assim ela repete, se repete, repete, repete de novo, primeiras vezes, primeiros dias, primeiros textos, repete, repe...., rep....re.....r............

Mariana

Terça-feira, Janeiro 11, 2005

3x4 de mim mesma (por Michelle)

O texto abaixo foi escrito pela Chelle numa sexta-feira, 19 de novembro de 2004. Como somos da mesma geração, adorei reencontrar alguns símbolos da minha infância e adolescência...

Que saudade de chupa-chupa, sacolé, ki-suco.Saudade de passar o dia na praia, de me bronzear e depois colocar roupa branquinha. Que saudade de responder o que é fotossíntese, de brincar de elástico, de brincar de teatrinho.Saudade de brincar de pega ladrão, pique- esconde , pique bandeira.Que saudade Hi-fi, dança da vassoura, musica lenta.Saudade dos papeis de carta, do álbum de figurinha e beijos escondidos.Saudade do Balão Mágico, da Xuxa , da vontade de se paquita.Saudades dos salgadinhos piraquê, skine, sacanagem e sanduíche de queijo com presunto.Saudade do Menudo, Blitz, Legião Urbana. Saudade da Play House, Vera,Professorado, Cê que sabe.Saudade do Estácio, da Praça Seca, Madureira e Anchieta.Saudades do meu primeiro namorado, do segundo e depois e depois do depois.Saudade de não me sentir culpada por não saber o que vou fazer, saudade não precisar acordar de manhã cedo para trabalhar, porque faltar escola pode.Saudade de não ter mínima noção para que seve creme anti-rugas.Saudade do meu sorriso fácil, da minha alegria infantil, da minha inocência.Mas todas essas coisas estão aqui, dentro de mim, coisas que eu vou levar para o resto da vida. Estão comigo as lembranças de coisas inesquecíveis.Hoje sou o que já fui mais o que sou agora, colecionando essas coisas, colocando em ordem de grandeza cada detalhe que foi importante, cada momento que interferiu nos meu dias , que deixou marcas, cada instante que foi cravado no meu peito como uma tatuagem.Essas são as minhas marcas, a minha historia e talvez não tenha a menor importância, pois só eu sei o quanto foi incrível vivê-los.Hoje é só o começo de tudo, porque ainda sou a menina que tanto achei sentir saudades.

Michelle

Segunda-feira, Janeiro 10, 2005

Nossos melhores de 2004

Texto publicado pela Eugenia, em 17 de agosto de 2004.

O homem que dorme

Está de bruços, com o rosto virado para a janela. A boca aberta e os cílios longos lhe conferem um ar infantil. Ela olha no relógio: cinco e meia da manhã. Ele não vai acordar tão cedo.

A luz fraca do domingo nublado entra no quarto. Sentada na cama, ela observa o homem. Como as pessoas são diferentes à luz do dia... Agora a pele do rosto exibia os restos de adolescência. O pescoço estava envolto num daqueles cordões que estavam na moda, com pinturas de santos. Escapulário, esse era o nome.

Os ombros eram cobertos de sardas (lembrou-se que quando era criança invejava as sardas de uma colega de escola). As costas eram lisas, até o pedaço em que as costas dos homens deixam de ser lisas, perto da bunda. Ali começavam os pêlos castanhos, que à luz ficavam dourados. Ela ficou surpresa: ele tinha estrias! Várias, na cintura, na bunda e nas coxas. Ela achava que só as mulheres tinham estrias. Teria sido ele gordo? Era possível: o corpo era cheio, as pernas grossas.

A mulher se levantou sem barulho, como só os recém-apaixonados são capazes. Lavou o rosto e escovou os dentes - sem pasta, claro, para ele não perceber. Voltou para a cama, deitou-se e fechou os olhos, mas não dormiu. Abriu-os ao mesmo tempo em que ele.

***

- Fala teu número - ele está junto à porta, com o celular na mão.

- Me dá você o seu - ela disse, rápida, pegando um pedaço de papel.

- Meu celular pifou.- 98 36 84 09 - respondeu ele, com um sorriso. - Liga mesmo!

Ela não retribuiu o sorriso: deu-lhe um beijo rápido e fechou a porta. Procurou o maço de cigarros, enquanto lutava desesperadamente contra a ternura que nascera enquanto via o homem dormindo.

Achou o maço. Pegou o isqueiro que estava dentro e queimou o papel com o telefone do homem.

Eugenia

Quinta-feira, Janeiro 06, 2005

E as pimentas em 2005...



Voltam com tudo! Para começar o ano, acataremos a sugestão do amigo Arnaldo (amigo apimentado e querido por todas nós), que deu a idéia de fazermos um revival com os melhores textos de cada uma.

E trata-se do seguinte: Fizémos uma escala e cada uma das pimentas escolherá o melhor texto do ano de 2004 da pimenta alheia à qual lhe foi designada a escolha.

Começamos semana que vem e quem começa, sou eu, Mariana, escolhendo um texto da Eugenia.

Preparem-se para emoções fortes em 2005. Estamos afiadíssimas!

Voltem sempre!