Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005

Dos raros acontecimentos

Há coisas que acontecem muito de vez em quando. Chuva de granizo e arco-íris, por exemplo. Marginal Pinheiros sem trânsito às seis da tarde, programa bom na televisão aberta, acordar cedo sem morrer de sono, grana sobrando na conta. Raridades no nosso humano cotidiano.

Dentre tantas, existem os encontros. Assim casuais, no meio da rua, com aquela pessoa que você não via há anos e que é uma agradável surpresa. Ou não. Encontro de amor. Enlouquecido, apaixonante, inesquecível. Encontros mais maduros, mais serenos e talvez um pouco menos "destruidores".

Mas falo explicitamente do encontro de pessoas que têm afinidades. No gosto musical, na maneira de viver e de entender a vida, nos filmes que assistem e nas coisas que pensam e concluem disso tudo que a gente faz, dessa lida diária.

E são essas as pessoas que a gente chama de amigo. Porque entendem sim, aquela dor no peito, aquele medo louco de madrugada, aquela solidão insuportável dos momentos de anoitecer dentro da gente.

Entendem a piada e se não, riem junto, porque gostam de você e tiram um sarro da sua incapacidade irônica e sarcástica. Gostam de comer as mesmas coisas que você, de andar pelos mesmos lugares, de visitar as mesmas esquinas de si mesmo. Bebem no mesmo copo, fumam do mesmo cigarro.

Nestes últimos tempos, tive a felicidade (sim, é felicidade. Sorte sei que não é!) de encontrar um punhado de pessoas assim e que por isso estão sempre juntas e que não se cansam de dizer o quão especial é estar perto. E eu que ando longe, pois moro em outra cidade, sei que estão todos ali naquele bar, tomando chopp, batendo papo, tirando onda, se encontrando na casa de um ou de outro e eu me sinto lá. Não menos aqui, no meu mundo, na minha casa, na minha cidade, mas ali do lado de cada um. Porque eles me fazem presente e porque eu os sinto.

São parecidos comigo. Variantes inevitáveis de temperamento e escolhas, mas desejo, intenção e compreensão quase idênticas, têm esses meus amigos da vida.

E sei que posso correr pro colo de cada um, quando a dor apertar. Sei que posso ligar pra contar da minha alegria, sei que posso aparecer de surpresa e que serei bem recebida. Sei que aquele disco raro, com aquela faixa que falta no meu repertório, certamente um deles têm. Aquele poema, aquele verso, aquela frase que me encanta. Um deles a tem, guardada na memória, na alma ou num livro na estante de casa.

Eles têm um pouco de mim dentro deles. E eu os tenho aqui. Em pensamento, em saudades, em telefonema no meio da tarde, em e-mail, em post, em visitas, em feriados, em noites e dias de chuva ou sol.

E atribuo a esse raro acontecimento, pela magnitude que tem a diminuição da minha sensação de estranheza com relação ao mundo em que sempre vivi. Encontrei nesses meus amigos, meus pedaços esquecidos, minhas crenças abandonadas, minha fé abalada, meu sorriso apagado.

Encontrei no momento exato o mote para a continuidade da vida, da renovação necessária, do acreditar de novo.

E se isso for um privilégio, agradeço a quem for. E se for merecimento, aceito-o por reconhecer-me capaz de tê-los ao meu lado. E se sonho for, que eu durma anos ao lado deles, mas se realidade for e sei que é o que é, que seja assim como agora.

Que siga me preenchendo, me iluminando, me abençoando.

À todos, meu sincero amor!

Sábado, Fevereiro 26, 2005

Amanhã

Amanhã vou começar uma dieta. Isso mesmo, preciso emagrecer, dar uma melhorada no visual, respeitar meu corpo. Esta é a última taça de sorvete de chocolate que comerei até o final do ano. Amanhã vou ligar para aquela menina que meu deu seu telefone durante a festa. Ela é linda, gente boa pra caramba...e que beijo. Não posso deixá-la sumir. Eu disse que ligaria hoje. Ah, pra quê? Ainda dá tempo. Amanhã eu falo com ela. Amanhã vou dizer a ele que o perdôo a sua traição. Eu pensei bem no assunto e acho que ele merece uma segunda chance. Estamos juntos há tanto tempo e não vale a pena jogar fora uma relação tão longa por contade um deslize. Vou aparecer na casa dele bem cedo,amanhã pela manhã. Amanhã vou visitar meu tio no Hospital. Talvez seja aúltima vez que eu o veja, pois é um caso grave.Câncer. Dói muito vê-lo assim, frágil. Gosto tanto dele e não imagino perdê-lo sem trocarmos algumaspalavras. Será que vai dar tempo? E se acontecer algo com ele esta noite? Ah, bobagem, por que não daria?Amanhã eu passo por lá. Amanhã eu direi a meu pai que o amo. Estamos brigados desde o ano passado e sinto tanta falta de deitar minha cabeça em seu colo, ouvir as mesmas histórias que sempre me fazem rir. Pensei em procurá-lo hoje, mas não é preciso ter pressa. Amanhã eu faço isso. Amanhã eu vou sair à noite, ver gente bonita, paquerar. Quem sabe eu descolo alguém legal? Estou recluso há tanto tempo por conta do fim de um namoro doentio. Não posso mais ficar desse jeito. Há tanta coisa bonita pra se fazer, tantas pessoas interessantes a conhecer. Bem, meus amigos disseram que vão sair hoje, mas não vou com eles, só amanhã. Por que sempre marcamos uma data para o início de nossas vidas? Por que não enxergamos que todo o não-vivido de hoje é um pouco de vida que jogamos fora? Viver não tem uma data pra começar, já está acontecendo. Agora mesmo, enquanto você lê estas poucas linhas. Por que desenhamos uma linha imaginária de tempo a partir da qual tudo, magicamente, estaria resolvido? Ah, não tenho uma resposta. Amanhã a gente pensa nisso.

Bruno Cunha

Demorou, mas chegou

Caros leitores,

Esta semana a Pati, nossa colunista de quarta-feira esteve viajando a trabalho. Ela deixou seu texto conosco para que postássemos, mas como podem notar, não tivémos tempo nem organização suficiente para tal. Eis que aí vai o texto da Pati, com atraso, porém lindo como sempre.

Saudações,

Nós

*

Como é que chama?

Como é que se chama aquela sensação de espera infinita, de que o mundo nunca vai estar completo se você não chegar?
Qual é o nome daquela vontade de ficar perto como se o tempo não passasse e como se não houvesse nada mais importante?
Tem denominação para aquele apertar de braços que faz tudo desaparecer e faz acreditar que nada poderá fazer mal?
O que é que se fala daquela linguagem de olhar e de tocar e de sentir e de adivinhar antes que a voz saia?
O que é que se diz daquela cisma de abandono se o telefone não toca ou se a campainha não soa?
Como é que se explica aquela lembrança de cinco sentidos, que é visão, olfato, tato, audição, paladar, tudo inscrito na memória?
Qual é mesmo a palavra para aquela mistura de insatisfação e dor que começa na despedida e só termina no reencontro?
Tem definição para aquela certeza de que se for sempre assim sempre vai ser e eu sempre vou estar?

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005

Crescer não é fácil

Crescer não é fácil e quem disse que seria? Tudo o que eu mais desejava era ser adulta para poder fazer as minhas próprias escolhas.
Só não me avisaram o quanto difícil seria. Escolher e decidir, verbos tão fáceis de serem conjugados, hoje a todo o momento conjugo esses mesmos verbos que tanto me fizeram sonhar, mas agora não nos exercícios de fixação, mas na prática. Onde apagar os erros dos verbos conjugados sempre é possível. E não adianta trocar de borracha! Verde, branca, de duas cores, nenhuma delas serve na vida adulta. Me deram um corretivo, mas quando eu viro a pagina, lá está o erro no verso, como se nunca houvesse sido apagado.
Deveríamos escrever nossas vidas de lápis, assim seria mais fácil na hora de conjugar os verbos. Não fez certo? Borracha nas palavras e começa tudo de novo.
Quando nos tornamos adultos a escrita é sempre a caneta, por isso é tão difícil.
Hoje penso o quanto as escolhas de uma criança são fáceis, fazem isso de propósito! Assim você entra na fazer adulta cheia de esperanças, vontades e acreditando que o mundo é do jeito que você quer.
Com o tempo você se depara com as dificuldades, os medos e as incertezas das escolhas e não dá mais para voltar. Você pode até tentar apagar, usando a borracha ou o corretivo, mas a marca do erro fica lá.
A vida adulta a brincadeira é um ditado. Você tem a chance da palavra ser ditada mais uma vez, mas o erro fica lá registrado no seu caderno que é a vida.
Quero de volta o meu caderno de caligrafia, quero também minha tabuada, livro de cobrir e o de colorir. Quero escrever a lápis e apagar , sem deixar marcas, sempre que for preciso!

Michele

Terça-feira, Fevereiro 22, 2005

História suburbana

A mãe de Nair descobriu que o marido tinha outra família e quase morreu de desgosto. O advogado acabou indo morar com a outra e Nair jurou que nunca passaria pela mesma situação. Escolheu como namorado Heitor, o rapaz mais feio da sala de aula e talvez de todo o Valqueire, onde moravam. "Homem bonito dá trabalho", pensava, lembrando do charmoso pai. Heitor planejava estudar Direito, mas a moça o pressionou para que fizesse Ciências Contábeis. "É mais tranqüilo, meu filho!" ela repetia, carinhosa. Mentira: era porque lhe parecia mais seguro um homem que passasse o dia todo num escritório - advogados estão sempre passeando pelo Fórum. Além disso ganham mais, e dinheiro chama mulher.

Mesmo sendo feio, Heitor sofria com os ciúmes da agora esposa. Para ela, todo rabo-de-saia era uma rival em potencial - da faxineira cinqüentona à filha adolescente do vizinho. Se o marido admirasse a vista da janela, queria era aparecer para as transeuntes; se cogitava aprender violão, era porque músicos atraíam com facilidade o sexo frágil. Heitor não brigava, mas reclamava: "Naná, pelo amor de Deus, eu te amo, minha rainha!" Mas ela não se convencia: "Homem é que nem leite no fogo, tem que ficar de olho!" Levava o marido até o portão todas as manhãs e corria para esperar o telefonema dele do trabalho, avisando já ter chegado. Esperava-o todo dia às seis e meia para jantar. Ai dele se pegasse engarrafamento e chegasse meia hora mais tarde no escritório ou em casa - era briga na certa. Também obrigava o moço a almoçar em casa durante a semana, alegando que, além de tudo, saía muito mais barato. Faziam tudo juntos; até a pelada dos sábados era acompanhada por ela, enquanto fazia crochê.

Um dia Heitor morreu. Novo, novo, nem quarenta anos tinha. Coração. Nair não se conformava. Suburbana que era, batia no caixão e gritava: "Eu quero ir junto! Eu quero ir junto!".

Até que apareceu a - (esta expressão seria repetida muitas vezes em Vila Valqueire nos dias que se seguiram) - "dama de preto". Feia de cara, mas dona de fartos quadris, chamava a atenção não só pelo choro sentido, mas também porque ninguém no velório a conhecia.

Nair não tardou a notá-la. Furiosa, botou as mãos na cadeira e perguntou:

- E você? É o quê dele, minha filha?

A moça respondeu com calma, enquanto enxugava uma furtiva lágrima.

- Nair... Eu não vou mentir pra você... Eu era amante do Heitor.

- Amante? - a viúva gritou (agora uma rodinha havia se formado em torno das duas. Ninguém ousava dizer nada, com medo de apanhar). - Amante como, sua vagabunda? Se eu não tirava os olhos do meu marido?! Anda, responde, sua cachorra!

A moça continuou serena:

- Na hora de almoço do trabalho dele, Nair, nós...

- Hora do almoço?! Hora do almoço?! Como assim? Meu marido almoçava em casa todo santo dia!

- Eu sei, eu sei que ele almoçava em casa todo dia. Mas é que... é que...

Todos aguardavam sem respirar a revelação. Como, meu Deus, como foi possível ao morto ser infiel?

- É que a sobremesa era sempre na minha casa.

(inspirado livremente no samba "O velório do Heitor", de Paulinho da Viola)

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

Nossa flor

Meu amor é velho.
Pinta(va) o cabelo.
É meio mal-humorado.
Meu amor fere com as palavras, quando perde a razão.
Tem outro tempo. É de outro tempo.
A barba do meu amor cresce rápido demais.
Meu amor sabe mentir. E ele sabe que eu sei disso.
Meu amor tem mágoa e é tímido demais quando não deve ser.
Meu amor tem medo. De muita coisa.
É inseguro. Modesto demais.
Meu amor é ansioso e vive planejando tudo. Exageradamente.

Mas o meu amor é doce.
É sincero e intenso.
Mergulha quase que sem mascara lá no fundo de nós dois.
Ele é poeta. Vive como quem escreve o tempo todo.
Cita poesias e palavras suas e dos outros a cada momento.
Meu amor é encantador. Tem brilho nos olhos e sorri que nem menino.
É malandro e sedutor. Na medida exata do meu desejo.
Meu amor me faz mulher. Mais do que eu achava ser.
Ele me visita manso, me percorre íntegro.

O meu amor não tem medo da vida.
Que nem eu, ousa e arrisca o viver logo agora.
Meu amor dá risada da própria dor.
Transforma em verso a amargura e a vivacidade do seu dia e noite.
Meu amor canta no meu ouvido as palavras de amor que eu mereço.

Ele sabe, e ainda descobre aos poucos, onde mora o valor que eu tenho.
E se admira. E me incentiva. E me respeita como iniciante na vida que teço.
Ele olha no fundo dos meus olhos. E eu me vejo refletida no mel daquele mar.
E encontramos a sabedoria de cada um, num sorriso cúmplice e silencioso.

Desejo, meu manso e intenso amor, que sejamos atores de uma história sincera. Que façamos da vida juntos, uma esperança renovada e uma descoberta surpreendente.
Porque você já é primavera dentro de mim.

Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005

Perfeita Harmonia

Depois de ter você: os meus lábios não param de sorrir; os meus olhos não ficam mais a procurar; as minhas mãos insistem em repousar no seu corpo; os meu ouvidos só querem ouvir a melodia que sai da sua boca; os meus lábios já combinaram de só ficar colocados aos seus; as minhas pernas só conseguem dormir tendo as suas como companhia; os meus pés procuram os teus todas as noites e só querem trilhar o seu caminho; o meu suor só quer ser misturado ao seu; os meus cabelos insistem em brilhar sobre o seu corpo; o meu corpo fica muito mais bonito entre as suas mãos; a minha pele fica muito mais macia na sua boca; os meus dedos só querem te tocar, a minha língua exige o seu gosto; o coração só deseja você e a alma está mais tranqüila com você ao meu lado.

Michele

Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

Acordar

É parte do seu corpo tocando o meu. O calor, desconhecendo proporcionalidades, me toma. Que sorte te ter por aqui, ao alcance das minhas mãos e dos meus olhos, depois de tanto tempo. Em silêncio, acreditei nisso todos os dias. Mas bem calada, sim, fazendo fé em garantias fictícias, como o compromisso que têm os desejos, quando são assim enormes, de se realizarem, por exemplo. Que pretensão, na verdade, é achar que o meu corpo é o lugar exato pro seu. Só digo, então, para disfarçar minha alegria, que ele é um ninho feito e refeito desde e para sempre pra te acolher. Ah, que coisas lindas são as do amor. Dar o pincel nas mãos de alguém para que faça da tela em branco, escancarada como é o ser que ama, a pintura que bem entender, rezando para a santa inspiração guiar seus movimentos.
Enquanto pensa, ainda sem querer despertar completamente, vai sentindo as pernas (mãos? peito?) dele roçando em suas costas. Espera, aflita, pela felicidade. E se vira, enfim, para o novo dia.

- Você na cama de novo, não é? Nada de querer dormir no seu cestinho!

Às vezes o dia amanhece enigmático como os olhos de um gato.

Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005

O bicho, meu Deus, era um homem *

O homem defecava na calçada, encostado ao muro de um prédio, no domingo à noite. Calças arriadas, posição de cócoras, ele sequer esquivava o olhar de quem passava. E passava muita gente na rua movimentada, passavam ônibus, carros. O homem ali, fazendo sua necessidade a céu aberto.
O homem não tinha casa, não tinha banheiro, não tinha vaso sanitário, não tinha sequer uma fossa. Só tinha a calçada. O que ele teria perdido primeiro, a dignidade ou a vergonha? A bunda exposta para os pedestres, não havia mais o que perder.
E se ele sofresse de prisão de ventre, quanto tempo ficaria ali? E se fosse diarréia, quantas vezes precisaria voltar? Será que o homem recolheria as próprias fezes e jogaria numa lixeira, como fazem os donos de cachorros com os dejetos de seus animais de estimação? Ou a tarefa ficaria para os garis, no dia seguinte? Ao homem não era possível nem seguir o exemplo dos gatos e enterrá-las.
Quem via a cena podia sentir nojo, podia ter pena, podia ser tomado pelo horror. Podia até fingir não ver. Podia se indignar. Podia esquecer. Podia chegar em casa e se trancar no seu banheiro, com papel higiênico, pia e chuveiro, para fazer o "número dois".
O homem só podia levantar as calças e seguir. E fazer de outro pedaço de calçada, adiante, a sua cama.

*Verso de "O bicho", de Manuel Bandeira

Terça-feira, Fevereiro 15, 2005

O mar sem fim

Tenho vários amigos de fora, com os quais me comunico graças à rede. Mora na Itália um dos mais queridos, o Egidio, que tanto me ajudou na viagem à Europa no ano passado. Todos eles, sem exceção, são apaixonados pela nossa música. Admiram a sofisticação das melodias do Tom. Encantam-se com as baterias das escolas de samba. Tentam, desajeitados, dançar no compasso do forró.

Mas só os poucos que dominam o português podem singrar os mares das nossas letras de música. Tem tanta coisa bonita que dá vontade de chorar ao saber que uma vida é pouco para ouvir todas. E tem aquelas cuja letra a gente esqueceu, e então tem que recorrer ao Santo Google. Você tem boa memória, mas por acaso saberia cantar "A bela e a fera", d´"O Grande Circo Místico"? Lembra, a fera era o Tim Maia. Olha a última frase: "Abre teu coração / Ou eu arrombo a janela." (Chico Buarque e Edu Lobo). Demais, demais.

Bom, eu estava pensando nisso no domingo, durante o show da Fernanda Cunha na Lagoa. Tudo estava perfeito: a voz linda da moça, o violão preciso do Zé Carlos, o visual deslumbrante. E... tem as letras. O repertório de seu último disco, "Dois Corações", homenageia Sueli Costa e Johhny Alf. É para se ouvir, decerto, mas também para deitar na cama e ficar lendo e relendo o encarte, meditando acerca de versos como "Luzes negras são como faróis a me guiar" ("Olhos Negros" - Johnny Alf/Ronaldo Bastos). E "Ah... essas palavras banais/dos boleros sensuais/são verdades diárias/são dores tão normais.". E "Somente um dia longe dos teus olhos / Trouxe a saudade do amor tão perto.". Às vezes não é nem um verso, é uma expressão: "Entre o copo, a vitrola e a fumaça." (em "Cão sem Dono", de Sueli e PC Pinheiro). E tem horas que nem dá para destacar um verso porque o verso é a música toda e tudo ficaria sem sentido "Amor, Amor".

Então, quando um amigo de fora cantarola: "Poeiraaa..." (TODOS eles adoram esta música), eu falo: você tem que aprender português, porque nossas letras são as melhores do mundo!

E me pergunto se elas seriam esse mar sem fim tão belo se não fossem em português.

Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005

Como do deserto uma flor

Daquele que dá do escuro, da luz apagada de dentro pra fora. E aquele de barata? No meio da noite, com sede na cozinha anoitecida?

Tem também aquele de ir pra escola, no primeiro dia de aula, na primeira série. De ficar longe da mãe, de sentir falta do cheiro da casa antiga que abriga as lembranças da infância dolorida.

O do irmão, quando a gente pega escondido aquele disco preferido e sem querer some com ele pra nunca mais.

Tem o de altura. Da falta do chão nos pés, da sensação de insegurança que é ver o mundo pequenininho na palma da mão. De estremecer. De não se reconhecer tamanha magnitude, ali sozinho, na beira do mundo.

Tem aquele de gente esquisita. Que gela a barriga e as mãos.

O do perigo. Dos sinais fechados na madrugada fria, da miséria humana e da culpa secreta de se sentir partícipe do apanhado de revolta que habita as avenidas moribundas.

E o de cachorro? Da doçura ou da fúria do animal que mora na gente. Da candura dos olhos pedintes, da braveza do latido rasgado.

Tem o de elevador, de metrô, de ponte. Tem o do desconhecido.

Tem o da gente mesmo. E esse é brabo. Apavora. Paralisa. Desintegra. Desordena. Ou recupera.

De uma vez por todas. Reconstrói os cacos de vida irresoluta, de dias insuficientes. E a hora de encarar chega certeira. Quando tem que ser. E destrói pra renascer flor, logo em seguida, como primavera suave e poderosa. Se renasce fênix que se é. Se assim for.

E antes que eu me esqueça, o mote das minhas palavras, princípio ativo das linhas aqui dispostas, na mesa do meu interior.

O eterno e universal medo de amar. De não ser correspondida, de que acabe de repente, que faça estrago nos beirais do coração apaixonado. Medo sim de ser feliz, com a serenidade que isso possa significar realmente. Medo de se pegar dormindo e acordando pensando no amor de agora.
Medo de caminhar lado a lado, de sonhar junto, de escrever a música do nosso feliz tempo de almas amantes.

Medo de sofrer insano, de se entregar com tudo, de derrapar sem freio, de perder a cabeça.

Medo irrefutável de sentir saudades, de esmagar contra o peito todos os nossos momentos.

Medo de ter que jogar fora, ver voar pela janela, os planos que construímos sem querer, no arrebatamento de se sentir enluarado, enfeitiçado, ensandecido. Medo indecisivo da falta de conclusões, das não-explicações, das fugas repentinas. Medo do poder transformador do amor na vida da gente.

E que invariavelmente habita e constrói o mosaico dos nossos passos. Relutantes e tortos passos.

Parcos desejos escondidos sob o véu do terror à integridade, à beleza, ao fascínio de se viver amando.

Recomendo copos de coragem. Que sejam de líquido frio ou quente, mas eficazes.

E se acaso alguém souber onde se encontram, queira logo me mostrar o caminho.

Meu nobre agradecimento.

*O título do texto é uma frase da música "Medo de Amar" de Vinicius de Moraes.

Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005

Amor não é fácil de achar

Fomos apresentadas quando eu era ainda muito criança. Você me encantou com toda a sua luz, seu calor e sua vontade de vencer. O balanço do seu corpo encantou os meus olhos de menina, que atentamente observava cada gesto, cada movimento, cada passo seu.
Assim nasceu o meu amor por você. No inicio aquilo que era apenas admiração foi crescendo e tomou conta de mim.
Vivemos tantas coisas juntas. Você me viu crescer e eu presenciei suas conquistas.
Mas como qualquer relação, algumas vezes nos desentendemos e alheias a nossa vontade nos separamos.
Uma separação que foi muito dolorosa, mas que hoje sei que não conseguiu acabar com tudo que foi construído entre nós.
Às vezes nossos olhos se encontravam, mas por medo de sofrer de novo, fiquei afastada.
Mesmo sem saber,mantive o amor por você guardado, eu que muitas vezes pensei que ele não mais existia.
E com tanto amor guardado, nosso reencontro era inevitável.
Recomeçamos devagar: um sorriso tímido, encontros de vez em quando e quando dei por mim, estava de novo com o coração disparado ao te ver.
Agora basta pensar em você, que o meu corpo e a minha alma caem na gargalhada de tanta felicidade.
Meu amor por você, minha querida Estácio de Sá, nunca deixou de existir. O que sinto por você faz meu coração acelerar e ter a certeza que um amor assim não acaba.

(Por motivos diversos por 10 anos fiquei afastada da escola do meu coração. No ultimo dia 08 desfilei mais uma vez pela minha escola de coração. Fizemos as pazes.A Estácio de Sá nasceu da fusão das mais tradicionais escolas de samba existentes no morro de São Carlos: Paraíso das Morenas, Recreio de São Carlos e Cada Ano Sai Melhor. Os componentes da Estácio de Sá são, em sua maioria, da Cidade Nova, Saúde, Morro da Favela, Gamboa, Catumbi, Morro da Providência, Estácio e Morro de São Carlos.)

Michele

Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005

Magia do Carnaval

É fácil saber quando chega o Carnaval no Rio de Janeiro. É só ligar a televisão e ver as alegorias e adereços das escolas de samba mostradas a todo momento. Mostrados também, aliás, são os corpos das sambistas de última hora em suas ínfimas fantasias – é a sensualização que de certa forma faz parte da festa e contagia a todos os foliões. Pra ver que estamos nos quatro dias de folia, pode-se também pegar o metrô. Componentes das agremiações rumo ao desfile na Marquês de Sapucaí não raro estarão cantando o samba-enredo de sua escola numa prévia ansiosa do que acontecerá nos instantes de euforia única em que pisarão na passarela. Dependendo do lugar onde você more, fica ainda mais fácil: basta chegar à rua e rir inevitavelmente dos cidadãos de respeitos em trajes inesperados, como aquele senhor muitíssimo sério, seu vizinho da frente, de vestido coladinho, peruca loira e batom, a sua senhora, mais séria ainda, arriscando uma flor nos cabelos e um sorriso de libertação no rosto brilhoso de suor e glitter. Olha a professora de fantasia! (alunos deveriam ser tirados de circulação no Carnaval) A festa está, enfim, brincando pelo ar da cidade.
Na terça-feira, eu vi o Carnaval de dentro pra fora. Foi no desfile de uma escola de samba do grupo de acesso B, a Unidos do Jacarezinho. Onde essa escola sai, meu Deus? No Sambódromo, sim senhor. Lá estava eu, com a nem de perto glamourosa indumentária: uma camiseta estampada com o nome da ala e do sambista que foi enredo, o Monarco, e um chapéu. Tudo bem baratinho. O carro alegórico onde vinha o homenageado, eu vi. E confesso que senti medo: será que vai agüentar? Mas o detalhe maior não era nenhum de nós.
Pense na função daqueles homens que empurram os carros alegóricos. Talvez os mais desavisados nem tenham conhecimento do trabalho dessas pobres criaturas. Pois existem pessoas que fazem muito esforço (físico!) em prol da festa de outros, daqueles que estarão lá em cima, em destaque. Nervosismo dos diretores de harmonia: corre, espera, segura, o tempo está esgotando! Em nome de um belo desfile. Se você achou uma tudo isso um trabalho que, parafraseando a sabedoria popular, ninguém merece, é porque não viu a alegria genuína daquele simples que estava bem à minha frente. Nos olhos, o orgulho de estar colaborando. Quando os modestos fogos de artifício foram estourados, a vibração. Como ninguém, ele vibrava, com os braços para o alto, como quem vence. Quem era ele? Muito provavelmente, um morador da comunidade maltratada do Jacaré, bairro quase miserável, tido como um dos pontos mais violentos desta Cidade Maravilhosa. As dificuldades de sua vida, em meio a esta pobreza, as menores, as do dia-a-dia, as dos mínimos detalhes de carência de todas as espécies, não poderão ser imaginadas por nós. Essa humilhação do não vivida nos 364 dias de luta cega pela dignidade desconhecida, não teve sentido nem razão de ser naqueles segundos de êxtase. Não havia. Acho que entendi o que é a tal magia do Carnaval.

Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005

Pedro II tudo ou nada?

Saia de pregas, blusa com o emblema, meia branca, sapato de boneca. Blusa para dentro da saia, sempre. Mas essa saia é muito comprida! Duas dobras no cós e ela fica do tamanho ideal, dois palmos acima do joelho.
- Menina, esta saia está muito curta.
- Ah, dona Geralda, fui eu que cresci.
- Tem que comprar outra então.
Desfazer uma dobra para fazer a vontade da Dona Geralda. Sem muita escolha, ou isso ou um pito da chefe de disciplina na caderneta. Ou pior, uma conversa lá dentro da Chefia de Disciplina, ao lado da Bedelaria. Deus me livre!
Quarta-feira, descer para cantar o hino. Hino Nacional, Hino do Colégio, Hino do Sesquicentenário. Pedro II tudo ou nada? Tudo! Então como é que é? É tabuada! Três vezes nove vinte e sete, três vezes sete vinte e um, menos doze fica nove, menos nove fica um. Zum, zum, zum, paratibum, Pedro II!
Prova de Francês da Jurema. Cem questões, quem consegue? Cola de todos os verbos dentro do estojo. No dia seguinte, cola substituída pelas fórmulas de Matemática da Norma. Ufa! De raspão! Menos um ponto e era recuperação em fevereiro.
Anhangá fugiu. Anhangá hehe. Ah, foi você. Quem me fez sonhar. Para chorar a minha terra.
- Quem vai ao Fogo Simbólico? Vale um ponto em Música.
- É lá em São Cristóvão, preguiça.
Afronta se lava com fibra de herói, de gente brava. Bandeira do Brasil ninguém te manchará. Teu povo varonil isso não consentirá
Latim na 8ª série, haja estojo para tanta cola de declinação. Roosevelt, como um menino tão bonito pode ter um nome desses? Bem, ele nem olha para mim mesmo.
CPII Centro. Pode a blusa para fora da calça. E dá para voltar a usar saia, não tem Dona Geralda para fiscalizar o comprimento. Tem gente até de tênis!
Química, Paulo Roberto: "se vira", ele diz! Dá para matar aula lá na quadra, mas se um inspetor pega, é direto para o SOE. Física, Monken, "só a dor é positiva, o prazer é mera cessação da dor". Vamos comprar ração para os gatinhos da escola? Mas vem Maria Helena e faz gostar de Orgânica e lá vou fazer vestibular para Engenharia Química. Tem passeta na Rio Branco, não disseram por que, mas todo mundo vai: Fora Collor! Zenaide e seus erres retroflexos bem que avisou, você escreve bem, não faz isso, tenta jornalismo. Arroz, feijão e farofa, macarrão com almôndega, almoço na merenda. As provas desse maluco de História são todas de múltipla escolha, então é só combinar o código.
Passei! Faculdade, adeus calça azul-marinho. Já se vão dez anos. Mas por que é que ninguém esquece aquelas letras? Por que de vez em quando "Oh, manhã de sol. Anhangá fugiu. Anhangá hehe. Ah, foi você", com duas vozes, como na aula de Música? Eia pois Pedro II. Em vitórias mil amigo. Salve Sesquicentenário. Para honra do Brasil. Cê Cê Cê Pê Dois. Cê Cê Cê Pê Dois. Cê Cê Cê Pê Dois…

Terça-feira, Fevereiro 08, 2005

Das coisas que não se dizem

Quando era criança, li que os judeus não pronunciam o nome de Deus. Fiquei intrigada com isso, ainda mais que no Brasil a gente ouve a toda hora “meu Deus”, “graças a Deus”, “se Deus quiser”... E não sei se você sabe, mas antigamente as pessoas não falavam a palavra câncer. Diziam só: “Fulano está com aquela doença”. Ah, e sabe que durante um tempo era crime, na Grécia antiga, dizer a palavra “Eróstrato”? Porque era o nome do homem que tinha incendiado o templo dedicado à deusa Diana na cidade de Éfeso. Isso me lembra “A história de Adèle H.”. É um filme do Truffaut sobre a filha do escritor Victor Hugo. Repare que o título do filme abrevia o sobrenome da triste moça. O peso do nome é resumido na cena em que um homem pergunta a Adèle, interpretada por Isabelle Adjani, quem é seu pai. Ela não ousa pronunciar o nome do escritor: escreve com o dedo numa janela empoeirada.

E os minutos de silêncio. Sempre fico nervosa quando pedem um minuto de silêncio em homenagem a alguém. Nessa hora me dá uma vontade louca de falar qualquer coisa. Também acho engraçado como as pessoas têm implicância com certas palavras. Dizem que dá azar falar a palavra azar (ih, falei). Tem que dizer má-sorte.

Não entendo os pais que dão seus próprios nomes aos filhos. Coitada da Mônica, tendo que ouvir todo santo dia sua própria voz gritando: “Romarinho, hora de dormir!” “Romarinho, limpa o nariz!” Ela nunca vai se libertar desta palavra. Que chato.

Tem vezes em que as palavras estão tão presas que é necessária uma barreira física para que elas se libertem. Em “Paris, Texas”, os personagens de Harry Dean Stanton e Nastassja Kinski estão muito próximos, fisicamente. Mas separados por um vidro e por um telefone, e é através deste vidro e deste telefone que travarão um dos mais doloridos e esperados diálogos do cinema.

E há ocasiões em que nada precisa ser dito. Para o bem ou para o mal. Em “Closer – Mais perto”, o personagem de Jude Law pergunta a Julia Roberts, no teatro, se ela transou com o ex-marido, após encontrá-lo para que este assinasse os papéis do divórcio. Meus Deus, por que ela não mentiu? Seria tão fácil dizer a palavra não, a palavra que os salvaria! Mas ela olha para ele sem nada dizer (com as palavras, porque sua fisionomia espelhava o sim). E então virão a discussão e o término. Depois dos segundos de silêncio que selariam mais uma das impossibilidades do mundo.

Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005

Ir embora

Ir embora é sondar o desconhecido, convidá-lo ao encontro;
Ir embora é aceitar a solidão e buscar o relacionamento;
Ir embora é sofrer por ter de separar-se do que é confortável e envolvente
e desenvolver-se, ter que berrar novamente como se fosse um primeiro choro
e um último, de adeus ou até quem sabe;
Ir embora é perceber que ainda há muito chão e vale a pena tentar;
Ir embora é abrir-se para quem está lá, onde se vai;
Ir embora é dizer fui e pronto.
Tudo aquilo que passou valeu
Todos os que estavam ao longo do caminho são importantes
Todas as conversas, todos os olhares, todos os gestos
Tudo marcou. E a marca também vai. . .embora, junto com a recordação
Ir embora é saber que todos os dias vamos embora
que eternamente vamos embora
e que essa jornada prossegue indo, sabe-se lá até quando, até onde.
Certamente, se houver um paradeiro definitivo, ir embora chegará ao fim
e se poderá ir a muitos lugares, sem ir embora novamente.
Ir embora é o mesmo ponto da chegada, em outro ponto, em outro lugar.
Estou indo embora, saindo um pouco de cena, reavaliado as coisas, porque aqui dentro está tudo muito difícil.
Estou indo embora, para ficar um pouco de fora, daqui a pouco eu volto e quem sabe para nunca mais precisar ir embora de novo.
Estou indo embora, porque afinal é carnaval e só volto na quarta-feira de cinzas.

Michele

Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005

Por que eu amo, adoro, sou louca por futebol

Olhando de fora, parece ingênuo: vinte e dois homens em função de uma bola. Olhando de longe, parece simplório: vinte e dois homens correndo atrás de uma bola com a finalidade de acondicioná-la em um depositário que consiste em um retângulo composto por três traves fazendo ângulos de noventa graus entre si e com o solo gramado, sendo que tão somente dois deles têm a prerrogativa de impedir (utilizando-se das mãos, eis o particular) que os demais dez esquematizados em uma equipe atinjam o objetivo. Chegando mais perto, parece até bárbaro: vinte e dois trogloditas numa disputa que não raro desperta os sentimentos mais primitivos da espécie, adormecidos pela hipocrisia do dia-a-dia, a favor dela, a vitória, a supremacia de um grupo sobre os demais. Quase fascista. Abominável.
O que faz com que, olhando de dentro (do meu coração), pareça balé, pareça sublime, pareça formador de minha identidade?
A coisa, ao que parece, independe de sexo. Ou não tem aí um determinante. Conheço vários homens – e suas variantes – que não gostam de futebol. Ou pior, como (muito bem observando) disse um amigo meu, que “não ligam pra futebol”. Sim, posso conceber os que não gostam, têm uma posição. O incompreensível são os indiferentes. Os que desconsideram. O que me faz deduzir que, para além da questão cultural que explica que haja muito mais homens torcedores que mulheres, alguns seres humanos são epifanicamente tocados pelo sublime dom de ver poesia numa partida de seu time. E só assim podem sentir a emoção tresloucada do grito de gol. Da perfeita satisfação de passar dois tempos de 45 minutos assistindo a um bom jogo de futebol. Sobre ser mulher e gostar tanto do esporte, devo anotar aqui as piadas contumazes sobre a beleza física dos jogadores como único atrativo possível para esta classe. Como adicional de entretenimento, os atributos das beldades são devidamente considerados, obrigada, muito embora as pernas bem torneadas sejam quase sempre visadas pelas belas jogadas que podem produzir,
Intelectual, está longe de ser a questão. Mentes privilegiadas se entregam ao contentamento de pisar num estádio e torcer por seu time, formando uma massa uniforme com pitadas de raciocínios mais modestos.
A idade, por sua vez, não desempenha papel dos mais relevantes. Dados que posso acrescentar, a título de ilustração apenas, são os casos inúmeros de que se ouve falar de pessoas idosas que enfartam coladas ao radinho de pilha ou nas arquibancadas dos estádios. Imagem que contrasta com a lembrança de mim muito criança, sentada ao lado da caixa do aparelho de som na casa da Abolição ouvindo um jogo do Fluminense, inebriada com o ritmo da narração típica dos comunicadores de AM, sem, por certo, me dar conta racionalmente do significado formal daquilo. Devo dizer que até hoje a sensação de encantamento é a mesma diante das transmissões.
Esgotadas algumas possibilidades, que seria então essa força capaz de mover tantas emoções? Este texto, senhores, como se vê, não elucida. Não dá explicações racionais além das constatações e delírios de alegria de uma alma arrebatada. Quem esperaria lógica, aliás, dentro das quatro linhas que delimitam o campo das paixões?

Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005

Eu vou para Paraty, você para o Cacique de Ramos *

Ele vai para a quadra da Mangueira, eu vou dançar na Soudtrack.
Ele vai para o ensaio do Salgueiro, eu vou ao shopping.
Ele sabe os sambas-enredo de cor, eu fico apontando os clichês nas letras.
Ele diz que vai desfilar em três, quatro escolas, eu faço cara de desdém.
Ele conta como vai ser a fantasia, eu garanto que vai ficar ridícula.
Ele sonha com a Sapucaí iluminada, eu sonho com uma cidade perdida no interior de Minas.
Ele se emociona com as velhas guardas, eu acho todas um bando de velhos chatos.
Ele comparece a todos os ensaios técnicos na avenida, eu fico estudando.
Ele vai para os Escravos de Mauá, eu vou dormir cedo.
Ele vai para a feijoada da Portela, eu vou comer pizza com os amigos.
Ele lembra que no meu aniversário tem ensaio, eu juro que se ele for não volta mais.
Ele torce por tempo bom nos quatro dias, eu faço figa para chover.
Ele desfila no grupo de acesso, eu pego uma pilha de DVDs na locadora.
Ele resolve sair até no grupo de acesso do acesso, eu reclamo que ele é doente.
Ele pula de bloco em bloco, eu saio de uma sessão de cinema para outra.
Ele veste a fantasia, eu tenho certeza de que está ridícula.
Ele fala do desfile, eu conto das dezenas de filmes a que já assisti.
Ele aposta numa campeã, eu resmungo que todas as escolas são iguais.
Ele lamenta que os dias passem tão rápido, eu agradeço a Deus quando acaba.
Nós dois nos encontramos na quarta-feira.

* Sobre verso de "Catavento e girassol", de Guinga e Aldir Blanc

Terça-feira, Fevereiro 01, 2005

Julia

O roteiro era cinderelamente bacana e Richard Gere é um charme. Mas a graça de ”Uma Linda Mulher” era aquela ruiva de cabelo enorme e cacheado. Julia Roberts estava engraçada, linda, cativante, e tornou verossímil a história do executivo bem-sucedido que se apaixona por uma prostituta, pedindo-a em casamento.

Julia é assim. Em Hollywood há muitas atrizes lindas e algumas muito talentosas, mas ela tem essa qualidade que não se adquire com cirurgiões plásticos nem em aulas na Actors Studios: carisma. Ela é muito, muito carismática. Tem uma sintonia com o público que faz com este sofra com ela, torça por ela. E tudo o que ela diz na tela parece natural; parece o que nós, mortais, diríamos em certos momentos de nossas vidas. Lembra ”Notting Hill”? Então, perto do final, o personagem do Hugh Grant diz à atriz interpretada por Julia, de nome Anna Scott, que eles não têm futuro juntos, porque ela é uma estrela famosa, e ele um livreiro... Ela fica triste, e diz a ele estas frases, que transcrevo de memória: “Essa coisa toda de fama... Isso não é REAL, entende? No fundo eu sou só uma garota, em frente do homem que ela ama, pedindo que ele a ame também.” Nossa, nesse momento tudo o que queremos é pular na tela e confortá-la.

Foi corajosa a opção de Julia em filmar “Closer – Perto demais”. Embora todos os atores estejam bem, a fotógrafa vivida pela atriz é a menos interessante dos quatro personagens, e ela deve ter sacado isso.

Agora, ela está maravilhosa mesmo em “O Casamento do Meu Melhor Amigo.” Aliás, esse filme é todo bom: roteiro, trilha sonora, texto... Ela interpreta uma crítica gastronômica mazinha, que tenta sabotar o casamento do amigo do título, por quem se descobre apaixonada a dias da cerimônia. Um dos momentos mais tocantes é quando ela está com seu querido num passeio de barco. Ele fala da importância de se fazer e falar a coisa certa no momento certo e a tira para dançar, cantarolando um clássico da canção americana, ”The way you look tonight":

”Someday
when I´m awfully low
and the day is cold
I´ll feel a glow just thinking of you
And the way you look tonight...”


Tudo deixava a ocasião perfeita: o diálogo que estavam travando anteriormente, a música cantada por ele, o dia ensolarado... Ela sabe que é aquele o momento, a deixa, para ela dizer o que sente, mas... não consegue! As palavras não saem! O barco passa sob uma ponte, tudo escurece e então... o sol volta e o momento passa. Ela fica com os olhos cheios de lágrimas, arrasada com a oportunidade perdida.

Mas nossa heroína se declarará ao rapaz mais tarde (ah, se você não viu dane-se, eu vou contar o final, sim!). Isso dentro de um romântico coreto em meio a um campo verde, a algumas horas do casamento do moço com a patricinha vivida por Cameron Diaz. Nervosíssima, ela diz:

“Eu te amo. Eu sempre te amei, mas sempre fui muito idiota e medrosa para admitir, e agora estou só medrosa. E então eu quero te pedir este favor, este GRANDE favor... Escolha a mim... Case comigo... Deixe que eu te faça feliz.... Ai, acabei pedindo três favores, não é?” (ela ri desesperada).

Gente, esse momento é tão, mas tão bonito. A estrela está tão natural e entregue. Sempre que revejo o filme fico com vontade de chorar, não só pela emoção da cena mas por saber do final, em que o moço se decide pela personagem da Cameron.

Nem sempre vence o (a) melhor.