Dos raros acontecimentos
Dentre tantas, existem os encontros. Assim casuais, no meio da rua, com aquela pessoa que você não via há anos e que é uma agradável surpresa. Ou não. Encontro de amor. Enlouquecido, apaixonante, inesquecível. Encontros mais maduros, mais serenos e talvez um pouco menos "destruidores".
Mas falo explicitamente do encontro de pessoas que têm afinidades. No gosto musical, na maneira de viver e de entender a vida, nos filmes que assistem e nas coisas que pensam e concluem disso tudo que a gente faz, dessa lida diária.
E são essas as pessoas que a gente chama de amigo. Porque entendem sim, aquela dor no peito, aquele medo louco de madrugada, aquela solidão insuportável dos momentos de anoitecer dentro da gente.
Entendem a piada e se não, riem junto, porque gostam de você e tiram um sarro da sua incapacidade irônica e sarcástica. Gostam de comer as mesmas coisas que você, de andar pelos mesmos lugares, de visitar as mesmas esquinas de si mesmo. Bebem no mesmo copo, fumam do mesmo cigarro.
Nestes últimos tempos, tive a felicidade (sim, é felicidade. Sorte sei que não é!) de encontrar um punhado de pessoas assim e que por isso estão sempre juntas e que não se cansam de dizer o quão especial é estar perto. E eu que ando longe, pois moro em outra cidade, sei que estão todos ali naquele bar, tomando chopp, batendo papo, tirando onda, se encontrando na casa de um ou de outro e eu me sinto lá. Não menos aqui, no meu mundo, na minha casa, na minha cidade, mas ali do lado de cada um. Porque eles me fazem presente e porque eu os sinto.
São parecidos comigo. Variantes inevitáveis de temperamento e escolhas, mas desejo, intenção e compreensão quase idênticas, têm esses meus amigos da vida.
E sei que posso correr pro colo de cada um, quando a dor apertar. Sei que posso ligar pra contar da minha alegria, sei que posso aparecer de surpresa e que serei bem recebida. Sei que aquele disco raro, com aquela faixa que falta no meu repertório, certamente um deles têm. Aquele poema, aquele verso, aquela frase que me encanta. Um deles a tem, guardada na memória, na alma ou num livro na estante de casa.
Eles têm um pouco de mim dentro deles. E eu os tenho aqui. Em pensamento, em saudades, em telefonema no meio da tarde, em e-mail, em post, em visitas, em feriados, em noites e dias de chuva ou sol.
E atribuo a esse raro acontecimento, pela magnitude que tem a diminuição da minha sensação de estranheza com relação ao mundo em que sempre vivi. Encontrei nesses meus amigos, meus pedaços esquecidos, minhas crenças abandonadas, minha fé abalada, meu sorriso apagado.
Encontrei no momento exato o mote para a continuidade da vida, da renovação necessária, do acreditar de novo.
E se isso for um privilégio, agradeço a quem for. E se for merecimento, aceito-o por reconhecer-me capaz de tê-los ao meu lado. E se sonho for, que eu durma anos ao lado deles, mas se realidade for e sei que é o que é, que seja assim como agora.
Que siga me preenchendo, me iluminando, me abençoando.
À todos, meu sincero amor!





