E ela se lamentava, quando da menor referência de um amigo, parente, conhecido ou desconhecido a assunto correlato ou nem sempre, com sua voz de experiente no assunto:
- Não há nada pior para uma mãe do que ver um filho doente.
O problema agravara-se com o passar dos anos abatidos, não há como deixar de escrever aqui. Tão notório que a própria protagonista da história podia vê-lo na marca religiosa da balança: o menino estava, em seus 12 anos completos, pesando 28 quilos.
A condição de funcionária do Banco do Brasil com dez anos de casa permitia que ela, mediante determinados acertos com a chefia, almoçasse com o garotinho, mais um artifício para tentar contornar o agora já preocupante quadro. Também o levava e buscava na escola, até porque o menino, de tão leve, não tinha forças para levar seu material escolar sozinho. “Para que tantos livros, meu Deus? No meu tempo, não tinha nada disso!.” Estava pensando já em auxílio profissional, mas ainda relutava. Como era possível que seu carinho e amor de mãe não fossem suficientes?
Ocorre que seu filho único tinha sérias dificuldades alimentares. Dificuldades alimentares talvez seja um eufemismo, poder-se-á pensar ao conhecer o caso melhor, o que faremos dentro em breve. Digamos, então, que o rapazinho sofra de graves distúrbios psicológicos, talvez. Bem, deixemos de elucubrações e vamos direto aos fatos.
O problema oscilava de acordo com uma lógica não conhecida. Havia dias em que tudo transcorria bem e o garoto comia tanto que até passava mal – seu organismo enigmático não estava acostumado. Parecia querer aproveitar uma oportunidade. Em outros, mal se colocava a comida no prato e seus olhos eram de terror e asco, ao que seguia um choro convulsivo e horas de isolamento no quarto. Levava algum tempo para que ele desejasse comer novamente. A explicação não seria fácil. Digna de historinhas policiais pseudo-capciosas.
Certo dia, a pesarosa porém terna mãe perdeu o controle. Num desses episódios, agarrou o braço esquálido do filho e o segurou na mesa. Ele, todo pavor, gritava menos que ela. Lágrimas e berros, caos e cristais. A singela mesa de copa-cozinha da família média era sôfrega.
- São as baratas, mãe, são as baratas! No feijão!
Às vezes, o prato vinha servido da cozinha para o anexo onde o filho já estava sentado à mesa aguardando a comida. Dia sem dor. Noutros, geralmente nos de mais paciência e desejo de vencer a loucura, o repasto era cuidadosamente transportando das panelas para as melhores louças, as de enxoval, e posto na mesa esperançosa. Se o menino chegasse e seu prato estivesse pronto, certo. Caso contrário, menos um dia. Com os olhos revirados como quem sofre convulsão, o pobre vomita a explicação. Arroz no prato de vidro transparente, duas colheres. Concha de feijão derramando durante anos a fio as baratas por cima. Ao alcançar o prato, elas rapidamente se proliferavam e tomavam conta de toda a toalha florida, da ardósia do chão, do conjunto de saia e blusa de botão da mãe.
Em dois meses, Robertinho já ia sozinho para o colégio, as faces bem coradinhas. A mãe, contente, já até arrumara um namorado no trabalho. O discurso mudou:
- O que uma mãe não faz por um filho?
Depois da conversa definitiva que teve com as baratas, a vida de todos na casa clara da Tijuca era enfim uma vida normal.