Quarta-feira, Março 30, 2005

E se

E se eu te disser todas as palavras que guardei? E se eu te falar todas as bobagens das quais me envergonhei? E se eu te afirmar todas as certezas que neguei? E se eu te confessar todos os sentimentos que escondi? E se eu te entregar todas as cartas que escrevi? E se eu te revelar todos os ciúmes que senti? E se eu te cantar todas as músicas que ouvi pensando em ti? E se eu te fizer todas as declarações que ensaiei? E se eu te explicar todos os planos que construí?
E se eu te desenhar o vestido de noiva? E se eu te mostrar a nossa casa? E se eu te descrever os nossos filhos? E se eu te contar a nossa velhice?
E se eu te escutar enumerando os meus defeitos? E se eu te der razão nas nossas discussões? E se eu te repetir todas as tuas qualidades? E se eu te satisfizer todas as vontades?
E se eu te garantir que é para sempre? E se eu te detalhar cada um dos nossos anos? E se eu te informar do nosso futuro? E se eu te provar que é perfeito?
E se eu te pedir para ficar?

Quinta-feira, Março 24, 2005

Poesia pra quê?

Pra falar de todas as linhas não-escritas de mim (coração enfurecido não pára de riscar); para as horas em que sinto vontade de esbarrar, saindo do banheiro, chegando em casa, levantando os olhos do livro ou olhando pro lado no ônibus, com o texto nascido; pra saber que versos são vida espiando a vida, namorando a vida, rindo da vida, putos da vida; pra fechar os olhos e dormir, pra acordar o coração e morrer.

POESIA

(Carlos Drummond de Andrade)

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

NO CORPO
(Ferreira Gullar)

De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

Quarta-feira, Março 23, 2005

A travessa

A travessa espatifou-se no chão. Estava com as mãos frouxas? Todos os pêssegos em calda espalhados pelo piso da cozinha. A travessa era tão bonita, herdada da avó, louça fina, decorada. Sempre teve tanto cuidado ao lavar. Agora ali, em pedaços pelos ladrilhos.
Não havia como colar. Mas colar para que? A avó morrera fazia tempo, quem daria valor àquela travessa tão antiga? E quem comeria todos aqueles pêssegos?
A calda melava as pernas das cadeiras. Sobre a mesa, a fruteira comprada numa loja de design. Havia sido tão cara e como era feia! Bananas, maçãs, ameixas, para saciar que fome? Segurou a futeira bem no alto e soltou. Mais cacos e frutas sobre os ladrilhos. Tudo misturado aos pêssegos, à calda e às partes da travessa da vovó.
Pulou os cacos e abriu o armário. Pratos, dois conjuntos inteiros de jantar. Copos, taças, xícaras. Quem seriam todos aqueles convidados? Atirou um a um pratos, copos, taças e xícaras no chão. Louça, vidro, frutas e calda por toda a cozinha.
Correu ao quarto. Separou do guarda-roupas as peças mais finas. Onde mesmo as usaria? Primeiro cortou-as com a tesoura, depois rasgou-as com as mãos. Tudo em tiras, retalhos pela cama.
Por fim, se dirigiu à estante. Retirou das prateleiras os livros mais caros, as obras mais raras, os autores mais admirados. Quando leria aquilo tudo? Arrancou página por página. Amassou capa por capa. Um monte de papel no meio da sala.
Foi dormir em paz no chão do banheiro.

Segunda-feira, Março 21, 2005

Clube das mulheres

Minha mãe é uma pessoa rara. Admito, embora me seja difícil. Porque é dessas raridades confusas, cheia de atributos, não-me-toques, tititis. Mas aprendi a me acostumar e até a gostar um pouco dessa forma sem forma de tentar viver.
E dela tirei exemplos, ensaiei e esbravejei silêncios, calei dores, sangrei feridas e aprendi a amar assim desse jeito. Do jeito que ela é. Ponto final. Mudo de assunto.

Uma das coisas que ela “inventou” agora é um clubinho de amigas. Trata-se de um grupo de mulheres super ocupadas com seus trabalhos, mas que têm habilidades manuais e se reúnem uma vez por mês para trocar informações a respeito e costurar, bordar, fazer croche, trico, pintura em seda e afins.

Ontem estávamos juntas e ela saiu correndo. Tinha uma reunião do clubinho. Dei risada. De ternura. E porque lembrei de quando eu era criança e tinha um clubinho com minhas amigas que chamava Rainbow Bright e que tinha carteirinha e tudo mais.

As reuniões eram na escada do prédio, ou na garagem. Ali, bem escondidas, para não sermos notadas. Eu, Daniela e Elaine. Amigas inseparáveis, achando eterna a passagem das horas, naquele nosso oásis.

E de fato foram horas eternas, porque as levo comigo até hoje, como lembrança em forma de tinta fresca. Nossos olhares, discussões sérias, a respeito de que produto usar para lavar os bichos de pelúcia, ou tratados enormes sobre as regras “reais” da queimada.

Tempo em que eram estas minhas preocupações. Tempo de ser criança. Tá certo.

Agora passou. Vou seguir o exemplo da minha mãe a formar um clubinho pra discutir como se livrar da TPM e das dores de amor, por exemplo.

Quem quer?

Sexta-feira, Março 18, 2005

O despertar de Rosa

10 minutos para despertar. 12 para tomar banho. 08 para levantar as crianças. 15 para dar e tomar café da manhã. 18 levar as crianças para escola e chegar ao trabalho. 8 horas de trabalho. 42 minutos de almoço. 28 para o retorno para casa. 32 para conversar com a família. 13 trocar um carinho com o marido. 06 para pensar na vida antes de cair pregada no sono.
Ouviu mais uma vez o relógio despertar e, dessa vez sabia que era a ultima chamada. Levantou e começou a sua rotina. Os rodoviários resolveram fazer greve , e quando Rosa parou num engarrafamento, lembrou que já foi a favor das graves. Hoje ela não tinha mais tempo para ser a favor de nada, sorriu e pensou no tempo. Na verdade não tinha tempo. Preocupada pensando de onde ela vai subtrair os minutos que estava sendo perdido no maldito congestionamento. Tocou o celular, era a secretária do chefe avisando que ela já estava muito atrasada para reunião. O relógio enorme na sua frente fazia ela se sentir muito pior. As crianças já cansadas de ficarem tanto tempo presas dentro do carro, começaram a chorar e gritar. Rosa teve vontade de acompanhá-las, mas lembrou das técnicas que aprendeu no livro de auto-ajuda que tinha acabado de ler: Como controlar as emoções.
Alguma coisa entrou no seu olho e, ela que há muito tempo não dedicava a se olhar, teve que fazer. Quando olhou no espelho retrovisor, sentiu uma certa tristeza: quando se transformou nesta mulher grisalha? O restante do dia passou conforme os minutos já programados. Quando chegou em casa, 02 minutos atrasada, todos já estavam à mesa esperando para o jantar. Quando estava tomando banho, o marido que há muito tempo não dividia aquele cômodo da casa com ela, pediu para pegar alguma coisa. Rosa fingiu ter escutado o que era, e fez um hum, hum para não perder seus 25 minutos de banho (um pouco mais do que o da manhã), fechou o chuveiro e quando abriu a porta do Box o marido ainda estava lá, com uma cara que a muito tempo não via. Namoraram como há muito tempo não faziam e, quando estavam colocando a roupa par ir dormir, o marido de Rosa deu sorrisinho e disse – Já foi flor do campo, agora ta mais para tiririca do brejo. Você ta precisando malhar, deixa de ser preguiçosa.
Rosa nada falou, mas a vontade foi de matá-lo ali mesmo, a sangue frio. Lembrou das crianças e das técnicas de relaxamento.
Tentou dormir. Decidiu que daquele momento em diante faria tudo diferente. Acordou cedo, antes do despertador tocar, colocou uma roupa de ginástica e antes de sair deixou um bilhete para o marido:
- Meu amor, fui malhar. Quando levantar dê café para as crianças, confira se elas colocaram o material correto dentro da mochila e as leve para escola e não esqueça de buscá-las.
Só volto quando voltar a ser flor do campo.
Beijos com amor, Rosa.

Michele

Quinta-feira, Março 17, 2005

Arroz com feijão

E ela se lamentava, quando da menor referência de um amigo, parente, conhecido ou desconhecido a assunto correlato ou nem sempre, com sua voz de experiente no assunto:

- Não há nada pior para uma mãe do que ver um filho doente.

O problema agravara-se com o passar dos anos abatidos, não há como deixar de escrever aqui. Tão notório que a própria protagonista da história podia vê-lo na marca religiosa da balança: o menino estava, em seus 12 anos completos, pesando 28 quilos.
A condição de funcionária do Banco do Brasil com dez anos de casa permitia que ela, mediante determinados acertos com a chefia, almoçasse com o garotinho, mais um artifício para tentar contornar o agora já preocupante quadro. Também o levava e buscava na escola, até porque o menino, de tão leve, não tinha forças para levar seu material escolar sozinho. “Para que tantos livros, meu Deus? No meu tempo, não tinha nada disso!.” Estava pensando já em auxílio profissional, mas ainda relutava. Como era possível que seu carinho e amor de mãe não fossem suficientes?
Ocorre que seu filho único tinha sérias dificuldades alimentares. Dificuldades alimentares talvez seja um eufemismo, poder-se-á pensar ao conhecer o caso melhor, o que faremos dentro em breve. Digamos, então, que o rapazinho sofra de graves distúrbios psicológicos, talvez. Bem, deixemos de elucubrações e vamos direto aos fatos.
O problema oscilava de acordo com uma lógica não conhecida. Havia dias em que tudo transcorria bem e o garoto comia tanto que até passava mal – seu organismo enigmático não estava acostumado. Parecia querer aproveitar uma oportunidade. Em outros, mal se colocava a comida no prato e seus olhos eram de terror e asco, ao que seguia um choro convulsivo e horas de isolamento no quarto. Levava algum tempo para que ele desejasse comer novamente. A explicação não seria fácil. Digna de historinhas policiais pseudo-capciosas.
Certo dia, a pesarosa porém terna mãe perdeu o controle. Num desses episódios, agarrou o braço esquálido do filho e o segurou na mesa. Ele, todo pavor, gritava menos que ela. Lágrimas e berros, caos e cristais. A singela mesa de copa-cozinha da família média era sôfrega.

- São as baratas, mãe, são as baratas! No feijão!

Às vezes, o prato vinha servido da cozinha para o anexo onde o filho já estava sentado à mesa aguardando a comida. Dia sem dor. Noutros, geralmente nos de mais paciência e desejo de vencer a loucura, o repasto era cuidadosamente transportando das panelas para as melhores louças, as de enxoval, e posto na mesa esperançosa. Se o menino chegasse e seu prato estivesse pronto, certo. Caso contrário, menos um dia. Com os olhos revirados como quem sofre convulsão, o pobre vomita a explicação. Arroz no prato de vidro transparente, duas colheres. Concha de feijão derramando durante anos a fio as baratas por cima. Ao alcançar o prato, elas rapidamente se proliferavam e tomavam conta de toda a toalha florida, da ardósia do chão, do conjunto de saia e blusa de botão da mãe.

Em dois meses, Robertinho já ia sozinho para o colégio, as faces bem coradinhas. A mãe, contente, já até arrumara um namorado no trabalho. O discurso mudou:

- O que uma mãe não faz por um filho?

Depois da conversa definitiva que teve com as baratas, a vida de todos na casa clara da Tijuca era enfim uma vida normal.

Quarta-feira, Março 16, 2005

História de amor

Ela vai tomar um avião amanhã para viver com o seu amor. O amor dela não estava ali na esquina, não passou caminhando, não estava dançando numa boate. O amor dela estava bem longe, mas ela o achou. Numa tarde modorrenta, sem nada para fazer no escritório, ela encontrou o seu amor. Pela internet, numa sala de bate-papo, quem estaria batendo papo àquela hora? Ele estava e ela também. Em comum, tinham apenas a língua: ela falava o português do Brasil, ele o de Portugal. Mas o papo foi se tornando tão bom, tão bom, que se repetiu por vários dias, semanas, meses.
Ela atravessou o oceano pela primeira vez para abraçar o seu amor. O mais perto que haviam chegado eram conversas por telefone. Mesmo sem nunca terem se tocado, já eram íntimos. E ela soube que era mesmo o seu amor. Só que ela precisava voltar e ele devia ficar.
Mas, como se o amor não pudesse ser tão perfeito, eles tiveram dúvidas. Como se histórias assim fossem coisa mesmo de cinema, eles sentiram medo. E ela cruzou outro continente para tentar ficar longe dele. E tão distantes eles constataram que estariam sempre perto. Então ela venceu o oceano outra vez.
Ele fez o pedido, ela aceitou. Ele construiu uma casa lá, ela desfez a vida aqui. Amanhã, eles começam juntos outra vida lá. Eles já não têm dúvidas, nunca mais sentiram medo. Ela vai embarcar amanhã e ele a espera.

Terça-feira, Março 15, 2005

Pressentimento

"Tudo faz pressentimento
que esse é o tempo ansiado
de se ter felicidade"


(verso de "Pressentimento", de Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho)

Mudou-se para o apartamento da mãe assim que esta morreu. Trouxe seus próprios móveis, doando tudo o que estava dentro da casa para os irmãos. Manteve apenas o grande baú de jacarandá, velho feito trapo, do tempo dos bisavós. É que era bonito.

Não era feliz, nem triste. Já tinha se acostumado a apenas ser.

Dias depois começou a ouvir um barulho que vinha da direção do baú. Achou que estava ficando maluca. Naquela época os amigos trocavam receitas de remédios para a cabeça, será que ela iria para o mesmo caminho? O que teria lá dentro, ratos comendo um velho vestido de noiva? Traças se locupletando com bíblias tão antigas quanto são as crenças? Não, traça não faz barulho, era rato, rato, rato.

Numa noite, bateram na porta. Tão dentro dos pensamentos que esqueceu que existe ladrão e abriu sem olhar no olho-mágico. Vizinho novo, pedindo abridor de garrafa. Emprestou.

De manhã tomou coragem e girou a chave do baú. O barulho parou. Ficou com medo de levantar a tampa, como se rato fosse um bicho esperto o bastante para ficar quietinho só de ouvir barulho de chave girando.

Naquela noite, o vizinho devolveu o abridor, junto com seis margaridas.

De manhã abriu a tampa e quase cegou. Era luz, forte, forte, forte. Fechou rápido, vista escura como são escuros os segundos antes do desmaio.

De noite o vizinho veio e ficou.

De manhã, bem devagar para não acordá-lo, ela abriu de novo a tampa. Os olhos foram aos poucos se acostumando com aquela luz branca, fortíssima, quente.

Quando conseguiu olhar dentro do baú, sorriu.

Dentro do baú tinha um arco-íris.

Sexta-feira, Março 11, 2005

A tristeza de um adeus

Marmelada de banana /Bananada de goiaba /Goiabada de marmelo /Sítio do Pica-pau-amarelo Boneca de pano é gente /Sabugo de milho é gente //O sol nascente é tão belo /Sítio do Pica-pau-amarelo / Rios de prata piratas /Vôo sideral na mata /Universo paralelo /Sítio do Pica-pau-amarelo /No país da fantasia /Num estado de euforia /Cidade Polichinelo /Sítio do Pica-pau-amarelo

Quinta-feira, dia 10 de março de 2005, vai ficar na minha memória. Abro o jornal on-line e fico por uns segundos parada. Morre no Rio a atriz Zilka Sallaberry. Para os mais velhos, a Dona Benta. Essa noticia me levou para um tempo esquecido na minha memória. Fui parar na frente da Escola Municipal Barão do Amparo, aguardando o ônibus que me levaria à primeira aventura. Destino: O Sitio do pica pau Amarelo. Todos nervosos, eufóricos e até um pouco tensos. Eu não cansava de abrir a minha mochila que foi recheada de muito carinho com forma de biscoitos, bolo, sanduíches e refresco. Os momentos de espera foram uma eternidade. O ônibus ali parado e a gente ainda do lado de fora. Quando uma voz anunciou que era a hora de despedir dos nossos pais, porque já iríamos sair. Não consigo cumprir essa ordem, de tão apressada que eu estava para entrar, naquela que seria a primeira parte da historia. Fui para janela do ônibus, sonhando com tudo o que ainda iria acontecer. Olho o rosto da minha mãe a sorrir, compartilhando comigo toda aquela magia. A visita foi maravilhosa, durante muitos dias foi nosso assunto preferido. Fui parar também na sala do apartamento da Rua Pinto Teles, lá que foi palco de muitas brincadeiras entre eu e meus irmãos. Uma das nossas brincadeiras prediletas era teatrinho, depois de assistir ao programa que começava com um menino pegando um livro de Monteiro Lobato e começava a contar as aventuras de Pedrinho e Narizinho, de dona Benta e tia Anastácia, e da inteligente Emília, na nossa velha Telefunken. E era a nossa hora de interpretar os personagens, eu sempre era a Narizinho. Depois fui parar na comemoração do dia das mães. Eu ia dançar. Com um vestido e peruca de retalhos, feitos com muito amor pela minha mãe, lá estou eu toda serelepe. Minha mãe sorria e dizia – Você é a Emilia mais linda desta escola. Hoje ao lembrar de cada sorriso que dei, senti uma certa alegria. A morte a levou, mas sei que ela vai ficar para sempre nas paginas da minha vida. Obrigada Dona Benta.


(As palavras em itálico, é a letra da musica de abertura do programa infantil Sitio do Pica-Pau Amarelo – Letra Gilberto Gil)

Michele

Quarta-feira, Março 09, 2005

A escolha foi sua

A escolha foi sua. E, de repente, a liberdade virou prisão. Foi você que quis. E, agora, a independência é um fardo. Ninguém o impediu ou tolheu. E não há abrigo para se esconder. Você aceitou os riscos. Não sobrou ninguém para salvá-lo.
Para ser livre, você criou amarras. Para sustentar suas opções, você fechou contratos. Para não depender de ninguém, você assumiu compromissos.
E você não enxergou as grades que se erguiam à sua volta. Não notou que a cela ficava cada vez mais apertada. Nem que eram cada vez mais raras as vezes em que a chave estava na sua mão.
Então já havia um carcereiro na sua porta. E um livro de regras para você cumprir. Você tem direito a ficar calado. E sinta-se satisfeito por estar ali, por ter seu colchão, sua comida e seu uniforme.
Foi você quem escolheu. Ninguém o empurrou, você andou com seus pés, nunca precisou de guias. Você sabia o que era melhor, nunca precisou de conselhos.
Agora você se dá conta de que há uma sentença e uma pena, que você não foi informado de quando termina. E os muros são altos demais para serem vencidos. Ninguém vai defendê-lo, ninguém vai facilitar sua fuga.
Você esolheu e agora não tem escolha. Você se esqueceu das letras miúdas e assinou seu nome. Você jogou tudo o que tinha e hoje não tem mais o que apostar. Você acreditou e o futuro nunca veio.
Você não tem dúvidas de que é o único culpado. Você e só você vai carregar o peso. Você vai contar os dias. Foi você que quis assim.

Terça-feira, Março 08, 2005

Paixão

A estagiária do meu trabalho está apaixonada. O carinha faz Medicina na UFRJ e já veio aqui algumas vezes. Nem o achei grande coisa, mas a menina fala nele horas e horas. Que é o primeiro aluno da sala, que parece o Luciano Szafir (nada a ver, só os olhos), que sabe tocar violão. Ela tem só 20 anos e é sua primeira paixão. Outro dia ela perguntou:

- Eugênia, se você tivesse que escolher entre um cara que não namora há muitos anos e um que acabou um namoro de dois anos, você escolheria quem?

Tirei os olhos do processo que examinava e respondi, pacientemente:

- Com o segundo, Aline. Porque isso indica que o cara é capaz de ter relações estáveis...

- Pois eu preferiria o que não namora há um tempão. Antigamente não, mas agora eu bem que preferiria namorar um ex-galinha. É que o Pedro acabou um namoro de dois anos há pouco tempo e eu fico pensando se ele gosta de mim mais do que gostou dela...

Ontem, ela de novo:

- Eugênia, você leva a sua mãe ao cinema?

- Não, Aline, esqueceu que ela mora em Mato Grosso?

- Ih, é! É que o Pedro me disse ontem que ia levar a mãe ao cinema e eu achei estranho, você não acha também? Ai, eu tô com medo de ele ter ido me chifrar!

- Não tem nada de estranho, fofa. Se a minha mãe morasse aqui eu juro que a levaria ao cinema.

Hoje, porém, foi a gota d´água. Ela veio trazer um parecer para eu ler, mas, mal eu comecei, lá veio:

- Eugênia, você acha estranho o Pedro nunca dizer "eu te amo"? Em quatro meses de namoro?

Respirei fundo e respondi:

- Você já disse isso a ele?

- Não... Eu acho que o homem é que tem que dizer primeiro.

Aline, pelo visto, também lê a "Nova".

- Vai ver ele está justamente esperando você dizer antes, Aline.

Ela pensou, pensou e disse:

- Ai, Eugênia, eu amo o Pedro, mas às vezes eu penso em terminar...

Fiquei admirada:

- Ué, Aline, por quê?

Ela ficou sem-graça, mas respondeu:

- É que eu não agüento mais viver nesse desespero.

Domingo, Março 06, 2005

HELLena*

Quem dera fossem só as sensações de riso fácil. De alegria instantânea. De poder, autoconfiança, auto-estima elevada, bem-estar. Quem dera...

Vendo aquela garota, tão linda, tão inteligente, potencialmente brilhante, com os olhos verde oliva perdidos, o equilíbrio físico e total ameaçado, ou até mesmo arruinado, a falta de coerência nas palavras voltei pra casa sem saber o que sentir, o que pensar. Uma porção de porquês e de não-explicações.

Ela se perdeu de si mesma. Como muitos outros.
A droga é ganha pão de muitos.
É sistema de controle de uma porção perversa da humanidade.

É fuga fácil pra qualquer angústia porque leva pra longe, pro lado de fora onde não há sofrimento, sem deixar perceber que há dentro da gente um refúgio seguro, intacto, à espera de uma visita nossa. Sempre. Por pior que seja, por maior que seja a dor. Sempre.

Se a gente soubesse como usar, se a gente não se perdesse, se a gente não fosse dado à excessos, se a gente se conhecesse mais. Se a gente sofresse diferente.

Se a gente tivesse coragem.

Com os olhos rasos d’água me despedi dela, indiquei onde era o banheiro, que ela havia esquecido, entrei na sala de aula e chorei baixinho.

E se eu emprestasse pra ela um pouco de mim? Adianta?
E se ela se matar amanhã?
E se eu tentasse fazer alguma coisa?

E concluo que o caminho é dela, que cada um sente de um jeito, que cada um tolera de um jeito o que pode e deve tolerar, que cada um tem sua fatia nessa Torre de Babel que é a nossa existência.

E que é triste a vera se sentir impotente diante de uma situação dessas. Que é perturbadora a sensação de revolta com relação a tudo de mal que há pra se viver. Que não há nada que eu possa fazer.

Por ela, absolutamente nada.

*Porque ela gosta de ser chamada assim: HELL

Sexta-feira, Março 04, 2005

Chegar a algum lugar

Se o alvo não for fruto da ilusão, chegar a algum lugar faz a diferença. E quanta diferença, principalmente quando você sabe o alvo. Há quem passe pela vida, sem nunca ter tido um alvo. Para eu ter um alvo não é excêntrico e sim concêntrico. E não é preciso de nenhum livro de auto ajuda para saber que o alvo não está fora, mas dentro de você. E não é preciso deslocar o alvo para atingir o centro, basta conduzir a seta, treinar muito e executar bem o tiro.
Treinar muito pode ter significação especial para um recém-chegado.
Pode dar habilidade para desenvolver relacionamentos, para sobreviver ao primeiro choque e depois até ser feliz. Chegar a algum lugar é encontrar algo porque prosseguir e dar prosseguimento, isso porque tudo está sempre começando, recomeçando eterna e diferentemente: há esperança.
Jogar fora os excessos, desfazer as malas das lembranças, limpar a vida, dar espaço para o novo entrar.
Chegar a algum lugar com muitos conceitos na bagagem, representa a oportunidade de fazer algo que se temia e então humildemente dar de ombros pensando: como é simples!!
Basta começar a fazer. O único problema é esse: começar. Tem algo que nos prende no pé da mesa, alguns diriam o medo de não dar certo, outros a certeza do que se tem, mas o certo afirmar: é prossiga! Não deixe que os medos e as incertezas te prendam a onde você não quer.

Michele

Quarta-feira, Março 02, 2005

Língua mãe, língua casa

O meu idioma é a minha casa, o meu aconchego. É meu lugar seguro, onde estão guardadas todas as minhas lembranças.
A língua de que sou filha sabe bem da minha personalidade e reconhece o meu estilo em cada expressão. É uma mãe generosa, que sempre me presenteia com novas formas e que me deixa brincar com os seus pertences.
O idioma no qual eu aprendi a falar são os meus sonhos, o meu inconsciente. E também os meus desejos, os meus planos, as minha dúvidas. É no meu idioma que eu sinto e penso, que sou feliz e sofro, que quero ou repudio.
A língua que me pariu deu à luz também Pessoa, Drummond, Bandeira, Quintana, Vinícius, Leminski. Trouxe ao mundo Graciliano, Rachel, Machado, Rosa, Saramago, Lygia. Ensinou os primeiros passos a Chico, Caetano, Gil, Renato, Cazuza, Herbert. E é por ela que sou tão próxima deles para chamá-los sempre que preciso. Graças a ela, entre mim e eles há tanta intimidade que o entendimento é imediato.
O idioma que me criou nunca me abandona. Ele me mostra a palavra certa para cada momento, mesmo que seja um palavrão. Se não a tiver, deixa que eu crie uma nova. Ele compartilha comigo segredos intraduzíveis e tolera meus desvios.
A língua que eu trago na minha língua é puro prazer. É feita de ãos e ões que só pronuncia quem repete desde pequeno. É cheia de pessoas e tempos verbais, de concordâncias, de acentos. É meu orgulho e minha identidade. É minha.

Terça-feira, Março 01, 2005

Marte e Vênus, Vênus e Marte

Outro dia estava lendo a "Nova" (sim, claro que eu leio a "Nova") e a discussão era sobre homens que desaparecem depois de alguns dias. Dei várias risadas durante a matéria (haha, tô podendo, dá licença?) mas o que me impressionou foi como nós todos, homens e mulheres, somos babacas. Pô, olha só, tinha uma hora no debate (a matéria era um debate com homens e mulheres) em que o assunto era quem deveria ligar depois da primeira transa. Dos três homens da mesa, dois afirmaram que era a mulher. As mulheres, claro, ficaram chocadas, inclusive eu. Mas depois pensei bem e concluí: ué, por que TEM que ser um ou outro? Que diferença faz? Se foi ruim, não é melhor que ninguém ligue?

Outro momento interessante foi: como descobrir se o cara está mesmo a fim de você? Ou seja, que a coisa não vai parar naquele primeiro, segundo ou terceiro encontro? Uma das meninas se animou: "Eu sei! É quando ele começa a fazer planos, como ir juntos a um show próximo! Não é?" Eu ia concordar com essa linha de raciocínio, quando um dos rapazes jogou um balde de água fria: "Fazer planos no primeiro encontro pode ser só um jeito de conseguir transar com a garota."

Engraçado, também, como os homens nos surpreendem. A gente se acostumou a pensar e dizer que mulher se arruma para as outras mulheres e que homem não repara muito em roupa, e sim no recheio. Mas um dos caras foi taxativo ao dizer que a primeira coisa que repara numa mulher é se ela se veste bem, está com as unhas feitas e os cabelos tratados. E ainda disse achar horrível calça muito justa e muito corpo à mostra. Seria ele um metrossexual?

Um homem explicou que não telefona para uma menina que freqüente os mesmos ambientes que ele, já que irá reencontrá-la com facilidade. Caraca, o cúmulo do comodismo, não?! E se ele a encontrar, mas aos beijos com outro? Uma menina reclamou do fato: "eu tenho um vizinho que nunca me ligou, mas quando me encontra nas baladas chega cheio de gracinha... Nunca aceito ficar com ele!"

Uma coisa que não entendi, ou melhor, achei uma contradição: os três caras do debate juraram que não acham uma menina assanhada porque deu no primeiro encontro. Mas, logo depois, perguntados se existe uma "mulher para namorar e casar" e uma "mulher para uma noite só", foram unânimes em concordar que existe! Pode?!

Agora, uma parte bacana da matéria foi quando os meninos disseram o grande sinal de que estão realmente interessados numa garota: quando circulam com ela nos seus próprios ambientes. "Nenhum cara apresenta uma menina à sua turma ou a seus lugares favoritos, onde mantém interesses e até casos pendentes, se não estiver muito a fim dela." Bingo!