Quarta-feira, Abril 27, 2005

Aprender a chorar

Um dia eu vou aprender a chorar. Vou deitar na cama e verter lágrimas uma noite inteira e acordar com a cara inchada e a alma renovada. Um dia eu vou saber desfazer o nó na garganta e as lágrimas vão escorrer livres. Um dia eu vou me emocionar com filmes, shows, declarações de amor, histórias tristes.
Um dia eu vou saber transformar a angústia em uma crise de choro, vou até soluçar. Um dia eu vou chorar na frente de todo mundo e vão me oferecer lenços para secar o rosto. Um dia eu vou dizer, sim, que chorar é bom, que ajuda a desabafar.
Mas quem ensina? Tem gente que faz isso fácil, chora à toa. E não faz a menor questão de esconder. Tem gente que não tem a menor vergonha da voz embargada, do nariz e dos olhos vermelhos. Tem gente que até se orgulha, vive dizendo que chora até em comercial de margarina. Tem gente que nunca se contém.
A minha dor, porém, é sólida. Ela não se desfaz. Ela não se funde em líquido. É pedra que trava a voz, que fecha a glote. Tenho que engoli-la para voltar a respirar. Ela não sai pelos olhos, nem pela boca. Fica dentro de mim e de mim se alimenta.
A minha dor é discreta e nunca se mostra. Ela não transparece nem deixa sinal aparente. Ela só permite uma ou duas lágrimas, ainda assim se não tiver ninguém olhando. Depois ela seca.
Um dia eu vou aprender a chorar para dissolver a dor.

Segunda-feira, Abril 18, 2005

Recado à saudades

É de saudades que eu perco a cabeça, falo bobagenm.
Perco o rumo, esqueço a prosa doce de todo dia.
É de saudades que eu perco o sentido , faço esquisitice.

E te aflijo, me constranjo.
Me envergonho.
Apenas pela saudades tola.
Que interrompe o calmo fluxo do meu amor por você.

É de saudades que eu digo besteira, choro,
Encho o peito de aperto
E peço que nem criança que você venha me fazer carinho.

E faço bico e cara de brava.
Só por causa das saudades.

Agora, saudades, faça-me o favor:

Deixa eu amar o meu amor e não interrompe nossos planos,
Não bagunça nossa ordem
Que tá tudo bom demais.

Não é você que vai me tirar o sono
Que vai aboletar meu propósito
Que vai me fazer desperdiçar todo o empenho.

Eu posso te sentir de leve, te receber mansa,
Mas não me incomode!
Não me arrebate, nem me entristeça.

Vá prá longe de mim!

Ah! Só não se esqueça: Quando você voltar,
Ponha ele na bagagem e deixe na porta da minha casa.

Aos meus cuidados!

Quinta-feira, Abril 14, 2005

Alguma coisa está fora da odem!

Pois é, andamos meio bagunçadas. No geral. E o Dedos sofre.

Eu em especial sem inspiração para escrever algo publicável, mas heis que surge algo de que gostei. Compartilho. Fora do meu dia, mas na hora certa!

Meio ao meio

Desde muito jovens eles dividiam sonhos, ansiavam conquistas, partilhavam encantos. Desde sempre se quiseram de maneira bonita. Aos olhos dos amigos, sempre um casal feliz e cheio de vida.
Ela sempre arrumava tudo. A casa, a viagem do feriado, o edredom confortável pra cama no inverno, o bolo de chocolate do final das tardes de domingo. As flores da mesa da cozinha, sempre foi ela quem comprou. O sabonete cheiroso do banheiro, era ela quem escolhia.
O conforto das coisas práticas, o bem-estar da vida diária. Sempre ela.
Ele fazia bonecos. Máscaras. E usava todas. Se vestia todo dia de um novo personagem. Se maquiava de menino, de ingênuo, de bom moço. Sorria placidamente a todos na rua e atendia sempre cordialmente o telefone. Sempre solicito. Sempre muito bem-educado. Filho de família rica e de costumes nobres.
Ela sorria por fora e chorava por dentro baixinho. Porque ela ficou doente. Porque ela percebeu há muito tempo que não era feliz ao lado desse meio homem ao meio. E ele dissimulava. Sorria e vestia as máscaras que passava o dia a modelar no quartinho do fundo da casa do sonho dos dois.
E ela quis filhos. E ele não sabia nem sequer o real significado da palavra pai.
E ela quis saltos. E ele não sabia nem sequer o real significado da palavra ar.
E ela quis. Ela o quis. E ele nunca soube o real significado do nome dela. Nunca soube quem era ela de verdade. Nunca soube quem era a mulher que dormiu ao seu lado durante anos da sua vida.
Hoje ela foi embora. E chorou ao ver quebrado o vaso de flores de todos esses anos. As quais ela regou pacientemente, as quais ela cuidou carinhosamente. Chorou por medo da solidão, embora saiba que a solidão já a persegue há tempo.
E ele nem sequer deu um telefonema. Ele nem sequer sabe onde mora, onde está e o que é não tê-la mais em sua vida. Ele não sabe quem ele é. E não sabe pra onde ir.
Ela segue assim. Cambaleante. Trôpega. Frágil. Sozinha. E triste.

Uma das horas mais doloridas da vida da gente é quando a gente percebe que o momento de mudar é agora e que a gente acordou do sonho.

E desde então a casa de janelas cor-de-rosa da rua tranqüila, do bairro arborizado, é só silencio. Por dentro e por fora de cada um.

Sexta-feira, Abril 08, 2005

A outra

Rosa sempre desejou ser Margarida. Quando ainda era criança, como era muito engraçadinha, as pessoas na rua paravam para brincar com ela e a pergunta era infalível: “ - Qual seu nome?” A menininha respondia: “-Margarida” A mãe, sorria e apenas dizia “-O nome dela é Rosa”. Assim a menina foi crescendo, se apresentado como uma, sendo outra. A mãe que achava muita graça no inicio, com o passar do tempo começou a ficar preocupada. E depois de muito brigar, a filha não mais se apresentou com outro nome.
O que a mãe não sabia é que Rosa longe dos olhos de proteção da mãe assumia o nome que tanto gostava. E assim foi levando a vida, perto da Mãe: Rosa, longe: Margarida.
As duas eram diferentes na essência. Rosa era submissa, tranqüila e tímida. Margarida muito extrovertida, não aceitava a opinião de ninguém.
Rosa e Margarida só tinham a companhia uma da outra, ninguém conseguia entrar no mundo que só pertencia a elas.
Conheceram muitos homens: baixos, altos, magros, gordos, ricos e pobres, mas os namoros eram sempre de um período muito curto. Rosa odiava os namorados de Margarida e vice-versa.
A mãe de Rosa sempre muito preocupada com a solidão da filha tentava de todas as maneiras fazer com que a filha se arrumasse.
Os vizinhos a achavam estranha. Em alguns momentos ela passava e era educada, conversava com todos, sorria e jogava conversa fora. Em outros, não dava a mínima bola, resmungava das pessoas nas calçadas, saia batendo os portões.
Rosa/Margarida jamais se casaram, tinham uma a outra para passar o tempo.
Um dia Rosa que não era muito chegada a praia, mas cansada de passar a vida inteira discutindo com Margarida resolveu aceitar o convite e ir caminhar.
Margarida com um pouco de compaixão por Rosa aceitou sentar um pouco para descansar, foi então no meio daquele cenário que ambas viram uma criança encantadora e como poucas vezes tinha se visto, ambas concordaram em brincar com o menino. Sorriram para ele e perguntou o seu nome, o menino rapidamente como era normal naquela idade, respondeu: “-José” . A mãe do menino corrige: -“ o nome dele é Jorge, não sei de onde ele tira essas coisas”.
As duas sorriem. Elas sabem exatamente o que o menino sente.

Michele

Quarta-feira, Abril 06, 2005

Chacina

Corpos sangrando cheiram a carne de açougue. O odor de podre não vem nas primeiras horas, ainda é sangue fresco. Vendo apenas as mãos ou os pés, diria-se que eles estão só deitados, à toa. O esmalte nas unhas da moça, o tênis novo do rapaz. Os cabelos que fogem do saco plástico. Mas a morte tem seu odor.
Corpos sem vida viram entulho. São revirados, embrulhados, empilhados. Deixam o chão sujo. O sangue teima em marcar sua trajetória. E atraem expressões de nojo, de horror. Mais que dor, é pavor. A morte salta aos olhos.
Corpos aos montes deixam de ser pessoas mortas e viram chacina. Viram coletivo. São incluídos no mesmo pacote, amarrado com a mesma causa, o mesmo local, o mesmo tipo de arma, os mesmos suspeitos. Viram nomes numa lista. A adolescente que saiu de casa de roupa nova para encontrar o namorado, o menino que era avião do tráfico, o ladrãozinho, a jovem de calça colada, o homicida, o operário, o casal evangélico. A chacina de ontem, a de hoje. Dentro de uma kombi, ou largados no meio do mato, ou espalhados por um presídio, ou abandonados na rua, ou deixados numa favela. As histórias de vida sucumbem diante do cenário. A morte ensurdece os ouvidos
Corpos varados de balas, cruzados por facas ou pedaços de pau viram notícia. Viram enterros em série. A mãe da adolescente enamorada, a mulher do traficante, o pai do ladrãozinho, o marido da moça de calça colada, os irmãos do operário, os filhos do casal evangélico, todos são só parentes. E não faz mais diferença se elas gostavam da Sandy ou de bailes funk, se eles estavam sendo esperados em casa, quando foi comprado aquele tênis, por que o esmalte rosa, para onde estavam indo. A morte cala as vozes.
Corpos em caixões fechados, dispostos em capelas enfileiradas, são só vítimas. É só mais uma chacina.

Segunda-feira, Abril 04, 2005

Shhhh....

Sem computador, direto de um cyber café.
Sem vontade de nada
Sem inspiração
Sem sentido.

Por hoje, silêncio. Por favor!

Sexta-feira, Abril 01, 2005

Feitos um para o outro

Sempre sonhou em viver um grande amor, desses de filme mesmo. E por falar em filmes, todas as vezes que assistia um conto de fadas, saía da sala do cinema com os pés fora chão, imaginado o seu príncipe, encantado ou não. Com o passar dos anos, começou a chorar cada vez que assistia a um filme que o final era “e foram felizes para sempre”.
Cada vez que amanhecia é um dia a mais a contar da sua procura. O tempo insistia em passar e ela não conseguia encontrar o seu grande amor.
Mas no fundo sabia qual era o problema, ela é gaga. Era sempre assim, conhecia alguém muito interessante, ele agüentava por um tempo (no máximo 1 semana) e depois sumia, sem explicações.
Alguém consegue imaginar uma historia de amor, onde a mocinha corre para os braços do mocinho e fica a gaguejar para dizer “eu te amo”, ela também não.
No fundo já tinha se acostumado a não encontrar o seu príncipe, ficava com ele só nos pensamentos. Sonhava com ele toda noite e nos sonhos ele vinha ao seu encontro, montado num cavalo branco e, como nas cenas dos filmes, a puxava pela cintura, e os dois ficavam a galopar numa floresta encantada. Então ele parava o cavalo, descia e a puxando para junto dele, dava um enorme beijo. E quando ela começa a falar, as palavras saiam da sua boca sem gaguejar, como mágica.
De certa forma, os sonhos ajudavam a continuar na espera daquele que seria o seu grande amor.
Uma amiga telefonou convidando para uma festa da empresa em que trabalhava, e como meio de convencimento avisou que iriam muitas pessoas e que seria um meio de conhecer homens interessantes.
Lembrou de uma frase lida em algum livro de auto-ajuda: Faça a sua parte e o universo conspira a seu favor. Pegou todo o dinheiro que vinha economizando e entrou em uma loja que sempre passava na porta, mas nunca teve dinheiro para comprar nada. Foi ao salão e fez tudo o que tinha direito. E na hora marcada com amiga estava mais linda do que nunca. A noite foi seguindo e nada do príncipe aparecer. Diante dos seus olhos surge uma bandeja com bebidas que nunca se atrevera a beber, e já acostumada ao fato que não existia essa coisa de alma gêmeas, bebeu. No final da festa, já não era mais ela.
Resolveu ir embora, suas esperanças tinham indo embora na ultima vez que tinha ido ao banheiro.
Quando levantou o teto começou a rodar, seus pés não agüentaram o peso do corpo e mais rápido que pode pensar, desequilibrou.
Já no chão, envergonhada com tamanho vexame, tentou se levantar e viu um homem que gentilmente ajudou.
Olhos nos olhos. Parecia que no mundo só existia o dois, naquele exato momento tudo valeu a pena.
— Obrigada, acho que bebi demais, foi à única coisa que Rosa conseguiu dizer.
— Isso acontece. Carlos, ao se-se-seu dis-po-po-por

Michele