Fora da Casinha
Essa é uma expressão que eu trouxe comigo e que grudou mais do que chiclete morno na sola do tênis. Posso dizer que quase 100% das pessoas que a escutam a adotam. Inclusive ela já cruzou o Atlântico, indo parar na boca de um cliente italiano que mandou um e-mail de agradecimento por ter sido convidado para o churrasco da empresa. "provenivo fuori dalla casa picolla", dizia o e-mail, prontamente traduzido às gargalhadas pelo meu chefe, que ensinara a expressão a ele.
É uma expressão corrente no Rio Grande do Sul e eu nunca havia pensado muito nela até chegar aqui. Todo mundo pergunta "mas o que é estar fora da casinha?" e diante da explicação o rosto se ilumina e a o significado se torna claro, redondo, perfeito. Até a minha analista me pediu permissão para usar, "pois achou a expressão perfeita".
Certa vez, quando trabalhava numa pet shop para animais ricos e famosos, o entregador do dito estabelecimento me interpelou na escada e, diante do meu susto, me perguntou, matreiro: "iiih, tá fora da casinha, é?" Comecei a rir e perguntei de onde ele tinha tirado isso. Ele falou que tinha me escutado no celular. Levou ainda umas boas semanas até finalmente me perguntar o que significava, não sem antes me sacanear em diversas situações diferentes tentando matar a charada do que seria "estar fora da casinha". Quando soube, também passou a usar e disse que a muita gente gostou lá na Rocinha, onde ele mora.
O engraçado é que eu não era uma usuária das mais frequentes desta expressão. Lembro dela mas, como chimarrão, tomou um significado maior para mim depois que vim morar aqui. Da mesma forma que o mate só se tornou meu companheiro de todas as manhãs recentemente, "fora da casinha" virou uma de minhas marcas registradas pós-Rio de Janeiro. Não estar fora da casinha - apesar de muitos mencionarem "só para variar" ao me flagrar largando a casinha de mão - mas usar a expressão com frequencia.
Já houve, inclusive, o desdobramento da expressão por parte dos que comigo compartilham seu uso. Quem é muito chique não sai da casinha, sai da mansão. O bagaceiro sai do barraco. Quando se sai só um pouquinho, se chega apenas até a porta de vidro (do hall do prédio). Quando o estrago é grande, se sai do bairro, da cidade, do país e até do planeta - mas este último só é usado em casos extremos.
"Mas afinal de contas o que é sair da casinha?", os não-iniciados devem estar se perguntando. Respondo eu: sair da casinha é virar o pote, encher a cara, enfiar o pé na jaca, perder a linha, se esbaldar na água que passarinho não bebe, se afogar na manguaça, tomar um porre, ficar louco, enfim... embriagar-se. Convenhamos que não fica bem para uma moça dizer, ao fim da noite "ai, tô bêbada". Agora, se a mesma mocinha, candidamente declarar "ai, estou fora da casinha", mesmo após vomitar diante do pretendente, a coisa muda de figura. Fica uma coisa menos explícita - até porque os atos falam por si - e agressiva. Uma coisa, digamos assim, meiga.
Aos que não são chegados à essa prática, tudo bem: a expressão pode ser usada para os amigos que não estão nem aí e deixam as casinhas regularmente para dar uma arejada. Assim como eu.
Um brinde.
É uma expressão corrente no Rio Grande do Sul e eu nunca havia pensado muito nela até chegar aqui. Todo mundo pergunta "mas o que é estar fora da casinha?" e diante da explicação o rosto se ilumina e a o significado se torna claro, redondo, perfeito. Até a minha analista me pediu permissão para usar, "pois achou a expressão perfeita".
Certa vez, quando trabalhava numa pet shop para animais ricos e famosos, o entregador do dito estabelecimento me interpelou na escada e, diante do meu susto, me perguntou, matreiro: "iiih, tá fora da casinha, é?" Comecei a rir e perguntei de onde ele tinha tirado isso. Ele falou que tinha me escutado no celular. Levou ainda umas boas semanas até finalmente me perguntar o que significava, não sem antes me sacanear em diversas situações diferentes tentando matar a charada do que seria "estar fora da casinha". Quando soube, também passou a usar e disse que a muita gente gostou lá na Rocinha, onde ele mora.
O engraçado é que eu não era uma usuária das mais frequentes desta expressão. Lembro dela mas, como chimarrão, tomou um significado maior para mim depois que vim morar aqui. Da mesma forma que o mate só se tornou meu companheiro de todas as manhãs recentemente, "fora da casinha" virou uma de minhas marcas registradas pós-Rio de Janeiro. Não estar fora da casinha - apesar de muitos mencionarem "só para variar" ao me flagrar largando a casinha de mão - mas usar a expressão com frequencia.
Já houve, inclusive, o desdobramento da expressão por parte dos que comigo compartilham seu uso. Quem é muito chique não sai da casinha, sai da mansão. O bagaceiro sai do barraco. Quando se sai só um pouquinho, se chega apenas até a porta de vidro (do hall do prédio). Quando o estrago é grande, se sai do bairro, da cidade, do país e até do planeta - mas este último só é usado em casos extremos.
"Mas afinal de contas o que é sair da casinha?", os não-iniciados devem estar se perguntando. Respondo eu: sair da casinha é virar o pote, encher a cara, enfiar o pé na jaca, perder a linha, se esbaldar na água que passarinho não bebe, se afogar na manguaça, tomar um porre, ficar louco, enfim... embriagar-se. Convenhamos que não fica bem para uma moça dizer, ao fim da noite "ai, tô bêbada". Agora, se a mesma mocinha, candidamente declarar "ai, estou fora da casinha", mesmo após vomitar diante do pretendente, a coisa muda de figura. Fica uma coisa menos explícita - até porque os atos falam por si - e agressiva. Uma coisa, digamos assim, meiga.
Aos que não são chegados à essa prática, tudo bem: a expressão pode ser usada para os amigos que não estão nem aí e deixam as casinhas regularmente para dar uma arejada. Assim como eu.
Um brinde.

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