Sexta-feira, Outubro 27, 2006

Ele e o Espírito Natalino

Finais de outubro, novembro à beira de. Pra dezembro, um suspiro. E eis que ele já está por aí, para que os olhares mais atentos possam divisá-lo em meio à multidão, e para que os mais críticos e suscetíveis comecem desde já a serem molestados. Não é o espírito natalino o que mais me deixa transtornada, aquele que prevê que todos somos amigos, que as famílias se amam, que temos que doar roupas e brinquedos para aqueles que permanecem invisíveis durante onze meses e meio no ano. É o Papai Noel.

Dizem que eu sou frustrada, que não tive infância. Sim, acho que tive problemas na infância, é certo, mas não creio que tenha sido estes a causa da repulsão que sinto ao ver aquela figura com excesso de adiposidade toda vestida de vermelho. Vou tentar explicar, embora admita que para muitos o sonho, a fantasia, ou mesmo o tal do espírito natalino eu vá perder feio nessa.

Muito bem. Ele é um velhinho que mora no Pólo Norte e recebe cartinhas de todas as crianças do mundo em dezembro, e atende seus pedidos infantis com bolas, bonecas – ou hoje em dia Ipods, MP3 players, parafernálias de toda natureza que incrivelmente eu já não tenho idade para saber o nome. Bem coerente. É claro que o fator imaginação é parte constitutiva de toda criança, mas faça-me o favor. E quando ele não vem? Pegou engarrafamento? As renas (renas!) fizeram greve? O trenó (meu Deus, o que é, para nós, brasileiros, um trenó? Seria um bom meio de transporte alternativo ao consumo excessivo de energia oriunda do petróleo, e, conseqüentemente, uma boa solução para evitar o esgotamento dos recursos naturais do planeta?) quebrou? Ou ele é mesmo um cara mau, parcial, voluntarioso e capitalista, que só dá presentes para alguns, sob critérios que vão mais além daquele das boas notas no boletim?

Tem McDonald’s na Groenlândia? Pelo peso do bom velhinho, ele deve comer lá todos os dias. Não que eu esteja em meu peso ideal, veja bem. Nem que discrimine os mais
‘fofinhos’. Mas peralá. Obesidade mórbida é uma enfermidade grave.

Qual é a média de temperatura no Brasil em dezembro? Não raro chegamos aos quarenta graus aqui no Rio de Janeiro. E ele lá, com aquela roupa sufocante. Não avisaram que aqui não tem neve? Coitadinho.

E a barba branca? O famoso “Ho ho ho”? E o fato de que ele desce pela chaminé das casas (sua casa tem chaminé?)? Deixa pra lá.

Não tem jeito. Em todas as oportunidade que tiver, vou execrar essa criatura abominável importada de uma cultura alienígena que nada tem a ver com a nossa. Me desculpem os mais sensíveis por falar assim, cruamente (mas...): eu odeio o Papai Noel.