Quinta-feira, Agosto 31, 2006

"Um elefante incomoda muita gente..."

Os chatos estão em todo o lugar. Mas há pessoas que ultrapassam tanto o limite da chatice que acabam sendo queridos por isso. Não foram poucos os "chatos tâo chatos" que passaram pela minha vida (alguns permanecem).

O "chato tâo chato" é aquele que consegue te divertir e até agradar com sua chatice. Ele não é o que cutuca: ele é o que te finca o braço com o dedo até deixar roxo! E você acha engraçado! Se outra pessoa o fizer, leva um soco, mas não o seu amigo "chato tão chato". Ele fala alto e cospe, diz as maiores barbaridades sem ruborizar, te causando um constrangimento absurdo, mas a história é contada as gargalhadas mais tarde. Fosse outro... melhor nem pensar.

O "chato tão chato" conta sempre as mesmas piadas. Ele ri e bate nas costas do seu avô, que se engasga e é socorrido por quem? Pelo "chato tão chato", que ergue os braços da vítima enqunto profere "São Brás! São Brás!" ao mesmo tempo que tenta empurrar-lhe goela abaixo um copo d´água. Depois do susto, o avô agradece e conta por anos a fio a história do dia em que seu amigo o salvou de morrer engasgado ao rir de uma piada tão engraçada que quase causa uma tragédia. O "chato tão chato" causa a quase-tragédia e ainda sai como herói.

O "chato tão chato" canta "parabéns à você" a todo o momento no dia do seu aniversário. Você fica de saco cheio, mas também acha bonito o cara lembrar o dia todo que aquele é seu dia. Ele manda mensagem fonada com "Jesus Alegria dos Homens" tocando ao fundo e você se emociona. Ele te dá de presente um bibelô (ou camiseta) horroroso, mas com um tema bem específico que ele acha que você gosta - como sapos, por exemplo - e você acha legal ele ter pensado com carinho do que te dar ao invés de te dar um vale-CD (mais aproveitável, porém impessoal). Na verdade ele te deu um sapo cafona uma vez - lembrança de Miami - e você fingiu que gostou para não ferir os sentimentos. Agora você tem uma estante de sapos...

Ele adorou "Quem Mexeu no meu Queijo?" e te obriga a ler dizendo que esse livro mudou sua vida. E você lê. E acaba achando que tirou lições da leitura que nunca faria por conta própria.

O melhor de tudo é que o "chato tão chato" nem sonha que é chato. Ele inclusive comenta "fulaninho é chatinho, né?", franzindo o nariz e imitando alguma coisa que o fulaninho fez ou disse de forma infantilizada. Tem coisa mais chata do que isso? Mas o "chato tão chato" faz isso sem ser repreendido. Faz parte de sua personalidade e você aceita isso.

Chato por chato, todo mundo é, em maior ou menor grau. Mas se é para ser chato, vamos ser direito: não basta ser mala, tem que ser um conjunto completo Louis Vuitton.

Quarta-feira, Agosto 30, 2006

O Líbano em mim

Nunca fui ao Líbano, não sei uma palavra de árabe além de "hammus tahine" (pasta de grão de bico). A ascendência é de três gerações atrás, de bisavós maternos que imigraram no início do século. Com os parentes que lá ficaram, foi perdido o contato há muitos anos. Os sobrenomes, Calil Tanuss, minha avó não passou aos filhos. Mas o Líbano está em mim.
O Líbano está nos traços do meu rosto, nas sobrancelhas grossas e escuras. O Líbano está no meu corpo, de quadris largos, que uma tia irmã da minha avó chamava de "bunda de turca", brincando com a famosa rivalidade entre dois povos tão semelhantes.
O Líbano está no meu paladar, desde sempre acostumado a arroz com lentilhas, hammus tahine, quibe, tabule, folha de uva. O Líbano está na minha implicância com invenções em cima da comida árabe, como quibe de ricota, tabule sem trigo, hammus carregado no alho.
O Líbano está na minha infância, nas ruas de um Saara ainda cheio de "patrícios", esta talvez uma das primeiras palavras cujo significado tenha me intrigado, tão parecida com meu nome. O Líbano está nas minhas lembranças, de manhãs de sábado com a minha avó na Rua Senhor dos Passos, comprando tahine (óleo de gergelim) para fazer hammus, nas únicas lojas que vendiam o produto num Rio ainda sem Casas Pedro, voltando para casa carregadas de esfihas de carne e de verdura e de balas de goma.
O Líbano está na minha religiosidade, no recurso ao "Pai Nosso", à "Ave Maria", ao Credo e à "Salve Rainha" aprendidos ainda bem pequena com a minha avó, na primeira comunhão na Igreja Maronita, na Tijuca, que o meu bisavô ajudou a construir, erguida do orgulho de libaneses católicos que fugiram do Império Otomano muçulmano.
O Líbano está na minha história particular do Rio, dos sobrados do Centro onde meus bisavós abriram a loja de velas e criaram os filhos nos fundos. O Líbano está na minha geografia particular do mundo, da guerra civil que quis entender desde que entrei na escola, da reconstrução de Beirute que acompanhei pela imprensa.
O Líbano está hoje nos meus lamentos, na minha perplexidade diante da destruição daquilo que nunca vi de perto e possivelmente nunca veja, mas que, inexplicavelmente, faz parte de mim.

Terça-feira, Agosto 29, 2006

Das mentiras sinceras

Entrou no 464, Maracanã-Leblon, e sentou-se ao lado de uma velha. Sentiu-lhe o cheiro de carne antiga e ficou com nojo. Mansamente, a velhinha falou:

- Você também vai ficar velho, Carlos Alberto!

Assustado, olhou para a velha sem entender nada. Antes que pudesse esboçar um movimento, ela saltou do ônibus e desapareceu no turbilhão da Barata Ribeiro.

Começou a ficar paranóico. Cismou que as pessoas podiam ler seus pensamentos. A velha os lera – e ainda adivinhara seu nome! E agora? E se outras pessoas tivessem tal dom? Se a mulher tivesse, estava ferrado. Nos momentos de alcova, pensava ora nas carnes duras da vizinha adolescente, ora na dureza da vida de desempregado.

As entrevistas de emprego se tornaram uma tortura ainda maior do que já são. Enquanto lhe perguntavam sobre suas aptidões pelo cargo, Carlos cismava que o entrevistador sabia que era mentira que tinha noções de inglês.

Sua vida social ficou seriamente abalada. Nunca dantes imaginara que a vida social era, ela mesma, uma mentira. “Não, não tenho dinheiro para te emprestar...” “Seu filho é uma gracinha!” E se, com um simples olhar, o amigo adivinhasse a terrível verdade?

Meses depois do acontecido, tomava uma cerveja com o irmão mais novo no Amarelinho.
Contou-lhe seus temores, envergonhado. Júnior deu risada.

- Por isso que tu tá magro assim. Ninguém vive feliz se não puder mentir. Mas ninguém lê o pensamento dos outros não, pô. Eu aposto que a velha te conhecia.

- Não conhece! Juro! Nunca vi aquela velha na minha vida!

Júnior era policial civil e garantiu que iria investigar. Carlos, sem esperanças, nem na Polícia Civil nem em nada, respondeu que aguardaria.

Dias depois, atendeu ao telefonema do irmão. Recusou-se a falar por telefone, porque a mulher estava perto e ouviria, não suas palavras, mas seus pensamentos! Júnior, a contragosto, aceitou encontrá-lo no Amarelinho.

- Já descobri tudo – o policial foi logo dizendo ao se sentar. - A velha era essa aqui? - perguntou, jogando uma foto na mesa.

- Era! - exclamou o desempregado, exultante. - E aí? É alguma paranormal famosa?

- É a tia Aparecida, seu burro. Pensei em quantas velhinhas te conhecem e poderiam morar em Copa e lembrei dela. Tu não falou que ela saltou na Barata Ribeiro?

- Saltou, saltou, sim! Mas que tia é essa?

- É uma prima distante da nossa mãe, do Espírito Santo. Mudou agora para o Rio. Ela estava no último Natal. Você estava tão bêbado que não deve lembrar dela. Eu lembrei porque ela tinha um cheiro esquisito, mesmo, até comentei com a minha mulher depois da ceia. Com certeza ela te reconheceu e sacou pela sua cara que você achou a mesma coisa que eu – riu gostosamente.

Carlos Alberto respirou aliviado. Pagou os chopes e caminhou sem destino pelas ruas do Centro. O admirável mundo das mentiras, o único possível, se lhe abria de novo.

À noite, enquanto via novela com a mulher, suspirou pela vizinha das carnes duras.

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

Para um amor qualquer

Eu também tenho medo da vida. Medo de me entregar pra um amor por inteiro. Medo de sofrer a ausência e a dor das saudades de um amor morto. Eu também tenho medo de passar noites relembrando as coisas que a gente já viveu. E tenho medo inclusive que tudo acabe de repente e que eu me apaixone em uma esquina qualquer por alguém que não você. E que com você aconteça a mesma coisa.

Meu tempo tem sido de revolta. Tem sido de não querer entregar o amor que te tenho, de não achar que somos merecedores do sentimento que nutrimos. Meus dias tem sido, meu amor, de profunda reflexão acerca da vida, dos rumos que as coisas tomam, das escolhas e decisões que as pessoas fazem e da carga de alegria e magoa que tudo isso possa ter em cada vida que começa ou que acaba em um apartamento qualquer da zona sul.

E porque penso muito, às vezes acabo sentindo pouco e me deixando levar pelos castelos de mentira que a mente constrói, pelos cristais foscos que habitam os pensamentos tolos a respeito de nós dois.

E é te dando certeza e te dando carinho, que me sinto tranqüila. É me entregando aos poucos que me sinto feliz. Embora você não seja muito daquilo que eu sonhei pra mim um dia, aprendo a cada passo que o sonho é mesmo sonho e que a realidade e o amor por uma pessoa vão um pouco alem daquilo que a gente erroneamente espera e que o amor se aprende, se adquire. O demais é vicio.

E o cotidiano tem me dado surras, tem me mostrado os caminhos, tem me ensinado curvas e ruas sem saída. E o dia-a-dia às vezes dói. Mais ainda porque não tenho o seu abraço, porque não tenho o seu beijo e a sua voz sempre por perto e ainda mais também por saber que a solidão é condição sine qua non e que depois de se nascer só, o próximo passo é morrer. E morrer só. E tenho medo.

E minha alma se enche de pressa, meus dias correm sem pausa e eu me canso.

Canso de acreditar nos amigos, canso de inventar ideologias e filosofias para viver menos pior. Me canso de tentar entender a dor dos aflitos, o sofrimento dos abandonados. E me canso porque já entendi que a vida faz com a gente aquilo que a gente faz consigo mesmo e que não adianta se vitimizar nem fingir sofrer, nem esperar respostas, porque a força pra seguir adiante mora dentro do peito e cada um tem a sua e se quiser pode achar a saída através de um pequeno silencio.

È na chama de uma vela que eu sinto toda a força do fogo, no soar de uma nota que sinto o poder de uma canção dentro de mim. Como ecoam em cada canto as lembranças de tudo o que vivi e sou. Das coisas que sofri. Dos amores que deixei e que me deixaram. E como chorei por isso! E como doeu cada abandono, cada lagrima, cada ponto final.

E às vezes me esqueço das coisas que prometi pra mim mesma. Que me prometi não tocar naquele assunto, que me prometi te amar sem medo e sem pressa, que me prometi esperar e viver o máximo que eu puder ao seu lado, com a intensidade e pureza de um desabrochar. Esqueço que prometi te amar por inteiro, que prometi não me deixar levar pela sedução que me fascina e que se te tenho longe me é cara companheira. E logo sofro, e sinto a falta rasgando meu peito e logo choro e me confundo e não sei bem porque.

E então vem a certeza de estar amando confusa, de ter medo e dúvida e o mar se revira dentro. E como sói ser, depois de tudo vem a calma. E percebo, meu bem, que eu amo sim estar ao teu lado, que você tem sido companhia para os dias atribulados e para os serenos e que seu jeito ora doce ora rude tem sido força bruta para alguns importantes passos na minha estada no mundo e que os últimos traços desta minha vida ganharam mais um pouco de cor depois da sua chegada.

Amanso o peito. Tranqüilizo meus sentidos e repouso meu sexo na lembrança do seu toque, do seu jeito, do seu peso, do seu gosto.

E volto a te amar com força e desejo novamente vida em minhas veias e faço planos de cuidar da minha voz, de ouvir novas músicas pro meu repertorio, de pensar novas soluções para os meus problemas.

Seria hoje um dia feliz se não fosse a noticia do abandono estúpido que vem de longe. Seria hoje um dia feliz se pudesse dormir ao seu lado, com serenidade em seu peito. Seria hoje um dia feliz se eu ainda acreditasse nas verdades intocáveis da minha infância e adolescência. Mas virei adulta assim quase de repente. E insisti não perceber, mas não deu certo. A mulher que mora em mim rasga minha pele de menina, com a força das suas atitudes atropela meus brinquedos de criança.

E o desejo que sinto pelo meu homem, e o cheiro dele que me visita, e o mundo que me põe a prova a cada dia e a toda hora... Sou sim uma mulher recente, uma flor de primavera nova, com pétalas de quase luz.

E disso não tenho medo.

Talvez apenas disso.

p.s: Queridos leitores e pimentinhas, desculpem o atraso na postagem do texto. Cheguei do Rio correndo e com muita coisa pra fazer. Só consegui agora mesmo!

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

Qual é a sua cara?

Pense nos presentes que você ganhou no seu último aniversário. Ou nos anteriores. Desde os mais desejados até aquela lembrancinha dos colegas de trabalho ou da vizinha mais simpática. Possivelmente, te vieram à mente os mais representativos. Ou os mais sofríveis: de onde tiraram a idéia de que eu preciso de um par de meias brancas?

Estive pensando que, muito provavelmente, até os que aparentemente (ou de fato) foram comprados para um destinatário que não era sua pessoa, têm algum ponto de contato com algo que você deixa à mostra. Afinal, nossa identidade se constrói – inclusive – pelo que falamos, vestimos, levamos, trazemos, olhamos, calamos. E isso nós jogamos no mundo para misturar com tantas outras identidades e formar o mesmo mundo.

Por ocasião destes meus 27 anos incríveis, ganhei hoje uma caneta, presente da professora de Química. É uma caneta forrada com fita de cetim cor de rosa e uma rosa também cor de rosa, algo desproporcional de tão grande, feita de tecido. De tecido também as folhas verdes da florzinha. Quantos ganhariam um presentinho assim? Eu adorei. “É a sua cara”, todos dizem, unânimes. É, deve ser. Qual seria essa cara que eu mostro? A de moça delicada e feminina com algo de personalidade, pois não ousaria em usar sua caneta-flor. Livros, ganho sempre, em todos os aniversários. Obrigada, realmente sou uma boa e apaixonada leitora. Muitos são de poesia. Blusinhas, saias, sempre bem charmosos. Coisinhas para casa com toque ‘pessoal’ – ganhei duas canecas com o motivo ‘gatos’. Bombons – vamos entender como doçura e esquecer as calorias. CDs para a fundamental música na minha vida. Um exemplar de “Mulheres Alteradas” dispensando comentários. Um chaveiro de coração das alunas.

Essa devo ser eu. Sim, é uma parte de mim. Uma tradução, uma leitura feita pelos que me cercam. Me mostro essa, essa me lêem, essa eu sou, não total, mas muita. É a minha cara. E você, o que ganhou ou espera ganhar de aniversário?

Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Luz de freio nelas!

Eu já comentei com muita gente que tenho a intenção de mandar uma carta ao meu vereador pedindo que ele encaminhe um projeto de lei onde as velhinhas-de-copacaabana sejam obrigadas a instalar luz de freio na retaaguarda. Sob penalidade de multa.

Eu não estou discriminando os idosos, de forma alguma. Aliás, eu defendo os idosos pois acho um absurdo a forma como as pessoas mais velhas são geralmente tratadas por todos. Eu gosto e tenho muita paciência com os idosos da minha vida, sejam eles meus vizinhos ou minha vó (que, sem dúvida, é uma de minhas melhores amigas). Mas Copacabana tem a maior concentração de velhinhos por metro quadrado do mundo. Garanto que a densidadde demográfica acima das 65 primaveras é mais alta que a de Miami. Portanto eles são senhores das calçadas. E dos supermercados. E dos bancos – normalmente bem na hora do almoço.

Acho maravilhoso que todos ponham o nariz para fora de casa e vivam a vida, indo à praia, almoçando com ao amigos e jogando bingo como se não houvesse amanhã. Minha lei beneficiaria as pessoas que – como eu – andam na rua por motivos práticos e nem sempre podem acompanhar o ritmo de vida tranquilo destes habitantes de cabeça branca – ou acaju.

Não é de hoje que estou andando a caminho do trabalho ou de casa e trombo com uma velhinha de decidiu parar bruscamente no meio da calçada para olhar uma pomba ou simplesmente rever metnalmente a lista da feira. Eu já não sou a pessoa mais atenta do mundo então o fator-surpresa é fatal: pexada na certa. Canso de pedir desculpas – o que minimiza o embaraço da situação, mas não resolve a longo prazo.

Já prevejo o dia em que acabarei por me chocar com uma velhinha barraqueira que resolva me processar. Ou com uma que não aguente o tranco – apesar de serem velhinhas-de-copacabana que se exercitam no calçadão há sempre o risco de uma fratura ou mesmo de um “ferimento leve”.

Por isso, já desenvolvi até o protótipo do equipamento. Me baseei numa promoção do Nescau de muito tempo atrás, onde um dos prêmios era uma mochila com luz de freio que “funcionava de verdade” (nunca consegui descobrir como a gurizada ensinava a mochila a acender a luz quando o skate parava. Mas isso os cientistas irão resolver ao montar meu protótipo). N caso das velhinhas seria uma pochete fiinha, dessas de guardar dinheiro em viagem, que fica imperceptível son a roupa. Seria usada por cima, obviamente, e seria multiutilitária, contendo espaço para guardar o dinheiro da água-de-côco, os óculos de leitura, a chave de casa e o celular. Poderia ssr neutra, para ir da praia ao Bingo, ou mais fashion. A neutra seria distribuída gratuitamente na Caixa Econômica. Já a fashion poderia ser adquirida nas melhores casas do ramo.

Precisamos de um número xis de assinaturas para a aprovação de uma nova lei. Alguém está comgo?

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

Recomeços

É o fim. Não há mais como, não tem mais solução, não existe saída.
O fim de um ciclo, o fim de um tempo, o fim de um amor, o fim de um futuro, o fim de uma vida.
E se for um começo? Outra vez, outro dia, outra chance.
Talvez a dor jamais passe, mas novas alegrias a abafem.
Talvez o sofrimento não seja esquecido, mas venham motivos frescos de felicidade.
Talvez o vazio continue sem ser preenchido, mas cheguem tantas companhias que o façam menor.
Talvez os sonhos estejam mortos, mas seja possível planejar a realidade.
Talvez a esperança tenha mesmo se perdido, mas a vontade de acreditar ainda resista.
Talvez o tempo nada apague, mas traga outras histórias para serem escritas por cima.
Talvez não haja para onde ir, mas se abram caminhos na direção oposta.
Talvez a vida nunca tenha o mesmo sabor, mas se descubram gostos inusitados.
Talvez não fique igual, mas se torne diferente e fique bom.
Talvez você não volte a ser quem era, mas seja alguém que não sabia que poderia ser.
E se mais uma vez tiver um fim, que começe outro recomeço.
Mas talvez um recomeço não tenha mais fim.

Terça-feira, Agosto 22, 2006

Acordou com a tia feia mexendo no seu pé. O nome dela era complicado e a menina nunca lembrava.

- Acorda, meu amor. Hoje a gente vai ter que sair ra-pi-di-nho!

Esfregou os olhos, afastando os pedaços de sonho. Como um zumbi, deixou que a tia a arrumasse.

– Tia, você tá machucando o meu cabelo...
– Desculpa, meu amor, é que a gente está com tanta pressa hoje!

Do corpo da mulher saía um cheio enjoativo, daquele desodorante barato do frasco azul. Continuou a sentir dor, mas ficou quieta. Doía porque ela não gostava de pentear o cabelo ou ela não gostava porque doía?

(No lençol não ficara cabelo algum. Haha. Isso daria música. Pensou se haveria muitas ligações para celular na próxima conta.)

– Tia, eu não gosto de roupa preta...
– Boba, é chique, eu mesma fiz esse casaquinho pra você!

A tia conduziu a menina para a cozinha. Da sala vinham murmúrios de vozes.

– Porque a mãe não vem me dar café?
– Ela tá ocupada, tem visita na sala. Come meu amor, come que a gente tá com pressa, tá?

Viu que a tia molhava o pão no café e ficou com nojo. Não conseguiu comer o pão. O pai dizia que isso era coisa de pobre. O pai...

– Cadê meu pai?

(Levou um susto. A campainha! E agora? Se enrolou ainda mais no edredom. Era ele? Ou o porteiro? Tinha que ser o porteiro. Saco.)

– Oooolha...o seu pai virou uma estrelinha...

Ficou muda. Mais pelo inusitado da metáfora que por outra coisa. A tia deve ter entendido como choque e completou, rápida:
Você vai poder continuar a falar com ele sempre que você quiser!

– Ele morreu?

(É o porteiro na porta. Vai dizer que vai faltar água amanhã. A bomba pifou. Bem que eu ouvi um barulho. Foi isso que me acordou. Cobriu a cabeça com o edredom, como se isso fizesse a campainha parar de soar)

A tia a abraçou e disse que sim, que o pai tinha morrido, mas que a mãe ia cuidar dela e a tia e os avós também e no final das contas ele estava sofrendo muito, e que a gente sempre pode conversar com a estrelinha do céu, você escolhe a que você acha mais bonita e conversa com ela que vai ser igual a falar com o seu papai, tá?

(Levantou-se. Não ia mesmo conseguir dormir com aquela campainha horrorosa. Olhou pelo olho mágico. Era mesmo o porteiro).

– Dona Cláudia...
– Eu sei, Antônio, é a mudança daquele dia, né? Pode ficar tranqüilo, ele só levou o que era dele.
– É que...
– Ah, pois é, eu falei pra ele que não pode fazer mudança à noite, mas ele insistiu, se algum vizinho reclamar fala que eu não tive culpa, tá?

O porteiro continuava encarando-a, com ar de semi-retardo. Amassava nervosamente com as mãos calosas um boné de promoção.

- Han, o que é, Antônio?

– É que ele... ele voltou... ele tá na frente do prédio...

E essa agora. Voltou! Palhaçada!

– Tá. E você quer que eu faça o quê? Que eu chame a polícia pra ele sair da frente do prédio? A rua é pública, sabia?
– Dona Cláudia... É que... é que... ele voltou mas... mas...
O olhar da mulher foi tão fuzilante que ele se assustou e falou rápido:
- O carro pegou ele aqui em frente.

Eugenia

Segunda-feira, Agosto 21, 2006

Ao Tuti

Ele defendeu um amigo. Não entregou os parceiros em ideologia, não se rendeu às ameaças de um sistema doente e de uma classe de pobres de espírito loucos pelo poder. E morreu covardemente assassinado, torturado, rebaixado à condição de algo que não existe de tão desumano que é. E não só ele. Tuti foi um dos milhares homens que sofreram no poder pútrido dos capitães e generais de um Brasil equivocado, cheio de falsas pretensões e falsos ares de país democrático.

Quantos artistas e quantos jornalistas foram pegos, sem contar qualquer tipo de cidadão que defendesse algo que estivesse fora do padrão republicano americanóide imposto pelo perverso imperialismo?

Sem apologias aqui ao socialismo, comunismo ou o que for. Radicalismos sempre são demais.

Mas a crueldade, a farda hipócrita de homens doentes e impotentes, porque é isso que devem ser e que foram esse militares reacionários imbecis, isso sim precisa ser lembradio e sem direito à censura. Isso sim deve ser registrado, seja como for.

Porque eu sou uma mulher que faria o que Zuzu fez pelo seu filho. Porque eu sou uma mulher que escreve em seu blogue na internet o que pensa e porque eu sou uma mulher que muito provavelmente teria levado pau na época dos movimentos estudantis. E mesmo os menos ousados do que eu, mesmo os que foram impedidos de cantar o que pensavam, de pensar o que sentiam, de expressar o que feria. Mesmo assim, todos temos o direito à liberdade, o direito à viver e acreditar naquilo que nos dê na telha.

Ninguém tem nada a ver com o meu jeito de vestir, de falar, com o sexo que eu faço e com o gênero que escolho para tal nem muito menos com a ideologia que eu prego, acredito e baseio minha existência. Nenhum militar da puta que pariu pode julgar se o que eu digo e o que eu quero está sob os moldes do que ele pensa.

Todos tinham e ainda têm (os que sobraram ou nascemos depois dessa chacina porca) consciência daquilo que fazemos. E se não têm a vida ensina.

Deixem-nos viver em paz! Sejamos o que queiramos, digamos o que queiramos, cantemos o que queiramos, escrevamos o que queiramos. Ainda assim pelos que não estão mais aqui. Pra que pelo menos os Tutis do Brasil saibam que existe uma mulher como eu que em uma segunda-feira medíocre ainda pensa que vale a pena ser o que se quer.

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

Ele voltou!

Nosso blogue desapareceu a coisa de um ano e pouco misteriosamente. Fomos obrigadas a deixar de lado nossos escritos de repente, vítimas de um sumiço sinistro. eis que o blogue voltou. Que maravilha! Sinal dos deuses, modéstia a parte!

E agora? Vamos nessa?

Mariana emocionada