Quinta-feira, Setembro 28, 2006

Cat nap

Eu sou uma pessoa diurna. Acordo cedíssimo, mesmo em fim-de-semana ou feriado, adoro o sol da manhã e se dependesse de mim chegaria ao trabalho as sete para poder estar livre as três no máximo as quatro. Por volta dessa hora eu começo a olhar para o relógio no cantinho do computador torcendo para ele andar mais rápido e marcar logo o redentor seis. Quando trabalhava como guest relations num grande hotel eu pegava minha bicicleta as quinze para as seis, pedalava quarenta minutos pela orla, chegava as seis e meia, tomava um banho e aparecia quicando para mais um dia de labuta, enquanto meus colegas queriam me dar um tiro, para ver se eu me aquietava. Em compensação, quando outro grande hotel me colocou para trabalhar no horário das quatro a meia-noite eu queria morrer. Lá pelas oito, o segundo horário de maior movimento no room service - só perdendo para o café-da-manhã que, aliás, seria perfeito para mim - eu dormitava sobre os três telefones que deveriam ser atendidos ao mesmo tempo e ainda precisava lembrar das precárias lições de que-vinho-combina-com-o-quê dadas pelo maître, pois os hóspedes achavam que a atendente do outro lado da linha era uma enóloga-gourmet e não uma recém-formada em hotelaria que mal sabia o que a vida lhe reservava.

Hoje, depois de ralar nos mais diversos horários e em todos os feriados e fins-de-semana possíveis, trabalho num horário de gente normal, com folga sábados e domingos e feriados como é de direito (só não alcancei ainda o privilégio do enforcamento de dias pós-feriado, mas um dia eu chego lá). Mesmo começando a trabalhar as nove e morando a dez minutos a pé do escritório continuo acordando cedo por puro gosto. Acordar com o Djou me cutucando, dar comida aos gatos, preparar meu chimarrão e tomá-lo com calma enquanto leio um pouco ou assisto "Barrados no Baile" - sim, já é terceira vez que a temporada se repete, mas eu acompanho como se fosse inédita - para depois tomar um banho sem pressa enquanto o café é passado, são coisas que não tem preço para mim. Não vejo vantagem nenhuma em dormir até o último minuto para aproveitar o tempo e chegar esbaforida e de mau humor no escritório. Eu chego ótima, completamente acordada e já pronta para trabalhar.

É claro que há o outro lado: tenho sono cedo. Ultimamente tenho ido dormir lá pelas onze, mas até pouco tempo atrás antes das nove eu já estava no décimo sono. Nas primeiras semanas foi difícil ficar acordada durante a novela, mas agora já consigo começar a sono só lá pelas nove e meia e ir para a cama perto das onze. Me forcei a isso porque quem tem sono cedo sofre com as incompatibilidades de horários sociais: sair de casa depois da novela era um absurdo, enquanto outras pessoas me diziam que "nove horas da noite ainda é dia". O mesmo vale para a manhã seguinte: depois de quase trinta anos acordando cedo, mesmo de ressaca meu corpo não permanece dormindo até onze horas, meio-dia. Oito da manhã já é lucro. Daí a minha aversão a virar noites na rua. Chegar em casa com o sol raiando é um pesadelo, pois sei que meus olhos só vão fechar de novo quando o sol se pôr e eu terei um dia de zumbi.

Bom mesmo seria ser como os gatos: eles cochilam toda vez que têm vontade, nem que seja por cinco minutinhos. Somando todas essas "cat naps" - daí a expressão - eles chegam a dormir dezoito horas por dia!! Por isso estão sempre dispostos a tudo e conseguem brincar de madrugada como se fosse dia! Já pensou poder ir ao banheiro da empresa, dar uma dormidinha de cinco minutos e voltar renovado, sem que ninguém percebesse? Seria a solução para dias de noites pouco dormidas - como hoje. Ou na hora do almoço, depois de um sanduichinho, tirar um cochilinho de vinte minutos que dariam energia para a tarde toda? Sei que tem gente que consegue chegar perto disso, mas ainda não é o meu caso.

Portanto hoje eu fico é no café preto. Cada dia mais eu desejo voltar gato na próxima encarnação.

Quarta-feira, Setembro 27, 2006

Almas sebosas

Segundo o Wickidicionário, do Wickipedia, a expressão é um regionalismo recifense, que serve para denominar uma pessoa nociva à sociedade, como um ladrão, um estelionatário ou um estuprador. O verbete teria sido criado pelo matador pernambucano Helinho, o Pequeno Príncipe que dá nome ao filme “O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas”. Condenado a 99 anos de prisão por ter “justiçado” 65 bandidos, dizia ele: “Não suporto ver alma sebosa solta”.

Almas sebosas são espíritos rançosos, feito salgadinho velho. Têm aspecto ensebado, como cabelos escovados que ficam dias sem ser lavados para não estragar o penteado. Emanam o mesmo cheiro de gordura das barracas de x-tudo. São viscosas e escuras feito óleo de fritar pastel no fim da feira. Brilham de sebo igual a pele de adolescente cheio de espinhas.
São almas emplastradas, que pingam rastro por onde passam. Ensebam o caminho de quem cruzam, melam o chão, embaçam os vidros.
Há almas sebosas de vários tipos. Todas compartilham o prazer em estragar a alegria alheia e o gozo com o infortúnio dos outros – mesmo que não obtenham qualquer vantagem nisso. Existem as almas com seborréia, sempre oleosas. Algumas até desenvolvem caspa de tanto que produzem gordura. Outras se ensebam eventualmente, devido às condições climáticas ou àquilo de que se alimentam. Cada alma deste mundo provavelmente já se engordurou ao menos uma vez. A diferença é que umas almas correm para o banho, para eliminar logo o sebo, outras só acumulam ranço.
E quem nunca encarou um espírito ensebado? Como chefes, eles se satisfazem em empatar sua trajetória profissional para afirmar seu pequeno poder. Como amigos, só aparecem do seu lado quando você está mal, para oferecer o ombro, e somem quando você fica bem. Como conhecidos ou vizinhos, especulam sobre a sua vida para transformar tudo em fofoca. Como amores, não deixam você ter sucesso pessoal para não atrair atenções. Como ex-amores, impõem presença aonde você vá para emperrar qualquer tentativa sua de ser feliz com outra pessoa.
Ainda não se inventou repelente contra as almas sebosas. Ao identificá-las, resta sair de perto e depois jogar limpador multi-uso por onde elas andaram. E não custa sempre levar um xampu anti-oleosidade na bolsa, para a sua própria alma.

Terça-feira, Setembro 26, 2006

572

Maria Alice gostava de andar de ônibus. Pediatra bem-sucedida, moradora do manoeliano bairro do Leblon, ninguém entendia como ela poderia não só não ter carro, mas sequer gostar de dirigir. De segunda a sexta, ela pegava o ônibus na Praia do Flamengo, onde tinha consultório, e deixava os pensamentos fluírem, admirando ora a paisagem da orla, ora a fisionomia dos passageiros, ora a última edição da "Marie Claire".

Aos 41 anos, vivia cercada por três carinhosos labradores, uma infinidade de discos de jazz e vinhos bem escolhidos numa délicatessen perto de casa. Com o namorado dois anos mais velho, da mesma profissão, cumpria todos os sábados o ritual cinema-japonês-sexo. Descasados ambos, sem filhos ambos, não eram apaixonados, mas se davam bem. Paixão dá trabalho.

Numa quarta-feira qualquer, Maria Alice olhava pela janela do ônibus um labrador quando levou um susto. Um rapaz parou de andar na calçada e a encarou! Ela corou. Ruiva, e em boa forma física, achava-se bonitinha... mas não bela... não a ponto de chamar a atenção de um mancebo de no máximo vinte e cinco anos. Deu um sorrisinho sem-graça. Seria um ex-paciente?

O rapaz sorriu de volta e... embarcou no ônibus! MEU DEUS! "Isto é Impulse", pensou, atarantada. Olhou para trás - vai ver ele ia mesmo pegar o ônibus, eu é que estou viajando... Bem, fato é que o belo moço sentou-se ao lado da nossa pediatra. Seguiu-se o seguinte diálogo:

- Oi, tudo bem?

- Ahnn... Tudo...

- Cara, vi você na janela e te achei linda... Não resisti, preciso te conhecer!... Que ônibus é esse mesmo?

- É o 572... Glória/Leblon...

- Ah, tá. Nem reparei. Qual é seu nome?

Conversaram sem parar. Maria Alice até inventou que saltaria no ponto final, só para ficar mais tempo com ele. Thiago tinha 24 anos, era ator desempregado e havia acabado de chegar de Pernambuco. Descobriram afinidades - o prato preferido dele também era lasanha! Na hora de ir embora, trocaram telefones. Num impulso, ele a abraçou forte, durante um tempão. Maria Alice se apaixonou!

Horas depois, prestes a se deitar, não resistiu a cheirar o blazer para sentir se ali estaria o perfume de Thiago.

No blazer estava o cheiro do moço, mas não sua carteira.

Segunda-feira, Setembro 25, 2006

Anima

Estou estudando a obra do Chico Buarque na faculdade, em literatura brasileira. Já achei maravilhosa uma matéria com esse tema, uma eletiva com uma professora incrível; me inscrevi mais que rápido. E consegui vaga.
E ando me aprofundando na obra do gênio. E que gênio!
Esse final de semana assisti a um dos DVDs das quatro caixas lançadas com sua obra. E por coincidência (será?) escolhi o que tratava do feminino em sua obra.
A música tema do filme é À flor da Pele,(“o que será que me dá, que me bole por dentro, será que me dá/ que brota à flor da pele, será que me dá...”) e eu já tenho uma análise previa sobre e insisto em dizer que o que é que nos dá se chama amor, paixão.
E como ele fala do que ele entende pelo feminino: “- Quando uma pessoa faz algo não muito legal, é uma pessoa que não foi legal, mas quando é uma mulher.... Existe o feminino. A mulher tem seus motivos, ela é mulher, é sempre passível de perdão”.
Confesso que me tranqüilizei com essa declaração. Sim, eu sou mulher, tenho meus ataques de daminha, mulherzinha, tenho TPM, sangro uma vez por mês, fico de saco cheio de ter cólica e carregar compras do supermercado sozinha. E sou perdoável, porque sou mulher e o Chico disse que pode. Rá!
Bem superficial essa minha declaração, até acho que nada justifica nada, mas que me deu alivio em saber que existe um homem como o Chico que nos entende com essa magnitude, com essa generosidade, isso deu!
E me apaixonei um pouquinho mais por ele, pelo o que ele escreve, pelo o que ele é. Na aula a gente polemiza dizendo que a obra dele é elitista, intelectual, que não chega aos ouvidos mais necessitados de arte de categoria, mas em casa, num domingo frio, eu acho o cara um mestre, uma pessoa admirável, um ícone da nossa cultura.
Ainda bem que ele existe!
Vou lá ser bem feminina e já volto!

Sexta-feira, Setembro 22, 2006

Ônibus

Eu já passei muito tempo da minha vida dentro de um ônibus. Nasci na Abolição, onde morei até meus oito anos de idade. Desta época não tenho muitas lembranças minhas nos coletivos. Elas, na verdade, se restringem a remotas passagens na minha memória de idas ao “trabalho da minha mãe”. Um dia perguntei a uma tia onde era a Praça Xis-vê.
Fui morar em Jacarepaguá, mas foi por pouco tempo: alguns anos depois já nos mudávamos para a Vila da Penha. Por questões maritais e bem litigiosas da minha mãe, houve um hiato de tempo em que não havíamos saído do apartamento do Riocentro ainda, mas eu já tinha que estudar na Vila da Penha, para garantir minha vaga no colégio. Isso quer dizer que minha mãe me buscava todos os dias de lá para mais lá ainda. São lembranças fatigantes.
Logo chegou a adolescência. O segundo grau era numa escola em Vaz Lobo. Lá íamos nós no 928. Foi no ponto, esperando o ônibus pra voltar para casa, que beijei o Rafael e começou meu primeiro namoro sério.

Último ano do colégio concomitantemente com o estágio. Tinha que estar no Centro da cidade às duas da tarde. No começo, ia direto de Vaz Lobo; depois passava em casa para almoçar antes. De lá, saía às seis e, aquilo sim, era uma verdadeira maratona: fui apresentada à Avenida Brasil na hora do rush. Me lembro bem que a dita cuja estava em obras na época, o que fazia com que as viagens durassem não raro duas horas.

E assim, sucessivamente, tantas e tantas viagens de ônibus. Em pé, amassada, sentada (que sorte!), ouvindo fita no walk-man. Destaque para os tempos de UERJ, curso à noite, eu às dez voltando pra casa no 629 – também conhecido como ‘meia-vinte-e-morte’. Esse trajeto é um dos mais surreais que já tive de encarar, nunca vi passar por tanto lugar onde o bicho pega. Depois que saí do subúrbio, lugar delicioso mas cruel de se viver para quem não possui veículo automotivo próprio e tem uma vida minimamente agitada, jurei para mim mesma: Avenida Brasil nunca mais.

Ainda ando muito nos coletivos. Me orgulho de possuir vasta cultura acerca de linhas e trajetos. Adoro quando me consultam sobre que ônibus pegar para não-sei-onde e eu respondo na ponta da língua. Passo ainda muito tempo neles. Há dias em que tenho que fazer oito viagens, mais ou menos algo como casa-trabalho1-mestrado-reunião-trabalho2-trabalho3-casa. Dentro deles, eu leio, estudo, corrijo prova. Choro, canto sozinha, me meto onde não fui chamada. Durmo. Já passei mal e disse pra todo mundo que estava grávida, para as pessoas não me odiarem (muito). Vejo o mundo - outro dia vi uma casa de papelão que devia ter um ou dois metros quadrados, na Avenida Paulo de Frontin. Não tinha teto nem nada, mas tinha um espelho. Vejo a Enseada de Botafogo, que linda. Sinto raiva e amor pelos seres humanos. Conheço as gírias dos trocadores e motoristas, os códigos. Defendo velhinhas e estudantes com seus problemas com o Riocard. Acho uma sorte quando vem um com ar-condicionado ou um menos barulhento. Pra voltar pra casa do Pedro II, eu escolho: prefiro pegar o 157, no 158 já subiu uma barata no meu pé, e o 179 vai muito mais cheio. E quando a gente não quer? Aí vêm dois ou três daqueles difíceis, que não passam nunca quando se precisa.

Acho que posso dizer que vivo no ônibus - e nem acho tão ruim assim.

Quinta-feira, Setembro 21, 2006

Tipinhos Irritantes

É claro que eu também devo irritar muita gente por motivos que sequer imagino, por isso escrevo esse texto sem culpa. Sou chata sim, já até escrevi um dia desses sobre isso - o conjunto de malas Louis Vuitton citado ao final do texto era eu - mas existem pessoas que são ainda piores. E se uma dessas me pega num dia "edmundo" as chances de um ser humano a menos habitar a Terra aumentam.

Já me disseram que não é bom eu me mostrar assim, tão intransigente. Mas quem me conhece sabe que eu sou um pouco intolerante sim, mas não a ponto de me tornar intratável. Apenas sei o que quero e não pretendo me cercar de pessoas que exaltam meus ânimos - infelizmente de vez em quando é inevitável. Resolvi, portanto, fazer uma listinha dos meus "Top 5 Tipinhos Irritantes". Do menos ao mais, aqui vão eles:

5) Gente sem pressa no MEIO da calçada: é claro que também tenho os meus dias de passeio, mas eu sou civilizada e não bloqueio a calçada obrigando os transeuntes a formar uma fila em passo de procissão atrás de mim. Gente, a calçada é larga e seria muito mais lógico todos andarem sempre pela direita, como os carros - eu sei que isso é uma utopia, mas eu juro que ainda tenho esperança de encontrar um lugar onde pensem como eu e esse lugar definitivamente não é Copacabana. Tudo bem, se não dá para fazer isso, pelo menos vamos deixar um dos lados livres para que os outros possam ultrapassar sem que haja aquele desagradável roçar de braços.

4) Gente que fala alto, principalmente se for ao celular: sim, eu também as vezes preciso falar alto no celular. Mas para isso me retiro da mesa ou de onde quer que eu esteja e falo alto com meu interlocutor surdo ou com dificuldades para me entender. Quando se está tomando um chope com amigos ou sentado no ônibus, não é nada agradável ouvir uma pessoa falando de coisas que não te interessam em altos brados. Se os brados vierem acompanhados de perdigotos e/ou risadas histéricas o quadro se agrava ainda mais. Nesses casos, eu fecho os olhos e mando a pessoa para todos os lugares que se possa imaginar, não mudando jamais a minha fisionomia. Pode ser meu melhor amigo: se falar tão alto ao celular a ponto de encobrir meus pensamentos, será mandado para aquele lugar. Mesmo que nunca saiba disso.

3) Gente que quer mostrar serviço: esse é aquele tipinho que manda um email e te liga para perguntar se você recebeu. Ou ainda aquele que recebe um email para o qual você foi copiado e pergunta em alto e bom-tom: "fulano, viu o email que fulana mandou para mim e para você? Vou responder tá, não precisa se preocupar". Normalmente isso acontece duas horas depois que você já respondeu o email e o assunto está encerrado. E copiou esse cara aí. (no dia seguinte ele vai dizer, também em alto e bom-tom, que vocês dois responderam ao cliente e pedirá que você o copie da próxima vez. Nessa hora, quebrar um lápis ou amassar um clipe é a melhor solução para que um homicídio seja evitado). Há milhões de outras situações - como mexer em papéis sem parar quando o chefe passa do lado - mas essas duas citadas são as que mais me deixam louca.

2) Gente que fala de perto: tem coisa pior do que sentir o bafo alheio? Mesmo que não seja de onça, ninguém merece respirar ar já respirado, ainda mais de uma pessoa que não precisa ficar assim tão próxima. Eu não consigo ser discreta nessas situações e quando vejo já estou toda torta para o lado oposto e empurrando a pessoa para longe de mim com uma uma careta de desaprovação. Não consigo evitar, é mais forte do que eu.

1) Gente que adora uma conversinha fiada: conversar, bater papo, falar bobagem é uma coisa. Agora, falar qualquer coisa só para não ficar calado não dá para aguentar. Sabe aquela pessoa que fala sem pensar, mas fala qualquer coisa MESMO, só para não ficar de bico calado? Com essas pessoa seu faço testes, falando absurdos para ver o que vem de volta. Normalmente vem um absurdo ainda maior e quando eu confronto vem a respostinha "ah, é!" e fica por isso mesmo, como se a criatura não tivesse concordado com um absurdo do naipe "adoro matar cachorrinhos fofos". Esse mesmo tipo pessoa, a que não consegue manter os lábios selados por mais do que cinco segundos, também adora repetir a mesma sentença só mudando a posição das palavras, como por exemplo "ontem eu andei de bicicleta na Lagoa. Eu andei de bicicleta na Lagoa ontem! Sabe a Lagoa? Pois é fui lá andar de bicicleta, ontem..." Ah, e tem também aquele tipo de pessoa que pergunta uma coisa para a qual já sabe a resposta. Grrrrrrrr, já to ficando sem ar! Em boca fechada não entra mosca!!!

Ando mesmo meio Seu Saraiva, personagem do falecido Francisco Milani cujo bordão era "tolerância zero". Em breve, espero, os mantras entoados hão de me tornar uma pessoa mais serena e tolerante. Ommmmmmm...

Quarta-feira, Setembro 20, 2006

Eu quero ganhar na loteria

Tá, eu sei que todo mundo quer. Mas eu quero ganhar na loteria não é pra comprar uma tremenda casa ou um tremendo carro. Isso é secundário. Simplesmente quero parar de trabalhar.

A maioria das pessoas diz que não pararia de trabalhar se ganhasse na loteria, que a vida seria chata, que enjoaria logo de "não fazer nada".
Cara, não entendo. Pra mim é tão claro que tem tanta coisa boa a se fazer na vida... Na verdade, uma vida só é pouco para se fazer tudo o que se deve e que não é trabalhar. Por exemplo, uma vida é pouco para se conhecer tudo de música brasileira, sabia?

Nesse dias em que estou de férias, me convenci ainda mais de que o trabalho NÃO enobrece o homem. Pô, tá sendo tão legal... Viajei para Guapi-Mirim, tomei banho de cachoeira, dormi à tarde, fui ao Samba do Trabalhador (pra quem não sabe, é segunda à tarde...) Enfim, vivi!

Trabalho não é "a" vida, não tem que ser sinônimo de prazer, você não precisa ser amigo de quem trabalha. Trabalho é uma forma honesta de se ganhar a vida, só isso.

Eu não ia ficar "sem fazer nada". Iria à praia de tarde, tomaria um chope às seis, curtiria um samba à noite, dormiria até as 10... E ainda leria no Jardim Botânico, visitaria amigos que moram em Sepetiba e Niterói, meditaria sobre o futuro da humanidade.

Lotofácil ou Megasena?

Saudades de você, Didi*

Ela é ariana, é impulsiva e não costuma avaliar conseqüências.
Ela tem ascendente em capricórnio, trabalha muito e cumpre prazos.
Ela ganhou um apelido reduzido do nome, mas "Maluca" é seu principal codinome.
Seus pés são simpaticíssimos e sua voz é inconfundível.
Sua alimentação é à base de café, pastéis e chocolate.
Ela diz que o acaso a protege e anda sozinha de madrugada sem que nada lhe aconteça.
Ela é capaz de desmarcar um programa com os amigos dez minutos antes do combinado simplesmente porque perdeu a vontade.
Ela vai a uma festa com roupa de ir ao supermercado e ao supermercado com roupa de ir a uma festa.
Ela toma cachaça pura e dorme em boates.
Ela adora uma discussão, só para discordar de todos.
É dela o mais alto coeficiente de zoabilidade do planeta.
Ela já amou um alemão e, quando ele foi embora, tomou um porre e vomitou no meu gato.
Ela já pegou um argentino e não gostou.
Ela ama um australiano.
Ela acha que tudo é possível – e para ela parece ser.
Ela era conhecida como "a devassa de Paraty" e ficou um ano casta esperando por um homem.
Ela não crê que os terroristas do Egito nem que o frio do Nepal possam lhe fazer mal.
Ela não tem medo de correr o mundo – e, se não der certo, não terá medo de voltar.
Ela jura que a Austrália não é tão longe assim – e talvez não seja mesmo.

* Verso do samba-enredo "De bar em bar, Didi, um poeta" (União da Ilha, 1991)

Segunda-feira, Setembro 18, 2006

A árvore

Plantei semente. Reguei com adubo e paciência na terra mais tenra que existe. Superei as tempestades e chuvas mais violentas acreditando em ver o primeiro broto. E vi. Surgiu bonito e forte como nascem os de cuidado manso. E venci enchentes e tormentas sempre arando com carinho e persistência por acreditar que viriam flores.

E surgiram os galhos graúdos, as folhas verdes e veio o sol pra abrilhantar nosso recente pé de esperança. Nasceram flores de cor carmim e de felicidade.

Mas surgiram as primeiras doenças e cuidei de cada folha como se fossem filhos, remediando a cada dia com esmero e beleza cicatrizando as feridas de cada vinco. E sanaram muitas. As mais profundas deixaram marcas que logo ao ver o primeiro sorriso se suavizaram.

E hoje foi podado o galho mais nobre, a parte mais florida do nosso encantamento. Foi arrancado com violência o broto mais alto e lindo da nossa árvore.

Algumas flores caíram ao chão e choraram a seiva mais doce que puderam chorar. E gritaram, as lascas da madeira ferida, o grito mais intimo que alguém pode ouvir. O grito de uma dor tão imensa que em nenhum outro momento teve que expressar.

Estão sós: A árvore, o galho e as flores. Deitadas ao relento de uma terra fria, de um abandono lúgubre, de uma solidão sórdida.

Sentada perto da morte está a força de todo este tempo de dedicação e cuidado.

Haverá outra terra em outro jardim pra eu plantar nova semente?

Sexta-feira, Setembro 15, 2006

Está tudo bem, não aconteceu nada

“Ai, droga, aconteceu de novo. Vou ligar para a minha mãe e ver se amanhã vamos a um médico.” Pensei e, mesmo não querendo preocupá-la nem ocupá-la, rendi-me ao movimento que aprendi a fazer, agora que descobri que não sou sozinha no mundo. Com essa novidade nas mãos, já me questionei: e se eu não tivesse mãe? e os que não têm mãe? Talvez seja medo de perder o que agora, depois de adulta, ganhei.

Minha mãe não é mais a adolescente que me pariu. Aos quarenta e quatro anos, aprendeu também ela a amar os filhos. Bem a seu jeito, claro, afinal as pessoas são o que são. E ela é aquela de quem preciso e sempre precisei. A criancinha que guarda na caixa de fotos antigas seus olhos tristes.

Liguei para ela antes mesmo de chegar em casa, do ônibus, e, reconhecendo-lhe a voz diferente, quis saber, sem perguntar, se ela ainda estava nervosa como hoje no almoço ruim que era pra ser bom, mas que por conta de uma discussão com meu irmão foi indigesto para nós três mesmo antes do prato ser servido. Estava tudo bem, tudo bem, não tinha acontecido nada, graças a Deus, ela só estava na delegacia, eles levaram o carro dele, a gente estava voltando pra casa, queriam me levar junto, me empurraram para o banco de trás, eu consegui sair, apanhei muito, eles me bateram muito, mas eu consegui sair, graças a Deus, eles tinham escopetas, mas consegui sair com minha bolsa, ele com os documentos na carteira e os documentos do carro, eles me bateram tanto, só levaram minha mala da viagem de ontem com minhas coisas, estou aqui pensando se tem algum endereço meu lá, acho que eram só os terninhos e meus livros, carregador do celular, a conta de telefone que paguei hoje está na minha bolsa, ainda bem, estamos bem, não aconteceu nada, quando sair daqui te ligo com mais calma, vamos pra casa de táxi.

Não sei se eles têm mãe. Ela deve ter se lembrado de mim quando passava por apuros, também sabe que não pode me deixar sozinha agora, não agora. Sabe que estou me reestruturando e que não posso fazê-lo sem ter em quem me ajude. Logo essa semana, meu Deus, tão significativa, de tantos pequenos acontecimentos e decisões. Será que argumentou com eles? Será que disse que eu precisava de uma mão de mãe na minha, a mãozinha da criança melancólica que já nasceu com vergonha de estar viva? Eles sabem que agora essa criança está conquistando seu lugar ao mundo, aprendendo a caminhar, a resignificar a vida, com grandes possibilidades de ser mesmo feliz?

Se eles não sabem, vão ter que saber. Ou melhor, nunca vão saber.

Quinta-feira, Setembro 14, 2006

O anel que tu me deste

(queridos, desculpem pelo atraso de dois dias, fiquei enrolada!)

“Malandro é o pato, que nasce com o dedo grudado pra não usar aliança”.

Do amigo Henrique Rodrigues, 30 anos. Solteiro, claro.

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Já usei aliança. Tinha uns 18 anos e um namoradinho suburbano da mesma idade. Ele cismou de colocar um anel no meu dedo, tipo noivado. O namoro não durou nem quatro meses, mas a alegria que ele tinha de desfilar com o anelzinho me enterneceu. Ninguém nasce em Padre Miguel impunemente.

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Um professor contou a história da aliança. Nada romântica. É uma espécie de caução, o que a gente chama no Direito de arras. Você não dá um dinheiro de depósito, pra garantir que pagará o aluguel? Então, a raiz da aliança está nisso, na entrega de um bem para garantir o casório.

Esse mesmo professor disse que acha aliança brega. Ele foi noivo oito anos. Eu, hein. Brega é ficar noivo. Aliança é o de menos.

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Eu vi uma aliança diferente em Tambaba, paradisíaca praia no sul da Paraíba. Dois recém-casados. A aliança era uma tatuagem de um pássaro no ombro, igualzinha para os dois.

Bom, pelo menos era um pássaro. Outro dia vi uma garota com as costas nuas, e nelas estava escrito algo do tipo “Walmir e Fabielly, amor eterno”.

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Cara, você fazer uma tatuagem com o nome do namorado é muito amor. Ou maluquice. Ou é tudo a mesma coisa, sei lá.

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Diálogo numa repartição pública:

- O dr. Fulano é um gato!

- Ele é casado, fofa.

- Não é, não! Ele não usa aliança.

- É sim. É que ele tá no segundo casamento. No segundo casamento a gente não tem mais saco pra isso.

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Tem gente que jura que mulher adora cara com aliança. Um amigo falou: “quando quero pegar alguém, ponho uma aliança de noivado que comprei no camelô”. Eu, hein. Eu e minhas amigas sempre demos preferência aos solteiros – especialmente aos que sabem cantar sambas do João Nogueira.

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Outro dia, comentei com uma amiga que um menino tão novinho já usava aliança de casado. Mas ela deu risada e disse que aquilo era um single ring. O quê?

- Single ring. É uma moda nova que veio da Holanda. Uma aliança de solteiro...

- Ah, a aliança de compromisso, quando a gente tá namorando? Peraí, isso é antigo.

- Não, é uma aliança de solteiro mesmo. Quer dizer que você NÃO tá namorando.

Meu Deus! O que está acontecendo com o mundo? Agora você põe aliança pra dizer que NÃO está com ninguém? Pergunta óbvia: não é mais fácil NÃO usar aliança? Pergunta não tão óbvia: o que exatamente quer dizer a aliança? Que você está casado com a solteirice, ou seja, não quer nada sério? Ou a idéia é sinalizar que você está solteiro e sim, está em busca de alguém?

Outra coisa com as alianças cada vez mais diferentes de hoje em dia (de osso, de madeira...), já é difícil distingüir as alianças dos anéis comuns. E agora, então? Alguém sabe algo sobre esta moda?

A Holanda já teve idéias melhores.

Fora da Casinha

Essa é uma expressão que eu trouxe comigo e que grudou mais do que chiclete morno na sola do tênis. Posso dizer que quase 100% das pessoas que a escutam a adotam. Inclusive ela já cruzou o Atlântico, indo parar na boca de um cliente italiano que mandou um e-mail de agradecimento por ter sido convidado para o churrasco da empresa. "provenivo fuori dalla casa picolla", dizia o e-mail, prontamente traduzido às gargalhadas pelo meu chefe, que ensinara a expressão a ele.

É uma expressão corrente no Rio Grande do Sul e eu nunca havia pensado muito nela até chegar aqui. Todo mundo pergunta "mas o que é estar fora da casinha?" e diante da explicação o rosto se ilumina e a o significado se torna claro, redondo, perfeito. Até a minha analista me pediu permissão para usar, "pois achou a expressão perfeita".

Certa vez, quando trabalhava numa pet shop para animais ricos e famosos, o entregador do dito estabelecimento me interpelou na escada e, diante do meu susto, me perguntou, matreiro: "iiih, tá fora da casinha, é?" Comecei a rir e perguntei de onde ele tinha tirado isso. Ele falou que tinha me escutado no celular. Levou ainda umas boas semanas até finalmente me perguntar o que significava, não sem antes me sacanear em diversas situações diferentes tentando matar a charada do que seria "estar fora da casinha". Quando soube, também passou a usar e disse que a muita gente gostou lá na Rocinha, onde ele mora.

O engraçado é que eu não era uma usuária das mais frequentes desta expressão. Lembro dela mas, como chimarrão, tomou um significado maior para mim depois que vim morar aqui. Da mesma forma que o mate só se tornou meu companheiro de todas as manhãs recentemente, "fora da casinha" virou uma de minhas marcas registradas pós-Rio de Janeiro. Não estar fora da casinha - apesar de muitos mencionarem "só para variar" ao me flagrar largando a casinha de mão - mas usar a expressão com frequencia.

Já houve, inclusive, o desdobramento da expressão por parte dos que comigo compartilham seu uso. Quem é muito chique não sai da casinha, sai da mansão. O bagaceiro sai do barraco. Quando se sai só um pouquinho, se chega apenas até a porta de vidro (do hall do prédio). Quando o estrago é grande, se sai do bairro, da cidade, do país e até do planeta - mas este último só é usado em casos extremos.

"Mas afinal de contas o que é sair da casinha?", os não-iniciados devem estar se perguntando. Respondo eu: sair da casinha é virar o pote, encher a cara, enfiar o pé na jaca, perder a linha, se esbaldar na água que passarinho não bebe, se afogar na manguaça, tomar um porre, ficar louco, enfim... embriagar-se. Convenhamos que não fica bem para uma moça dizer, ao fim da noite "ai, tô bêbada". Agora, se a mesma mocinha, candidamente declarar "ai, estou fora da casinha", mesmo após vomitar diante do pretendente, a coisa muda de figura. Fica uma coisa menos explícita - até porque os atos falam por si - e agressiva. Uma coisa, digamos assim, meiga.

Aos que não são chegados à essa prática, tudo bem: a expressão pode ser usada para os amigos que não estão nem aí e deixam as casinhas regularmente para dar uma arejada. Assim como eu.

Um brinde.

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

Três mulheres

Rua Mem de Sá, quase esquina com Rua Frei Caneca, limites de Lapa, Cidade Nova e Estácio, Rio de Janeiro. Sexta-feira, mês de maio, ano de 2006, cerca de 21h, pouco mais de 20 graus. Três mulheres ganham ali o sustento.
Em trajes mínimos, esperam a clientela passar. Naquele trecho, não há bares ou casas noturnas, apenas sobrados abandonados e um solitário camelô de bebidas. A rua é escura e, àquela hora, são poucos os pedestres.
A mulher mais velha aparenta uns 40 anos de idade, tem os cabelos pintados de louro e, apesar dos quilos a mais, usa microssaia. Como se sentisse vergonha, esconde-se dos postes de luz e pára numa sombra. Fuma vários cigarros seguidos.
A mais nova não teria mais de 20 anos. Morena, cabelos pretos e compridos, bem magra. Seu figurino se compõe de um short bem curto e um top que cobre somente os seios. Sem medo, vai para o meio da rua se expôr para os carros.
A terceira das mulheres talvez beire os 25 anos. Pele branca, cabelo curto, corpo malhado. Veste saia e coturno e exibe um decote profundo. Escolhe a calçada no ponto mais iluminado e abre uma lata de cerveja.
Um homem se aproxima. Mulato, alto, forte. Parece conhecido da mulher de cabelo curto. Conversam, discutem, ele a segura pelo braço, ela se desvencilha. Ele sai de perto e vai falar com a mais velha. Vão embora juntos.
Pára uma Cherokee preta com película escura nos vidros. O motorista chama a morena por uma fresta. Em segundos, ela entra no carro, que sai em disparada.
Fica a mulher de cabelos curtos. Ela abre outra cerveja. Acende um cigarro. Anda de um lado a outro da calçada. E espera.

Segunda-feira, Setembro 11, 2006

PISA (Partido Individualista dos Sem Alternativa)

Há dias em que acordo tirana, na TPM principalmente. Há outros, nem tanto, que sou mais anarquista. Graças a Deus! Tenho uma birra declarada pelos regimes de direita e ultimamente também pelos da esquerda radical.

Tenho meu lado déspota, meu lado capitalista, minha parcela sindicalista e “justiça seja feita”, mas confesso que em tempos de eleição a confusão toma conta do meu governo interior.

Queria que todos tivessem direitos iguais, que as classes não existissem, que o acesso à tudo fosse de todos, que vivêssemos em paz com nossas conquistas materiais e que não fossemos forçados a aderir a este ou aquele recurso do sistema ao qual estamos condenados.

Fico furiosa em ter que pagar taxa prá tudo, imposto sobre tudo e ainda assim aderir às iniciativas privadas pra garantir um futuro decente, uma tranqüilidade talvez inócua.

Num arroubo ingênuo, desejo paz para todos, direitos iguais, desapego e estabilidade. Desejo que sejamos reconhecidos pelo nosso trabalho, que sejam nobres as causas pelas quais se luta diariamente.

Vivemos num tempo de exceções. Sempre há aquele que não cumpre, aquele que tem o egoísmo na testa, aquele que acha que no radicalismo, seja desde qualquer ponto de vista, está a solução.

Hoje li sobre a candidatura do Clodovil a deputado federal pelo PTC de São Paulo. Ao ser questionado com a máxima “Direita ou esquerda?”, ele lança ferino: “Ereto”.

Sim, senhor, também desejo algo de ereto na minha vida, não há dúvida disso, mas... Aonde vamos parar com toda essa ironia e despreparo evidente diante de uma pergunta dessas?

Eu talvez respondesse o mesmo, fico pensando.

Não sei mais pra que lado ir. Visito os sites dos candidatos, procuro por opiniões amigas e nada me convence a querer ser cidadã. Mas prá quê mesmo a gente precisa ser isso aí?

Desde que tirei meu CPF, abri minha conta no banco e pago meus impostos, tenho tido dor de cabeça, ânsia de vomito, nojo e nem sequer conto com um médico da rede pública capacitado em me atender em um lugar limpo, decente e eficiente. E os que não podem pagar por isso, meu Deus? E agora? Tento, muitas vezes em vão, ajudar a quem precisa, com alguma iniciativa da sociedade medianamente preocupada com os “sem oportunidade”.

E me perco sempre. Não me identifico, não me acho no meio dessa briga toda pelo poder e pelo “fazer bem”. Esse famoso catolicismo!

Fecho o jornal e reflito com um bocado de tristeza: O individualismo deveria se tornar uma maneira de governar o mundo.

Que merda!

E você, vai votar em quem?

Sexta-feira, Setembro 08, 2006

Cinemadalena

Disseram-lhe, quando criança, que tinha nome de mulher sofredora. Não sabe se acreditou ou não, mas jamais esqueceu a sentença.

Sua beleza era grotesca, de Almodóvar. Seus traços foram desenhados a giz de cera.

Sua expressão de todos os dias, fosca. Pouca luz, lúgubre. No Banco do Brasil, onde trabalhava, conheciam-na como 'morta-viva'. Cumpria rigorosamente seus deveres como se sua presença não se fizera.

No pequeno apartamento onde vivia, a mobília era escassa e funcional.

Quando dormia, tinha sonhos alegres. Comédias românticas. Roupas claras, maquiagem suave e narural, cabelos ao vento, sorrisos salgados de felicidade. Abraços e árvores. Sempre acordava com o rosto em brasas, coração afogueado. Madrugadas de outras vidas, disparatadas, não-suas.

O compromisso de sua alma era com sair do trabalho e colocar-se diante da tela. Ali exibia-se o sagrado de sua vida. Ação diária na semana, alguns filmes repetidos. Fins de semana geralmente atribulados, as histórias se sobrepunham.

Madalena tinha uma rotina de cinema.

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

On line

Meu computador de casa é uma relíquia e eu não tenho banda larga. Juntanto o valor de todas bugigangas que já comprei desde que herdei meu super Pentium (assim mesmo, Pentium puro) eu poderia comprar mais do que uma máquina super completa, mas confesso que não ligo muito para internet quando estou em casa. Já no escritório, a coisa é bem diferente...
A primeira coisa que faço ao chegar, antes mesmo de tirar a bolsa do ombro, é ligar meu super-power-mega computador, que tem até monitor LCD (lindíssimo!). Digito a senha, conecto no messenger, abro minha caixa de e-mails profissional e começo a selecionar o que é lixo, o que deve ser impresso, o que deve ser respondido imediatamente e o que deve ser lido mais tarde. Em dez minutos já estou na caixa pessoal, de onde vou para o Globo Online. Só então começo o trabalho pesado e básico que meu job description define para a minha função.
Nos dias em que chego e a internet está fora do ar a minha vontade é de girar nos calcanhares e voltar para casa. O que fazer num mercado globalizado como o meu sem internet? Hoje em dia falo pouquíssimo ao telefone, é tudo via messenger ou skype que, além de ser uma economia absurda, me permite xingar a vontade a pessoa do outro lado e ainda assim "soar" com uma polizez impecável (falo "soar" porque só me comunico escrevendo, para evitar que minha voz-edmundo assuste alguns clientes e fornecedores em momentos de tensão).
Mas a internet oferece uma infinidade de atividades que podem ser feitas no conforto de nossas cadeiras Giroflex e que vão muito além de mandar e receber emails. Eu usufruo de todas e de mais algumas, tais como:
+ Conversar com amigos: atividade básica para a sobrevivência de um ser humano entre as 09h00 e as 18h00. Uma excelente definição do messenger ( www.msn.com.br) é "boteco virtual". Nada como chorar as pitangas no ombro da amiga ou simplesmente jogar conversa fora enquanto mantemos o semblante sério de quem está compenetradíssimo em um complicado relatório. Viva o inventor das santas janelinhas que pulam do lado inferior direito da tela!
+ Aperfeiçoar conhecimentos gerais: pode ser a última fofoca sobre a gravidez da Britney Spears, fotos inéditas das filmagens de "Lost" com Rodrigo Santoro ou a vida de Hector Bonilha (o homem mais bonito do mundo, segundo declaração da Dona Florinda). A verdade é que o Google tudo sabe, o Google tudo vê ( www.google.com.br). Nos dias em que o tempo demooooora a passar eu lanço um assunto qualquer, clico em "estou com sorte" e leio o que aparece sobre o tema. Atividade educativa e interessante, além de ser excelente para apressar o ponteiro grande a se alinhar com o pequeno.
+ Comprar livros: o meu Visa que o diga... Minha superfaturada boleta do cartão de crédito chega a ser monótona: Submarino 01/03; Submarino 03/05; Submarino; Submarino 02/10 (ok, essa não é prestação de livro...); Submarino 02/02... Com alguns raros casos de E-bay (vide item abaixo), minha fatura de cartão é praticamente um anúncio desse site do mal ( www.submarino.com.br )
que, além de ter absolutamente de tudo, adivinha os meus desejos.
+ Participar de leilões no E-bay: depois que descobri o E-bay (www.e-bay.com), minha vida mudou. Itens que eu nem sonhava serem essenciais tornaram-se casos de vida ou morte. Foi assim quando perdi o leilão de uma Barbie Breakfast at Tiffany's: após quatro dias de lances constantes e unhas roídas, uma chinesa deu o lance final de quase o dobro do valor pedido pelo vendedor e arrematou meu tão sonhado objeto de desejo dois minutos antes do término do prazo. É claro que eu não pagaria o valor exorbitante que a moça pagou pela boneca, mas minha frustração foi tamanha que quase chorei sobre o teclado. Só não o fiz porque, teoricamente, eu estava trabalhando. Em compensação finalmente adquiri meu Ray Ban modelo aviador (tá bom, não era leilão, era só entrar e comprar... droga, eu não sei mesmo mentir). Continuo atrás de um gloss da MAC que sempre perco no último minuto. Competir por produtos supérfluos é tão viciante que pode, em casos extremos, se tornar um caminho sem volta.
+ Aprender receitas: tenho uma pastinha nos meus Favoritos onde há somente sites culinários. Alguns são bem trash - como o da TV Gazeta ( www.tvgazeta.com.br) e o Cyber Diet (www.cyberdiet.com.br)-, outros são fofos - como o Mixirica (http://mixirica.v6.com.br/) e o Cooking with the Monkey ( www.himonkey.net/cooking/index.html) - e há ainda os que são muito úteis e interessantes - como o Top Secret Recipes ( www.topsecretrecipes.com/home.asp) e o da Nigella Lawson (www.nigella.com). Fico horas escolhendo alguns quitutes para depois tentar reproduzir em casa. Copio e colo tudo num documento de Word, imprimo e depois passo a limpo no meu caderninho de receitas.
+ Rir até não poder mais: esse quesito fica basicamente a cargo do site das Garotas que dizem Ni (www.garotasquedizemni.com ), cujos textos me arrancam lágrimas de tanto rir e acabam me entregando. Não consigo manter minha cara-de-trabalho quando estou lendo os textos dessas meninas. Junto com elas há ainda alguns sites e blogues que não são bloqueados pelo firewall aqui da empresa, tais como o Pensar Enlouquece ( www.gardenal.org/inagaki), Serendipidade (www.serendipidade.com), Coluna Digital (www.colunadigital.com.br ), Mundo Perfeito (www.mundoperfeito.com.br) entre outros.
+ Ouvir música: essa é outra revolução na minha vida. Sou muito mais feliz depois que fui apresentada ao Pandora (www.pandora.com ). Lá basta colocar o nome de um artista ou música para que uma infinidade de músicas relacionadas toque infinitamente até que o computador seja desligado ou a conexão caia. O preço? Apenas um zip code dos USA (que eu roubei de um cliente) para a validação do cadastro. Eu já tenho um sem-número de rádios personalizadas, entre elas a do Paulinho da Viola, do Chico Buarque, da Billie Holiday, dos Beatles, do Elvis, Do Cole Porter... o mais estranho é que, não importa qual das rádios eu esteja ouvindo, sempre aparece a Beth Carvalho! Mistérios do mundo virtual... Ah, há também a rádio Trash80 ( www.trash80s.com.br/radio_tv_trash.php), que conta com clássicos como "Tumbalacatumba" da Vovó Mafalda e "A pipa do vovô" do Sílvio Santos, junto com as já batidas músicas de qualquer festa anos 80.
Como além de tudo isso ainda tenho que trabalhar, meu dia acaba sendo mesmo muito corrido. Afinal de contas, alguém tem que ganhar a ração dos felinos. Dia desses fui ao cartório e enquanto esperava a escrevente validar minha assinatura fiquei observando o Madureira, vizinho de mesa dela. Ele devia ter uns 70 anos, usava camisa aberta, calça jeans desbotada, mocassim e trabalhava diante de uma máquina de escrever e de um risque-e-rabisque. Fiquei tentando imaginar o que Madureira fazia durante as oito horas diárias que ficava ali no cartório... Pobre daquele que não tem acesso a esse portal mágico para o mundo.

Vicki

Quarta-feira, Setembro 06, 2006

Me ame

Me ame por todos os meus acertos, por tudo o que eu tenho de mais bonito e de mais cativante.
Me ame por todos os meus erros, pelo meu lado mais feio e mais repugnante.
Me ame pelo tanto que o faço feliz e me ame também pelo tanto que o incomodo.
Me ame pelo que, em mim, é para você espelho e casa.
Me ame pelo que lhe é oposto e estranho.
Me ame pelo que mostro de mais perfeito e me ame também pelos meus defeitos.
Me ame pelo meu sorriso e pela alegria que lhe provoco.
Me ame pelo meu pranto e pelas lágrimas que lhe causo.
Me ame pelo que o desperta e pelo que o faz adormecer.
Me ame pelas minhas conquistas e pelos meus fracassos.
Me ame pela minha força e pelas minhas fraquezas.
Me ame pelo que lhe trago de novo e pelo que o faço recordar.
Me ame pelo que falo e também pelo que calo.
Me ame pelo que lhe dou de conforto e pelo que o machuco.
Me ame pelas minhas palavras mais doces e pelas minhas piores ofensas.
Me ame pelo tanto que lhe faço ter orgulho e pelo tanto que lhe envergonho.
Me ame pelo que sou e pelo que nunca vou ser.

Terça-feira, Setembro 05, 2006

A lágrima é tão maldita*

Ontem eu vi um homem chorando. Eu estava no ônibus e ele se sentou no banco à minha frente. Encostou a cabeça no vidro e chorou.

Fiquei chocada. Faz tempo demais que não choro, e eu sou mulher, eu posso. Ah, não, não senhor. Não admiti que um homem, um HOMEM, fizesse isso no meu ônibus, o ônibus que eu pego todo dia, às quatro da tarde de uma tarde chuvosa, atrapalhando a minha viagem. Haha, o passatempo da minha viagem. Não consegui me concentrar mais no jornal. A palavra que me veio à mente foi estorvo. Eu desprezei aquele homem. Eu tenho que parar de ler no ônibus. O pai da minha amiga teve descolamento de retina por causa disso.

Ele tinha uns 35 anos, era mulato, usava um casaco azul-marinho de lã. Não chorava feito a gente, mulher: era um choro seco, sem soluços – um choro de homem. As lágrimas saíam e ele as enxugava meio que fingindo que limpava o nariz. Não tirava o rosto da janela. Disfarçava di-rei-ti-nho.

Fiquei pensando se ele descobriu que tinha câncer, Aids... Sei lá, ele podia ter acabado de receber o resultado de um exame... Homem que chora assim, num lugar público, a gente pensa logo em tragédia, né? Mas podia ser uma tragédia menor: chifre. “Homem que é homem não chora/quando a mulher vai embora”, cantava o samba antigo. O homem não era um homem.

Lembrei de uma falecida amiga que dizia: “nunca confie num homem que chora na sua frente”. Motivo? "Homem que chora pra você, um dia vai fazer VOCÊ chorar". Talvez fosse verdade, eu já chorei muito por um ex que um dia chorou na minha frente e eu tinha achado a coisa mais romântica do mundo na hora.

De repente nem era nada sério. Homem chora por coisa boba? A gente chora. Chora porque foi destratada pela vendedora. Chora de felicidade. Noivas sempre choram. Mas é de felicidade ou é de medo?

De repente ele é sensível, tá chorando porque vai ser papai... Ai, que saco. Tenho a mania de fazer isso: olhar para uma pessoa qualquer no ônibus ou numa sala de espera e imaginar seus dramas e alegrias. Aquela ali acabou de saber que está grávida. É solteira. Engravidou do namorado de um mês. Tira ou não tira? Aquele ali, com ar distraído, ganhou na loteria e calcula se precisará trabalhar de novo nesta vida. Vamos ver: se eu colocar no banco e conseguir um rendimento de R$ 10.000 por mês...

Eu já fui muito chorona. Sobretudo em filmes. Chorei até em “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, que é uma comédia, mas é que eu me identifiquei tanto com a personagem da Julia Roberts que eu fiquei tão triste de ela ficar sem o cara que ela gostava... Ele preferiu a sem-graça da Cameron Diaz. Ah, você não sabia do final? Sorry. Peraí, peraí que o homem parou de chorar. Olhou desconfiado pra trás, mas eu fui mais rápida e baixei os olhos para o jornal. A dor da gente não sai no jornal, alguém escreveu. Ele se virou para trás. Ai, meu Deus...

- Moça...

- Hanran? - pavor.

- A senhora tem um lenço de papel aí? Essa gripe...

- Claro, toma aqui.

Ele parou. Ufa. Agora posso chorar por dentro em paz.

*título retirado do samba-canção “Um favor”, de Lupicínio Rodrigues. Verso completo: “A lágrima é tão maldita/Que a pessoa mais bonita/cobre o rosto pra chorar”.

Segunda-feira, Setembro 04, 2006

Primavera fria

A Ximbica é uma cachorrinha linda, pretinha, vira-lata, cheia de personalidade e muito, muito feliz. Foi salva das mãos de um morador de rua violento pelo Cosme, que não aturou as pauladas.

O Cosme é um moço que cuida dos carros numa ruazinha onde eu paro o meu duas vezes por semana para dar aulas na empresa x. Ele é um homem do bem, e não sei por que nem como fomos ficando amigos. Eu chegava, ele vinha logo com a Ximbica me cumprimentar, me contar as últimas peripécias da sua cadelinha, que ela havia ido com ele até Osasco atrás da sua bicicleta, sempre companheira, sempre apaixonadamentre grata por ter sido liberta. Ele olha nos olhos, lá dentro, é inteligente, emocionalmente sábio.

E eu levava um ossinho num dia, uma tigelinha no outro, um cobertorzinho, dava receita de anti-pulgas natural e baratinho, falava um pouco das minhas experiências com meus gatos.... Vinte minutos de conversa e de uma cumplicidade secreta.

Um dia o Cosme apareceu com um olhar esquisito, com olheiras profundas e aparentemente cansado. Pensei logo em bebida. A Ximbica sempre lá, do lado dele.

Depois disso ele sumiu. E apareceu após algumas semanas dizendo ter estado gripado, de cama. Ele mora ali na rua de cima com a Élcia, a mulher dele, que eu conheço. Uma nortista arretada, maluca por um bingo e cheia de dignidade.

Mais algumas semanas de olhar estranho, cansado, triste, longe. Sempre respondendo que estava cansado, que havia trabalhado muito e essas desculpas ocas até o sumiço total. De vez.

Eu passava de carro na ruazinha só pra ver se os encontrava. E senti uma falta louca daquela festa toda, daquele pedacinho de dia de troca, de brincadeira, papo com um homem digno, honesto e do bem. Como o Cosme é do bem!

Terça-feira passada, frio de rachar a pele da alma, saio da aula, cheia de silêncio dentro e dobrando a esquina, ta lá o Cosme sem a Ximbica, arrastando uma perna:

- Estive internado. Quatro dias no HC. Tive convulsões, fiquei mal mesmo, quase morri. Tudo por causa do litro de pinga que eu tava bebendo por dia.

(Minha cara deve ter sido de espanto, horror ou dor, ou tudo ao mesmo tempo, sabe lá...)

- E a Ximbica, Cosme?

- Ta lá em casa com a minha mulher. Ela ficou triste! Agora fica deitada do meu lado toda hora, fazendo carinho em mim.

(Uma lágrima escorre pelo rosto daquele pedaço de humanidade exposta)

Ficamos quase uma hora conversando. Ele me contou como tinha sido tudo, que foi a pé até o hospital porque tava sem grana, que tremia muito, que teve medo de morrer. Me contou das cartas que recebera da mãe em tom de súplica, da visita às pressas da irmã lá de Minas, as vezes que ele tinha parado e as recaídas, as dores mais profundas. Me falou do desejo de melhora, da vontade e da força que precisa e não sabe onde achar. Me contou da dívida de R$ 100,00 que tem nas Casas Bahia e de que como está preocupado em saná-la. Disse até que tava rezando e chorou baixinho pra eu não perceber. Quisera mesmo não ter percebido.

O Cosme é um cara querido. Todo mundo na rua o ajuda dando roupas, carinho, trabalho, coisas para a Ximbica; todos estão engajados em fazer com que ele pare de beber. O moço do boteco disse que ele podia consumir o que quisesse, mas que álcool ele não lhe serviria mais. Ele precisa querer e sabe disso.

O frio da noite caindo, as lágrimas dele, meu coração rasgado, a rua deserta e uma certeza de falta de fé, tanto minha quanto dele. Renovamos esse pacto, os dois, cúmplices.

Na quinta-feira levei um cachecol pro Cosme. Ele tava lá, um pouco mais forte, separando alumínio do lixo da esquina, ocupando a mente e pensando em sabe lá o quê. Disse que terça-feira leva a Ximbica pra eu ver.

Cada um com seus pensamentos e encontros. Cada um com sua história, voltei pensando e sentindo a esperança que talvez tivesse já esquecido que se pode sentir.

Enquanto isso eu fico aqui separando as pedras do meu caminho, pra poder plantar flores em breve e sempre mais uma vez.

Sexta-feira, Setembro 01, 2006

Da divisão do tempo

Sonolenta – como sempre pela manhã – ouvi no prestativo rádio-relógio: “Sexta-feira, primeiro de setembro. Em Brasília, oito horas”. Foi quando me dei conta que o agosto conturbado desse ano havia ficado pra trás. O tempo frio continua como nesses dias anteriores, a preguiça de sair da cama é a mesma . Mas veja bem, é setembro. É um primeiro dia. Que seria de nós se não houvesse primeiros dias?

O primeiro dia do ano. Nem bem chega, já é recebido com festa e exigências. Que esse ano seja melhor do que o passado. Que eu consiga isso ou aquilo. Que tudo se realize no ano que vai nascer. As primeiras horas de um dia, sempre dispostas a mostrar que o tempo se renova - de maneira fictícia, que seja – que é tempo de recomeçar. Refazer, reconstruir, prosseguir. Viver, enfim. Faz dez anos, faz vinte anos, faz uma semana que se nasceu, morreu, deixou de fumar, que a vida mudou em determinado dia. E assim vamos somando e renovando entre dias e vidas nos dias. Colocando mais um pedaço de existência na história da nossa existência. Aos poucos, cada dia, cada ano, cada mês ou semana. Tempo de falar, tempo de calar, de rir e de chorar, divididos para serem dominados e para que se tornem compreensíveis a nós.

E porque estou me sentindo muito bem no primeiro dia deste mês, e estou dançando pela casa e ouvindo Chet Baker, e planejando um fim de semana bom, produtivo, tranqüilo e divertido, é que recebo esta nova vida que setembro hoje me traz com suspiros de novas perspectivas.