Sexta-feira, Outubro 27, 2006

Ele e o Espírito Natalino

Finais de outubro, novembro à beira de. Pra dezembro, um suspiro. E eis que ele já está por aí, para que os olhares mais atentos possam divisá-lo em meio à multidão, e para que os mais críticos e suscetíveis comecem desde já a serem molestados. Não é o espírito natalino o que mais me deixa transtornada, aquele que prevê que todos somos amigos, que as famílias se amam, que temos que doar roupas e brinquedos para aqueles que permanecem invisíveis durante onze meses e meio no ano. É o Papai Noel.

Dizem que eu sou frustrada, que não tive infância. Sim, acho que tive problemas na infância, é certo, mas não creio que tenha sido estes a causa da repulsão que sinto ao ver aquela figura com excesso de adiposidade toda vestida de vermelho. Vou tentar explicar, embora admita que para muitos o sonho, a fantasia, ou mesmo o tal do espírito natalino eu vá perder feio nessa.

Muito bem. Ele é um velhinho que mora no Pólo Norte e recebe cartinhas de todas as crianças do mundo em dezembro, e atende seus pedidos infantis com bolas, bonecas – ou hoje em dia Ipods, MP3 players, parafernálias de toda natureza que incrivelmente eu já não tenho idade para saber o nome. Bem coerente. É claro que o fator imaginação é parte constitutiva de toda criança, mas faça-me o favor. E quando ele não vem? Pegou engarrafamento? As renas (renas!) fizeram greve? O trenó (meu Deus, o que é, para nós, brasileiros, um trenó? Seria um bom meio de transporte alternativo ao consumo excessivo de energia oriunda do petróleo, e, conseqüentemente, uma boa solução para evitar o esgotamento dos recursos naturais do planeta?) quebrou? Ou ele é mesmo um cara mau, parcial, voluntarioso e capitalista, que só dá presentes para alguns, sob critérios que vão mais além daquele das boas notas no boletim?

Tem McDonald’s na Groenlândia? Pelo peso do bom velhinho, ele deve comer lá todos os dias. Não que eu esteja em meu peso ideal, veja bem. Nem que discrimine os mais
‘fofinhos’. Mas peralá. Obesidade mórbida é uma enfermidade grave.

Qual é a média de temperatura no Brasil em dezembro? Não raro chegamos aos quarenta graus aqui no Rio de Janeiro. E ele lá, com aquela roupa sufocante. Não avisaram que aqui não tem neve? Coitadinho.

E a barba branca? O famoso “Ho ho ho”? E o fato de que ele desce pela chaminé das casas (sua casa tem chaminé?)? Deixa pra lá.

Não tem jeito. Em todas as oportunidade que tiver, vou execrar essa criatura abominável importada de uma cultura alienígena que nada tem a ver com a nossa. Me desculpem os mais sensíveis por falar assim, cruamente (mas...): eu odeio o Papai Noel.

Quarta-feira, Outubro 25, 2006

Escrevo

Escrevo porque preciso. Desde sempre, desde que me dei conta de que sou gente.
Escrevo porque minhas mãos pedem, meu cérebro manda, meu coração suplica.
Escrevo porque os textos se criam mesmo contra a minha vontade. Em todas e diferentes situações.
Escrevo porque me sufoca a dor, porque me transborda a alegria, porque me inquieta a angústia. Escrevo porque as letras dizem o que não sei falar. Sobre todos os assuntos.
Escrevo porque é profissão, porque me traz o sustento.
Escrevo porque é terapia, porque me organiza a alma.
Escrevo porque é lazer, porque as palavras me divertem.
Escrevo porque é vaidade, porque me vejo aos olhos do mundo. Todo dia ou tudo num só dia. Escrevo porque me revela, porque me mostro nas entrelinhas.
Escrevo porque me esconde, porque me cubro com as figuras de linguagem.
Escrevo por prazer ou por pressão.
Escrevo com felicidade ou com sofrimento.
Escrevo com facilidade ou com trabalho.
Escrevo o que gosto e o que detesto.
Escrevo por tudo que já li e por tudo que ainda vou ler.
Escrevo pelo que já vivi e pelo que ainda vou viver. Ontem, hoje, amanhã.
Escrevo.

Terça-feira, Outubro 24, 2006

Em apoio a Daniella Cicarelli

Às vezes penso tão diferente do resto do mundo que acho que sou doida. Ou o mundo é que está doido? Não consigo achar divertida essa história da transa da Daniella Cicarelli na praia. E acho que ela deve estar sofrendo à beça, mesmo tendo aparecido na MTV rindo do ocorrido. Você gostaria que o mundo todo te visse transando com o (a) seu (sua) namorado (a)? Olha, deve ter gente que gosta, mas é zero vírgula sei lá por cento. A maioria quer que esses momentos fiquem só entre o casal. Claro!

Agora a garota entra num restaurante e o garçom faz aquela cara: “eu vi, tá?” Vai ao cinema e o bilheteiro grita (com o pensamento, claro): “Eu vi, tá?” A faxineira nova, com aquele sorrisinho subserviente, faz aquele olhar de “eu vi, tá?”

Fico imaginando a Daniella olhando na cara do pai dela e me vejo olhando na cara do meu pai. E minha mãe? Minhas tias lá de Cuiabá, minha avozinha de oitenta e poucos anos? Meu irmão mais novo? O porteiro do meu prédio? Meu chefe? O ascensorista do meu trabalho? Cruuuzes! Ah, gente, tenha dó. Coitada da mulher!

Pra piorar, essa história toda veio acompanhada de muita hipocrisia. Ah, quem nunca fez algo parecido num carro, num elevador...?

O fato de a garota aparecer direto em revistas e casar com um cara famoso não quer dizer que ela tenha que ter a vida privada dela devassada de forma tão desumana por um fotógrafo, o qual utilizou-se de meios os mais pífios possíveis para a filmagem.

Então é isso, gente. A Dani, meu apoio.

Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Do lado esquerdo do peito

Eu sou adepta das camisetas fofas e engraçadas. Amo, tenho várias. De filmes, com o gato Félix maquiado como o Kiss, com a estampa de saco de padaria ("Feito com Amor"), da Mulher Maravilha, a clássica "como é bom ter amigos"... Todas elas fazem sentido para mim. Elas significam algo, seja porque alguém lembrou de mim e me deu de presente ou porque eu vi e precisei comprar, mesmo elas me custando os olhos da cara. Mas não é desse tipo de camiseta que eu pretendo falar hoje. A pergunta da semana que não quer calar é: por que cargas d´água as pessoas usam camisetas com frases cujo significado não conhecem?

Hoje de manhã, no caminho para o trabalho, uma mulher já beirando os quarenta ostentava no peito a expressão "teen club". Me questiono o motivo de uma jovem senhora com filhos alardear por aí que pertence ao "clube dos adolescentes". Será que é por seus filhos já serem adolescentes e ela pertence a uma confraria de mães de adolescentes? Ou será que ela está tendo uma adolescência tardia e resolveu adorar o RBD e cantar músicas do KLB para se sentir mais moça?

O mesmo se dá para camistas ostando a marca em letras garrafais: uma linda blusa com ótimo caimento e estampa de bom gosto não precisaria dos dois "C" entrelaçados para provar que é de qualidade. Coisa que acho cafonéééérrimo é camiseta Tommy Hilfiger. São todas iguais, com suas listras vermelhas, azul marinho e branca, e com a marca escrita gigantesca no peito e nas costas. Bolsas Louis Vuitton também não me enchem os olhos - as da Victor Hugo, uma imitação Tabajara LV, deveriam ser incineradas em praça pública. Se esses itens citados forem de camelô, pior ainda! O mesmo não vale para o símbolozinho do cavaleiro da Raplh Lauren ou o jacarezinho da Lacoste. São marcas discretas que não pretendem ser esfregadas no nariz de ninguém. Dá para perceber a diferença?

Mas voltando às frases: expressões em inglês são as campeãs. Em lojinhas populares é clássico encontrar alguma roupa legal, mas que carrega uma palavrinha em inglês totalmente fora de contexto que a torna investível (neologismo). Blusinhas com a inscrição "gilrs","yummy", "love", "holiday" e saias com a barra escrita "rock" ou "wild" e coisas do gênero não dá para querer... Camisetas com expressões toscas como "caribbean highway" ou "evolution" também são de querer morrer. A pessoa que usa realmente quer estar numa auto-estrada caribenha? E a menina precisa informar que é uma menina, ou que é saborosa? Garanto que se o dono soubesse o significado do que traz inscrito no peito pensaria duas vezes antes de vestir.

Já ouvi histórias, não sei se verídicas, de pessoas que tatuaram ideogramas japoneses achando que eram palavras como "força", "amor", "saúde" e na verdade não passava de um amontoado de tracinhos. Ou pior, significava algo surreal, como "boi". Será verdade? Bom, se aconteceu com alguém ou não, o que eu sei que presto muita atenção no que digo para o mundo, seja falando, seja carregando no peito ou na pele. "Em boca fechada não entra mosca" é uma boa frase para camiseta. Quem sabe eu não aproveite a idéia, já que é uma de minhas filosofias de botequim preferidas?

Quarta-feira, Outubro 18, 2006

De fidelidade

Jamais deixe que outra toque sua pele
Enquanto forem minhas mãos que o percorram inteiro
Nunca permita que outra beije seus lábios
Enquanto for minha língua que dance dentro da sua boca
Em tempo algum se entregue para que outra o dispa
Enquanto for para meus olhos que exiba suas formas
De forma alguma alimente desejo por outra
Enquanto for meu corpo que lhe desperte as vontades
Em nenhum momento peça para que outra lhe faça dormir
Enquanto for em meus braços que adormeça
Não divida com outra qualquer segredo
Enquanto forem meus ouvidos que guardarem suas palavras
Por nada abra para outra espaço nos seus planos
Enquanto for comigo que construa seus sonhos
Por nenhum motivo diga a outra frases de amor
Enquanto for para mim que declare "eu te amo"

Terça-feira, Outubro 17, 2006

"Os olhos de Maysa eram dois oceanos não pacíficos"*

(*frase de Manuel Bandeira)

Ontem eu conversei com um amigo que disse que adorava sambas tristes. Daí eu falei: ó, então você tem que começar a ouvir fossa. É tudo de bom! Maysa, Tito Madi, Nora Ney... E o Lupi, claro, que o gaúcho fez samba-canção mas samba-canção é irmão da fossa, né?

Nessa linha, Maysa é a minha favorita. Adoro a voz grave, o repertório (que tem músicas de fossa, mas também bossa-nova, inclusive compostas por ela), sua história de vida tumultuada... Nós, meninas que amamos a noite, devemos muito a ela, a Aracy de Almeida, Suely Costa... todas pioneiras na arte de sair na noite, beber... Hoje parece tão normal! Mas imagine no final dos anos 50, para uma moça de uma família tradicional, que casou com um milionário de família mais tradicional ainda, encher a cara por aí. Pois é, os porres da paulista eram famosos, e se agravavam pelo temperamento explosivo dela. Também era uma “mulher que amava demais”; vivia intensamente o que sentia.

A cantora tem histórias famosas. Quando começou a se relacionar como Ronaldo Bôscoli, ele ainda namorava Nara Leão – namoro sério, em casa e pra casar. Conta-se que Maysa começou a ter um caso com ele e aí chamou a imprensa para anunciar... que eles dois iriam se casar! E o cara nem sabia de nada! Anos depois, com Ronaldo já casado com a não menos temperamental Elis Regina, as duas quase se atracaram num bar. Felizmente, o compositor conseguiu separá-las - para sorte da baixinha Elis, porque Maysa era muito maior.

Até morrer num acidente de carro na ponte Rio Niterói, com apenas 41 anos, ela se manteve linda, mesmo bem acima do peso, tanto que seus olhos famosos foram homenageados por Manuel Bandeira.

Dezenas de cantores ao redor do mundo gravaram o hino romântico “Ne me quitte pas”. Mas nenhum como ela. De rasgar a alma.

Domingo, Outubro 15, 2006

É normal ser normal?

Faz muito tempo que não me sinto assim. Aliás, posso dizer que nunca me senti assim, já que na vida nem os dias nem a forma de vivê-los se repetem. Calma demais, centrada demais, equilibrada demais. Pra quem me viu nas fases mais críticas – bom, e se preocupa comigo de alguma forma -, está achando formidável. Eu também estou. É vantajoso ter o mundo sob controle, ter as dores compatíveis com o tamanho do coração, ter o horizonte à vista. Viver só e somente só no mundo real.
Até as minhas paixões estão burocráticas. Muitas desilusões e nada de idealizar o que não é: melhor trabalhar a realidade fio a fio, pedra a pedra, "lágrima a lágrima" (entre aspas propositadamente, sabe há quanto tempo eu não choro? nem eu). O que é pra ser será, nada de fogo no coração dormente.
Ademais, ter uma boa pessoalidade a zelar é dificultoso. Não se permitem certas atitudes. Afinal, eu sou eu, eu e todo mundo somos mais eu.
Mas se não sou mais aquela à flor da pele de outrora, toda coração, que se alimentava de grande amor por tudo, quem sou eu, enfim? Anestesiada, me perdi um pouco de mim. Eternamente grata ao tempo e ao momento de reciclagem, preciso me meter de novo nessa puta vida e redescobri-la. Preciso sentir, de outra forma não sei viver; sobreviver é quase morrer.
Sei que não quero o furacão de antes. Melhor assim, tocando o barco na calmaria. Andar de mãos dadas com a tempestade é cansativo. Porém, vejo que agora é hora de buscar (ou resgatar) o que há de melhor em minha essência.
Uma certa ventania para brincar com meus cabelos rebeldes.

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

Era bom demais para ser verdade...

Pois é, quase tudo o que parece ser muito bom para ser verdade acaba se revelando isso mesmo: era muito bom MESMO para ser verdade. Mas isso não precisa necessariamente ser uma decepção completa. Sempre dá para tirar o lado bom.

1) COMEÇANDO NUM NOVO EMPREGO: na hora da entrevista tudo era maravilhoso: o salário não era nenhuma fortuna, mas paga as suas contas e ainda sobra um troquinho para o chope. O escritório é amplo, os computadores novos, os colegas atenciosos, o trabalho é desafiador. Aos poucos você vai descobrindo que aquele bônus "garantido, pode contar como salário" não é assim tão regular. Que o clima de família existe para beneficiar alguns e calar a sua boca quando você decide reclamar ("se fosse em outra empresa você já teria sido demitido"). Que os computadores são de última geração, mas só tem o Word e o Outlook. E que sua função é tão chata que dá vontade de se enforcar no banheiro na hora do almoço. Mas tudo bem, é melhor do que trabalhar numa fábrica. Era mesmo era bom demais para ser verdade...

2) MUDANDO DE APARTAMENTO: o aluguel é absurdamente barato. Você vai ver o imóvel e se depara com pintores deixando tudo limpinho. A localização é excelente! Você fecha o negócio na hora! Quando muda descobre que o aquecedor de gás está lacrado pela CEG e não tem água quente (você se mudou em junho). Tudo bem, ninguém morre por uns dias de banho frio, o custo-benefício de um apartamento tão bom por tão pouco vale a pena. Mas aos poucos você descobre que mora numa rua onde há pelo menos um acidente de trânsito por mês, com direito a bombeiros a noite toda e vizinhos fofoqueiros. E que a síndica é maluca e bate na porta dos condôminos com o salto do sapato de madrugada. E que os pintores fizeram um serviço porco, travando as fechaduras e maçanetas com uma camada grossa de tinta. Ainda assim, você mora a uma quadra da praia, mesmo que nunca ponha os pés na areia. Era mesmo bom demais para ser verdade....

3) TENTANDO COMEÇAR UM NOVO RELACIONAMENTO: você conhece o gatinho. Faz uma rápida consulta com a amiga que o conhece e descobre que ele cansou de relacionamentos fugazes, quer uma namorada. Você também quer um namorado. Ele olha para você, vocês conversam e descobrem muita coisa me comum. O flerte rola devagar e você vê isso como um bom sinal: "ele não quer cair matando, sinal de que está a fim de algo mais, quer ter certeza do que vai fazer". Ele te leva até a porta de casa e não te beija. Você acha lindo o respeito que ele tem em não te atacar. Você manda um email no dia seguinte e não obtém resposta, mas sua amiga fala "não, ele está super a fim, me falou que estava doido para te beijar!" e você acredita. Depois de uma semana sem notícias, você o odeia. Mas tudo bem, o friozinho na barriga, mesmo sem o resultado final, já vale. Era mesmo bom demais para ser verdade...

4) APRENDENDO A COZINHAR: você acha a receita na internet e a classificação é "super fácil". Imprime, vai ao supermercado, compra os ingredientes (o melhor de cada item, o que faz uma simples mousse de chocolate custar quase R$ 50,00). Chega em casa, põe o avental e começa a seguir os passos. Quando o braço começa a ficar dormente você se dá conta de que bater o creme por 10 minutos com um fouet não é assim tão fácil. E que incoporar as claras em neve sem quebrar o aerado não é uma operação para principiantes. Você serve uma mousse de chocolate de R$ 50,00 molenga e com agüinha no fundo. Seus amigos fingem que gostam. Mas tudo bem, serve para aprender a testar as receitas antes de servi-la ao público. Era mesmo bom demais para ser verdade.

5) SAINDO A NOITE SOZINHO PELA PRIMEIRA VEZ: "Não tem erro: quando chegar ao centro da cidade o taxista já vai saber qual é a rua. E não tem como não ver, vai estar cheio de gente! Vai que todo mundo já confirmou presença" Você pega o táxi e explica para o moço que ele tem que ir até perto da Praça Mauá e lá entrar na rua tal. Ele fala que não conhece a rua e você diz que não tem problema, que é só encontrar um lugar com muita gente. Ao chegar perto da praça o taxímetro já bate na casa dos R$ 30,00 - como você não sabe o caminho, nem sabe se ele deu voltas para te enrolar ou não. Chegando lá é tudo deserto e não há jeito de encontrar a dita rua. Depois de muito rodar ele encontra o endereço. Você entrega uma nota de R$ 50,00 e recebe três de R$ 1,00 de troco. Tudo bem, você vai encontrar amigos que não vê há tempos. O lugar está lotado, os amigos bêbados e cerveja é caríssima. Você resolve pagar a sua conta e ir para casa (R$ 20,00 por 15 minutos de música ao vivo que você não ouviu, pois chegou no intervalo). Você paga mais algumas preciosas notas de R$ 10,00 para chegar ao conforto do seu lar apenas duas horas depois de ter saído de lá. E está quase R$ 100,00 mais pobre. Mas tudo bem, serve para que da próxima vez você se organize melhor, saia mais cedo e vá com alguém que conheça o lugar. Era mesmo bom demais para ser verdade.

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

123 comunicadores

Foram três meses e meio de convivência intensa, das 8h às 17h, de segunda a sexta-feira. Nas duas primeiras semanas, eram todas as carreiras juntas num auditório, ouvindo palestras o dia inteiro, sobre as mais diversas áreas da companhia. Cerca de 300 profissionais juniores, de jornalistas a geofísicos, de psicólogos a engenheiros de petróleo, de economistas e enfermeiros. Sotaques de toda parte do Brasil. O início da rotina de engorda de dois coffe-breaks por dia. Descobertas como o que faz um engenheiro de geodésia (por onde andarão Rafael, gaúcho, e Érica, paranaense?). Surpresas como conhecer uma doutora em física de 25 anos, loura, bonita e patricinha (Gisele, catarinense). Lições como a do processo de identificação de um poço de petróleo dada por uma jovem geofísica norte-riograndense, cujo nome não lembro, mas de quem guardei bem o rosto.
Depois, ficamos só nós, os 123 comunicadores. A partir daí, ouviríamos à exaustão o discurso de que não somos mais jornalistas, relações-públicas ou publicitários, mas comunicadores, profissionais híbridos, completos, que "agreguem valor" – só uma das muitas expressões do vocabulário empresarial que ainda nos arranham os ouvidos – ao trabalho.
Dividimos o orgulho de ter entrado para uma empresa tão grande e poderosa, num concurso tão disputado. Compatilhamos também a angústia da incerteza sobre a lotação de cada um, o medo de ser mandado para algum canto obscuro do país – o bicho-papão maior atendia pelo nome de Manaus. E comemoramos ou lamentamos juntos a vaga conseguida.
Mais dois meses e meio de curso de formação. E a consolidação das amizades. Muitas idas nos restaurantes naturais do Centro, uma novidade para mim. Almoços de sexta-feira com direto a um chope ou um vinho. Happy hours em Santa Teresa ou comando acarajé na Praça Tiradentres. Open houses de mineiros, paulistas, paranaenses.
Ontem uma festa marcou nossa despedida: a partir de segunda-feira, cada um vai trabalhar no seu setor. Hoje quem vai para unidades fora do Rio está partindo. Quem fica promete um almoço mensal, um happy hour quinzenal, para estarmos sempre em contato. E quem vai já planeja nosso encontro de um ano. Se nunca nos convencemos do tal conceito de empresa como uma família que nos vendiam a todo momento, entendemos que uma companhia pode ser, sim, um grande grupo de amigos.

Terça-feira, Outubro 10, 2006

O inverno do meu tempo

Ontem eu estava olhando uma velha no ônibus (haha, sempre os ônibus). Vestido de florzinha comprido, cabelo esgandaiado (esta palavra tinha morrido; acabo de ressuscitá-la) preso, cara de crente. Fico pensando na liberdade que é ser velho. O vestido não precisa ser muito bonito, o cabelo pode ser meio despenteado, ninguém liga. Ah, e você pode puxar conversa com os outros que não será tido como maluco – é coisa de velho, normal.

Como serei eu daqui a cinqüenta anos? Sim, porque na minha família o povo vive muito – um tio avô morreu com 103 anos, ano passado. Meu Deus, ninguém vai olhar pra mim na rua! Nem os boys do Centro da cidade me chamarão de gostosa! Eu poderei andar pela rua lambendo um sorvete em paz!

Tem também aquelas velhinhas chiques que freqüentam o CCBB, a Casa Maison de France, o Municipal... fazem aquelas viagens de ônibus pela Europa... tomam chá na Colombo... Vou aproveitar pra comer ainda mais do que eu como. Afinal, uma velhinha gordinha é aceitável! Até mais engraçadinha!

Sentirei vontade de fazer plástica? Brincar com os netos? Ver televisão?

Esta é mais uma vantagem do mundo do samba. A velhice é valorizada, sinal de experiência e sabedoria. E todo mundo tem um velhinho que ama de paixão – eu tenho uma amiga que adorava agarrar o seu Jair do Cavaquinho (haha, ele também adorava).

No fundo, o que eu quero mesmo é ser uma mistura de Cristina Buarque com Tia Surica. Ter uma casa cheia de livros e discos, um quintal onde rolarão disputadas rodas de samba... e uma cozinha de onde sairia uma feijoada incrível.

No final das contas... não será tão ruim assim. Te espero lá.

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Eu não sou chiclete!

Você acorda cedo e arruma a casa. Afinal de contas, uma casa cheia de pelos felinos e com cheiro de veterinário, parafraseando o querido amigo Bini, não causaria uma boa impressão a nenhum visitante, por mais simples que fosse.
Aí você procura a receita do bolo que ele gosta, faz o recheio da torta salgada, como combinado. Tudo com muito cuidado, pensando nele, lembrando das coisas boas que já haviam acontecido e que certamente voltariam a acontecer.
O amigo Bini liga e pra não recusar o convite tentador, você faz tudo rápido, bota um vestido qualquer e sai correndo. Deixa tudo encaminhado, mas a casa já ta arrumada.
Você volta do compromisso inadiável com o amigo, carrega ele pra bater claras em neve, amassar massa de torta e tudo correndo, tudo pra dar tempo de tomar banho e ficar pronta antes dele chegar.
Pronto. Tudo no forno, amigo entretido na internet, outro amigo chegando pra ir tomar chopp e nos deixar a sós. Conforme previsões.
Você toma banho, passa hidratante, creme no cabelo, desodorante, bota outro vestido bonitinho e espera.
Amigos fumando. Você não. Boca de cinzeiro é deprê demais.
Pronto. Ele chega. E ficamos perdidos. Um do outro no cubículo de 3x4 que deve ser a sala da minha casa. Loucos de fome. Um do outro.
Amigos vão embora. E ficamos sós. Continuamos sós.
Porque o cara chuta seus gatos, dá tapa na cara de qualquer aproximação amigável que eles tentem. Porque o cara cruza os braços o tempo todo, não fala nada. Não manifesta. Não expressa o que sente. Talvez porque não sinta nada. Será? É seco, duro. Até demais. Não permite. Nem sequer por essa noite. Não permite se entregar, carinhar, falar no ouvido, dizer coisinhas que a gente gosta de ouvir. Nada. Ele é teórico. Sexo teórico, rap teórico, filmes expressionistas teóricos. Ele é ateu. E eu não. Acredito que mesmo sem se querer nada com ninguém, a gente pode rir juntos, pode se espalhar na cama, pode dormir abraçados e pelados e ser maravilhoso. Ainda que seja por uma noite. Ninguém quer nem precisa nada serio agora. E o temor ao compromisso é meio caminho andado em direção à ele. É só porque eu acho que o carinho faz parte da vida. Porque eu acredito que depois do sexo, é ruim ir embora correndo. É ruim deixar uma mulher recém visitada sozinha na cama, sem o braço, sem o cheiro, sem o peito de seu visitante.
Ele quer acordar em casa porque o pai não sei o quê. O pai?
Ta certo. Existem hierarquias afetivas na vida das pessoas. Mas... o pai? Agora, quatro da manha de sábado???????????? Sorrio pela ingenuidade da desculpa e gargalho pela falta de delicadeza do meu recém devorador.
E assim é. Eu subo no sofá pra ficar da mesma altura que ele e dou um beijo frio. Estou com sono e puta da vida. Que vá logo antes que eu mande pra puta que pariu! E desejamos cuidados um ao outro.
Por que eu tenho que achar isso ótimo?
Porque talvez ele ache que eu sou muito tranqüila e acho bom dar por dar. É, eu acho mesmo, mas eu cuido. De mim e do outro.
Não vou embora, não falo do meu pai, não conto a noite anterior com os amigos, não calo diante da nossa beleza. Não economizo afeto. Eu sou da prática, inclusive da prática do amor livre.
E sinceramente não ando nem um pouco disposta a me sentir chiclete em boca de menino.

Sexta-feira, Outubro 06, 2006

Fim de semestre no Mestrado

Aqui estou, com tanto sono e tão cansada que chego a rir de nervoso por dentro (isso deve fazer parte do processo de delírio). Sim, rindo da minha ilusão / pretensão de achar que iria conseguir escrever um trabalho monográfico (Ou melhor, são três trabalhos no total, o mesmo com variações. Entendeu ou quer que eu desenhe? Não, eu sei, você não tem nada a ver com isso. Claro, claro, desculpe, é o stress, vida pós-moderna, tudo isso junto, sabe como é...) Bem, o fato é que deixei para escrever tudo hoje, aliás, ontem, na quinta-feira. Era, na verdade, o único dia disponível na semana (eu trabalho, trabalho e trabalho), e as leituras estavam em andamento. Claro, há aquele gosto pela adrenalina – ou tendência a auto-flagelação – que também foram responsáveis por eu estar aqui, diante deste computador, à meia-noite de quinta pra sexta, certa de que minhas horas de sono tendem a zero no decorrer do período. O prazo é dia 06, gente. E eu estou aqui. Prazo, eu, Microsoft Word. Escrevi a palavra 'índice' e achei engraçada. Já pararam pra pensar? Índice, índice. Eu, hein. Deixei o Messenger aberto para 'gritar' ou escrever quaisquer palavras desconexas com algum desavisado insone nas próximas horas. Penso muito em cerveja e libertinagem. A base teórica ainda nem comecei a escrever. Alguém tem aí alguma droga pesada a me oferecer? Só hoje, eu prometo. Não? Um cigarrinho, um chazinho... qualquer coisa... Eu juro que guardo o que sobrar para o final da dissertação, vai...

Quinta-feira, Outubro 05, 2006

Organizações Tabajara

Dia desses, lendo um texto da Garotas que Dizem Ni, me dei conta que estou em plena curva descendente da despensa. Para quem não leu, o texto fala que o uso cada vez maior de marcas genéricas no supermercado demonstra o sintoma inegável de desemprego.

Não, eu não estou desempregada. Mas sou dona de meus próprios domiínios há pouco mais de um mês e, por consequencia, reponsável pelo pagamento integral das contas. Depois de um período de auto-indulgência-consumista (leia-se, cartão de crédito estourado), preciso pagar, além das contas domésticas, os custos de badulaques comprados em momentos "eu mereço!" e que estão encostados em casa, lembrando-me que ainda não foram quitados.

Por ora é preciso baixar os custos onde dá. E o caminho mais fácil para isso é restringindo o supermercado. Ah, o supermercado! Lugar outrora adorado por mim e que agora se tornou um pesadelo, justamente por causa do inevitável momento de ver os produtos passando pelo caixa e o total ultrapassando com folga o valor separado para a empreitada.

Na época em que fui escrava na terra do Tio Sam sobrevivi me alimentando basicamente de produtos da marca Great Value, a marca-tabajara mais famosa de lá. Tinha de tudo: de iogurte de banana a sabão em pó! Como ganhava muito pouco e não queria cair nas tentações junk food de lá, logo fiquei mais do que familiarizada aos potinhos com a logo horrorosa que salvaram meu sustento por três meses.

Por aqui estou começando nessa empreitada. Ainda não me acostumei com a idéia de experimentar novos caminhos na área das minhas marcas de produtos favoritos, mas aqui há alguns que já pratico sem grandes danos ao resultado final:

PODEM SER SUBSTITUÍDOS POR GENÉRICOS OS SEGUINTES ITENS:
+ Condicionador de cabelo: o meu condicionador pode ser um Neutrox da vida e portanto agradeço todos os dias pelos meus cabelos lisos. Atualmente nem Neutrox tem, estou na fase de lavar uma vez (nadade repetir a operação) e secar ao vento. Uma coisa bem natural.
+ Produtos de limpeza em geral: Para que comprar o Omo Progress em uma caixa quando posso comprar o Ace com perfume de erva-doce num saco? Para que pagar mais caro pela embalagem, se eu posso evitar a melação do pacote colocando o produto num pote de sorvete (eles dão cria lá em casa)? Para que não se perca o glamour, eu posso decorar o pote - projeto para futuro próximo. Vai ficar fofo e econômico. Ok, o Veja Multiuso perfume-de-laranja não pode ser mexido.
+ Azeite de oliva: calma, calma! Gourmets de plantão, não precisam me execrar. Eu sou uma que preza muito pela qualidade dos alimentos, mas desde que o Zona Sul parou de vender minha marca de fé de azeite, Borges, passei a comprar o da promoção do dia e até hoje não me arrependi. É claro que não dá para ir a extremos e comprar um azeite que custe cinco reais, mas diversifiquei as marcas e nenhum barato saiu caro até o momento.

NÃO PODEM SER DAR LUGAR A OPÇÕES GENÉRICAS:
+ Café: minha marca nem é tão cara, mas tem que ser Melitta Tradicional ou nada. Aqui no trabalho compraram uma outra marca que não lembro o nome e que não há cristo que faça o café ficar forte... Sem condições.
+ Manteiga: o mesmo caso do café, nem escolhi para preferida uma muito cara. Mas não me venha com manteiga Batavo ou pior: margarina! Isso serve para untar forma de bolo e olhe lá!
+ Nuggets: item essencial para emergências alimentares, especialmente as que ocorrem de madrugada. Tem que ser nuggets da Sadia, o tradicional (o extinto de legumes era uma delícia, mas não deve ter feito sucesso). Nada de chickenitos ou mini-qualquer-coisa de outras marcas. O tempero entrega tudo.

Há outras formas de diminiur a despesa doméstica. Na área das frutas, por exemplo, é fácil: basta escolher as da época, sempre bem mais baratas. Há, é claro, as básicas como laranja, maçã e banana, que adoçam a vida, são saudáveis, e não pesam no bolso. Nas verduras é melhor prestar atenção: hoje de manhã descobri que o quilo do pimetão amarelo custa absurdos R$ 9,90 contra R$ 1,79 do verde. Eu sempre compro um de cada cor pelo colorido, vou ter que segurar a onda e achar outro legume amarelo para a minha salada.

Só assim para evitar que mês que vem meu saldo já pisque vermelho no dia 05.

Quarta-feira, Outubro 04, 2006

Eu não sei dançar

Eu não sei dançar.
Só sei te ver de longe e te querer.
Eu não sei dançar.
Só sei tentar acompanhar teus passos e me atrapalhar.
Eu não sei dançar.
Só sei te dar a mão e te pedir para me guiar.
Eu não sei dançar.
Só sei pisar nos teus pés e me desculpar.
Eu não sei dançar.
Só sei pensar em te seguir e me perder.
Eu não sei dançar.
Só sei ficar parada e te admirar.
Eu não sei dançar.
Só sei te oferecer outros pares e me sentar.
Eu não sei dançar.
Só sei sentir teu ritmo e não conseguir me mexer.
Eu não sei dançar.
Só sei te ver evoluir e me recolher.
Eu não sei dançar.

Terça-feira, Outubro 03, 2006

"Coisa com Coisa", de Pedro Miranda: coisa (muito) fina"

"Chula Cortada", música do baiano Roque Ferreira, conta com uma viola caipira tocada pelo também baiano Júlio Caldas. Este é um dos "detalhes" que tornam tão especial o primeiro disco solo do cantor e percussionista Pedro Miranda, "Coisa com Coisa" (gravadora DeckDisc). Cada faixa foi executada de forma diferente, de maneira que o estilo de cada música fosse respeitado. E as interpretações... bem, não é à toa que os fãs do Semente há muito exigiam uma carreira solo do moço. Com menos de trinta anos, Pedro canta com a simplicidade dos grandes mestres.

O disco inicia prestando tributo aos mestres Paulinho da Viola e Candeia. A melancólica composição dos portelenses é defendida de igualmente dolorida. Depois, vêm os acordes malemolentes de "Chula Cortada". Difícil escolher, mas acho que essa é a faixa mais bonita do disco. A chula tem um verso que fica na memória: "se o amor é um mar, sou seu marinheiro", melodia linda e uma letra poética que faz referência a mares, manguezais, canaviais...

A valsa (sim, o disco tem uma linda valsa!) "Ciúme sem razão" (Alberto Ribeiro/João de Barro) lembra as serestas de antigamente. Também tem jeito de antigamente a amaxixada "Cumplicidade" - mas trata-se de obra nova, da lavra de Teresa Cristina (sempre com excelentes composições) e de Marcelo Menezes.

Sucesso nas rodas, "O Samba é Meu Dom" (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro) é, nos dizeres de Eduardo Gallotti, "o samba que todo sambista gostaria de ter feito". Pedrinho personaliza a letra trocando o nome de João Gilberto pelo de João Nogueira e, na segunda vez que canta, fala "baquetas" ao invés de pandeiro. Destaque para a clarineta de Rui Alvim. Outra letra muito boa é a da marchinha de carnaval "Vírgula" - os versos brincam com os sinais de pontuação. A participação dos músicos do bloco Cordão do Boitatá (do qual Pedro participa) é fundamental para o clima carnavalesco.

A bem-humorada "Caixa Econômica" (Antônio Nássara e Orestes Barbosa) tem oportuna participação de Eduardo Gallotti. Outro momento engraçado é "Sapo no Saco", embolada do alagoano Jararaca, da famosa dupla Jararaca e Ratinho.

Chico Buarque, sempre presente no repertório do Semente, comparece com "Doze Anos". Retrato de uma infância que não existe mais, a música fala de coisas cândidas como pião, figurinhas e fruta no pé. Mas também relembra hábitos politicamente incorretos como matar passarinhos, "troca-troca" e os concursos de... pipoca ;) (repare na pausa que o Pedro faz neste trecho quando canta a música pela segunda vez). A flauta e o sax do experiente Eduardo Neves fazem a diferença.

"Dona Joaninha" é a chance para Pedro e Teresa fazerem um daqueles duetos que nós, fãs do Semente, adoramos. Aliás, os compositores dessa música são Ary Monteiro e Zé da Zilda, e é de Zé da Zilda, também (com José Thadeu Mangione), a divertida "O Calo de Estimação", sempre cantada pelo dois e gravada no disco do Semente "A vida me Fez Assim". Outra perfeita para o estilo "show man" de Pedro - que já foi ator de teatro - é a faixa que dá nome ao disco. "Coisa com Coisa", de Zé Kétti. Muito boa!

A panfletária "Nada de Rock Rock", de Heitor dos Prazeres tem participação dos Anjos da Lua (Pedro é cantor e percussionista dos Anjos). Aliás, a performance ao vivo do Pedrinho nessa música é ótima; ele faz aquela pose famosa do John Travolta em "Os embalos de sábado à noite" :)

A produção é de Paulão Sete Cordas, que sabe tudo de samba. Os músicos são figuras tarimbadas da noite do Rio: Luís Filipe de Lima, Maurício Carrilho, Rui Alvim, Eduardo Neves, Bernardo Dantas, João Callado, Pedro Amorim, Esguleba, Márcio Almeida, Alfredo Del-Penho, Paulino Dias... Vale ressaltar também o projeto gráfico criativo do encarte.

Decididamente, "Coisa com Coisa" é coisa finíssima.

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

O sol a lua iluminou*

A gente se conheceu no Bar do Alemão, aqui em São Paulo, numas dessas noites frias de amor e samba. E foi lindo o primeiro papo, a primeira impressão foi a de um homem íntegro, consciente e de uma amplitude humana impar.
E assim foi durante meses. Encontros sempre regados a boa música, às vezes nem tão boa, mas a gente fazia a nossa conversa, a gente falava da vida, da poesia, da arte, dos amores e desamores, do sofrimento e de cada um de nós.
Nos aproximamos de maneira inexplicável. Como cúmplices de uma experiência remota onde nossas almas já haviam se encontrado em algum lugar desse espaço astral que nos invade.
Na casa dele, conversas, gravações, canções de poesia sutil, de melodias refinadas. Fotos, amigos, chopp, cigarro, noite, festas, rodas, samba, pessoas, esse universo que compõe e minha realidade e a dele.
Sempre disposto a nos ajudar em tudo, sempre aberto com alguma sugestão e solução certeira e inteligente. Onde quer que estivéssemos lá estava o Chico Blanco, num telefonema de voz alegre, sincera e um rosto cheio de reflexos e espelhos da vida intensa que este homem levou até agora, de maneira visceralmente apaixonada. Sempre um encontro as duas da manha pra tomar a saideira e bater aquele papo tão nosso.
Ontem, conversando com um conhecido, no meio da escolha de um figuro pro meu próximo show, veio a noticia pungente de que o Chico estava com leucemia.
Calei por alguns segundos e pensei em tudo, como em um filme. O bom e o ruim de todos os nossos encontros, a alegria dos abraços de saudação, as atitudes nobres do meu amigo.
Telefono. Ele atende com a mesma voz de sempre e penso: - Haverá sido um engano! O Chico não pode estar doente.
E ele confirma: - É querida, o que eu tenho passado não se explica.
Estive com ele hoje, a tarde toda no hospital Nove de Julho. Domingo cinzento, de decisão democrática. Ele optou pela vida. E luta vitoriosamente pelo seu lugar ao sol aqui perto da gente.
E venceu a primeira batalha. Matou as células cancerosas, depois de um tratamento violento, venenoso e curativo. Irônica dualidade!
Choramos ao lembrar dos nossos amigos e de suas reações diante de tudo isso. Chorei com o relato emocionado dos efeitos devastadores da droga, dos delírios de consciência de vida, de valorização de um novo mundo nunca antes vislumbrado.
Falamos, como sempre, de música, da beleza dos versos de fulano, da complexidade da melodia de cicrano, da generosidade do compositor poeta, que não pôde porque não soube lidar com a dor de ver o amigo em quase morte e vida.
Tomamos um café e fizemos planos. Por que não? Vaticinar o fim é não viver o agora.
Ele sai amanhã do hospital.
Volto pra casa com um peso nos ombros e no peito. Uma vontade de viver de verdade cada momento, cada dia e cada noite. Vontade de amanhecer e anoitecer inteira, podendo estar num domingo chuvoso num quarto de hospital dividindo a dor de um amigo, amparando o desespero do futuro, a ansiedade do por vir e todo o alivio do que já passou.
Eu quero viver cada momento e ser forte pra quem precisa e pra mim. Minha morte eu já vi de perto e renasci como flor em primavera recente.
Eu quero que o Chico se recupere logo, que ele aproveite a vida que ainda lhe resta e que será longa, estou certa de que assim será de uma maneira nova, com um ar de festa serena e um turbilhão de amanheceres a cada passo.
Hoje a vida ganhou pra mim roupa nova através da historia de um sobrevivente convicto de si mesmo.

* O titulo do texto é verso de um samba enredo do Chico Blanco em parceira com o Jurandir da Mangueira.